Política Externa

A agenda internacional do Brasil– A política externa brasileira de FHC a Lula* de Amaury de Souza

A agenda internacional do Brasil– A política externa brasileira de FHC a Lula*

A política externa do governo Lula vem sendo objeto de controvérsia entre especialistas, alimentada por críticas formuladas por acadêmicos, jornalistas e, especialmente, diplomatas que ocuparam posições destacadas sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso.

Os críticos argumentam que, em razão de decisões inspiradas mais pela ideologia (do Partido dos Trabalhadores) do que pelo frio cálculo do que interessa ao país, a política exterior brasileira estaria se afastando de consensos básicos que a elevaram à condição de política de estado, cuja continuidade independe da mudança periódica dos ocupantes do Palácio do Planalto, para se transformar em política de governo, fortemente influenciada pelo partido do presidente.

O estudo de Amaury de Souza, baseado em pesquisa de opinião conduzida pelo autor, em 2001 e 2008, permite matizar esse diagnóstico um tanto pessimista. Ele mostra que há uma grande área de consenso entre aqueles que fazem parte do universo pesquisado e que denominou “comunidade brasileira de política externa”, ou seja, o conjunto de pessoas que, ocupando distintas posições, participam da tomada de decisões sobre as relações internacionais do país ou a influenciam. Dela fazem parte membros do Executivo e do Legislativo; líderes empresariais, sindicais e de organizações não governamentais; empresários; acadêmicos e jornalistas; e conselheiros e consultores do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), que patrocinou o estudo. Ele mostra, também, que se trata de uma convergência relativamente duradoura, inalterada com a ascensão de Lula à presidência.

Os membros da “comunidade brasileira de política externa”, em 2008 como em 2001, convergem com relação às linhas mestras da política exterior: a aspiração de transformar o país em ator global; a defesa de uma ordem internacional multipolar; a aposta no multilateralismo, na busca de soluções negociadas e no fortalecimento dos regimes e organizações internacionais; a importância de esforços para democratizar os processos de decisão das estruturas internacionais, em especial do Conselho de Segurança das Nações Unidas; o fortalecimento do Mercosul e a procura por mecanismo de integração da América do Sul. Convergem, também, na percepção de que a abertura econômica foi benéfica; que Estados Unidos, China e Argentina são os interlocutores mais importantes do país, e que aquecimento global, tráfico internacional de drogas e o protecionismo dos países ricos são nossos principais desafios.

O estudo revela que as dissensões existentes não são recentes; já existiam durante o governo FHC. Elas dizem respeito a diferenças de avaliação quanto à melhor estratégia internacional para o país, dada a globalização. Souza distingue duas grandes correntes de opinião, entre os entrevistados, a primeira, que denomina liberalizante, seria mais otimista com relação à capacidade de regimes e organizações multilaterais de reduzir as assimetrias de poder presentes no sistema internacional. A segunda, que ele chama, com alguma impropriedade, de autonomista seria mais desconfiada da capacidade equalizadora das instituições internacionais e, em conseqüência, defenderia a necessidade de aumentar o cacife do país, no jogo multilateral, por meio de coalizões Sul-Sul e da constituição de um bloco sul-americano, assentado na aproximação política e na integração logística e comercial da região. Convergência de objetivos e dissensão quanto aos meios de realizá-los definiriam o contexto de idéias a enquadrar o debate atual sobre a política externa.

Entretanto, Agenda Internacional do Brasil nos dá mais do que a possibilidade de leitura mais fina do debate político em curso. Ele nos oferece um mapa detalhado e acurado da distribuição de opiniões dos que decidem ou influem em nossa política exterior a propósito de cada um dos tópicos da agenda internacional do Brasil. Das estratégias de inserção internacional desejáveis à avaliação das negociações em Doha; dos objetivos mais amplos da política externa aos formatos desejáveis para o Mercosul, nenhuma questão relevante foi deixada de lado.

Por outra parte, a comparação entre dois pontos no tempo, 2001 e 2008, permite separar, com mais precisão, o que é opinião contingente do que são percepções mais cristalizadas e permanentes; um problema sempre presente nos estudos de opinião pública.

O tamanho das amostras – 100 pessoas em 2001 e 150 em 2008 – mais do que suficiente para caracterizar atitudes e percepções da “ comunidade brasileira de política exterior “, não permite um tratamento desagregado pelas categorias específicas – membros do poder executivo, do legislativo, do mundo empresarial, etc., dificultando a identificação dos grupos associados às visões divergentes. Não chega a ser um defeito em um estudo tão rico em informações e cuja leitura é importante para quem quer ou precisa saber mais sobre as idéias mestras que estruturam a política exterior brasileira.

*CEBRI-Campus & Elsevier, Rio de Janeiro, 2009, 191 pags

Esta matéria faz parte do volume 18 nº4 da revista Política Externa
Volume 18 nº 4 - Mar/Abr/Mai 2010 O clima pós-Copenhague

Copenhague: um “post-mortem”

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