Política Externa

Fantasia delirante e paranoia masoquista: um livro e um filme sobre coreanos e americanos

por em 10/05/2013
Fantasia delirante e paranoia masoquista: um livro e um filme sobre coreanos e americanos

Adam Johnson, Jun Do* (The Orphan Master’s Son) (romance)
Prêmio Pulitzer 2013 para ficção

Assalto à Casa Branca (Olympus Has Fallen) (filme)
Direção de Antoine Fuqua, USA, 2013

Jun Do é criado em um orfanato da região de Chongjin e tem nome reservado aos órfãos, de um dos Mártires da Revolução. Mas não é órfão. A mãe, porque bonita, foi raptada por homens da capital Pyongyang. O pai é chefe do orfanato (única maneira de manter o filho), chora bêbado cada noite a falta da mulher, e trata Jun Do com mais crueldade que os demais meninos. Ainda adolescente, Jun Do treina dentro de um túnel comprido, para aprender a distinguir inimigos no escuro. Do túnel sai para o mar, de noite, até a costa japonesa, para sequestrar japoneses, homens e mulheres, e os detalhes são horrendos.

Viver em túnel? Estranho começo deste romance premiado.[1] Ambientado inteiro na Coreia do Norte (oficialmente a República Democrática Popular da Coreia), fora cenas hilárias duma visita oficial de altos funcionários norte-coreanos ao Texas, o livro recebeu o Prêmio Pulitzer no momento de auge da tensão entre o norte e o sul da península. Pronunciamentos belicosos do ditador norte-coreano Kim Jung-un desta vez incluíam mísseis apontados para as bases dos Estados Unidos no Pacífico, fim do armistício de 1953 e “estado de guerra” com a Coreia do Sul, e recomendações para a retirada de estrangeiros em Pyongyang, fazendo manchetes nos jornais do mundo todo. Por si só isso leva a que se queira entender o que está acontecendo no país da dinastia Kim.

Túneis e subterrâneos reaparecem mais tarde no romance. A imaginação de Johnson, ao menos nesse detalhe, não precisou voar longe. A Coreia do Norte é tida como o país mais subterrâneo do mundo, suas fábricas de armamentos trabalham em boa medida enterradas, seu exército treina em túneis, e em mais de uma ocasião foram descobertos túneis sob a zona desmilitarizada entre o norte e o sul. Subterrâneos também os testes nucleares realizados em 2006, 2009 e 2013.

As praias da costa oeste do Japão, a algo mais que 1.000 km, são alcançáveis por barco em um dia, para norte-coreanos dispostos a arriscar afogamento, e todo mundo sabe que há antigas raízes históricas para “estranheza” de coreanos para com japoneses. O império japonês anexou a península coreana em 1910, que já controlava desde o fim da guerra russo-japonesa em 1905, e seu domínio só acabou depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

Mas o ritmo se acelera: a história, do começo ao fim, prende o leitor de tão atroz e absurda. A Parte 1, A biografia de Jun Do, conta deste homem comum e solitário que obedece a quaisquer ordens, por pior que seja a tarefa. Nas mais absurdas circunstâncias e minúcias, a relação básica do indivíduo é com o Estado, família vem depois, e neste sentido, segundo Johnson, todos são em alguma medida órfãos.

Depois do sucesso nos sequestros, Jun Do é incumbido de estudar inglês e é lotado em um barco de pesca, privilegiado em relação ao resto da tripulação com um receptor que ele mesmo tem de consertar, para captar transmissões em inglês e reportar tudo o que ouve. O barco, velho fornecimento soviético, parece estar sempre à beira do naufrágio.

Pescam qualquer coisa, sobretudo tubarões, cujas barbatanas se destinam à China. Quando são abordados por uma patrulha naval dos americanos, estes suspeitam que Jun Do seja espião, pois não tem a tatuagem da mulher no peito nem mãos calejadas como os demais. Mas, após interrogatório, os oficiais concluem que os coreanos são inofensivos e os deixam partir. No horizonte, a frota de porta-aviões americanos.

De volta ao mar, Jun Do continua solteiro, mas seu capitão, para poupá-los de novos interrogatórios, tatua no peito dele o rosto de Sun Moon, a mais popular atriz e cantora do seu país. A tatuagem trará a ele peripécias imprevisíveis, desde que uma loira curiosa que participa da recepção no Texas conclui, com a ajuda do serviço de informação, que ele é nada menos que o comandante Ga, o segundo homem mais poderoso, marido de Sun Moon. E o rosto tatuado no corpo vai eventualmente lhe trazer o amor de Sun Moon, da maneira mais inusitada.

O suspense se mantém porque a cada momento acontece algo surpreendente, mas que a posteriori se verifica derivado de situações anteriores. Um carregamento de tênis flutuando no mar é içado pelos pescadores, mas só servem os tamanhos femininos e notam que “americano calça 46”; captam emissões de rádio das mais diversas, russas, japonesas, e de duas remadoras americanas cruzando o oceano sozinhas, além de mensagens que não vêm de lado nenhum e Jun Do imagina vindas do fundo do mar.

Mais tarde, de volta ao porto de origem, a tripulação triste devolve ao mar os tênis preciosos, de medo de represálias das autoridades, pois não conseguem inventar justificativa patriótica para o achado. E, muitos anos depois, Jun Do reconhece a remadora americana, cativa do Grande Líder em Pyongyang, a ser usada como moeda de troca na visita de uma delegação americana.

Jun Do, uma página em branco que se preenche em cega obediência, pouco a pouco vai tendo indagações. Chega a ser enviado na comitiva ao Texas, de intérprete. Só o relato das instruções a Jun Do sobre como deve se comportar com americanos, inclusive homossexuais e cães, e os diversos momentos em que Johnson caricatura como os coreanos veem os americanos, e vice-versa, já valem a leitura.

Na volta da viagem, após o interrogatório de balanço da operação, é colocado em um velho caminhão soviético como membro de uma equipe de “coleta de sangue”, e termina prisioneiro em um hospital longínquo, que ademais está em zona de mineração onde se busca urânio.

Impossível resumir a Parte 2, As confissões do comandante Ga, nem ao menos com grosseiras pinceladas como usamos para a Parte 1. O enredo – ou no caso o que de fato acontece – é revelado ao leitor de ângulos diferentes (a la Rashômon), pelas memórias de um policial que interroga prisioneiros sob tortura, pelos dossiês das confissões que formam biografias, pelas notícias e comentários oficiais regularmente transmitidos em alto-falantes, pelas próprias lembranças do comandante Ga (de fato Jun Do fugido da prisão nas botas do comandante) e de como chegou até Sun Moon e se construiu a confiança entre eles, e pelas memórias extraídas sob tortura de outros membros da delegação ao Texas, que Jun Do não imaginara presos.

Assim vai se montando o quebra-cabeça entrelaçando vários relatos dolorosos. O comandante Ga está preso de novo, agora depois de ter descoberto o amor, e ter conseguido que Sun Moon escapasse no avião americano. O comandante Ga original, valente patriota e bissexual enrustido, está morto porque se descobriu seu plano de fuga (que não incluía Sun Moon). Entre os presos, vários dos altos dignitários que estavam presentes no aeroporto quando Sun Moon, ali levada pelo Grande Líder para cantar para os americanos, conseguiu fugir.

As verdades mais profundas para as quais Johnson aponta não estão nas grandes linhas do enredo mirabolante, mas em cada cena, nos diálogos, na linguagem, na paisagem. É impressionante a acrobacia literária com que Johnson mostra como os vários personagens mudam sutilmente ao longo da vida, não na aparência, mas nas percepções e sentimentos, até que consigam entender o que é “fazer suas próprias escolhas”.

Ao longo do romance, Jun Do se transforma gradualmente de menino ingênuo em observador perspicaz e intérprete sofisticado de todo detalhe de comportamento.
Como declarou na conversa com o editor da Random House, Johnson quer “descobrir a dimensão humana de uma sociedade tão difícil de captar”. Transparece de vez em quando inocência, poesia, beleza rude.

Mas a realidade mais imediata e dura também está toda lá: a miséria e a fome, em particular a grande fome dos anos noventa (como na cena em que “o gosto da fome é de pétalas de rosa” no roubo das flores do jardim, e no que os alto-falantes chamam de “Marcha Árdua”); desnutrição e frio, muito mais nas áreas montanhosas longe da capital; tortura em prisões subterrâneas e campos de trabalho forçado para prisioneiros políticos; recrutamento à força para as colheitas; hospitais que sofrem com falta de equipamento; privilégios da elite (desde que se escape da execução nas conspirações, pois, como se sabe, a Coreia do Norte tem pena de morte); doações internacionais de alimentos (falam de “arroz da ONU”); comércio ilegal para consumo de luxo da elite ou então só para sobreviver; propaganda oficial e controle da comunicação, na propagação da Juche, a doutrina oficial ultranacionalista e de culto à personalidade; a mentira como forma de sobreviver e avançar (como na solidão do policial que cuida comovido dos velhos pais quase cegos e não consegue que eles confiem nele, pois respondem a tudo com slogans dos alto-falantes); escassez de eletricidade driblada nos turnos entre setores e desligamento da luz à noite depois de certa hora (como se deduz da conhecida foto de satélite da península com o norte escuro e o sul iluminado); equipamento e caminhões velhos da era soviética; sequestros, desertores e refugiados; minas e a busca de urânio (extração de carvão e ferro são importantes na RDPC); militarização de longa data chegando ao cotidiano; as relações especiais com o Japão e a China (da qual depende para muitas de suas importações, inclusive petróleo).

De tanta minúcia, Johnson esqueceu de ter alguma bicicleta em seu romance. Consta que há muita bicicleta na Coreia do Norte.

É difícil confrontar com documentos sua sátira política, mas encontraremos evidência esparsa do que Johnson aponta. Na Random House Trade Paperback Edition consta advertência de que mesmo quando aparecem figuras da vida real as situações são fictícias e qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Firula diplomática esquecida na edição brasileira, que omitiu também a conversa entre o editor da Random House e Adam Johnson no fim do original inglês, em que este explica a relação entre o que ele inventou e o que de fato se pode saber. Segundo Johnson, poucas coisas sobre a Coreia do Norte são verificáveis além das imagens de satélite e os relatos dos desertores, sempre traumáticos. Esses testemunhos de refugiados (e só na Coreia do Sul há milhares deles) são a sua principal fonte. Para ele, a Coreia do Norte é uma narrativa de trauma em escala nacional.

Já para o filme, Assalto à Casa Branca (Olympus Has Fallen), dirigido por Antoine Fuqua, é dispensável o aviso de “qualquer semelhança é coincidência”, ainda que seja também uma narrativa do absurdo. Nem a tensão norte-coreana no mundo real, no momento do seu lançamento, consegue lhe conferir um mínimo de realismo ou ironia.

O ataque à Casa Branca começa aproveitando-se da visita oficial de um primeiro-ministro da Coreia (parece do Sul), mas os atacantes não se identificam como sendo do norte, e o governo da Coreia do Norte nega participação. Entre os líderes terroristas está um coreano e um líder americano de oposição, que em feroz discurso antiamericano responsabilizam os Estados Unidos pela divisão norte-sul e por impedir que os coreanos se integrem, e exigem a retirada das tropas americanas da zona desmilitarizada.

O filme não distingue entre Coreia do Norte e Coreia do Sul e é simplista na menção do ideal de integração entre coreanos do norte e do sul. A divisão é um remanescente da Guerra Fria, desde que, em 1945, a península foi dividida em duas zonas de ocupação: uma soviética, a outra americana. A Guerra Fria é que foi diluindo a esperança de uma Coreia independente e unificada.

O bando de terroristas contorna a segurança com facilidade espantosa. Em poucas horas, com imensa força técnica, aviões, helicópteros, tanques, mísseis (e uma profusão de efeitos especiais, é claro) transformam em caos e ruínas a Casa Branca, depois de castrar o Monumento de Washington, em espetaculoso estilo 11 de setembro.

Quando o centro de Washington está fumegando e semeado de corpos, o presidente, o vice, e altos funcionários de governo capturados e sofrendo tortura para entregar o código para ataque nuclear (para quem achou a demanda incoerente com o enredo até então: não é para lançar os mísseis, é para deixá-los derreter em seus silos e ensinar os americanos o que é passar fome), quando está insustentável a briga entre partidários e opositores de negociações – eis que se ouve a notícia de que o ex-guarda-costas do presidente conseguiu se infiltrar para dentro da Casa Branca.

Ele tem um plano de salvação. Tudo o que ele quer da vida é arriscá-la para se redimir do sentimento de culpa de ter falhado em situação anterior, quando não conseguiu evitar que caísse no abismo o carro do qual a mulher do presidente não teve tempo de sair.

No fim, este herói, sozinho, apenas com armas, coragem, patriotismo e, nas palavras de Peter Bradshaw, crítico de cinema do The Guardian (18 de abril de 2013), “um par de cojones do tamanho das luas de Saturno”, consegue salvar o filho do presidente, o presidente, a Nação e a democracia. O presidente é branco e não é de nenhum partido que se possa identificar. Mas quem faz o papel do presidente do Congresso que assume a Presidência quando o comandante em Chefe e seu vice estão amarrados, é o popular e premiado ator negro Morgan Freeman. Tampouco ele, e a referência à etnia do atual presidente, conseguem conferir verossimilhança ao filme de Fuqua.

A comparação é até injusta. Quem quiser saber de Coreia do Norte estará muito melhor com o realismo fantástico de Adam Johnson, The Orphan Master’s Son. É, como tantas vezes, uma história de amor impossível. Inusitados são os eventos dos quais se nutriu e por que ele acabou sendo impossível. Mais que tudo, é um grito intenso contra a repressão política.

* Editora Lafonte Ltda., São Paulo, 2012, 541 pp. O original em inglês, vencedor do Prêmio Pulitzer, é Adam Johnson, The Orphan Master’s Son, Random House, Nova York, 2012, 457 pp.

Notas

[1] Será que o título inventado para a tradução brasileira, Jun Do: uma saga de amor, esperança e redenção no país mais fechado do mundo, ajudará as vendas? O título original, que é mais ou menos O filho do diretor do orfanato, seria menos enganoso para um livro que estraçalha a retórica vazia.

Esta matéria faz parte do volume 22 nº1 da revista Política Externa
Volume 22 nº 1 - Jul/Ago/Set 2013 Coreia do Norte

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