Política Externa

Nixon na China de Ópera de John Adams, com libreto de Alice Goodman e direção de Peter Sellars, 1987, disponível em CD e DVD

por em 10/06/2011
Nixon na China

Numa daquelas interessantes coincidências de que a história humana está repleta, neste primeiro quadrimestre deste ano de 2011 vieram a público dois trabalhos importantes sobre a célebre visita do presidente Richard Nixon à China, ocorrida em 1972.

Um deles é o livro “On China”, lançado em abril pela Penguin Books, escrito pelo principal arquiteto do degelo das relações entre EUA e China, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger, que foi o primeiro emissário americano ao regime de Mao e que em quatro décadas visitou o país mais de 50 vezes.

O outro é uma ficção, a ópera “Nixon na China”, de Philip Glass, cuja produção no Metropolitan Opera de Nova York foi transmitida diretamente para plateias em dez cidades brasileiros em fevereiro.

A estreia de “Nixon na China” ocorreu em outubro de 1987 em Houston, Texas. Mas a estreia para o mundo foi em abril do ano seguinte, em Washington, quando o CD da ópera foi posto à venda, a rede pública de TV, PBS, a mostrou para os EUA todo e políticos e diplomatas, como os personagens da produção, a viram pela primeira vez.

O principal, Richard Nixon, era vivo e foi convidado para o camarote presidencial do Kennedy Center Opera House, o principal centro de artes da capital americana, batizado em homenagem ao homem que o derrotara na eleição presidencial de 1960.

Nixon recusou a honraria. Ele estava consolidando o lento processo de reabilitação de sua imagem pública, devastada após a renúncia no ápice do escândalo Watergate; provavelmente temia ser ou vaiado ou friamente recebido pela audiência da liberal Washington.

Dizia-se que o ex-presidente também receava ter sido caracterizado de maneira sarcástica ou excessivamente crítica. Mas ele é tratado com respeito. O papel de vilão foi para Henry Kissinger.

Na noite de 26 de março de 1988, muitos na audiência riram com gosto com a representação histriônica de Kissinger. Mas alguns saíram antes do final, não por terem se ofendido com alusões a políticos, mas porque não gostaram muito da música.

Já os cenários, foram um sucesso: a cada ato, recebiam aplausos muito mais generosos do que os dados a intérpretes, compositor e diretor.

A produção deste ano em Nova York ocorreu num momento histórico muito diverso do da década de 1980, quando o presidente Ronald Reagan ainda falava do comunismo como “império do Mal”, a que a China, já sem Mao, indiscutivelmente fazia parte.

Agora, a China – embora permaneça uma ditadura de partido único – é um bastião do capitalismo mundial, a principal financiadora da dívida dos EUA, o maior destino das exportações brasileiras, o grande timoneiro dos destinos da economia global.

Quando ocorreu a viagem que motivou Adams, o diretor Peter Sellars e a libretista Alice Goodman a produzirem “Nixon na China”, as sociedades chinesa e americana estavam exauridas e precisavam uma da outra para se renovar, como realmente o fizeram.

Só quem sobrevive dos personagens que viveram os fatos inspiradores da ópera é Kissinger, que se recusou (como havia feito 24 anos antes) a se ver representado no palco. Seguramente, ele não teria gostado do que se mostrou.

Decerto, seu livro não é uma resposta à ópera. Mas, sem dúvida, o livro (esta revista tratará dele numa de suas próximas edições) faz parte do cuidadoso legado que Kissinger tem deixado à história para tentar assegurar para si próprio uma imagem positiva nas gerações futuras.

O trio Adams, Sellars e Goodman contribuem para o arsenal dos não poucos inimigos de Kissinger, para quem ele é um dos grandes malfeitores do século XX.

Giuseppe Verdi, um dos grandes mestres em combinar paixões pessoais com conflito político e social na forma de ópera, dizia que “imitar a verdade pode ser bom, mas inventar a verdade é melhor”. Ele, no entanto, imitava ou inventava verdades sobre acontecimentos que haviam ocorrido milênios antes (“Nabucco”) ou séculos antes (“Don Carlos”). “Nixon na China”, quando foi escrita, tratava de eventos de apenas uma década atrás. E certamente inventa e imita verdades.

É óbvio que não se pode julgar o mérito de uma obra de ficção pela sua verossimilhança com a realidade, mesmo quando ela deliberadamente se vale de pessoas e acontecimentos reais, como neste caso. Ninguém vai à ópera com o objetivo de aprender história.

Usar fatos verdadeiros recentes, especialmente no caso de um gênero artístico considerado “velho”, como a ópera, tem claramente o objetivo de atrair audiências mais jovens e, com isso, rejuvenescer-se.

Mas como muitas testemunhas do que de fato ocorreu ainda estão na ativa (ainda que não mais seus personagens principais) e como é lugar-comum (ainda que equivocada) a noção de que a arte influencia muito a consciência coletiva, não faltaram ataques a “Nixon na China” na imprensa americana por apresentar uma visão distorcida do que aconteceu em 1972.

Esses ataques (entre eles o de Max Frankel, o ex-editor-chefe do “New York Times” que cobriu a viagem de Nixon para o jornal) são tão fúteis e inconsequentes como os dos que cobram precisão factual do samba-enredo de uma escola de samba no Carnaval brasileiro.

“Nixon na China” é uma paródia da realidade, sem nenhuma pretensão de retratá-la com fidelidade nem de despertar nos espectadores a consciência do que foi aquele momento histórico.

Max Frankel critica, entre outros momentos da ópera, os versos “Eu me opunha à China/Eu estava errado” que o personagem Nixon canta em um dos encontros com os líderes chineses (“Ele [Nixon] não ofereceu aos seus anfitriões nenhuma confissão desse tipo”, garante Frankel, em artigo para o “Times” de 14 de fevereiro de 2011, como se ele mesmo – Frankel – pudesse oferecer tal garantia, já que, como repórter, obviamente não teve acesso às reuniões reservadas que o verdadeiro Nixon teve com Mao, Chou e outros).

Com mais substância e propriedade, o jornalista americano afirma que a ópera não foi “capaz de abranger a elegante diplomacia e os minuetos estratégicos encenados por Kissinger e Chou até levarem seus chefes, Nixon e Mao, ao seu grande encontro”.

O visual é a grande atração de “Nixon na China”: a coreografia, o cenário e os figurinos são os pontos altos do espetáculo. A música minimalista de Adams (quase uma contradição nos termos para o gênero, quase sempre grandioso) não é inspiradora, o libreto de Goodman não tem nenhum momento brilhante e a direção de Sellars é apenas correta.

Acima de tudo, no entanto, a ópera é cheia de incoerências internas. O primeiro ato se pretende descritivo (algumas das falas dos personagens são transcrições literais dos discursos pronunciados pelos personagens na realidade, a reconstituição da cena do desembarque de Nixon do “Spirit of 76”, como se chamava o avião presidencial americano na época parece uma cópia dos vídeos de 1972).

O segundo ato é surrealismo fantástico, delirante e quase incompreensível (embora ali estejam os melhores momentos de dança e cenografia).

O terceiro ato é introspectivo, cheio de alusões psicológicas de gosto e pertinência duvidosos (embora ali estejam os melhores versos, na boca de Chou En-lai: “Eu estou velho e não posso dormir/Para sempre como as crianças nem esperar/Que a morte seja uma novidade./Apenas uma vigília interminável, quando eu/Termino meu trabalho e vou para a cama./ Quanto do que fizemos foi certo?/Tudo parece estar além de nossas soluções.”).

É improvável que Chou tenha dito qualquer coisa parecida naqueles dias da visita da China ou mesmo na cama para mulher, como a cena simula. Mas isso pouco importa. Reflexões desse tipo podem perfeitamente ter passado pela cabeça de qualquer líder nacional em qualquer país ou época e isso é um dos efeitos que a obra de arte deve provocar: fazer com que as pessoas pensem sobre si mesmas e sobre o que a cerca com profundidade que vá além da que se permite na correria dos afazeres cotidianos.

Max Frankel tem razão quando afirma que “Nixon na China” nem de longe consegue dar conta da complexidade extrema dos acontecimentos que antecederam a viagem nem de suas implicações à época ou depois. A ópera poderia pelo menos ter esboçado algumas das nuances que a cercaram.

O mais grave, no entanto, é que a ópera tampouco consegue grande sucesso no que se espera de um trabalho desse tipo: atiçar emoções intensas, provocar reflexões não banais. É uma peça razoável de entretenimento, curiosa para quem se interessa por temas políticos e diplomáticos, mas pouco mais do que um passatempo não desagradável.

Esta matéria faz parte do volume 20 nº1 da revista Política Externa
Volume 20 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2011 Repercussões da Primavera Árabe

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