Política Externa

Tributo a Gilberto Dupas

“Vivemos imersos em nossas circunstâncias, fruto da história individual e das permanentes surpresas do acaso. Essa circunstância define continuamente a única e inalienável base sobre a qual podemos caminhar, edificando nossas pequenas construções.”

Gilberto Dupas (2007)

Engenheiro de produção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Gilberto Dupas foi buscar na administração e na economia do desenvolvimento a formação pós-graduada, feita na USP, na Delft University (Holanda) e no famoso curso de especialização em desenvolvimento econômico da CEPAL, em Campinas. Trabalhou no setor público (IPEA); na área privada (como dirigente e consultor); em um organismo internacional (Banco Mundial). Ocupou cargos públicos quando o Brasil se democratizava: foi presidente da Caixa Econômica Estadual e Secretário da Agricultura, durante o governo de André Franco Montoro, em São Paulo (1983-1987).

Mas, quem o conheceu sabe que sua grande paixão foi a atividade intelectual, a que se dedicou com a disciplina, a compulsão metódica e o entusiasmo que lhe eram próprios. As preocupações intelectuais de Gilberto abarcavam grandes questões do presente, para as quais ele sempre buscou explicações estruturais, relacionadas à dinâmica do capitalismo contemporâneo. Publicou 12 livros, entre os quais duas obras de ficção, e organizou muitos outros. Alguns títulos revelam a amplitude de seus interesses: Crise Econômica e Transição Democrática (1987), Economia Global e Exclusão Social (2001), Ética e Poder na Sociedade da Informação (2001), Atores e Poderes na Nova Ordem Global (2005), O Mito do Progresso (2006).

A biografia de Gilberto tem as marcas de uma experiência que não foi apenas individual, mas de parte de sua geração, que entrou na vida adulta mais ou menos à época do golpe militar de 1964 e viveu 20 anos sob o autoritarismo. Para além das diferenças individuais, as circunstâncias políticas, compartilhadas pelas gerações que se formaram nos anos de chumbo, tornaram difícil dissociar a vida intelectual do compromisso político com a oposição anti-autoritária. Nessa experiência, os que, como Gilberto, se situavam na esquerda, descobriram a importância das instituições democráticas e a necessidade de construí-las e protegê-las, fosse no sistema político, fosse no mundo intelectual e acadêmico. Gilberto foi dirigente estudantil e, mais tarde, um intelectual público. Criou e ajudou a manter instituições. Sua paixão intelectual pelas grandes questões mundiais animou o Instituto de Estudos de Economia Internacional, no qual frutificaram os projetos que deram origem a seus livros e artigos mais importantes.

Foi um colaborador da universidade. Como membro do Instituto de Estudos Avançados da USP, contribuiu para firmar aí um grupo de estudos da conjuntura internacional, que se transformaria no GACint (Grupo de Acompanhamento da Conjuntura Internacional), hoje vinculado ao Instituto de Estudos Internacionais. No momento de sua criação, a importância das questões mundiais para a agenda política doméstica apenas começava a ser reconhecida pela academia.

O GACint, que reúne quinzenalmente professores da USP, da PUC, da Unicamp, da Unesp, além de empresários, profissionais das relações internacionais e diplomatas, com distintas lealdades políticas, foi e é um lugar de debates acesos sobre os temas mais controvertidos da conjuntura internacional. Nessa medida, é uma ponte da universidade com os diferentes protagonistas da ação do Brasil no exterior.

Para seu êxito, Gilberto Dupas foi decisivo. Ele foi um coordenador que transmitiu ao grupo seu entusiasmo e vigor intelectual, transformando-o em um fórum de viva interlocução, pluralista e aberta. Sensível à necessidade de dar aos mais jovens formação atenta aos problemas de sua época, Gilberto defendeu sempre que os estudantes de relações internacionais pudessem assistir às reuniões do GACint.

O GACint não foi a única contribuição de Gilberto à USP. Por dois anos, ele participou do Conselho Deliberativo do Instituto de Relações Internacionais, criado em 2004. Foi um conselheiro assíduo, minucioso, exigente e construtivo, empenhado em ajudar o instituto a ganhar perfil próprio e densidade acadêmica. Os estudos internacionais na USP devem a Gilberto Dupas ter-lhe deixado algumas de suas (não tão) pequenas construções.

Esta matéria faz parte do volume 18 nº1 da revista Política Externa
Volume 18 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2009 G-20

Dinheiro, finanças e crise no capitalismo do terceiro milênio

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