Política Externa

Speaking for myself: my life from Liverpool to Downing Street.* de Cherie Blair

por em 01/06/2009
Speaking for myself: my life from Liverpool to Downing Street.*

Mulher chefe de estado – rainha, presidente ou primeiro ministro – não é fato novo na história da humanidade, existiu em séculos passados, bem antes das conquistas reais e supostas do feminismo do século XX. Novidade mais recente, produto da maior igualdade de oportunidades entre homens e mulheres nas sociedades mais avançadas, é o aparecimento de mulheres com carreiras de sucesso, altamente competentes, e que, em dado momento se encontram na situação de “primeira dama” (esse termo do qual Ruth Cardoso não gostava nada quando aplicado a ela), esposa de um presidente, primeiro-ministro ou equivalente. Hillary Rodham Clinton, que tanto fãs quanto opositores já consideraram pelo menos tão preparada para a presidência quanto o marido, é quem vem à mente de imediato. Até mesmo as suas memórias publicadas em 2003 (o best seller Living History) são prova de competência: de grande densidade política conseguem ser também o relato de uma história de amor.

Guardadas as diferenças de história e geografia, pode-se dizer o mesmo das notas autobiográficas de Cherie Blair, a mulher do Primeiro Ministro Britânico Anthony Blair, publicadas em 2008. Também é uma história de amor e cumplicidade, mas as complicações do seu período de primeira-dama foram um pouco mais tradicionais: administrar a educação de quatros filhos, mais de uma gravidez durante o mandato do marido que ela acompanha em todos os eventos (inclusive levando junto algumas vezes um bebezinho de poucos meses), o seu trabalho de advogada bem sucedida, que podia implicar a defesa em processos legais contra o governo, fora a tal “função temporária” de contornos indefinidos ou a definir: mulher do Primeiro-Ministro. E, apesar de tudo, tentando defender a privacidade da família contra o que é apresentado como assédio feroz da imprensa em geral hostil e invasiva.

Já no título Speaking for Myself (Falando por Mim), no entanto, Londres aparece na foto como menos preparada que Washington para novidades do feminismo: alguém que sempre teve suas próprias opiniões de militante trabalhista, de repente, na condição de mulher do homem que acaba de ser eleito líder do Partido Trabalhista, vê-se recebendo ordens de assessores do marido, de membros graduados do partido e burocratas, empurrada de um lado para outro como se fosse peça que sobrou numa engrenagem já montada e funcionando sem ela há tempos (cf. em particular capítulo 16). E as ordens são inicialmente de ficar escondida no quarto para não atrair jornalistas e para não atrapalhar o marido e a entourage. Pelo menos é quase assim que Cherie apresenta sua história, de forma bem humorada e com muita auto-ironia.

Parecia não existir lugar nem função para uma “primeira dama” com opiniões e profissão própria, porque isso não estava (nem está ainda) previsto na estrutura e nas tradições. A questão é completamente diferente da enfrentada pela Primeira-Ministra Margaret Thatcher, com funções há muito demarcadas institucionalmente. Sir Denis Thatcher permaneceu na obscuridade, uma figura discreta de apoio à sua mulher. Nunca foi prato para a imprensa marrom, como parece ter sido em certos momentos a mulher de Tony Blair, e nem aparecia nos eventos que se preparam para cônjuges em paralelo a cúpulas internacionais de presidentes.

Cherie Blair acabou por encontrar ou construir um lugar para si na engrenagem, e sua autobiografia é um desabafo a respeito dos entreveros com a burocracia inglesa, a mais antiga, e os jornalistas da modernidade, ávidos de fofoca e sensacionalismo. Mas é também um testemunho inteligente sobre as mudanças políticas e de comportamento trazidas pelo trabalhismo moderado e sobre a política externa da Grã-Bretanha durante os dez anos do mandato de Blair, inclusive a posição relativa ao Iraque, que em última instância resultou em sua renúncia.

O livro de Cherie começa com o seu nascimento em Liverpool em 1954, a vida do pai, Tony Booth, que chegou a ser um ator bastante popular, a dedicação e o sacrifício da mãe abandonada pelo ator aventureiro, de comportamento deselegante e quase cruel com a mulher. Os primeiros capítulos tratam da vida nada banal da menina pobre, mas estudiosa, de namorados variados, até exames finais para exercer a advocacia em que ela obtém a nota mais alta de todos os candidatos. Tony Blair prestou o mesmo exame, mas ela saiu no topo – eis o cerne do seu capítulo 6. Mas o sintoma da era feminista é que aquele que iria liderar para o público mais amplo o “Novo Trabalhismo” era também um “novo homem”, pois vai namorá-la mesmo assim. Cherie tratou de acentuar que no início da carreira ela estava ganhando de Tony na concorrência profissional – se bem que não seja simples para alguém de fora entender a complexa rede das hierarquias britânicas da carreira de advogado -, e o capítulo se encerra com três namorados, simultâneos. Um deles, Anthony Blair. Eventualmente ele ganha integralmente essa concorrência. E também, com votação espetacular, a campanha que o torna Primeiro Ministro, que ela descreve de forma saborosa, com muitos detalhes e muitos personagens, em vários capítulos. A começar pela batalha para eliminar da constituição do Partido Trabalhista Britânico a Cláusula IV, que ali estava desde 1917, e que estabelecia como objetivo a propriedade comum dos meios de produção, distribuição e troca. Era, em 1994, derrubar uma cláusula morta, mas Blair (que segundo Cherie teria enfrentado nisso a resistência inclusive de Gordon Brown) achava necessário o gesto, para evitar riscos à direita e à esquerda: alegações dos conservadores de que os trabalhistas queriam nacionalizar todas as empresas e críticas da ala trabalhista Militant de que o partido falhava ao deixar de perseguir o que seria seu objetivo central.

As memórias de Cherie Blair se lêem quase como um romance. O estilo é leve, sedutor. E há muitas fotografias interessantes, com aquela criançada toda, a rainha Elizabeth, a princesa Diana, os Clinton, até a foto polêmica em que a católica Cherie é recebida pelo Papa Bento XVI (polêmica não só porque ela estaria com a roupa errada, o vestido claro que ela sugere ser o motivo da reação crítica de muitos). Não surpreende que Cherie faça questão de apontar, na legenda da foto dos cônjuges dos participantes da Cúpula de São Petersburgo do G8 em 2004, que o marido de Angela Merkel não aparece. A foto mais divertida é do casal Blair na ONU, junto de Bill Clinton segurando com admirável competência um bebê bem pequeno vestido de um macacãozinho que tem a bandeira americana estampada na barriga, enquanto Jacques Chirac, abraçado a Cherie, parece morrer de rir. “Por que essa roupa?” teria perguntado Tony. O capítulo de como o seu bebê Leo veio parar na ONU, e com aquela roupa, é o mais engraçado do livro. Ou talvez seja o relato surrealista de uma visita à Itália atendendo ao convite pessoal de Silvio Berlusconi.

Também é engraçado o sofrimento de Cherie com os seus problemas do que vestir e de como usar o cabelo, e com o problema de fazer e desfazer as malas para as viagens com o Primeiro Ministro. Ninguém imaginaria que esse assunto é tão complicado. Como assegurar que o Primeiro Ministro não se visse sem meias e sem cueca em alguma viagem diplomática? (Não é por acaso que Michelle Obama está recebendo longos e elogiosos artigos na imprensa simplesmente porque não aceita palpite de supostos entendidos sobre o que deve vestir.) A descrição das suas relações com a sua professora de ginástica e assessora de vestuário, Carole, e de como encaixa-la na estrutura do seu cotidiano é quase um drama. Pior quando a imprensa descobre que Carole havia posado nua quando bem jovem, e outras coisas bem mais graves mais tarde. E é comovente o seu tributo a André, encarregado do seu penteado, mas uma espécie de “sexta-feira” de Cherie, pois até como babá atuou vez por outra.

Nem tudo é riso. Também há considerações importantes sobre seu tema preferido, o direito das crianças, e sobre as várias ações dela nessa área. A princesa Diana aparece, propondo-se a dar à Inglaterra uma imagem moderna. Quando descreve com delicadeza as reações da família real à morte de Diana aponta erros em como os fatos históricos foram apresentados no filme A Rainha, erros mais sérios que a simples realidade de que Tony Blair é mais alto que o ator que fez o seu papel. Há detalhes da posição britânica durante a invasão do Iraque, que transmite a sinceridade das convicções de Blair, que ela endossa. E a história de uma viagem em que acompanha Laura Bush à África é quase um lamento gráfico sobre a enorme diferença de poder entre o Reino Unido e os EUA.

Cherie até consegue dar aparência inocente a comentários que revelam algumas das rivalidades na alta hierarquia trabalhista. Duvido que não sejam rasteiras intencionais. No fundo o livro é sua defesa contra as versões desfavoráveis de certa imprensa nas disputas de toda ordem em que esteve envolvida. No The Economist, o livro recebeu resenha elogiosa. A edição cuidada de Little, Brown and Co. tem um excelente índice remissivo, de 10 páginas. Com toda a fartura das encrencas, tristes ou engraçadas, o retrato é o de uma mulher admirável.

* Little, Brown and Company, Nova York, 2008, 354 p.

Esta matéria faz parte do volume 18 nº1 da revista Política Externa
Volume 18 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2009 G-20

Dinheiro, finanças e crise no capitalismo do terceiro milênio

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