Política Externa

Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar and the Future of the International Monetary System*

por em 10/06/2011
Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar and the Future of the International Monetary System*

“But what if the dollar does crash?” pergunta Barry Eichengreen. E se o dólar afundasse de repente? Esse é o cerne do novo livro, mas a pergunta ficou para o seu último capítulo. Eichengreen já escreveu muito sobre crises financeiras. No Brasil talvez seja mais conhecido por seus escritos sobre as crises financeiras da segunda metade dos anos 90 (México, Coréia do Sul e Ásia, Rússia, Brasil) e de 2001 (Turquia e Argentina).[1]

Sempre defendeu que mais importante que remediar as crises financeiras é prevení-las, no dia-a-dia da política macroeconômica. Então, é coerente quando diz agora que seria melhor que o Fed e a CIA considerassem o cenário mais alarmante também, ainda que desconfie da capacidade de altos funcionários de prever o pior.

O crash não é, segundo ele, o cenário mais provável. Por tudo o que é apresentado, somos levados a crer que é quase inevitável um lento declínio do dólar “para níveis um pouco mais baixos” (p.177).

Os argumentos dos seis capítulos anteriores também nos convencem do que ele chama de “boa nova”, com que fecha o livro: o destino do dólar está na mão dos americanos, e não dos chineses.

Depois da crise de 2008, explicitaram-se com maior insistência dúvidas sobre o papel internacional do dólar e críticas ao “privilégio exorbitante” dos Estados Unidos como emissor da moeda de reserva internacional. E, no entanto, segundo Eichengreen, é preciso reconhecer o que ele apelida de “verdade inconveniente” (p. 123-6): mesmo depois da crise de 2008, praticamente não diminuiu o uso do dólar nas transações cambiais no mundo todo, mais de 60% das reservas de divisas reportadas pelos Bancos Centrais em 2010 ainda são em dólares (apesar de pequeno declínio desde 2004), os BCs do mundo continuam comprando Letras do Tesouro americano, as commodities, em particular o petróleo, continuam sendo cotadas em dólares. Permanecerá assim?

A condição de emissor da moeda internacional proporcionou e ainda proporciona à economia americana vantagens que equivalem a subsídios do exterior ao padrão de vida nos Estados Unidos.

Essas vantagens vão além do fato de que reservas em dólar nos bancos centrais do mundo (e não só da China agora) permitiram aos Estados Unidos manter por tempo indefinido um grau de endividamento público muito alto.

Eichengreen mostra, no entanto, que o papel de reserva internacional do dólar não é, para os Estados Unidos, apenas uma vantagem. Durante a crise de 2008 mostrou-se outro lado dessa vantagem: encobrir os graves desequilíbrios que se acumulavam e contribuiriam para a crise.

Em todo caso, o que é mais importante, e é argumentado exaustivamente no livro, é que não foi o papel do dólar que deu poder à economia americana, mas exatamente o oposto: à medida que a economia americana ganhou participação relativa na economia mundial é que o dólar foi adquirindo o seu status de moeda internacional.

Por isso mesmo, se o dólar tiver uma diminuição em seu papel internacional, não será por alguma aposta especulativa dos emissores de outras moedas com potencial para servirem de reserva internacional, mas simplesmente porque o peso relativo da economia dos Estados Unidos diminuiu.

Por isso é que Eichengreen insiste que o destino do dólar depende dos próprios americanos, de políticas que permitam retomar o crescimento dos Estados Unidos, reduzir os déficits a níveis sustentáveis, e manter a confiança de que os títulos de dívida americana ainda são os mais seguros do mundo.

Isso não quer dizer que não haverá mudanças inevitáveis. A queda gradual do peso relativo dos Estados Unidos na economia mundial fará com que apareçam outras moedas candidatas a moeda de reserva internacional. Não faz sentido, para quem acha que a força do dólar vem da força da economia subjacente a êle, a idéia de que o dólar está disputando com outras moedas a sua sobrevivência e que o status do dólar por si só confere poder geopolítico e estratégico.

Tal idéia é até perigosa porque tira o foco de onde deve estar: “o destino do dólar, em última instância depende, neste caso, da política orçamentária dos Estados Unidos” (p. 163). “Assim, o cenário plausível para um crash do dólar não é o de um colapso da confiança por causa do humor dos investidores ou como resultado de uma disputa geopolítica, mas sim por causa de problemas das próprias políticas econômicas dos Estados Unidos. O perigo aqui são os déficits orçamentários fora de controle.” (p 162).

O livro é de 2011, mas anterior ao anúncio espantoso da agência de risco Standard & Poor’s de que estava mudando sua classificação de longo prazo da dívida federal dos Estados Unidos de estável para negativa. E é anterior ao auge do impasse orçamentário no Congresso americano em abril de 2011. Suas páginas, lidas agora, soam como um presságio. Em abril, Eichengreen estava nos jornais afirmando que o impasse orçamentário seria resolvido de algum modo no Congresso dos Estados Unidos, mas será preciso avaliar os seus danos.

É verdade que o debate econômico, lá como aqui, inclui os reféns de ideologias, como, aliás, veio à tona no impasse. Talvez alguém já esteja rotulando Eichengreen como republicano por insistir na sustentabilidade fiscal.

Só que Eichengreen não poderia ser mais irônico em sua menção de que é “nada menos que uma autoridade como Sarah Palin” foi quem advertiu que o dólar seria enfraquecido se os países do Golfo passassem a cotar o preço do petróleo em uma cesta de moedas em vez do dólar(p.6). As lições extraídas da história dos movimentos cambiais mostram que isso é tomar efeito por causa.

Em livro anterior, de 2007, Eichengreen começava anunciando: “A grande mensagem deste pequeno livro é que a história tem que ser lida com cuidado por suas implicações de políticas governamentais.” E já então, antes desta mais longa recessão americana do pós-guerra, observou: “Mas o poder da analogia reside não apenas em traçar paralelos entre duas situações históricas, mas também em mostrar as diferenças entre elas. São essas diferenças e suas implicações relativamente pessimistas para as perspectivas do dólar e da economia mundial que são enfatizadas neste livro.”[2]

A história da moeda americana começa com a chegada dos ingleses em Massachusetts em 1620, trazendo libras insuficientes, é claro, passa por uma confusa variedade de moedas metálicas, até a criação do dólar em 1785, e da cunhagem logo em seguida.

O Capítulo 2 é um relato do surgimento da moeda, e do sistema bancário e de crédito nos Estados Unidos, passa pela crise de 1907, a criação do Fed (o Banco Central americano), a introdução do dólar no comércio exterior. Por trás do relato histórico, que mostra como, a despeito da Grande Crise de 1929, o dólar já desbanca a libra nos anos 30, está a preocupação de entender que condições poderiam levar a que o dólar fosse destronado agora por outras moedas como o euro, o renmimbi, ou alguma moeda de conta como os Direitos Especiais de Saque do FMI.

A supremacia sem rivais que vai do fim da Segunda Guerra Mundial até 1998, às vésperas da criação do euro, é a etapa seguinte da mesma argumentação, no Capítulo 3. Os Estados Unidos foram o único país a sair fortalecido da Segunda Guerra, dominando mais de metade da produção industrial do mundo. Plano Marshall e Plano Dodge também ajudaram o dólar a tornar-se moeda de reserva. Só o dólar era livremente conversível. E valia ouro, pelo menos até o Fed se declarar incapaz de converter dólares em ouro ao preço dos acordos, de US$35 a onça troy.

O relato do caminho que levou à suspensão da conversão tem mais suspense que uma história de detetive, com os detalhes sobre as figuras envolvidas nas negociações e as intrigas que vitimaram algumas. Todas as reuniões, internacionais e bilaterais, secretas ou abertas, não impediram o desfecho. Apenas o adiaram um pouco. De novo, há aqui um paralelo velado com as reuniões internacionais que pretendem influir no câmbio em nossos dias, para apreciar o renmimbi, ou para apreciar o dólar.

Mais interessante é acompanhar como e por que, apesar do colapso da convertibilidade em ouro, o dólar continuou a reinar supremo. Não houve alternativa. Nem a libra, nem o franco, nem o marco, nem o iene, nem o Direito Especial de Saque do FMI podiam funcionar como moeda internacional – cada um por obstáculos diferentes que impediram a confiança internacional no país emissor da moeda.

Em última instância, o poderio do dólar foi reforçado também por vetores históricos como o enorme passivo externo da Grã-Bretanha ao fim da guerra, minando a confiança na libra; a instabilidade política e os enormes déficits na França por conta da Guerra da Argélia; a preocupação central da Alemanha com a inflação e o efeito correlato sobre a entrada de capitais que se viu obrigada a conter; a política industrial do Japão voltada para as exportações e, quando o Japão se tornou a segunda maior potência econômica depois dos Estados Unidos, efeitos imprevistos de sua desregulamentação bancária.

O argumento da falta de alternativa não pode ser resumido aqui, não só por causa do detalhe do registro histórico, mas por que ele é quase uma lição de casa para quem quer que queira defender uma moeda para substituir o dólar como moeda internacional.

A novidade maior é que no século XXI há rivais. Ao menos rivais em potencial. Em primeiro lugar, o euro. O capítulo 4, “Rivalidade”, é uma fascinante história do euro, com todas as suas complicações, nuances políticas, e promessas. Mostra em que condições, mesmo sem a participação da libra, o euro pode ser uma alternativa para o dólar. Se bem que o euro também tenha seus problemas (resumidos por Eichengreen sob “Uma moeda sem estado”, p.130).

A crise financeira de 2008-2009 causou prejuízos graves à confiança na estabilidade do dólar. Essa estabilidade é essencial para uma moeda amplamente usada em transações internacionais e como reserva. O capítulo 5, ”Crise”, além de ser um excelente resumo do desencadeamento da crise e suas reverberações, mostra os motivos pelos quais se instalou o pessimismo sobre o dólar. O motivo que mais tem se difundido recentemente é mencionado apenas en passant: a suspeita de que, com a maior parte dos títulos de dívida pública dos Estados Unidos sendo mantidos por estrangeiros, o governo caia na tentação de deixar enfraquecer a moeda e reduzir o valor das dívidas via inflação. O fato é que o dólar vem se desvalorizando. No essencial, esse capítulo busca convencer de que não há, ao menos de imediato, o perigo de um colapso do dólar.

No mínimo, o dólar tem “a vantagem de quem já ocupa o cargo”. Mas “Já não há monopólio” (como se intitula o capítulo 6), ainda que haja muito chão a cobrir antes que o euro, o renmimbi, ou o DES do FMI possam oferecer as mesmas vantagens que o dólar, mesmo de prestígio arranhado, ainda apresenta como reserva de valor, meio de pagamento e unidade de conta do grosso das transações internacionais. Ainda que com muita cautela, o raciocínio de Eichengreen é que, se o mundo está se tornando multipolar, não há motivo para que não possa existir mais que uma única moeda de reserva internacional.

* Oxford University Press, Nova York, 2011, 215 págs.

Notas

[1] Barry Eichengreen, Crises fi nanceiras, Editora Campus, 2003, 188 pp. [Resenha em Política Externa vol. 12 no. 1, jun.-ago. 2003.]

[2] Barry Eichengreen, Global Imbalances and the Lessons of Bretton Woods, The MIT Press, 2007, 187 pp.

Esta matéria faz parte do volume 20 nº1 da revista Política Externa
Volume 20 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2011 Repercussões da Primavera Árabe

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