Política Externa

Gafes de Estado

por em 11/06/2013

A comunidade dos que cometem gafes certamente inclui todos nós. Mas existem gaffeurs emblemáticos, e três nomes me parece que devam ocupar as posições mais altas deste pódio: George W. Bush, o duque de Edimburgo e o nosso ex-presidente João Baptista de Figueiredo. Dos três, apenas o marido da rainha da Inglaterra continua em cena e já nos brindou com sessenta anos de gestos inadequados, palavras inoportunas e um desastrado sentido de humor. A escolha desses trapalhões não foi fácil e estive tentado a incluir também na lista dois pitorescos líderes da então União Soviética: Nikita Kruschev – que teve o gesto até hoje não superado de tirar os sapatos no plenário na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, e depois batucar com eles sobre a mesa para protestar a não aceitação de projeto que, se adotado, retiraria do secretário-geral da ONU toda a capacidade de atuar em favor da paz e da segurança internacionais – e Boris Yeltsin, protagonista de vários episódios em que a vodca, e não Marx ou Lênin, inspirou o chefe da então outra superpotência nuclear. O Oscar da categoria, entretanto, deve ficar, muito merecidamente, com o duque de Edimburgo.

The article collects some “gaffes” that became famous in the recent history of diplomacy and picks three well known figures as the most notorious and frequent blunderers: the former Brazilian president João Figueiredo, the former American president George W. Bush and the Duke of Edinburgh. But it also highlights other public figures that are usual in creating embarrassing situations with their public statements, such as the former governor of Alaska Sarah Palin and the former British prime-ministers Neville Chamberlain and Arthur Balfour. The author includes one embarrassing situation in which himself was one of the main characters.

Não foi imediata a certeza de que alguma coisa estava seriamente errada. O chanceler brasileiro havia apenas começado a ler naquela manhã no Auditório do Itamaraty, sua saudação de boas-vindas ao visitante daquele dia, que era o ministro das Relações Exteriores de um país europeu.

As suas primeiras palavras nos soaram familiares, mas foi apenas quando o nosso ministro agradeceu, calorosamente, a hospitalidade que lhe era estendida e expressou sua satisfação em conhecer Brasília que nos demos conta de que estava lendo, com voz pausada, o discurso que deveria ser feito por seu convidado e que, como é habitual nesse tipo de exercício, nos havia sido encaminhado com antecedência da mesma forma como havíamos feito chegar o nosso aos visitantes.

A cena seguinte se afastou da coreografia diplomática habitual e recriou um momento comum nos jogos de rugby quando vários atletas se empilham para proteger a bola e que era, naquele caso, o prestígio do chefe da diplomacia brasileira.

O texto foi velozmente substituído, como em um número de prestidigitação, e o orador retomou a fala valendo-se desta vez do papel certo e dizendo as coisas convencionais que anfitriões transmitem a seus convidados estrangeiros.

Roberto de Abreu Sodré – era ele então o dono da casa – enfrentou o percalço com a serenidade e a elegância que nele eram habituais e fomos adiante com a visita com toda a sua elaborada liturgia.

Tinha por ele muito afeto e guardo boas recordações de nosso convívio. Usava, como instrumento habitual de trabalho, uma língua que, a rigor, parecia haver inventado e na qual era possível identificar palavras em francês, em italiano, em espanhol, em inglês e não poucas em português e o resultado final era um idioma novo e indecifrável para intérpretes e ouvintes e que um amigo daqueles dias chamava, com graça e propriedade, de “desesperanto”.

Tenho certeza de que episódios semelhantes e com consequências muito mais graves acontecem em salas de cirurgia, no desenrolar de operações militares, em torres de controle de aeroportos, em recintos parlamentares e, por extensão, suponho que coisa parecida se dá, seguramente por intervenção do próprio Demônio, em solenes momentos religiosos.

Nessas outras circunstâncias, as consequências de um erro costumam ser bem mais graves e a palavra gaffe com suas conotações mundanas e ligeiras – e no seu âmago mesmo cômicas – cede lugar a outras que identificam erros de consequências muito mais profundas.

No caso do discurso trocado via-se uma gaffe em estado puro já que não havia qualquer intenção, de uma parte ou da outra de ofender. Tratava-se simplesmente de um acidente de percurso, inesperado e apenas embaraçoso, apesar de divertido, condições que, a rigor caracterizam uma gaffe em toda sua plenitude.

A gaffe costuma também ficar circunscrita aos contextos da diplomacia e da vida social regida por regras rígidas de comportamento e que costumam ser colocadas debaixo da jurisdição de duas outras antigas e solenes palavras ordenadoras do comportamento humano em condições públicas formais: protocolo e cerimonial. Um imbróglio financeiro, um erro médico, uma imperícia de pilotagem não seriam colocados debaixo do mesmo guarda-chuva que cobre as gaffes.

Assim, uma gaffe seria a quebra das regras do jogo aceitas para reger situações em que a espontaneidade do comportamento é substituída por códigos artificiais de decoro e propriedade. Uma verdadeira trapalhada reclama a violação pública e indisfarçável desses códigos o que ajuda a revelar, em alguma medida, seu artificialismo e as pretensões dos atores envolvidos.

Não temos, entre nós, uma palavra vernácula que diga o que a palavra gaffe resume e que passo a grafar, como devo, com apenas um “f” e eliminando as aspas de que me servi até agora. Ao fazê-lo, confiro à palavra merecidos foros de nacionalidade.

Os franceses contam ainda com uma outra expressão de sentido muito próximo que é faux pas e os de língua inglesa além de se apropriaram, com naturalidade, das duas expressões originalmente francesas empregam também a palavra blunder com um sentido muito próximo dos galicismos que eles, como nós, incorporaram ao uso corrente.

A palavra gafe sobrevive porque descreve, como vimos, um tipo claro de situação. Por sua natureza mesma uma gafe não produz resultados catastróficos nem efeitos duradouros. Costuma esgotar-se – quando chega até lá – nos domínios da chamada petite histoire e sua repercussão tem dimensões e consequências limitadas. Dito em outras palavras, as gafes não vão muito longe e não consigo lembrar-me de crises ou guerras ou desentendimentos permanentes e profundos entre povos que tenham começado ou derivado primariamente de gafes.

Continuam hoje a ser numerosas e mais visíveis porque uma parte da mídia que cobre o cotidiano das relações internacionais e os grandes acontecimentos mundanos depende da identificação dos passos em falso dados, das pisadas na bola, das palavras fora de hora e de contexto para ganhar sua vida. Como há papparazzi que estão aí para registrar a imagem fotográfica reveladora e embaraçosa, há numerosos jornalistas que são, no sentido mais preciso das expressão, caçadores de gafes.

O que faz o encanto de uma gafe é que ela expõe ao ridículo uma personalidade do mundo da autoridade formal em um momento em que seu gesto ou sua palavra se fazem cômicos pelo contraste entre a solenidade da ocasião e a trapalhada em que alguém se viu envolvido seja como ator, espectador ou simplesmente como vítima.

A comunidade dos que cometem gafes certamente inclui todos nós. Mas existem gaffeurs emblemáticos, e três nomes me parece que devam ocupar as posições mais altas deste pódio: George W. Bush, o duque de Edimburgo e o nosso ex-presidente João Batista de Figueiredo. Dos três, apenas o marido da rainha da Inglaterra continua em cena e já nos brindou com 70 anos de gestos inadequados, palavras inoportunas e um desastrado sentido de humor.

A escolha desses trapalhões não foi fácil e estive tentado a incluir também na lista dois pitorescos líderes da então União Soviética: Nikita Krutschev que teve o gesto que até hoje não foi superado (e que o coloca no Olimpo das gafes diplomáticas) de tirar os sapatos no plenário na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York e depois batucar com eles sobre a mesa para protestar a não aceitação de projeto que, se adotado, retiraria do secretário- geral da ONU toda a capacidade (que já é reduzida) de atuar em favor da paz e da segurança internacionais e a ele juntar Boris Yeltsin protagonista de vários episódios em que a vodca, e não Marx ou Lênin, inspiraram o chefe da então outra superpotência nuclear.

Excluí também os líderes mais manifestamente folclóricos e caricatos porque não se trataria em cada caso de identificar gafes mas de reconhecer que eram em si mesmos personagens farsescos em que tudo ou quase tudo era teatralmente absurdo. Assim, dou adeus a Idi Amim Dada, a Mobutu Sese Seko , a Muammar Ghadafi e, por que não?, a Rafael Leonidas Trujillo, que foi o ditador caribenho mais frondoso disputando essa posição com os Somoza, da Nicarágua e com o não menos sinistro Papa Doc.

Entre os três personagens que escolhi, creio que a medalha de bronze deve ficar com o general Figueiredo. Teve gafes antológicas, e suas frases, como ao afirmar que se recebesse salário mínimo daria um tiro na cabeça e que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro de povo, são gafes de dimensão verdadeiramente antológica. Há outras, há outras. No julgamento dessa categoria, Jânio Quadros perdeu, por uma cabeça, a corrida com ele.

Com a medalha de prata, fica o presidente George Walker Bush, para quem a língua inglesa representava um adversário mais temível do que Saddam Hussein ou Osama bin Laden. Suas contribuições para o anedotário político de Washington não tem rivais na memória recente e sua partida de volta para o Texas desempregou um bom número de comediantes que se haviam especializado em tentar imitar seu estilo.

Acho que o Oscar da categoria, entretanto, deve ficar, muito merecidamente, com o duque de Edimburgo. Enquanto a Rainha Elizabeth II se faz cada vez mais sábia e de alguma forma a encarnação mesma das grandes virtudes de sua gente o marido é, quase sempre, impertinente, inoportuno e um especialista em gafes tendo refinado seu talento ao longo das últimas seis décadas.

Sua especialidade é fazer comentários condescendentes e, na melhor hipótese, de um humor juvenil sobre os povos que visita e as culturas a que é exposto e cujos valores e complexidades não entende o que faz com que sua capacidade de ser politicamente incorreto seja extraordinária. Talvez seja no mundo de hoje o último expoente de uma visão eurocêntrica estreita, e seu olhar vê na diversidade cultural do mundo não uma fonte inesgotável de criatividade, mas uma manifestação risível de primitivismos e excentricidades de todo tipo.

Desdenha o novo, despreza a diversidade e vestido de almirante navega pelos mares da diplomacia, de recife a recife, e vai ofendendo com perfeita consistência a torto e a direito.

Com o Brasil, tem antecedentes perigosos. Em uma visita que nos fez, disse que os próprios brasileiros são o maior problema que o Brasil tem a enfrentar. Perguntou a um nosso oficial general que achou excessivamente condecorado onde havia ganhado as medalhas. A resposta do ofendido foi certeira, mas não sei se foi traduzida na hora: “Certamente não ganhei minhas condecorações na cama de um Palácio.”

Ao premiar esses três, sinto que cometi uma imensa injustiça com outros candidatos não menos merecedores. Penso em Sarah Palin afirmando, como credencial para ser vice-presidente dos Estados Unidos, poder ver, de sua janela no Alasca a costa da Rússia. Penso em Gerald Ford afirmando, em um debate presidencial, que a União Soviética, nos anos 70 e 80 não exercia sua hegemonia sobre os países da Europa do Leste, então membros do Pacto de Varsóvia e do Comecon. Há Ronald Reagan anunciando a um microfone que não sabia que estava ligado que tinha ordenado que um ataque nuclear contra Moscou fosse iniciado em cinco minutos.

Lembro-me da afirmação do presidente Lula: “Um dia acordei invocado e telefonei para o presidente Bush.” A conversa que se seguiu talvez tenha sido o momento mais delirante da chamada diplomacia presidencial, que certamente não foi concebida para acolher esse tipo de impulsos. O risco com que me deparo é o de terminar dando uma dimensão ampla demais ao conceito de gafe e talvez dar a elas uma relevância maior do que merecem no desenho da tapeçaria da vida diplomática.

Não devo, também, a pretexto de investigar as gafes nos fazer embarcar nesse ship of fools como muitas vezes parece ser a diplomacia mundial em que estamos todos envolvidos de uma maneira ou de outra. O outro risco é o de procurar fazer enumerações longas e dividir mesmo as gafes por categorias o que retiraria delas seu ingrediente essencial da imprevisibilidade e a tendência que carregam consigo de nos levar, sem remédio, em direção ao absurdo.

O que é, para mim, o ingrediente mais essencial de uma gafe é a distância que se observa entre o formalismo de uma solenidade e o desastre ou desastres que ali vão acontecer criando-se aquilo que seria, no sentido mais rigoroso da palavra, uma comédia de erros.

Por isso, o cenário de uma gafe deve ser, quase que obrigatoriamente, aquele em que o decoro e o formalismo deveriam reinar. Hoje, a atividade diplomática talvez seja uma das poucas, nesses tempos bem menos formais em que vivemos, em que a pompa e a circunstância continuam a ser mantidas e onde esse edifício pode colapsar, com estrépito, por causa de uma espetacular gafe.

O que faz uma gafe irresistível é, no fundo, não só a imprevisibilidade da situação que se cria como a capacidade que temos de agravar momentos já em si constrangedores e, no esforço de corrigi-los, provocar situações de desordem que era exatamente o que se queria evitar. Parte quase que inseparável de uma gafe é o esforço (quase sempre inútil) que se faz para disfarçar o que houve e tentar, também quase sempre sem sucesso, montar algum tipo de operação de controle de avarias e redução de danos.

Outra obrigação de uma gafe digna do nome é que ocorra em momento de alta visibilidade. A publicidade é inseparável do desastre. Dito em outras palavras, uma gafe que se possa ocultar ou disfarçar escapa da definição e deve ser vista dentro de outra categoria.

Não sou um colecionador de gafes. Guardo algumas na memória como advertência e pela capacidade que têm de me surpreender, mesmo depois de muitas repetições. Tenho comigo a antiga imagem de Neville Chamberlain então primeiro-ministro da Grã-Bretanha voltando a seu país e mostrando ao mundo o texto do Tratado de Munique, que acabava de assinar com Hitler e que seria a garantia “da paz em nosso tempo”. A Segunda Guerra Mundial, poucos meses depois, foi a resposta dolorosa a essa declaração.

Há na memória diplomática uma afirmação que me parece a mais absurda entre todas em que o então primeiro-ministro britânico Arthur Balfour (existem outras atribuições) recomendava que “árabes e judeus se entendessem e, ao fazê-lo mostrassem um verdadeiro espírito cristão”. O que se seguiu a esse glorioso disparate é do conhecimento geral. Nem os irmãos Marx em seus melhores momentos poderiam fazer nada comparável.

Fui ator principal ou acessório em não poucas gafes. Vou me poupar de lembrar as mais constrangedoras. Quero, contudo, contar uma que talvez não mereça esquecimento. Estava em Roma fazia bastante tempo chefiando a Delegação brasileira à Conferência Mundial da Pesca, evento que era patrocinada pela FAO.

Organizamos, em homenagem às delegações participantes, uma recepção na nossa Embaixada aproveitando aqueles recintos suntuosos da Piazza Navona.

Minha mulher e eu recebíamos os convidados que desfilavam ordenadamente e tinham sua nacionalidade anunciada. O delegado do Irã era um clérigo de alta hierarquia e, quando ele se aproximou, minha mulher estendeu, com naturalidade, a mão pra cumprimentá-lo. O visitante não podia pelos códigos de sua cultura e as restrições de sua religião retribuir o gesto, coisa que ela não sabia. O visitante colocou, como lhe cabia, as duas mãos sobre seu coração e inclinou-se levemente. Minha mulher interpretou o gesto como indicação de que o nosso convidado estava tendo algum tipo de mal-estar cardiológico e, em lugar de recuar e entender o que acontecia, avançou, desta vez com as duas mãos estendidas em gesto de afetuoso socorro. O eclesiástico xiita visitante inclinou-se novamente (desta vez mais profundamente ) e em seu rosto havia um ricto, agora doloroso, que reforçava a hipótese de algum, problema médico.

Uma jovem e bonita diplomata brasileira que me assessorava se juntou à equipe, agora de socorro, e o Aiatolá viu confirmados seus piores temores. Um grupo, seguramente satânico, de brasileiras pintadas e decotadas conspirava para prejudicá-lo neste e no outro mundo. Vi com o rabo do olho que o iraniano nos deixou logo, certamente aliviado.

Juntei aqui alguns exemplos: gafes que são simplesmente o resultado de equívocos; outras que decorrem de ignorar ou não levar em conta os códigos e costumes do outros. Aquelas outras que são o resultado de certo menosprezo pela diversidade das maneiras que temos de ser e interagir. Aquelas que são o momentâneo (espero) triunfo do absurdo e do caos sobre aquela racionalidade aparente com a qual pretendemos conduzir nossas vidas e projetos.

Não esgotei o assunto porque ele é, a rigor, inesgotável, e os exemplos se renovam a cada dia. Cada leitor fica convidado a juntar suas gafes favoritas. Resisti também a qualquer tentativa de categorização rigorosa. As gafes são, também, uma gloriosa manifestação da liberdade humana de errar e confundir e, por esse motivo, devem ser protegidas para que nunca se tornem uma espécie ameaçada.

Esta matéria faz parte do volume 22 nº1 da revista Política Externa
Volume 22 nº 1 - Jul/Ago/Set 2013 Coreia do Norte

A roupa nova do rei da Coreia

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