Política Externa

Antonio Amaral de Sampaio (1930-2010), o “enfant terrible” de sua geração no Itamaraty

por em 13/09/2010

No Itamaraty de seu tempo, quando havia tanto formalismo, Antonio Amaral de Sampaio procurava ser, em alguma medida, o enfant terrible desabrido e irreverente de sua geração. Conhecedor da trajetória e da herança das civilizações árabes e iraniana, tinha uma visão da região enriquecida por uma ampla perspectiva histórica. Talvez fosse com a Síria com que tivesse maior intimidade. Além dos temas, conhecia pessoalmente os principais atores do palco do Oriente Médio e falava com íntimo conhecimento de causa. O Direito Internacional era seu campo natural de interesse acadêmico, e o Oriente Médio e as civilizações que ali existiram e existem, seu campo prioritário de refl exão e pesquisa. Procurava contrastar as falências do islamismo atual – sobretudo em suas vertentes fundamentalistas – com a gloriosa civilização de tantos séculos passados.

    1. Aos oitenta anos morreu, em São Paulo, no dia 24 de junho de 2010 o Embaixador Antonio Amaral de Sampaio.

    2. Com ele vai um pedaço da história do Itamaraty dos últimos cinquenta anos e desaparece um dos últimos representantes de um certo estilo de como se comportar no oficio e de como fazer diplomacia.

    3. Não havia como ignorá-Io. Na sua mocidade e maturidade era vigoroso e desempenado e tinha uma robusta autoconfiança reforçada por sua vitalidade e energia.

    4. A certa distancia o que se via em Antonio era aquela elegância cuidada no traje e no gesto que ele tão assiduamente cultivava. Olhado de mais perto o que mais impressionava era a malicia do sorriso e do olhar e a disposição permanente de não se levar muito a sério.

    5. No Itamaraty de seu tempo, quando havia tanto formalismo, Antonio procurava ser, em alguma medida, o “enfant terrible” desabrido e irreverente de sua geração. Criou-se em torno de Antonio um rico anedotário que ele tinha algum prazer em não desmentir e mesmo reforçar.

    6. Visto de fora e mesmo ouvido em situações sociais era assim. Em momentos de maior reflexão e, sobretudo, quando escrevia ou ensinava o que emergia, era um outro homem de maior densidade e mais madura reflexão.

    7. Escrevia bem e com grande clareza. Como se tratasse a palavra escrita com mais respeito do que tratava a palavra falada.

    8. Lê-lo urpreendia os que o encontravam apenas em situações mundanas.Havia maturidade em seu pensamento e era fiel a certas preocupações dominantes, O Direito Internacional era seu campo natural de interesse acadêmico e o Oriente Médio e as civilizações que ali existiram e existem, seu campo prioritário de reflexão e pesquisa.

    9. Ao procurar juntar aqui traços de seu espírito e maneira de ser, temo que não serei muito coerente. As contradições eram a essência mesma do homem que aqui recordo.

    10. Nele, estavam, impregnados os valores da diplomacia brasileira de seu tempo. Tinha por certos aspectos da defesa da soberania nacional- sobretudo no que se referia à Amazônia – a preocupação de que estávamos perdendo,em alguma medida, o controle de nossos interesses sobre aquela imensa região. Combatia por uma presença brasileira mais vigorosa na porção da Amazônia que nos pertencia e mantinha um olhar atento e desconfiado sobre as intenções dos outros atores naquela região.

    11. Em contribuições para “O Estado de São Paulo” que se estenderam, com certa regularidade, por várias décadas – e em outros textos e palestras suas, é fácil identificar a assiduidade de suas preocupações. Escrevia muitas vezes com pseudônimo, já que as circunstancias e as regras do jogo de seu tempo não permitiam que falasse com voz própria.

    12. Seu outro tema recorrente era a indagação sobre os rumos da civilização islâmica.Procurava contrastar as falências do islamismo atual -sobretudo em suas vertentes fundamenta listas – com a gloriosa civilização de tantos séculos passados.

    13. Conhecedor da trajetória e da herança das civilizações árabes e iraniana, tinha uma visão da região enriquecida por uma ampla perspectiva histórica. Talvez fosse com a Síria com que tivesse maior intimtdade.Além dos temas, conhecia pessoalmente os principais atores do palco do Oriente Médio e falava com intimo conhecimento de causa.

    14. Foi em Damasco que sofreu um acidente hípico (montava e saltava bem) que iria afetar sua mobilidade e para sempre diminuí-Io fisicamente.

    15. Bisneto do General Sampaio, patrono de nossa Infantaria, (Antonio não me perdoaria se faltasse aqui a referência) buscou servir o Brasil com naturalidade e com uma legitimidade que derivava quase de um direito por nascimento.

    16. Parte de uma geração quase toda carioca por origem ou formação o meu Amigo permaneceu sempre e orgulhosamente um Paulista.

Esta matéria faz parte do volume 19 nº2 da revista Política Externa
Volume 19 nº 2 - Set/Out/Nov 2010 O mundo das candidatas - Entrevista sobre relações internacionais com Dilma Roussef e Marina SIlva

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