Política Externa

Crisis Economics: a crash course in the future of finance*

por em 19/12/2010

Nouriel Roubini e Stephen Mihm

Nouriel Roubini tornou-se celebridade com a crise financeira de 2008, por ter sido um dos poucos a prevê-la antes de ela acontecer. Não há dúvida de que são bem mais numerosos agora aqueles que explicam como a crise necessariamente teria que ocorrer. Contudo, com o desenrolar dos acontecimentos durante e depois da grande recessão americana, oficialmente de dezembro de 2007 a junho de 2009, já não está assim tão claro o que foi exatamente que Roubini previu, considerada a grande diversidade de variáveis analisadas post-factum. Mas Roubini faz bom uso de sua fama para tratar de prever agora o “futuro das finanças” – e da economia mundial também.

Depois de tantas análises publicadas ao calor do momento, em cada etapa das discussões sobre as medidas de emergência tomadas pelo Fed (o banco central americano) e o Banco Central Europeu, e os diversos pacotes apresentados pela administração Obama e a União Europeia e seus países-membros, este livro de Roubini não chega a oferecer grandes novidades. Talvez, se aproveitando da circunstância de poder repetir “bem que eu avisei”, estende-se mais que outros na atribuição de culpas a responsáveis de política econômica nos quatro cantos do mundo, em especial nos Estados Unidos.

No momento em que o livro de Roubini/Mihm era preparado, em 2010, o assunto comum era o double dip, isto é, discutia-se a possibilidade de recessões de “duplo mergulho”: cada vez que algum dado novo indicava que a recuperação da economia nos Estados Unidos era (conforme o dado do trimestre em questão) mais fraca do que havia sido previsto, retornava o espectro de um novo mergulho recessivo, que daria ao gráfico da evolução do PIB um formato em W. Essa discussão continua, assim como o alto grau de incerteza. Roubini faz sua previsão, que tem formato em U gordo: depois da queda que tocou o fundo em meados de 2009, um longo período (até 5 anos) em que a economia ficará patinando, em ritmo de crescimento muito lento, antes que possa ocorrer uma recuperação sólida o suficiente para reduzir o desemprego (que de 4% no fim da década passada chega agora a quase 10% da força de trabalho nos Estados Unidos).

Isso é semelhante ao que diz hoje a maioria dos analistas, para os quais as perspectivas de uma recuperação mais vigorosa ficam ainda mais distantes se a administração Obama, enfraquecida pelas eleições de meio do mandato, e sem conseguir aprovar no Congresso novos incentivos, tiver que deixar sozinho o Fed na dupla tarefa de apoiar a recuperação econômica e evitar a inflação.

Apresentam-se no livro outras previsões: sobre o potencial para desmembramento da União Europeia, o declínio relativo do Japão e seu enorme déficit, o peso e a composição do grupo BRIC (ele se considera competente para dizer em um parágrafo o que o Brasil precisa fazer para crescer mais), sobre compras de ouro, a deflação e a probabilidade de se aceitar a inflação como forma de reduzir o peso das dívidas, sobre as pressões para a quase inexorável desvalorização do dólar, as resistências à globalização e sobre o risco de uma nova bolha. O capítulo das previsões é apresentado de forma apressada, mais preocupante que convincente, mas vale a pena refletir sobre as perguntas que Roubini explicita e comenta.

Antes de mais nada, Roubini registra quando, como e onde fez suas advertências sobre a formação da bolha imobiliária, desde setembro de 2006, ocasião em que, além disso, anunciou que ela levaria a uma crise financeira e recessão. Roubini dá suas explicações sobre por que ninguém quis ouvir, mas concede créditos a uma lista de colegas igualmente proféticos quanto a desequilíbrios insustentáveis, a começar por Robert Schiller, na Universidade de Yale, chegando a Stephen Roach, do Morgan Stanley.

Cada crise teve seus teóricos, e Roubini apresenta as ideias de vários “Economistas da crise” (capítulo II). É claro que aparece Keynes, mas também Jevons, Marx, Schumpeter, Stuart Mill, Friedman, Minsky, e ainda vários outros, antigos ou contemporâneos, todos a brevíssimas pinceladas, o olhar só se detém um pouco mais em Keynes e Minsky. O que marca o capítulo é a conclusão de que para entender crises é preciso estudar história, e nem só história econômica. Com o devido crédito a Charles P. Kindleberger (Manias, Pânicos e crashes) e a Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff (This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly), Roubini promete então uma abordagem histórica da crise financeira do século XXI, de modo a identificar como ela foi gestada ao longo do tempo.

O grosso do livro descreve em detalhes a crise financeira de 2008, seus antecedentes e sequelas, buscando para seus vários aspectos uma comparação com elementos de crises anteriores, não só no século passado, mas também no século XIX, e até crises de dívida anteriores ao capitalismo.

A crise não é explicada pelo estouro da bolha no mercado imobiliário dos Estados Unidos, ainda que ela tenha funcionado como gatilho. A crise viria de muito antes, pelas pressões que foram se acumulando sem serem detectadas (ou ignoradas mesmo quando identificadas) – análogas, segundo Roubini, às falhas geológicas cujas pressões se acumulam até resultar em um terremoto. Ou seja, como se chegou à bolha imobiliária? Não só Alan Greenspan, mas também a elevada poupança na China levam parte da culpa. E, é claro, a engenharia financeira e a alavancagem.

Capítulo dos mais interessantes, apesar do título bombástico (“As coisas desmoronam”) é o da descrição de como o sistema financeiro dos Estados Unidos foi da expansão rápida ao congelamento ainda mais rápido do crédito. Sensacionalismo e distribuição de culpas se expandem no relato de como o colapso do mercado imobiliário nos Estados Unidos se transformou em “pandemia global” (e aqui a analogia usada sai da sismologia para a infectologia, com crítica especial aos que ousaram falar de “desacoplamento”). Dois capítulos descrevem os remédios, convencionais e não-convencionais, adotados nos Estados Unidos, que evitaram que a “grande recessão” se transformasse em “grande depressão”. Roubini reluta em admitir esse resultado, pois considera que ainda não é possível saber se “a cura não vai acabar sendo pior que a doença”. Mais dois capítulos tratam das reformas regulatórias, nacionais ou produto da cooperação internacional. Quase no fim, um capítulo dedicado aos desequilíbrios da economia mundial que se acumulam via superávits e déficits exagerados em conta corrente. Principais vilões, é claro: os governos dos Estados Unidos e da China. Mas não estão sozinhos.

Impossível resumir aqui a explicação de Roubini para a crise, já que ele passa em revista uma imensa variedade de fatores, alguns ligados aos fundamentos da economia, outros circunstanciais. Além da culpa atribuída aos governos, seja por ação, seja por inação.

O subtítulo do livro, “Um curso relâmpago…” reflete sua pretensão didática. Como livro-texto não será fácil de usar; é difícil verificar o método de pesquisa e separar as ferramentas de análise aplicadas a algum item específico. Será preciso ler o livro inteiro se é que se quer averiguar aonde pretende chegar e se ele consegue indicar alguma solução de política econômica para enfrentar a semi-estagnação nos Estados Unidos e seu impacto global. E será preciso simplesmente acreditar na citação de Krugman na confusa capa da edição brasileira, que achou supérfluo avisar, como avisa a edição em inglês, que o trecho de três parágrafos reproduzido é um extrato do próprio livro A Economia das Crises, e não, como sugerido, de autoria de Paul Krugman. De Krugman é apenas a frase final em negrito (que, aliás, não aparece na edição em inglês), segundo a qual “as advertências de Roubini são fundamentadas em modelos sofisticados e cautelosa análise de dados”[1]. Nem modelos, nem todos os dados disponíveis, aparecem neste livro.

Roubini – como também o faz Krugman – defende que a teoria econômica não perdeu validade ou força com os acontecimentos recentes, pois tem em sua caixa de ferramentas o que é necessário para analisar a crise, além de sempre acrescentar novas ferramentas ou descartar ferramentas ultrapassadas, ao longo dos séculos. A partir de uma análise teórica podem resultar proposições de política econômica, mas tanto a formulação destas, e muito mais sua aplicação, são necessariamente mediadas pelo processo político. De um ângulo didático, para um público não especializado, Krugman (com sua co-autora Robin Wells) integrou de forma mais clara a análise da crise recente à teoria econômica que é ensinada nas melhores universidades, na última edição de seu livro-texto mais básico, de 2009.

A vantagem deste livro de Roubini com o co-autor Stephen Mihm é a de reunir em um só volume as muitas vertentes de explicações sobre as mudanças recentes do sistema financeiro e seu impacto sobre a economia real nos últimos anos, além de mostrar como evoluíram a teoria da crise e as medidas para combatê-la. Ainda que suas previsões de 2006 tenham impulsionado a publicação do livro, as novas tentativas de prever o futuro da economia mundial não são o seu forte. O seu linguajar sensacionalista não ajuda a precisão, nem a compreensão, apenas reforça o tom autocongratulatório. Poderia ter sido evitado, já que o desenrolar da crise é do mais amplo interesse geral. Afeta cada um de nós.

Notas

[1] Esta resenha estava pronta quando saiu a edição brasileira, que não li. Mas me deparei com um estranho título de seção “Um Japão mais branco?” ao folhear o último capítulo. Eis como o tradutor entendeu “Whither Japan?”. Pior que o erro é a falta de senso que compromete todo o trabalho.

Esta matéria faz parte do volume 19 nº3 da revista Política Externa
Volume 19 nº 3 - Dez/Jan/Fev 2010 Os rumos do comércio mundial

China e EUA – de guerras cambiais a guerras comerciais

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