Política Externa

Comentários do documento: “Quem governa o mundo?”

Boris Fausto

A atração pela História me parece resultar de uma combinação entre o gosto por um ramo do conhecimento e inclinações pessoais, em que, neste último caso, entram o encanto pelo vivido e a inclinação à prudência. É que o passado, embora não seja um terreno sólido, alcançável por um método científico adequado, como já se chegou a pensar, constitui um tempo findo, sujeito a interpretações, mas não a projeções. Já o futuro, para o historiador, é um terreno nebuloso, certamente não desprezível, mas bem mais difícil de abordar.

Daí, ter o historiador uma atitude cética quanto às projeções futuras, tantas e tantas vezes desmentidas. Porém, apesar disso, poucos são imunes – e não há porque sê-lo — à futurologia de economistas e cientistas políticos, assim como poucos deixam de ter interesse pelos surveys, em que figuram cidadãos dispensados de expressar considerações científicas.

O survey intitulado “Who Rules the World” apresenta alguns problemas metodológicos. Por exemplo, não sabemos quais os critérios de estratificação social da amostra e, assim, fica difícil saber até que ponto as opiniões emitidas correspondem, como um todo, à da população urbana dos respectivos países. É de se acreditar que os entrevistados tenham nível educacional superior, ou pelo menos médio, pois as perguntas dificilmente estariam ao alcance de um público de educação rudimentar, em países como o Brasil ou a Índia.

Apesar das ressalvas, o survey traz indicações sugestivas. Aqui, vão algumas sugestões. Para começar, o que significa o fato dos chineses enfatizarem o poder militar, ao lado do poder econômico, como qualidades mais importantes para um país se afirmar como poder global ( item 3.1), em contraste com a Alemanha (11), o Japão (12) e o Brasil (12)?

Sem emitir um juízo de valor, penso que as respostas revelam uma percepção adequada pelos entrevistados de um país, em vias de se tornar – se é que já não se tornou –, um dos centros do poder mundial. Os alemães e japoneses, no outro extremo, mostram como um passado totalitário e militarista, que acabou em desastre, pesa fortemente na sua percepção. Quanto ao Brasil, creio que as respostas indicam, de forma indireta, a convicção de que o país está longe de se transformar em poder mundial e a preocupação com uma temática própria dos países emergentes.

Daí a maioria de respostas ligar o fator “poderio” a um sólido sistema educacional, à pesquisa e ao desenvolvimento. Note-se, ainda, que o fato de os norteamericanos não darem especial relevância ao poder militar, embora se colocando nas respostas acima do valor total mediano, pode ter a ver com a circunstância de que os Estados Unidos já são uma superpotência militar e, mais ainda, com os desastres da política externa do atual governo.

Quando se passa às indicações de quem terá poder global em 2020, considerando-se valores medianos (item 3.2.2), verifica-se que a liderança dos Estados Unidos, é inquestionável (81), revelando a descrença numa “catástrofe do império”. Mas, indícios da existência de um mundo menos polarizado aparecem nas opções que apontam a forte ascensão da China (50), da Rússia (39), além do Japão (35). Como 2020 é um ano relativamente próximo, é lícito inferir que os entrevistados acreditam que, a passos largos em termos históricos, os Estados Unidos seguirão em declínio, percepção, aliás, mais acentuada entre os brasileiros.

Destaque-se ainda, como um dado importante ao longo do “survey”, observado em seus comentários, que a referência maior a “poder global”, hoje, como com relação a daqui 10 ou 15 anos, continua a dizer respeito a países, embora não seja nada desprezível a referência à União Européia (34) e à ONU (30), tendo-se em conta os impasses e crises que essas organizações vem sofrendo. Se os dados revelam certa descrença sobre o poder efetivo de entidades supranacionais, isso não significa, para os entrevistados, acreditar que um ou dois países hegemônicos sejam a melhor via de se assegurar a paz e a estabilidade mundiais. As respostas ao item 3.6 mostram que, na mediana, um sistema liderado pelos Estados Unidos, ou por dois países, é tido como manifestamente insuficiente (13), enquanto o oposto ocorre com um sistema sob a liderança da ONU, ou equilibrado por poderes regionais (78).

No que diz respeito à pergunta sobre os desafios e ameaças mais graves com que o mundo se confronta (item 3.3), o valor mediano aponta em primeiro lugar a destruição do meio ambiente e a mudança climática (54) – um óbvio e expressivo indicador de que chegou à consciência dos entrevistados o fato de que os riscos à existência humana são reais e precedem, em grau de importância, qualquer outra consideração. Nesse sentido, é positivo verificar que os brasileiros se encontram à frente (62), ao passo que os indianos se encontram no polo extremo (28). Inversamente, enquanto os brasileiros dão a menor importância relativa ao terrorismo (22), os indianos situam-se na posição inversa (75), o que diz muito do contexto interno dos dois países.

Quais os principais objetivos (item 3.4) que os países com poder global deveriam buscar? Na mediana, coerentemente com a resposta anterior, pobreza e meio-ambiente aparecem na frente. Aqui, o ponto mais interessante diz respeito à resposta “democracia e direitos humanos”. É muito significativo que os chineses venham na dianteira (59), superando largamente o valor mediano (39). Em contraposição, os brasileiros se encontram no outro polo (21) — o que é compatível com os dados comparativos com os demais países da América Latina, levantados pelo Latinobarômetro. Sem entrar num terreno que vem sendo fartamente explorado entre nós, cabe lembrar que esse dado não indica uma estabilização da democracia, um objetivo já alcançado, mas, muito provavelmente, as vicissitudes da prática insuficiente ou pervertida do regime democrático.

Por último, sem chegar a conclusões mais gerais, expresso o desejo de ter diante dos olhos um “survey” que estenda as expectativas para daqui a 50 anos, ou quem sabe um século. A imaginação, os sonhos e os equívocos seriam maiores, mas muito sugestivos para nós no presente e, sobretudo, para os que vierem depois de nós.

Carlos Eduardo Lins da Silva

Este comentário vai ater-se às respostas dadas pela amostragem de brasileiros entrevistados para a pesquisa da Fundação Bertelsmann.

Em geral, a opinião dos brasileiros se enquadra na tendência geral mediana dos entrevistados nos noves países escolhidos para a consulta. Mas chama a atenção que o Brasil se diferencie claramente dos demais na pergunta sobre qual é a qualidade mais importante para uma nação ser considerada como um poder global.

Economia foi considerada na média como a mais decisiva característica de uma potência mundial. Cada respondente foi solicitado a citar três entre sete qualidades. Apenas dois países colocaram o poderio econômico em terceiro lugar: Brasil e Alemanha. Os brasileiros preferiram sistema forte de educação e pesquisa no topo e estabilidade política em segundo (os alemães puseram estabilidade política em primeiro e sistema de educação e pesquisa depois).

É curioso que a amostragem – supostamente representativa pelo menos da elite do país (a pesquisa foi feita por telefone em áreas urbanas e o grau de complexidade das questões exige dos entrevistados um grau de instrução formal relativamente elevado) – tenha respondido assim, quando se sabe que – na prática – o tema da educação e pesquisa merece muito menos atenção no Brasil do que o da economia ou da estabilidade política. Quem vive neste país não tem dúvidas sobre a predominância da economia na agenda pública nacional.

A não ser que os respondentes não achem que o Brasil deva se tornar uma potência global, o fato de eles acharem que educação e pesquisa são o fato mais importante para se atingir esse fim e não darem importância efetiva a ele na vida cotidiana constitui um aparente paradoxo.

Embora os brasileiros, como os entrevistados de todos os outros países, reconheçam na pesquisa a evidência de que os EUA são a principal potência global na atualidade, chama a atenção de que é no Brasil que se registra a mais baixa porcentagem desse reconhecimento. Na média, 81% dos respondentes colocaram os EUA na definição de poder global. Entre os brasileiros, apenas 65% (em comparação com 94% dos chineses, 92% dos britânicos, 90% dos alemães, 85% dos franceses).

Esta negação da realidade por contingente significativo dos brasileiros (pelo menos um terço dos entrevistados) possivelmente é explicável pela enorme impopularidade (já comprovada em outras pesquisas) da administração de George W. Bush, em especial de sua política externa e especificamente da invasão do Iraque, entre a opinião pública do Brasil.

Tal hipótese é reforçada com a constatação de que o Brasil foi um dos dois países (o outro foi o Japão) em que a condição de poder global dos EUA sofreu maior redução entre a pesquisa que a Fundação Bertelsmann fez sobre o mesmo tema em 2005 (oito pontos percentuais no caso do Japão e seis no do Brasil).

O Brasil é a única nação em que no período de dois anos entre as duas pesquisas, não se registrou crescimento na percepção de qualquer país ou entidade (ONU e União Européia) como poder global. Aparentemente, os brasileiros acham que está se criando um vácuo de poder efetivo no mundo e que ninguém está ocupando esse espaço.

Essa impressão se fortalece na pergunta sobre quem será poder global em 2020. Ao respondê-la, nenhum país ou entidade recebe dos brasileiros entrevistados uma porcentagem superior a um terço: 36% dizem EUA, comparado com 61% na média total, 32% China – contra 57% na média – e 29% afirmam que o Brasil será uma potência global daqui a 12 anos (11% na média).

A desconexão com os fatos não se repete no caso do próprio Brasil. Apenas 13% dos entrevistados brasileiros classificam sua nação como uma potência global. Embora, como seria de esperar, esta seja a mais alta porcentagem de respondentes dos nove países a dizerem isso sobre o Brasil (em seguida, vêm os britânicos com 8% e os alemães com 7%), ela é pequena e dentro do que seria razoável antecipar.

Celso Lafer

O documento que publicamos nesta seção é um survey de opinião, fruto de um levantamento realizado no Brasil, na China, na França, na Alemanha, na Índia, no Japão, na Rússia, no Reino Unido e nos EUA. Busca esclarecer a pergunta: “Quem governa o mundo?”

A pergunta parte do pressuposto que são as potências mundiais as que têm um papel chave na governança do mundo. Neste sentido o documento reverbera o tema das grandes potências e o seu significado na dinâmica de funcionamento da ordem mundial.

As grandes potências seriam aquelas que têm, e podem ter, para lembrar a formulação da Conferência de Paz de Paris pós-Primeira Guerra Mundial, não apenas os “interesses específicos” da sua política externa mas igualmente “interesses gerais” na organização do sistema internacional. O exercício de uma diplomacia de “interesses gerais” pressupõe certas condições de poder e influência. O relatório elenca-os, cabendo mencionar a relevância atribuída no levantamento à força econômica, à estabilidade política, a uma significativa capacidade de pesquisa e a um sólido setor educacional. São estes os ingredientes considerados como fatores críticos, identificadores do “status” de um país como um poder mundial. Menor significado é atribuído ao poder militar, aos recursos naturais e à atratividade cultural.

O relatório também se dedica à identificação daquilo que é percebido como compondo os desafios da ordem mundial. Mudança climática, terrorismo internacional, pobreza e superpopulação são os itens elencados que configurariam a pauta da agenda internacional, para os pesquisados.

A Fundação Bertelsmann tinha realizado uma pesquisa deste tipo em 2005, o que permitiu comparar nesta, realizada em 2007, continuidades e descontinuidades.

A ênfase nos critérios e na agenda dos desafios, é distinta de acordo com os países. Isto aponta para o pluralismo do mundo e indica, para lembrar Ortega y Gasset, como a perspectiva organiza a percepção da realidade.

O leitor de Política Externa encontrará neste documento elementos úteis para o entendimento da realidade internacional com base na avaliação que distintas sociedades nacionais fazem do papel de seus países na vida mundial e da relevância que atribuem à ONU e a outras organizações internacionais.

Maria Hermínia Tavares de Almeida

Who rules the world?, realizada pela divisão social da Taylor Nelson & Sofres (TNS), renomada empresa transnacional de pesquisa de opinião, para a Fundação Beterlsmann da Beterlsmann A.G., um dos maiores conglomerado de mídia europeu, tem o mérito de apresentar opiniões de cidadãos sobre temas de política internacional e de acompanhá-las ao longo do tempo. Embora existam outras pesquisas painel, com desenho assemelhado, como a Transatlantic Trends, patrocinada pelo German Marshall Fund, é a primeira a construir sua amostra com residentes de países desenvolvidos e de nações emergentes.

Os entrevistados foram chamados a responder perguntas que implicavam, de um lado, avaliações sobre o estado do mundo — como ele é ou será no futuro –, e de outro, juízos normativos sobre como deveria ser. Entre as primeiras, estão questões acerca dos principais desafios e ameaças mundiais, do poder exercido no mundo por estados e organizações, hoje, e de sua provável distribuição em 2020. Fazem parte dos juízos normativos questões relativas ao recursos de poder relevantes para aceder ao status de potência mundial; aos objetivos que potências devem perseguir; ao papel de estados e organizações na manutenção da paz e estabilidade e à importância da cooperação da União Européia.

As respostas ao primeiro conjunto são bastante convergentes para todos as nações, em que pesem a as diferenças na importância relativa de alguns quesitos, país a país. Elas, de fato, refletem a sabedoria convencional martelada pelos meios de comunicação, a cada momento. Assim, hoje, a China é percebida como candidata óbvia a disputar o primeiro lugar no pódio das potências mundiais na próxima década. Mas, os Estados Unidos seriam a resposta invariável à pergunta sobre que país exercerá a liderança mundial em 2020, se ela fosse feita no começo dos anos 90, quando se imaginava que seria americano o século XXI. Se os entrevistados fossem enfrentados à mesma questão no começo da década dos 80, não seriam poucos a afirmar que viria do Japão a grande ameaça ao predomínio norte-americano, na terceira década do segundo milênio. Da mesma forma, dificilmente o terrorismo seria mencionado como uma dos grandes desafios mundiais, antes de 2001, como é hoje. Mesmo que ele já tivesse mostrado sua cara nas Olimpíadas de Munique, em 1972; fizesse parte do cotidiano dos habitantes do Oriente Médio; estivesse ativo na Espanha e na Inglaterra e fosse responsável pela explosão de um carro-bomba no World Trade Center, em 1993. Por expressar a sabedoria convencional, as opiniões sobre o estado do mundo são voláteis e contingentes.

Mais interessantes são as respostas a questões de cunho normativo, porque podem ir além da opinião circunstancial e revelar atitudes e valores sedimentados.

Menos pobreza, proteção ambiental, democracia e garantia de direitos humanos, paz e administração dos conflitos são percebidos como o núcleo da agenda desejável das nações que exercem a liderança mundial.

Tomados em conjunto, um contingente significativo de entrevistados são partidários, provavelmente sem conhece-la, da teoria da estabilidade hegemônica, que afirma que a ordem mundial é melhor servida quando uma única potência predominante se encarrega de provê-la. A surpresa é que a percentagem dos que assim pensam — e crêem que essa tarefa cabe aos Estados Unidos — é significativamente maior na Alemanha, China, Grã Bretanha e França, do que entre os norte-americanos.
Também é numeroso o grupo que prefere um sistema regulado pelo equilíbrio de poder entre potências regionais e daqueles que atribuem importância ao protagonismo das Nações Unidas e esperam que a União Européia venha a exercer influência mais significativa.

Esses resultados se aproximam daqueles obtidos por Transatlantic Trends, pesquisa anual feita com cidadãos dos Estados Unidos e de doze países europeus, a indicar que eles captam, em algum grau, atitudes e valores individuais relativamente estáveis, nas sociedades pesquisadas.

Há duas maneiras, não excludentes, de tratar tais resultados. A primeira é tomá-los como indício do aparecimento de uma incipiente opinião pública mundial, criando um ambiente no qual algumas iniciativas teriam mais probabilidade de obter legitimidade do que outras. Neste caso, o importante a assinalar é que, do ponto de vista do público, parece haver convergência em torno das questões mundiais prementes, das nações que podem e devem liderar seu enfrentamento, dos requisitos e trunfos das lideranças e, em menor medida, dos arranjos capazes de garantir paz e estabilidade no mundo.

A segunda maneira é olhar os resultados da ótica de cada país, considerando atitudes e valores revelados pela pesquisa como parte dos condicionantes domésticos da atuação internacional dos países, como propõem os especialistas que encaram a política internacional como um jogo que não se define, nem se explica apenas no plano das relações entre estados e agentes transnacionais. As duas possibilidades são igualmente proveitosas para o leitor atento de Who rule the world? que a Revista de Política Externa em boa hora torna acessível.

Esta matéria faz parte do volume 16 nº4 da revista Política Externa
Volume 16 nº 4 - Mar/Abr/Mai 2008 Novos focos para América Latina

A esquerda no poder na América Latina: três correntes e um dilema

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