Política Externa

O Discurso do Rei* de Tom Hooper

por em 10/06/2011
O Discurso do Rei*

As artes e as musas têm servido bem ao trono da Inglaterra. Novamente agora com “O Discurso do Rei” essa tradição de fidelidade à Coroa e a quem a leva é reafirmada.

Não se trata, de forma alguma, de sugerir que ao longo do tempo tenha havido um esforço deliberado, de inspiração oficial, para fazer propaganda da monarquia britânica. Não há aqui qualquer sugestão de uma conspiração sustentada ao longo de décadas ou mesmo séculos.

O que algumas vezes tem acontecido é que o Monarca inglês se identifica, sobretudo em momentos de crise, de tal forma com seu povo que o soberano se faz a encarnação mesma dos sentimentos e das esperanças de seus súditos, em casa e além mar.

Pode-se ir muito longe na identificação de exemplos em que a própria monarquia se confundiu, assim, com a essência mesma da Inglaterra ou do que viria a ser , mais tarde, o Reino Unido da Grã-Bretanha (isto é a Inglaterra, a Escócia e o Pais de Gales) e a Irlanda do Norte .

É difícil encontrar, em qualquer literatura ou historiografia, um tributo a uma nação e a seus soberanos mais apaixonado e mais memorável do que aquele atribuído a John of Gaunt na peça de Shakespeare sobre o reinado de Ricardo II. Talvez nunca palavras tão eloquentes tenham sido usadas para descrever uma raça e ilha que é o seu berço. Durante a Segunda Guerra Mundial, Laurence Olivier produz, em 1944 com tremendos gastos para a época um Henrique V – talvez a mais “patriótica” obra shakespeariana – por todos os títulos memorável e que só foi, a rigor, suplantada por uma nova versão, mais adaptada aos novos tempos e aos novos ventos e que foi dirigida em 1989 por Kenneth Branagh. Em 1944, os ingleses novamente se preparavam, como em 1415 para virar o jogo, cruzar a Mancha e lutar nos “vasty fields of France”.

Mesmo reconhecendo que a atual dinastia reinante – os Windsor – não tem, ao contrário dos Plantagenet, dos Tudor e dos Stuart que os precederam, personalidades tão interessantes e polêmicas e que, pelo seu comportamento, pareciam mesmo rascunhos de scripts de futuras produções teatrais e cinematográficas, é preciso reconhecer que as vitórias e desditas da atual casa reinante produziram memoráveis obras para o cinema e o teatro.

Mesmo a atual Elizabeth, a segunda do nome a ocupar o trono, ainda mais longeva no poder que a primeira e com quem talvez se encerre o ciclo glorioso começado pela filha de Ana Bolena e durante o qual a Grã-Bretanha foi o mais influente pais do mundo e a cabeça de um vastíssimo império, teve sua parcela de obras memoráveis em que foi protagonista principal ou acessória. Helen Mirren não me deixa mentir.

O Discurso do Rei cobre um período de extraordinário risco para a Inglaterra quando Hitler parecia invencível, Wallis Simpson irresistível e a gagueira do Duque de York irremediável. O filme mostra como essas circunstâncias se entrelaçam e como, depois de extremos perigos, a Inglaterra e a família real emergem triunfantes depois de enfrentar o que foi para o Império e para a Comunidade Britânica de Nações, no dizer de Churchill, “their finest hour”.

Não era necessário e seria mesmo impossível que Jorge VI tivesse a qualidade oratória e a eloquência de seu Primeiro-Ministro Winston Churchill. Monarcas constitucionais não são supostos ter atributos que os coloquem acima da média: pelo contrário sua virtude reside em ser (ou pelo menos parecerem ser) a expressão mesma da média nacional. Mas seria desastroso se sua gagueira se fizesse o símbolo de hesitação e insegurança no momento mesmo em que a Inglaterra procurava e conseguia transmitir para o mundo a imagem de uma inabalável firmeza.

O Discurso do Rei trata da guerra particular que o novo monarca teve de enfrentar para que as palavras se fizessem obedientes a ele e fossem, também, leais súditas do trono. Conta para isso com a determinação de sua mulher (interpretada por essa esplêndida Helena Bonham-Carter) e os serviços de um terapeuta da palavra, Lionel Logue, cujos procedimentos ficam na fronteira entre a ciência estabelecida e práticas provavelmente eficazes embora certamente pouco ortodoxas. O terapeuta não deixa para as gerações futuras a receita escrita de seus métodos e práticas porque, imagino, sua terapia dependia em boa parte de seu carisma e de sua capacidade de compreender, motivar e interagir com seus pacientes. Para os fins destes comentários o importante a notar é que funcionou.

O filme recebeu quatro Oscars. O principal foi o que o reconheceu como o melhor filme do ano. Podia, com justiça, ter recebido um quinto para Geoffrey Rush, como coadjuvante, ao criar um Lionel Logue que usa a rusticidade e a informalidade de suas origens australianas para superar as várias barreiras que inibiam o futuro Rei.

Há gravações de época que mostram o Rei falando de forma pausada e sem inflexões da voz e, em alguns momentos, fazendo um esforço visível para não tropeçar. Mesmo com fitas que foram editadas pode-se ver como O Discurso do Rei sempre exigiu um extraordinário esforço e concentração. Há, em particular, um vídeo que mostra Jorge VI falando na inauguração da “Empire Exhibition “em Glasgow, na Escócia em que sua agonia para dominar suas limitações se faz dolorosamente visível mesmo para aqueles que o escutam mais de setenta anos depois.

Pelo rádio – que era o meio de seu tempo – os ingleses deviam escutar aquela voz pausada como se ela fosse o reflexo mesmo das virtudes que, como nação, tanto estimavam e de que, naquele transe, tanto dependiam. Uma teimosa disposição para enfrentar e depois superar desafios e uma constância (traduzo assim a palavra “steadiness”) que era a qualidade de que mais precisavam os britânicos daquela hora.

Com Jorge VI a Inglaterra foi mais bem servida de monarca do que teria sido com Eduardo VIII que, embora sedutor, tinha o feitio de um “playboy” que os tempos não reclamavam. A nova família real nuclear, se assim posso dizer, e mesmo “burguesa” se comportou exemplarmente durante a “blitz” e durante os anos de provação que se seguiram. Jorge VI não desertou nem sua capital nem sua gente e hoje se inscreve entre os bons monarcas que o pais produziu. As imagens frequentes do casal visitando uma Londres em ruínas e consolando as vítimas e das jovens princesas trabalhando como mecânicas valiam mais do que as próprias palavras que Jorge VI, a tão duras penas, havia aprendido a destravar com seu terapeuta.

O filme é uma brilhante reconstituição das modas e dos modos da Inglaterra dos anos 1930 e essa capacidade de recriação da atmosfera de épocas passadas é um dos talentos maiores da cinematografia britânica que, nos últimos anos, quase se apropriou da produção de filmes de qualidade que recriam certos momentos cruciais da história moderna.

O futuro Duque de Windsor parece, quando já o comunismo e o nazi-fascismo ameaçavam fatalmente uma Europa e o mundo, como um encantador anacronismo mais compatível com os anos esfuziantes da década de 20 do que com a nova atmosfera que a depressão econômica e as ameaças externas faziam pesar as democracias e sobre a Grã Bretanha em particular. Seu encontro em 1937, já depois da abdicação e acompanhado da “woman I Love”, com Hitler parece confirmar como foi bom para seu país e, em ultima análise, para todos nós que ele fosse viver o longo resto de seus dias no Caribe, em Paris e no sul da França.

Estou sendo, talvez, um pouco severo demais com o então relativamente jovem soberano (assinalo que Eduardo VIII tinha 44 anos quando abdicou), mas nada do que ele fez numa vida que se estendeu até 1972 me faz pensar que ele fosse mais do que um peso leve e que precisava não tanto do amor quanto da determinação da futura Duquesa que, esta sim, cumpriu seu destino de ser uma fria e manipulativa mulher de sociedade e uma árbitra, durante décadas, das elegâncias mundanas.

Estou fazendo aqui uma leitura do filme da perspectiva do quadro das relações internacionais daquele tempo e na antevisão da grande tempestade que já se aproximava e que viria a desabar sobre o mundo em 1939. Os contemporâneos não podiam ter certeza da extensão e da gravidade do que estava do que estava por acontecer.

Não é fácil imaginar aquele Eduardo aceitando o sangue, suor e lágrimas que a retórica churchiliana oferecia e ele aparece melhor na posição insignificante de governador das Bahamas lugar que o governo sabiamente encontrou para ele e onde ele viveu os seis anos da guerra durante os quais, por tudo que sei, ele não fez nada de memorável.

Não é fácil ver em Eduardo VIII um herói romântico. Não há nele a audácia de um personagem de Byron e, já passados os 40 anos quando a crise acontece, a ideia de um adolescente apaixonado, no modelo de Romeu, é insustentável. Trata-se de uma personalidade frágil e defeituosa que encontrou, finalmente, uma mulher que o dominou e conduziu.

Vejo que falei mais do Duque de Windsor – de quem só ficou de duradouro para a posteridade um nó de gravata de que foi senão o inventor pelo menos o grande divulgador. O outro nó que ele criou esse foi desatado por uma classe dirigente britânica madura e sagaz

Do irmão mais moço e finalmente seu sucessor fica além do bom exemplo em tempos difíceis longa trajetória dos soberanos de sua gente. Colin Firth o encarna no filme com grande contenção e sobriedade. Não havia muito pano de onde cortar e torcemos no filme por ele e para que supere suas limitações por que é um homem decente, esforçado e, em ultima análise, corajoso. Não é dizer pouca coisa.

*Com Colin Firth e Geoffrey Rush

Esta matéria faz parte do volume 20 nº1 da revista Política Externa
Volume 20 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2011 Repercussões da Primavera Árabe

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