Política Externa

The world is flat: a brief history of the twenty-first century de Thomas L. Friedman

por em 18/12/2007
The world is flat: a brief history of the twenty-first century

O mundo não é, como no poema, “uma bola que rebola lá no céu”, o mundo é plano. É o que Thomas Friedman, prestigioso colunista do The New York Times, está anunciando ao mundo, em livro, palestras e conversas mundo afora. Inclusive em palestra organizada pelo FMI, quem sabe a título de alerta para o duplo déficit dos EUA. O enredo do livro é que Cristóvão Colombo, no fim do século XV, não conseguiu chegar à Índia partindo da Europa por uma rota ocidental, mas mesmo assim pôde voltar e confirmar para seu rei a descoberta de que o mundo é redondo; mas que ele, Friedman, cinco séculos depois, partiu para a Índia pela rota oriental e voltou para casa anunciando sua descoberta apenas para sua mulher Ann, cochichando: “Docinho, acho que o mundo é plano”.

Quem primeiro o teria feito enxergar um mundo aplainado foi um capitão de indústria da Índia, Nandan Nilekani, CEO da Infosys, empresa indiana que está entre as grandes da tecnologia da informação. Além de Nilekani, que Friedman foi entrevistar em Bangalore, todas as histórias de empresas americanas que estão terceirizando para bases na Índia a elaboração de seus programas de computação e muito do que pode ser processado com esses programas, como contabilidade, declarações de imposto, administração de estoques, serviços de atendimento por telefone, teleconferências, ensino interativo via Internet, e mais. Aliás, enquanto se pode dizer que o mundo anda acometido de uma “mania de China”, a de Friedman tende a ser “mania de Índia”.

Para revelar ao mundo o seu achatamento, Friedman conta centenas – serão milhares? – de pequenos contos recolhidos em suas viagens, sobretudo por países da Ásia e por várias partes dos Estados Unidos, visitando empresas e entrevistando executivos, e algumas vezes operários. Basicamente, é a concorrência entre indivíduos que está aplainando o mundo. Ela já não se dá dentro de um país, mas sim derrubando fronteiras. É “a arena competitiva sendo nivelada” – outra de suas expressões muito repetidas no livro.

Fora o artifício retórico que acaba cansando, quando Friedman repete de página em página que o mundo ou já é chato ou está se achatando, na verdade o que ele descreve é como o mundo está se globalizando cada vez mais. É mais um na pilha cada vez mais alta dos livros sobre globalização. Mas ele anuncia uma nova etapa da globalização, fundada numa “revolução da informação” cujos efeitos, gerados pela horizontalização planetária dos contatos e do acesso ao conhecimento, estariam apenas começando. Esta etapa, que Friedman classifica como Globalização 3.0, representaria tal diferença de grau que já seria uma espécie diferente, merecedora de um novo nome, a etapa em que o “mundo se tornou plano”. Na Globalização 1.0, de 1492, quando Colombo abriu o comércio entre velho e novo mundo, até mais ou menos 1800, países e governos é que foram os agentes da mudança na direção da competição mundial. Em Globalização 2.0, mais ou menos de 1800 a 2000, as companhias multinacionais são a força dinâmica que traz a integração, e gradualmente passa o mundo a ser a base de operações das empresas, e não a nação. O caráter único da Globalização 3.0 seria o novo poder dos indivíduos para colaborar e competir globalmente. Esse novo poder vem das forças que estão achatando o mundo, que seriam dez, a começar pela queda do Muro de Berlim, porque levou a que se integrasse uma parte bem grande do mundo que antes estava isolada. Mas a força maior de achatamento são os bens de informação, as redes na Internet que se apoiaram na infra-estrutura de computadores, e os novos “instrumentos” da informática que surgem, se difundem e se interligam e, por assim dizer, tornam o mundo cada vez menor.

Este é sem dúvida um livro bem diferente de outros sobre globalização. Em favor de seu argumento, Friedman não se vale de cifras agregadas, e sim, de mil e uma estórias. Uma das estórias, por exemplo, é a da Virgem de Guadalupe. Excepcionalmente, Friedman conta uma do México, pois a maioria de seus exemplos é da Índia e da China. Que ele estava almoçando com jornalistas mexicanos na primavera de 2004, e fez a pergunta que já havia feito antes centenas de vezes, em outros países: quando é que vocês descobriram que o mundo é plano? Um deles contou que viu que estava em um mundo novo quando soube de reportagens de que estatuetas da santa padroeira do México, a Virgem de Guadalupe, estavam sendo importadas da China. Acrescenta Friedman: “se a China consegue fazer [sua santa padroeira] e transportá-la cruzando o Pacífico inteiro mais barato do que você consegue produzila aqui dentro, você está vivendo em um mundo plano”.

Friedman não tenta definir seu conceito de “mundo plano”. É assim que ele o apresenta, por meio desses relatos de experiências. Pois as lanternas para o ramadã no Egito também estão sendo feitas na China, e esse relato (p. 310-12) é ainda mais pitoresco, pois os chineses incorporaram tecnologia às lanternas, que passaram a tocar músicas tradicionais do ramadã, e se tornaram as preferidas. Vale a pena ler as estórias, em geral sobre tecnologia bem mais complexa do que de santas, lanternas e bruxas.

Bruxas pequenininhas de plástico, do tamanho de um dedão, coloridas, uma graça de tão horrorosas, estavam sendo vendidas numa loja de umbanda em Santa Cecília, São Paulo, na semana do Halloween, neste outubro de 2005. A surpresa não foi a de mais um sincretismo: o selo na bruxinha dizia “made in China”. Enquanto isso se manifestavam os que querem proibir Halloween e decretar um dia de saci-pererê. Então, pela “definição” friedmaniana aplicada à Virgem de Guadalupe, o Brasil mostra um mundo mais plano ainda, aplainado por dois lados. Só que para um caso desses, a recomendação de Friedman no livro é que reclamação não resolve, levantar muros contra a importação só deixa todo mundo mais pobre, o que é preciso é aprender a produzir a bruxinha industrial aqui mesmo mais barato ainda e exportar para os EUA, ou então compensar sua entrada exportando para o mundo equipamentos hospitalares, por exemplo; que cada um trate de fazer melhor e mais barato.

Entre as mil e uma experiências relatadas não há nenhuma brasileira, pelo visto Friedman não visitou fábricas ou estabelecimentos agropecuários no Brasil. Mas o Brasil é bastante citado, sempre incluído em alguma lista de BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China) ou de emergentes, como país que teve energias liberadas com a queda do Muro de Berlim (por certo um exagero, considerando quanta gente aqui acredita que o Estado com E maiúsculo é que deve resolver tudo, mas quem sabe Friedman sabe de nossas exportações agropecuárias para o que deixou de ser o mundo soviético …); pelo seu acesso à Internet; por suas contribuições à Wikipedia; pelo início de reformas de inserção na economia global; pelo excesso de burocracia (junto com a Índia); como parte da cadeia produtiva da Intel; como um dos seis países do mundo que tem fábricas da Dell.

Friedman parece ao mesmo tempo fascinado e aterrorizado com o mundo global aplainado. Suas estórias muito concretas de como outras pessoas em outras partes do mundo, sobretudo na Índia e na China, estão produzindo bens e serviços melhor e mais barato que nos EUA, e com mais conhecimento e tecnologia incorporados, parecem contadas para assustar. Ele explicita que, como americano, sua maior preocupação é com a performance dos Estados Unidos nesse mundo plano.

Não é verdade que Friedman considere sua Globalização 3.0 universalmente benéfica, simplesmente por interligar todos os centros de conhecimento e permitir que o conhecimento de ponta chegue aos rincões mais longínquos e surpreendentes. Ela está trazendo e vai trazer progresso para o conjunto, mas “Em um mundo plano, a libertação econômica de uma pessoa pode ser o desemprego de outra” (p. 205). Ele apenas deixa claro que reconstruir muros poderá até ser tentado por alguns, e solicitado pelos produtores antigos, mas não vai funcionar. O seu alerta aos jovens americanos, as recomendações que ele daria à sua filha, têm um pouco de desânimo implícito, pois ele acha que eles ainda não abriram os olhos, ainda não percebem o quanto a competição chega por todo o lado e dos pontos mais remotos. Pois ele relata que os jovens americanos sofrem de um hiato de educação e mais ainda de “hiato de ambição”, encaram a boa vida que já têm como um direito natural e dado para sempre, enquanto os jovens na Ásia estudam muito mais matemática e engenharia (e os filhos de asiáticos nos EUA também, e tiram notas mais altas), os altos funcionários de governo na China e em Singapura, por exemplo, são em sua maior parte engenheiros (o livro que a filha dele usa para estudar matemática no colégio vem de Singapura). O que ele recomenda e pede, para lidar com o mundo plano: educação, e mais educação, e quanto mais plano o mundo, mais importa a educação universitária, não uma qualquer, mas de ponta, e em biologia, matemática, engenharia.

O quadro da competição internacional que ameaça os Estados Unidos, como pintado por Friedman, talvez possa, de fato, alarmar um americano: “não é um teste, é uma crise“. “Pense na Microsoft tentando ver como vai lidar com um exército global de pessoas criando software de graça. Estamos entrando na era de uma destruição criadora que tomou esteróides” (p.280).

Vale a pena ler as mil e uma estórias da competição. O livro tem freqüentado as listas de bestseller nos EUA. Mas se vai conseguir se contrapor aos que pedem ajuda para construir muros no mundo plano é outra história.

New York; Farrar, Straus and Giroux, 2005, 488 pp. Esta resenha já estava pronta quando saiu a edição brasileira: O mundo é plano: uma breve história do século XXI. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2005, 471 páginas.

Esta matéria faz parte do volume 14 nº4 da revista Política Externa
Volume 14 nº 4 - mar/abr/mai 2006 A Democracia na América Latina

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