Política Externa

O punho e a renda* de Edgar Telles Ribeiro

por em 10/06/2011
O punho e a renda*

“Durante 30 anos sob os Bórgias, a Itália conheceu a guerra e o terror, mas produziu Michelangelo, Da Vinci e a Renascença, ao passo que a Suíça teve 500 anos de paz, amor e democracia, e criou o quê? O relógio-cuco”. É com essa célebre frase que Harry Lime (Orson Welles), justifica seus atos criminosos para o amigo Holly Martins (Joseph Cotten) no clássico noir de 1953, “O terceiro homem”, de Carol Reed.

“Eu sou apenas um ator”, afirma o ator Hendrik Höfgen, persona ficcional de Gustaf Gründgens, rei dos palcos durante o III Reich, no romance “Mefisto”, de Klaus Mann, descrição apaixonada de como uma figura brilhante abandona sua consciência e se mistura com nazistas em busca de sucesso profissional, social e financeiro.

Escritor, diplomata e cineasta, Edgard Telles Ribeiro acrescentou um novo personagem a essa sempre crescente galeria de figuras amorais, o diplomata Marcílio Andrade Xavier, ou Max, em seu novo romance “O punho e a renda”, um retrato da relação delicada, e pouco discutida, estabelecida entre o Itamaraty e a ditadura militar.

Mas, ao contrário de seus antecessores ficcionais ou reais, Max, um delator de colegas, espião de exilados políticos e auxiliar na articulação de golpes em países vizinhos ao Brasil, saí ileso de suas ações.

“Em momento algum de sua profícua trajetória, pensei mais deprimido ainda, Max precisara dar um braço para penetrar na intimidade do poder. Simplesmente abrira mão de algo menos visível e, em seu caso, de mais dispensável: seu caráter. Pois, como descobrira para seu encanto ao beijar o anel do Cardeal, em 1963, este tinha a curiosa capacidade de se reconstruir, como por milagre a cada guinada do destino”, escreve o narrador do romance, que, como Holly Martins, vai aos poucos, em conversas com personagens em torno de Max, que o amigo admirado na juventude fora um “lixeiro”, para usar um jargão empregado no Itamaraty na época do regime militar para designar os diplomatas “espiões” do serviço de informação da ditadura, recompensados, apesar do desprezo dos colegas, com uma rápida ascensão profissional numa carreira hierarquizada ao extremo (aliás, uma característica curiosa comum a militares e diplomatas).

O autor anuncia, nas primeiras páginas, que se trata de uma obra de ficção, um aviso necessário diante do sigilo constrangido com que o tema ainda é tratado dentro do Ministério das Relações Exteriores (MRE).

“Sou daqueles que acreditam que a ficção é a melhor maneira de lidar com a realidade quando esta insiste em escapar continuamente ao escrutínio geral”, escreve Telles. “Quanto a meus colegas de Ministério, passado o susto, espero que saibam entender que, ao denunciar o mal que vingou em determinada fase a nossa volta, louvo uma Instituição que a ele se manteve essencialmente imune, apesar da triste atuação de uns poucos”.

O livro, sem dúvida, é resultado da série de reportagens publicada em 2007 pelo jornal Correio Braziliense, “O serviço secreto do Itamaraty”, em que o repórter Cláudio Dantas revela o que descobriu ao ter acesso ao arquivo secreto do chamado Centro de Informações do Exterior (Ciex), com mais de oito mil documentos.

Neles, há evidências de que, entre 1966 e 1985, o Itamaraty operou um serviço de inteligência para monitorar exilados políticos brasileiros e municiar as agências de repressão com dados importantes para localização e sessões de interrogatório marcadas, muitas vezes, pela tortura.

“Naquele período, os punhos de renda da diplomacia do Barão do Rio Branco ganharam abotoaduras de chumbo”, escreve o jornalista. “Nunca houve refúgio seguro aos brasileiros contrários ao golpe de 1964. Dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos durante o regime, o Correio descobriu 64 deles no arquivo secreto do Ciex. A escassez de evidências da participação da diplomacia brasileira na repressão fez crer a todos que o MRE foi a reserva moral da democracia em pleno regime militar. Construiu-se, como silêncio, a imagem de diplomatas sem partidos ou tendências ideológicas. Mas não é bem assim. A cúpula do Itamaraty se ajustou perfeitamente aos interesses do governo militar, e o Ciex contribuiu de maneira decisiva para a localização e detenção de muitos exilados”, avisa o editorial do jornal ao iniciar a série de reportagens.

O Itamaraty reconheceu, na época, a veracidade das informações, mas os documentos permanecem secretos e a história foi “encerrada” com a declaração do chanceler Celso Amorim: “Não temos comentários a fazer sobre aspectos de um passado que felizmente deixou de existir”. Que se registre, porém, o mérito da “prata da casa”: o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, que foi secretário-geral da Casa entre 1985 e 1990 e salvou da destruição o arquivo secreto da Ciex, ignorando a determinação do SNI de “colocar fogo” nos documentos para apagar evidências e evitar “revanchismos”.

Apesar da tentação de ler “O punho e a renda” como um roman à clef, o melhor é vê-lo como um bem escrito ajuste de contas com o passado sem condenar figuras individuais, mas o zeitgeist que tomou conta do país após o golpe.

Os personagens são, sim, embaixadores, ministros, militares, mas o escritor optou por criar compósitos de várias figuras (embora para os “da Casa” sejam identificáveis) e denunciar, assim, não apenas a atuação do Itamaraty, mas das elites brasileiras, de quebra trabalhando, com sucesso, o retrato universal de um carreirista, proporcionando, assim, vários níveis de leitura do romance.

O grande prazer de Telles é, além de avisar aos leitores que tantos Max permanecem por aí sem punição, retratar figuras que se vêem diante da história e são levados por ela, embora se acreditem senhores do seu destino.

Nisso, o livro perde algo importante: o seu sabor brasileiro, a chance de representação de uma época tão nacional. O tom geral da escrita é “internacional” e as alusões ao país aparecem de forma pouco orgânica.

Faz falta efetivamente sentir os cheiros, cores e sons do Rio dos anos 1960 e a história, apesar das ligações com a política nacional, poderia se passar em qualquer parte do planeta como um thriller político. Por isso, a tentação de aproveitar mais as “revelações” reais por trás da ficção do que o deleite da leitura de um romance.

A literatura, no caso de “O punho e a renda” fica em segundo plano, ainda que se louve o estilo econômico de Telles e as doses moderadas do emprego de clichês. Há, porém, um quê cinematográfico que prende a atenção do leitor, mas o afasta, mais um pouco, da literatura de alta qualidade. Não se pode querer tudo.

Mas é mérito do escritor a invenção do momento em que a vida de Max dá a sua guinada à direita. A pedido de seu chefe, entediado pelo pedido de audiência do Cardeal do Rio de Janeiro, que vem reclamar maior atuação contra os comunistas, Max atende o prelado e, na saída, num golpe de mestre, beija o seu anel, encantando Sua Eminência que se lembrara do gesto do jovem diplomata em começo de carreira quando os militares estão em busca de pessoas para implementar uma ponte entre o Itamaraty e a comunidade de segurança, o futuro SNI.

“Acho que tenho a pessoa ideal para vocês…”: eis o início da carreira de Max que é transferido para o exterior no mesmo tempo em que o MRE deixa o Rio por Brasília. “As decisões partiam de lá, do silêncio do Planalto Central. E seus resultados, sob a forma de boatos retornavam para lá, dando origem a outras operações em tudo semelhantes. Mas os gritos, o desespero e o horror jamais chegavam até nós, os jovens diplomatas que acabávamos de baixar em Brasília na primeira leva de mudança do Itamaraty”, registra o narrador.

No Uruguai, Max inicia suas operações no exterior em conluio com um embaixador que “para o Itamaraty mandava informações corriqueiras, mas para o SNI, ou a Presidência, as entranhas do sistema”. “O quadro, Marcílio é simples: a sobrevivência dos países, inclusive a nossa, depende da segurança coletiva dos quatro (Uruguai, Argentina, Chile e Brasil). Não que o Brasil esteja enfrentando o menor perigo. Mas que nossa segurança futura, em boa parte, a depender da deles, não tenha dúvida. Só que o pessoal do Itamaraty não se convence disso. Umas antas esses nossos colegas!”, desabafa o velho embaixador, um germanófilo que guarda em suas estantes uma edição autografada da Montanha mágica, de Thomas Mann.

Max passa a auxiliar o treinamento de militares no Brasil para a repressão no exterior e a fornecer nomes e contatos. “Assim é que, sem deixar de servir com fidelidade ao poder, por acreditar que os vilões contra os quais se batia eram mesmo piores do que os bandidos que tinha por aliados (entre eles seus parceiros de pôquer), Max se deixava lentamente seduzir pela possibilidade de navegar em águas limpas e profundas. Afinal, não estava ali para ajudar a arrancar as unhas de ninguém ou para decidir quem eram ou não sequestrado, quem, no fundo, viveria ou morreria”.

Era verdade: o CIEx não se envolvia diretamente em ações repressivas que ficavam a cargo do DOPS e dos órgãos militares. Cabia ao órgão repassar as informações para o SNI que as irradiavam para os centros de repressão direta. As ações incluíam infiltração de agentes entre os refugiados, violação de correspondência, rastreamento de pessoas, suas idas e vindas ao Brasil etc.

O Uruguai era um dos países que estava na mira das ditaduras vizinhas ao Brasil, havendo mesmo um acordo, em 1965, entre o Brasil e a Argentina para uma intervenção militar caso a atividade sindical uruguaia se intensificasse.

Entrou em cena o Embaixador Manoel Pio Corrêa, designado por Castello Branco como o representante brasileiro no Uruguai. Em sua autobiografia, “O mundo em que vivi” (um triste contraponto à de Zweig, “O mundo que eu vi”, um libelo pela civilização), o diplomata relata, sem pudores, que sua missão no Uruguai era impedir que os exilados exercessem atividades políticas por meio da “diplomacia de resultados”: a compra do trigo uruguaio, por exemplo, estava condicionada à limitação de Leonel Brizola pelo país.

Formado pela Escola Superior de Guerra, o diplomata era respeitado na caserna pelo seu anticomunismo (que lhe rendeu a alcunha de “troglodita reacionário” pelos exilados políticos) e, já em 1959, enviara ao Serviço de Informação um arquivo com fichas de cidadãos nacionais e estrangeiros envolvidos em atividades consideradas como subversivas. No Uruguai, trabalhou ao lado do coronel Câmara Senna, adido militar, para vigiar movimentos de exilados e seu trabalho foi um piloto para a criação da Ciex, em 1966.

Como Secretário Geral do Itamaraty, foi à caça dos diplomatas que considerava como “pederastas, bêbados e vagabundos”, entre os quais Vinicius de Morais. Foi por meio de uma portaria secreta que instituiu o Ciex, que funcionava com verba reservada e subordinada à Secretaria Geral do MRE, batizado como Assessoria de Documentação de Política Exterior (Adoc), funcionando, tranquilamente, no gabinete 410 do Anexo I do Palácio do Itamaraty.

As atividades de espionagem ganharam o eufemismo de Plano de Busca Externa, com apoio de agentes do SNI e dos adidos militares. Em 1967, prestes a se aposentar foi enviado para Buenos Aires e, depois, “em caráter especial” a Washington com a missão de estreitar a colaboração entre o Ciex e a CIA.

A atuação do serviço de inteligência do Itamaraty não se restringiu aos brasileiros, mas envolveu estrangeiros contrários ao regime em seus próprios países. “Em seu profissionalismo de servidor público, os membros que integraram o serviço secreto do Itamaraty acreditavam ocupar um patamar superior aos dos demais espiões da ditadura, uma elite dentro do sistema de informação”, escreveu o jornalista Cláudio Dantas. Segundo especialistas, a eficiência do Ciex teria sido uma das causas do interesse moderado do regime militar na chamada Operação Condor, o esforço de coordenação entre os serviços de inteligência das ditaduras do Cone Sul, entre os anos 1970 e 1980, para perseguir seus opositores e matá-los.

Afinal, o Brasil já iniciara essa atividade muito antes, uma década antes, um sistema de monitoramento e troca de informações sobre “subversivos” brasileiros e estrangeiros, o que fez os diplomatas do Ciex subdimensionar a participação na Operação Condor. Mesmo o campo de atuação era mais amplo, pois o Ciex atuou também em Paris, Moscou, Praga e Lisboa, após a Revolução dos Cravos de 1974. O sistema também tinha como tarefas atacar as campanhas de denúncias das violações dos direitos humanos, vigiar o possível retorno dos exilados, a atuação dos brasileiros no exterior e o monitoramento de viagens de brasileiros ao exterior.

“Ganhamos!”, foi como o embaixador brasileiro Antonio da Câmara Canto saudou o golpe militar no Chile em 1973 e o Ciex da embaixada de Santiago foi um dos mais ativos na história desse serviço especial, inclusive auxiliando a desestabilizar na mídia o regime de Allende.

Em 1970, o Itamaraty deu-se ao trabalho de enviar fotos ao Comitê do Nobel em Oslo, com o arcebispo de Recife, Dom Helder Câmara, falando com integralistas nos anos 1930, para evitar o sucesso da candidatura do religioso ao prêmio. Segundo o chanceler Gibson Barbosa, numa palestra na ESG, era preciso lutar com todas as armas para acabar com a “campanha internacional de calúnias”, ou seja, as denúncias feitas por exilados e outras organizações estrangeiras da repressão levada a cabo no governo Médici, curiosamente, o que mais liberdade concedeu ao Itamaraty em termos de ações no exterior.

A “diplomacia militar” incluía a promoção de generais a postos em embaixadas, constrangendo os diplomatas de carreira. O Itamaraty já havia enquadrado seus “desviantes” antes da Guerra Fria e continuou a fazê-lo após o golpe de 1964. Os militares respeitavam o MRE e até mesmo se identificavam com seus objetivos de um “Brasil grande”, ainda que a cultura da Casa fosse resistente à formação de grupos ideológicos que, apesar disso, surgiram e agiram conforme os ditames da Política de Segurança Nacional.

Como mostram estudos da pesquisadora Maria Luiza Tucci Carneiro, no recém-lançado “Cidadão do mundo”, durante o governo Vargas houve ação sistemática do Ministério das Relações Exteriores contra os judeus. Era dele que emanavam as circulares secretas antissemitas a partir de 1937.

O governo Vargas, atuando no sentido da “higienização da raça brasileira” chegou a penalizar diplomatas que se mostraram dispostos a salvar os judeus, como foi o caso do embaixador Luiz Martins de Souza Dantas. Também data da era Vargas “limpezas” nos quadros do Itamaraty que puniram nomes como Antonio Houaiss e João Cabral de Mello Neto, objeto de inquérito pelo Dops como autor de “crimes contra a segurança nacional”.

Mas os tempos do Ciex superaram qualquer expectativa de uma instituição que se gabava de trabalhar para o Estado e não para governos. Em 1969, uma Comissão de Inquérito instituída pelo SNI ceifou meia centena de funcionários, entre os quais 13 diplomatas.

Assim, Max é um retrato desses tempos, uma maldade educada, culta, elegante que “com assiduidade, em jantares e recepções, se sentaram à mesma mesa, lado a lado, torturadores e homens de bem”. Longe do mal banal, Max representa o mal sem ideologias, o mal elitista e esperto. “Em vinte ou trinta anos, ninguém mais falará disso no Brasil. Lá por 2010 ou 2012, nem os historiadores se interessarão por esse tema. Ninguém mais tocará nesse assunto, a não ser marginalmente”, observa Max com precisão ao amigo.

Efetivamente, em pleno governo Lula, o diplomata é festejado e mesmo cotado para assumir a Secretaria Geral do MRE. “Marcílio agora é admirado pelos ex-guerrilheiros que combateu. Um sujeito que passou parte da vida perseguindo sindicalistas e intelectuais. Ganha palmas, é elogiado por seus discursos pacifistas. Continua enganando a todos”.

O fecho do livro trata do acordo nuclear entre Brasil e Alemanha e, apesar do interesse que traz, é o menos bem trabalhado do livro. Tudo sai da boca de um agente da CIA que revela como o antigo chefe de Max no Uruguai, admirador de Mann, fora responsável pela aproximação com os alemães em detrimento dos americanos, interessados em vender a tecnologia nuclear ao país.

“A partir daí, não tínhamos mais como pressionar o seu governo. Começamos a nos dar conta do perigo em lidar com regimes excessivamente fechados. A tão proclamada distensão política brasileira teve início ali. Mas partiu de Washington, bem antes de surgir nas mentes dos supostos magos de Brasília. Porque com os militares no poder, não tínhamos acesso aos núcleos de decisão. Tentamos trocar um general por outros, e quebramos a cara”, desabafa o americano, já embriagado e se culpando “por termos ajudado a colocar no poder aquele bando de amadores fardados”.

Daí, a conclusão de Telles, via seu narrador, sobre seu protagonista: “Max havia sido moldado pelo que existira de pior em nosso Continente. O que fizera dele uma estrela fora o cenário em que se movera a partir de certa época e a atmosfera na qual vivera desde então”.

“O punho e a renda” não é a verdade final, mas pode cutucar a curiosidade de muitos sobre instituições e elites que “pensavam o bem do Brasil”, ao menos, o Brasil deles. Ridendo castigat mores: a ficção pode ser mais forte do que se imagina, como a pena tentou ser mais forte do que a espada.

*Editora Record, 2010, 560 p.

Esta matéria faz parte do volume 20 nº1 da revista Política Externa
Volume 20 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2011 Repercussões da Primavera Árabe

Tempos de mudança no Mundo Árabe

Ver detalhes desta edição
Voltar Topo

Comentários

EDIÇÃO ATUAL - VOL. 24 Nº 1 e 2
Vol. 24 nº 1 e 2 - jul/dez 2015 jul/dez - 2015 O Histórico Acordo de Viena O Acordo de Viena sobre o projeto nuclear iraniano evitou as consequências trágicas da hipótese de o Irã, país inserido na região mais tensa do mundo, obter armamento nuclear.
Mais Política Externa