Política Externa

A diplomacia de Salazar (1932-1949) de Bernardo Futscher Pereira

por em 01/03/2013
A diplomacia de Salazar (1932-1949)

A diplomacia de Salazar (1932-1949)[1]
Bernardo Futscher Pereira

As coincidências e as convergências entre Portugal e o Brasil no período de que se ocupa o livro de Bernardo Futscher Pereira não são poucas nem são marginais.

Não quero levar essa noção de semelhanças longe demais. A geografia, a circunstância política de cada país, o momento histórico que ambos viviam não eram os mesmos nem, a rigor, podiam ser vistos como especialmente próximos.

A criação de uma Europa unificada ainda estava distante, e Portugal permanecia, no essencial, um país ibérico e atlântico com suas projeções tradicionais em direção à África, à Ásia e à América. Durante o período em consideração, continuava importante a imigração de portugueses para o Brasil e importante também a presença de investimentos lusos no comércio e na indústria brasileiras.

Haveria ainda a assinalar a identidade dos rótulos que Brasil e Portugal deram ao ordenamento político e social que criaram nesse período. Embora a denominação cobrisse realidades diferentes, não eram poucas nem insignificantes as afinidades que existiam entre os dois modelos.

Nos dois lados do Atlântico, aquilo que se criou foi chamado, por Salazar e por Vargas, de “Estado Novo”, e pode ser visto como um modelo autoritário, concentrador de poderes, oposto ao comunismo e bem mais indulgente com relação ao fascismo, ordenamento político com o qual os regimes em Portugal e Brasil tinham acentuadas afinidades. A diplomacia desses anos em ambos os países, foi marcada, também, por um viés que se poderia rotular como oportunista e realista, buscando induzir Portugal e Brasil a fazerem a aposta certa para que pudessem ser vistos como amigos e aliados pela coligação eventualmente vitoriosa na II Guerra Mundial.

À luz desses critérios, pode-se afirmar que a diplomacia perseguida por Salazar – e aquela adotada entre nós por Getúlio Vargas – foi bem-sucedida já que ambos os países emergiram da guerra na coluna dos vencedores, tendo preservado não só a integridade de seus territórios e, no caso de Portugal, também intacto o seu espalhado império. No caso do Brasil, como país combatente na frente italiana na fase final do conflito, houve um dividendo adicional de credibilidade e prestígio que nos deu mesmo algumas credenciais para procurar obter, já então, um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, organização de que fomos um dos sócios fundadores.

Aqui, novamente, não quero levar longe demais a simetria de políticas e intenções entre Brasil e Portugal, e reconheço que a nossa situação no hemisfério ocidental e os impulsos do panamericanismo nos impeliram com menos reservas e menores ambiguidades do que aquelas que enfrentou Portugal em direção à causa Aliada. A nossa equação diplomática era seguramente mais simples.

Além do exame das forças que determinaram que Portugal trilhasse no período uma linha diplomática consistente e cautelosa, a obra do embaixador Futscher Pereira – que hoje representa seu país na Irlanda – é uma análise perceptiva e informada da personalidade de Antônio de Oliveira Salazar, ditador atípico naquela quadra marcada pelas atitudes histriônicas dos líderes, por retóricas retumbantes e por personalidades e comportamentos voltados para a empolgação e a sedução das massas. Salazar emerge com seus traços de sobriedade de austeridade e como um condutor prudente de um país que não dispunha de poder próprio para desafiar atores muito mais poderosos.

A trama dos interesses envolvidos na definição da conduta diplomática de Portugal naquela quadra é densa e intricada. Havia o peso do “franquismo” na Espanha vizinha; havia os desafios criados pelo imperativo de acolher numerosos refugiados (judeus ou não) expulsos de seus países pela maré nazifascista; havia a importância de Portugal como centro de espionagem e de outras atividades clandestinas; havia por fim, a pressão das potências do Eixo, por um lado, e o peso, por outro, da antiga aliança com a Inglaterra que remontava, ininterrupta, até o remoto século XIII e que sobreviveu, intacta, aos grandes desafios daquele momento.

Havia, também, o interesse dos Aliados de se assegurarem de bases e acessos nos Açores e na Ilha da Madeira, pontos de apoio importantes para definir quem venceria a grande batalha que se travou no Atlântico Norte.

Todo esse emaranhado de motivações e personalidades é aquilo de que o livro trata com riqueza de fontes e rigor de pesquisas. Ao fazê-lo, a obra se faz leitura de especial interesse para os portugueses, naturalmente, e para os demais grandes atores naquela que merecidamente se chamou de uma guerra mundial.

Para leitores brasileiros, além do sentimento de proximidade – e às vezes, mesmo de cumplicidade – com o que acontece em Portugal, importa o registro de momentos em que, das duas margens do Atlântico e governados por regimes não democráticos, fizemos uma opção diplomaticamente sábia e, em última análise, moralmente correta de nos associarmos às democracias que venceriam a luta e desenhariam o mundo dentro do qual até hoje vivemos.

O autor, já beneficiado por certo distanciamento no tempo, dá a Salazar um tratamento objetivo e isento. O ditador é resgatado, em não pequena medida, pela sua lucidez, por sua prudência e astúcia ao jogar cartas difíceis e por ser tão arraigadamente – para o bem e para o mal – um autêntico líder português nascido por assim dizer das entranhas mesmas da história de seu país.

Em 1949, Portugal é aceito como um dos membros originais da Aliança do Atlântico Norte (OTA N) e com isso se encerra o ciclo de que trata o livro e que tem início com a chegada de Salazar ao cargo de primeiro-ministro, em 1932.

Os impérios coloniais tradicionais – e entre eles o português – serão desfeitos e Portugal se voltará, mais tarde, quase que exclusivamente para a sua inserção no continente europeu o que correspondeu uma nova e inevitável aposta que após um longo período de bonança atravessa agora uma navegação tormentosa. Mas esse será outro capítulo e outro momento da longa história de Portugal.

Notas

[1] Editora Dom Quixote, Portugal, 2012, 568 pp.

Esta matéria faz parte do volume 21 nº4 da revista Política Externa
Volume 21 nº 4 - Abr/Mai/Jun 2013 Responsabilidade de Proteger - Visões de Alemanha, Brasil, Canadá e França

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