Política Externa

A França de Sarkozy

por em 27/01/2008

A administração de Nicholas Sarkozy transforma a França, do mais previsível dos atores, em um lugar de movimento, sentido de urgência e busca de novos rumos. Os anos Chirac viram esmaecer a infl uência do gaullisme. Agora Sarkozy caracteriza-se sobretudo por sua energia, informalidade, domínio midiático e capacidade de atrair talvez as melhores inteligências do campo socialista. No entanto, a chegada do outono e a volta da França às fábricas, às repartições públicas e Universidades parece encerrar a lua-de-mel do novo presidente. Ele começa a enfrentar as pressões dos muitos que temem perder interesses e privilégios. Na política externa, Sarkozy moveu-se para produzir impactos simultâneos em amplas frentes: Washington, Oriente Médio, Irã, Turquia, Líbia. Colômbia, Chad e Brics. Mas seu mais importante elemento parece ser o insistente desejo de reaproximar a França dos EUA.

The newly elected president of France seeks to modernize a country tied down by many bureaucratic constraints and which has shown very modest rates of growth over the last years. Europe remains the priority, but there is a clear desire to seek closer ties with the USA and make France more competitive in the new globalized environment. Sarkozy is energetic and hiper-active and has taken advantage of his popularity and impressive results at the polls to build a momentum for change and renewal. Doubts remain if his somewhat “American” style of leadership will be acceptable in the long haul to the French and if he will be succesful in overcoming the resistance of trade unions and the unrest in the growing inmigrant communities surrounding the major French cities.

Depois de muitos anos em que o jogo político francês (em suas dimensões interna e externa) teve apenas pequenas atualizações de estilo e substância, seja na esquerda, seja na direita, a administração de Nicholas Sarkozy transforma a França, antes o mais previsível dos atores, em um lugar especialmente interessante, em que há movimento, um sentido de urgência e a busca evidente de novos rumos.

A França parecia engessada em políticas e discursos que encontravam essencialmente inspiração no passado e que não refletiam o mundo globalizado, extraordinariamente modificado pelo fim da Guerra Fria e pela revolução que produzem atualmente a ciência e a tecnologia. As mais persistentes e agora, talvez, ainda mais insatisfatórias explicações para um certo imobilismo francês misturam fatores históricos, uma tentativa de definir alguns traços do que seria o caráter nacional francês e a identificação do padrão rigoroso em que são formadas as suas elites.

Assim, os líderes do mandarinato francês, oriundos dos mais prestigiosos liceus, das Grandes escolas e, finalmente, moldados naquela matriz do pensamento diretor do país – a famosa ENA (Escola Nacional da Administração) – chegavam ao poder (seja pela direita, seja pela esquerda) com certas indeléveis marcas de fábrica e com um conjunto de características comuns mais marcantes, talvez, dos que as diferenças de caráter ideológico que os separavam.

Não são erradas essas explicações. São apenas insuficientes para explicar a história francesa recente. Seria preciso também acentuar a influência que, durante décadas, teve o pensamento de Charles de Gaulle sobre o seu país, e notar que ele, mais do que administrar um país o qual encontrou prostrado e desmoralizado, redefiniu a França com uma visão muito pessoal (“J’ai une certaine idée de la France”), obrigando mesmo seus adversários a aceitá-la, durante décadas, como termo incontornável de referência.

Os anos Chirac viram esmaecer a influência do “gaullisme” e, através de Alain Juppé, o então presidente sentiu que era chegado o momento de propor uma agenda modernizadora. A derrota nas eleições de l997, em lugar de abrir o caminho para a implementação de uma tal agenda, inaugurou, paradoxalmente, um novo ciclo de co-habitação entre um primeiro-ministro socialista – no caso, Leonel Jospin – instalado no Palácio de Matignon e o regime de centro-direita no Elysée, que um Chirac já desgastado presidia.

Importa menos nesse contexto falar, como é quase irresistível, quando se trata da França em direita e esquerda. O que o eleitorado rejeitou então foi uma agenda que ameaçava alterar rumos que vinham sendo seguidos há décadas, e a França votou pela não-modificação daquela imensa malha de privilégios e direitos que os franceses criaram para si próprios

Mais do que simplesmente se engajar com sua manutenção, o Governo Jospin tornou ainda mais densa a trama de direitos e privilégios dos franceses, ao instituir a semana laboral de 35 horas, ao reforçar o direito à estabilidade, já desde o primeiro emprego, e ao aprofundar práticas que, em princípio, tornavam mais onerosa a máquina do Estado e faziam a França menos competitiva diante de seus principais concorrentes.

Nos anos recentes não se pode dizer, a rigor, que o país tenha andado seriamente mal ou mesmo andado para trás. Apenas suas taxas de crescimento foram mais modestas do que aquelas dos outros grandes industrializados, seus índices de desemprego elevados e, com as leis e práticas em vigor, uma França engessada por um rígido sistema cujo objetivo central é o de assegurar – desde o primeiro momento – estabilidade e segurança a todos os empregados, ficou mais emperrada e começou a sofrer a resistência crescente dos empregadores de contratar mão-de-obra, por saberem que cada contratação gerava uma cauda interminável de direitos para o eventual beneficiário e uma onerosa cadeia de obrigações permanentes para o empregador.

Essa situação gerou uma considerável frustração. Um dos exemplos disso é a migração de muitos dos melhores cérebros franceses para mercados mais desregulados. A resposta encontrada pelos socialistas – de prometer ainda maiores direitos e vantagens – ampliou a clivagem entre os que achavam urgente e indispensável que a França adotasse reformas na linha do que já haviam feito seus grandes sócios europeus, e os que achavam que se devia continuar, apenas com pequenos ajustes, no caminho já trilhado. Durante o período em que era primeiro-ministro Dominique de Villepin fez um novo e modesto ensaio reformista buscando atenuar a proteção que o sistema oferecia aos que chegavam pela primeira vez ao mercado de trabalho. O período Chirac, contudo, chegava ao seu ocaso e não dispunha mais de capital político para vencer qualquer grande batalha.

O fim do Governo Chirac permitiu que a eleição para escolha de seu sucessor fosse, em alguma medida, um referendo entre a continuidade e a ruptura desse modelo, e as circunstâncias permitiram que, desta vez, embora dentro da mesma coligação de forças políticas, uma certa forma de ruptura triunfasse. Reeditou-se 1997 mas, desta vez, Sarkozy (que é uma versão mais dinâmica e carismática de Juppé) triunfou sobre Segolène Royal (que era uma versão mais datada e, talvez, anacrônica, de Leonel Jospin). Os dois socialistas de cunho mais moderno, Laurent Fabius e Dominique Strauss-Kahn, foram vencidos por Segolène Royal, nos processos de consultas internas do Partido. Os socialistas, ficou claro, não queriam abandonar o conforto de seu modelo.

A modernidade de Sarkozy não está essencialmente no seu ideário, mas, sobretudo, na sua energia, informalidade, no domínio mediático e, também, na sua capacidade de atrair para o seu campo e seu jogo as melhores inteligências (pelo menos, as mais abertas) do campo socialista. Foi assim com Dominique Strauss-Kahn, com Bernard Kouchner, com Jack Lang. Outros grandes nomes socialistas foram sondados e não me surpreenderia – se as condições forem certas – que personalidades de peso e proa como Claude Allègre e Hubert Vedrine possam ser também atraídas no curto ou no médio prazos.

O longo verão francês de 2007 ofereceu a Sarkozy uma oportunidade extraordinária de mostrar, sem contestação nas ruas, sua energia e seus talentos. Viajou muito dentro e fora do país, sugeriu novas bases e novos rumos para a relação entre Paris e Washington, endureceu a linguagem francesa com relação ao Irã e seu programa nuclear. Aproximou-se de Israel, anunciou um conjunto amplo de medidas que visam a devolver dinamismo à economia francesa, propôs algumas idéias gerais sobre como reduzir os crônicos déficits franceses (que excedem amplamente os patamares determinados por Bruxelas) e ditou, virtualmente sem oposição, a agenda política de seu país aproveitando-se da desordem e perda de foco da oposição socialista. Espera-se dele agora iniciativas para encaminhar melhor a integração dos grupos de imigração recente na sociedade francesa, e reduzir as tensões da periferia de Paris e das outras grandes cidades francesas, onde são elevados os índices de violência, desemprego e desesperança. Foi, sobretudo, por sua ação vigorosa perante os desafios causados por essa insatisfação que Sarkozy conseguiu as credenciais para qualificar-se como postulante à mais alta magistratura do país. E, quem sabe, nessas vastas banlieues será testado o sucesso de seu projeto de governo.

A chegada do outono e a volta da França às fábricas, repartições públicas e Universidades devem encerrar a lua-de-mel, e Sarkozy começa a enfrentar a esperada resistência de todos aqueles grupos de pressão que têm ou temem ter alguns de seus interesses e privilégios ameaçados. Não serão poucos.

A lua-de-mel política parece, de fato, terminada, e certas fragilidades e inconsistências do discurso e da prática de Sarkozy já ficaram mais visíveis. Há em seu estilo de atuar uma quase constante hiperatividade, e há, também, certas características de comportamento que se afastam do molde e do modelo francês de ser e agir. Sarkozy estabeleceu credenciais muito convincentes como um grande operador, de agudo oportunismo tático. Resta agora saber – e provar – se, além disso, é homem que tem uma verdadeira visão estratégica. Umas das perguntas é a de procurar saber se estamos diante de um renascimento político e econômico da França ou apenas confrontados com uma versão “galicizada” e talvez tardia de Tony Blair, por quem Sarkozy tem uma admitida admiração. Na França existe sempre risco em adotar, seja pela informalidade do gesto, da palavra ou da roupa, um comportamento que possa ser rotulado como de inspiração anglo-saxônica e ser assim, por definição, contrário àquele conjunto de especificidades e singularidades que conformariam uma suposta l’exception française, conceito de difícil tradução e que também costuma atuar como irritante para os não franceses.

Boa parte do que Sarkozy tem feito ou anuncia que fará é, contudo, apenas um dever de casa longamente adiado que um novo presidente da França – qualquer que fosse – teria de enfrentar. O sistema de seguridade social francês precisa ser reformado. O modelo das aposentadorias tem de ser revisto. A estrutura dos impostos, reexaminada. As aposentadorias especiais, eliminadas ou drasticamente reformuladas. Os desempregados deverão ser obrigados a aceitar uma oferta adequada de emprego, depois de terem recusado duas propostas iniciais. O jogo atual de recusas múltiplas não pode continuar a ser tolerado …e pago. A semana de 35 horas, tal como hoje existe, deve cair, ou terá de ser, pelo menos, flexibilizada. Novos espaços seriam encontrados para o seguro privado como forma suplementar de proteção. Fora da França, em outros países industrializados, esse conjunto de ações já foi adotado no todo ou em parte, ou seria visto como uma resposta quase inevitável às grandes transformações que as sociedades modernas sofreram.

Na França, no entanto, esse programa é entendido como o mais ameaçador assalto feito em bem mais de cinqüenta anos contra o edifício da seguridade social, e deverá ser objeto de uma guerrilha de resistência pelos numerosos setores afetados, sobretudo, através dos sindicatos, que expressam poderosos interesses setoriais. Tal parece ser a força das idéias cujo momento chegou, e tal é o desarroi da esquerda que, no momento, não parece que Paris ou a França possam ser paralisadas por greves ou manifestações que forcem o governo a recuar. Alguma transação e acomodação de interesses deverá acontecer, mas as indicações são de que Sarkozy, forte em sua vitória eleitoral e em sua confortável maioria parlamentar, deverá poder levar adiante – ainda impelido pelo élan de seu triunfo – o essencial de seu programa de reformas.

Não se observa, até o momento, na esquerda francesa aquela capacidade de mobilização que, em oportunidades anteriores, paralisou iniciativas que pretendiam alterar o status quo em desfavor dos interesses corporativos da massa de trabalhadores e empregados, sobretudo os do setor público, que formam juntamente com o lobby rural os dois maiores grupos de pressão que existem na França.

Sarkozy aproveita-se do fato de que a esquerda sofreu não apenas uma derrota eleitoral – já havia sofrido outras no passado, das quais amplamente se recuperou – mas as idéias e os projetos que tradicionalmente defendeu parecem estar datados, e seus defensores perderam, em alguma medida, o convencimento mesmo da virtude ou, pelo menos, da viabilidade de suas causas. A derrota de Jospin em 2003, quando a divisão das facções da esquerda permitiu que fosse Le Pen quem chegasse ao segundo turno, e a derrota categórica, agora, de Segolène Royal desmoralizaram os socialistas, outros agrupamentos de esquerda e os comunistas ainda não completamente refeitos daquela terrível experiência.

A vantagem psicológica é, no momento, amplamente a favor de Sarkozy, mas seria temerário acreditar que os interesses criados na França venham a aceitar, sem luta, um desmonte, mesmo que parcial, de posições tão longa e firmemente entrincheiradas. Seria bem mais fácil se o temor ao reformismo de Sarkozy se concentrasse, apenas, na esquerda francesa. O fato é que o edifício de direitos e privilégios foi criado por administrações de todos os lados do espectro político, e a resistência será, assim, difusa, persistente e insidiosa. Talvez ainda mais do que em outros países, a opinião pública francesa é rapidamente mutável e o país tem uma tradição de rejeitar, na eleição seguinte, as pessoas e os grupos que apoiou no sufrágio anterior. O problema da hiperatividade política – que foi até agora o modelo escolhido por Sarkozy, por astúcia política ou por imperativo de temperamento – apresenta quase sempre dois tipos de risco: que logo se estabeleça uma fadiga da opinião pública ou que o próprio protagonista não possa sustentar o ritmo de sua performance inicial.

É também possível que o presidente da França, fazendo pouco caso do artigo 21 da Constituição, esteja de alguma forma ocupando espaços que estariam dentre as prerrogativas do primeiro-ministro. Esse é um caminho que, mesmo se inicialmente portador de dividendos, oferece riscos consideráveis ao minar uma estrutura de poder constitucionalmente dividida entre Matignon e o Elysée – difícil convívio que sempre demonstrou uma boa medida de fragilidade e ambigüidade.

No âmbito das relações com a União Européia, o principal gesto inicial de Sarkozy foi a aparente disposição de abandonar o grande projeto constitucional apresentado aos eleitores de 17 países da Comunidade (aprovado por l5 e rejeitado por 2, entre os quais a França) e mover-se em direção a um tratado mais simples e menos ambicioso. O caminho realista de fato parece ser esse, e não é fácil ver a Europa voltar ao grande projeto constitucional produzido pelo grupo de sábios então presidido por Valery Giscard d’Estaing. Aquele foi um passo largo demais. Nesse tabuleiro europeu, o risco reside em que o abrangente e acelerado ativismo de Sarkozy pode levar a algum tipo de atrito com Angela Merkel, com as instâncias comunitárias e, sobretudo, com o próprio Banco Central Europeu, chefi ado por um francês, Jean Claude Trichet – com quem existe uma clara falta de sintonia, e de quem Sarkozy parece esperar menos autonomia e independência e uma maior indulgência com as políticas fiscais da França que não respeitam os parâmetros fixados em Bruxelas.

Mesmo quando com suas palavras parece favorecer uma relação mais moderna entre o Estado e os atores econômicos como foi o caso recente da fusão entre os grupos Gaz de France e Suez, Sarkozy realizou um tipo de intervenção mostrando que, na prática, seu comportamento não difere muito daquele seguido pelo tradicionalmente poderoso e intervencionista Poder Executivo francês, desacostumado – quando não hostil – às idéias de permitir que as forças do mercado encontrem em cada caso, e com relativa autonomia e naturalidade, a mais adequada acomodação de interesses. Sarkozy mostrou também que segue os tradicionais impulsos de intervenção na economia ao mobilizar grandes recursos do Estado para vir em socorro do grupo Alstom. Não se trata de sugerir aqui que a fusão Gaz de France-Suez e que a salvação da Alstom tenham sido más para a França, mas apenas indicar que apesar de atitudes e palavras de inspiração mais modernizantes, Sarkozy visualiza a função intervencionista do Estado nos termos que seus predecessores no palácio do Faubourg Saint Honoré teriam compreendido e compartilhado.

O que sugiro aqui é que embora relativamente moço, Sarkozy é veterano de altas posições no Estado francês, e não se desviará, no plano interno, da tradição política na qual está inscrito. Seu vigoroso discurso em favor de um país que de fato trabalhe contra o poder abusivo do estamento burocrático, pela adoção de controles eficazes sobre a imigração e pela promoção da competitividade das empresas francesas, poderá e deverá ser renovador, mas não representará, suponho, um desvio da idéia, tão francesa e que remonta a Colbert, de um Estado forte e intensamente interventor.

Onde o estilo Sarkozy poderá deixar uma marca mais própria e caracterizada é no plano das relações internacionais. Aqui ele identifi cou, desde o início, espaço e oportunidades. A própria escolha de Bernard Kouchner para o Quai d’Orsay mostrou que o novo presidente desejava dar à política externa de sua administração um caráter mediático e de mais alta visibilidade.

Sarkozy moveu-se para produzir um impacto simultâneo em várias frentes: a) as relações com Washington: b) a política francesa com o Oriente Médio ; c) a ameaça nuclear do Irã; d) a candidatura da Turquia para ingressar na União Européia; e) as iniciativas humanitárias na Líbia, na Colômbia e no Chad; f) a relação com os Brics; g) a necessidade de rever e reformular as instâncias multilaterais.

Até agora a apresentação mais abrangente do que a nova administração francesa identifica como suas prioridades e objetivos nas suas relações internacionais foi o discurso que pronunciou, em 27 de agosto, para o conjunto dos embaixadores franceses reunidos no Palácio do Elysée, em cerimônia que se realiza anualmente e oferece a melhor oportunidade para que o chefe do Estado relate os problemas e oportunidades identifi cados na linha do horizonte e como pretende enfrentá-los.

O tom e o conteúdo desse discurso apresentam uma interessante ambigüidade. Não é nem o anúncio de uma continuidade da política exterior do governo Chirac, de quem Sarkozy foi duas vezes ministro e de quem obteve (embora de forma relutante) apoio para sua candidatura; nem é o discurso de um candidato de oposição que rompe com o que se vinha fazendo e define uma nova política exterior.

O talento de Sarkozy foi encontrar um ponto de equilíbrio que lhe permitiu apresentar uma agenda de renovação não tanto como crítica ao que antes se fazia, mas como uma proposta de respostas mais apropriadas a novos tempos e novas circunstâncias. Em momento nenhum isso é mais claro do que quando se ocupa do Iraque. Não se desvia da posição inicial francesa, contrária ao conflito, mas atenuam-se a linguagem e a militância, que foram da administração Chirac, e passam-se a acentuar, principalmente, aspectos humanitários da questão e a necessidade de se ir adiante na procura de novas soluções.

Vale analisar, com pormenor, o grande discurso programático de Sarkozy sobre a política externa da França e nele identificar o que é de fato novo. A Europa é definida como a “prioridade absoluta da França”. Não haverá, diz ele, Europa sem a França e não haverá França sem a Europa. A novidade não reside na reafirmação de uma prioridade reiterada ao longo de muitos anos, mas no fato de que os compromissos e os sentimentos da França com relação ao seu antigo império colonial, a promoção da “francofonia” e o grande ímpeto de uma política cultural impulsionada pelo Estado ocupam, agora, posição e espaço menores. Não há evidentemente abandono de posições, mas uma alteração significativa de ênfases.

Dentro do processo de construção européia, Sarkozy destaca l’Europe de la defence e a compatibilidade entre esse projeto europeu e a sobrevivência da Aliança Atlântica que a Otan simboliza. A sinalização de que ambos projetos se harmonizam e estariam em um mesmo plano é um sinal de que a França atual, antes um parceiro atlântico reticente, agora parece ter superado dúvidas e prestigiaria um esquema onde os Estados Unidos e Canadá (e o Reino Unido e a Alemanha como sócios europeus privilegiados) sempre desempenharam um papel de proa. Há, por outro lado, nessa posição de apoio à comunidade européia de defesa, mais retórica do que intenção concreta de ação. A Europa comunitária continua a não estar disposta a transferir recursos signifi cativos para montagem de um esquema militar dotado de eficácia de meios e com credibilidade operacional. Como as operações na antiga Iugoslávia demonstraram, não há resposta militar efetiva se a Otan não for a ponta de lança. E o futuro do espaço balcânico não se definirá enquanto não houver na Europa vontade política de mobilização de meios materiais e humanos para encontrar a estabilidade, especialmente no Kosovo.

Ainda no grande discurso no Elyseé, o novo presidente voltou a mencionar um grande projeto que é a criação da União Mediterrânea, sistema que envolveria as duas margens daquele mar e buscaria constituir uma resposta construtiva à ameaça de enfrentamento entre o Islã e o Ocidente. A idéia é extremamente engenhosa e busca usar as longas tradições de convívio e civilização do Mar Mediterrâneo, para fazer uma reaproximação entre as culturas que há tantos séculos existem e interagem em seus dois bordos.

Para demonstrar seu empenho e urgência, Sarkozy propõe que já no primeiro semestre de 2008 se realize uma reunião dos chefes de Estado e Governo dos países interessados. A iniciativa deverá prosperar, mas as dificuldades residem no fato de que já existem vários esquemas e projetos para a bacia do Mediterrâneo e deve-se encontrar espaço para que essa nova proposta – que é, sem dúvida, mais ambiciosa e abrangente do que as existentes – possa avançar. O problema aqui á conciliar a Espanha que, desde o início do Processo de Barcelona em 1995, sente-se com um mandato para ser, de alguma forma, o país condutor na harmonização de interesses na bacia mediterrânea.

Esse universo mediterrâneo estende-se de Gibraltar ao Bósforo. Deve incluir, et pour cause, a Turquia, talvez o mais importante ator da margem não européia daquele mar. Sobre a crítica questão da admissão da Turquia na União Européia, Sarkozy continua a se manifestar contrário ao projeto, embora o faça agora em termos mais moderados e matizados do que em campanha eleitoral, e manifesta sua preferência por um encaminhamento que torne a Turquia um membro associado do espaço europeu unificado.

Além de aceitar como premissa a possibilidade de um enfrentamento em escala mundial entre o Islã e o Ocidente, e dar à Otan um apoio integral, sem explicitar nenhuma das condicionantes e reservas que antes defi niam a posição da França, Sarkozy também aceita cabalmente a existência de uma ameaça terrorista, em escala global, e engajou a França em um programa de “cooperação total “com os serviços de segurança e de inteligência dos países interessados”. Essa cooperação passará a ocupar uma posição central na política francesa. Como exemplo dessa nova disposição, o governo francês reclama do Paquistão uma política mais vigorosa contra a Al-Qaeda e os Talibãs, e se compromete a ajudar o governo de Karachi nessa empreitada.

Com respeito ao Iraque, o presidente deseja um horizonte claro para a retirada das tropas estrangeiras do país. Segundo ele será a partir desse momento que a comunidade internacional, a começar pelos países da região, poderá atuar de forma produtiva. A França estará, então, disposta a participar de tais esforços. Sobre o programa nuclear do Irã, é evidente que Sarkozy claramente elevou o tom das advertências francesas. Ao declarar, de forma categórica, que seria inaceitável que o Irã dotasse de armas nucleares e que essa ameaça é o que mais pesa hoje na vida internacional, acrescentou, dizendo que media cada palavra, que o fracasso dos esforços atuais de fazer o Irã mudar de rumo pela aplicação de sanções cada vez mais severas levaria a uma alternativa catastrófi ca: “la bombe iranienne ou le bombardement de l’Iran”.

No tratamento dessa questão é evidente que o novo governo francês adota uma posição muito mais enfática e mesmo ameaçadora, e isso constitui não apenas uma mudança no caminho que a França trilhava ao considerar o conjunto de questões que interessam o Oriente Médio, mas essa evolução representa também um endosso sem qualifi cações da política que Washington tem proposto sobre o tema.

Sobre o confl ito entre Israel e a Palestina, suas posições não parecem se afastar da política tradicional francesa, embora as palavras e o sentimento com relação a Israel sejam mais calorosos, e o repúdio ao Hamas e a um separatismo potencial da faixa de Gaza sejam mais enfáticos do que antes.

Sobre a África, mesmo ao reafirmar a “importância essencial” que esse continente tem para a França, não houve, por parte de Sarkozy, o anúncio de novas iniciativas significativas, e a linguagem utilizada aponta na direção de uma maior cooperação entre a ONU e Organização de Unidade Africana (OUA), a fim de dotar aquela região das condições políticas e econômicas para participar plenamente da globalização.

De quase tudo que Sarkozy disse e fez, até agora, não há como deixar de identificar, como o mais significativo, um esforço consistente de aproximação com Washington pela superação de divergências recentes e reafirmação de afinidades e alianças em momentos decisivos na história dos dois países. Mesmo quando não há mudança de rumo, parece evidente que ele quer retirar da formulação da política externa francesa o tom – um pouco didático e um quanto condescendente – com que Paris costuma tratar Washington e, mais especificamente, a sede texana da Casa Branca em Crawford. Não será fácil remendar a relação. As diferenças de perspectiva e discurso entre o estamento francês e a América que o presidente Bush encarna são de difícil, senão impossível, superação, sobretudo no curto prazo. O saldo positivo deverá ser uma atenuação do clima de irritação e dos sentimentos anti-franceses nos Estados Unidos, que passaram a ser, depois da passagem de Dominique de Villepin pelo Quai d’Orsay e depois como primeiro-ministro, um irritante e um complicador de uma relação que não costuma ser fácil, mesmo em seus melhores momentos. A melhor aposta estaria em um relançamento da relação com uma nova administração norte-americana, provavelmente democrata, por definição mais cosmopolita e menos unilateralista em sua visão do mundo.

Parece claro que Sarkozy não identifica oportunidades para uma reforma das Nações Unidas e de sua Carta. Por outro lado, e de forma muito consistente, vê como maduro o momento para que o G-8 se transforme, de fato, em um G-13. Destaca sempre a China, a Índia e o Brasil como os três grandes emergentes para os quais é preciso abrir espaço. No caso específico do G-8, ele vai além e identifica, também, a África do Sul e o México como parceiros necessários e desejáveis.

Não fica claro do exame de suas declarações se propõe desde já uma clara e completa ampliação do Grupo, ou se, em uma primeira etapa, que os países conhecidos como os cinco de Gleneagles tenham reforçado seu processo associativo com os membros originais. De qualquer forma, parece irresistível a ampliação, e Sarkozy quer, desde o primeiro momento, se identificar com e aparecer como patrono do que sabe ser uma tendência vitoriosa. Gostaria aqui de fazer algumas reflexões sobre quais seriam seus sentimentos e intenções com relação ao Brasil, para além do reconhecimento de nosso status como um dos Brics. As questões do comércio de bens agrícolas continuarão a ser o ponto mais importante de divergência entre o Brasil e a França. Sarkozy continuará a defender a Política Agrícola Comum (PAC), que é, a rigor, a projeção em escala européia das políticas e prioridades francesas, mas deverá fazê-lo com menos fervor do que fazia Chirac, muito mais identificado com o espírito e a vontade da França rural e dos interesses baseados no campo. Por outro lado não deverá ter conosco as afinidades e aproximações quase espontâneas, que são parte do ideário da intelectualidade e da latinidade francesas. Por formação, por sua origem étnica e pela própria dinâmica de seu projeto de governo nos identificará – desde logo e de forma crescente – como um grande ator na cena in ter nacional, mas não tem na sua biografia e na sua formação certos ingredientes que fi zeram que alguns de seus predecessores nos vissem com uma medida adicional de interesse e afeto. Haverá, sem dúvida, espaço para que a relação bilateral prospere, pela própria natureza das coisas e pela densa malha de interesses bilaterais já criados, mas não me parece que Sarkozy tenha até agora, do Brasil e dos brasileiros, um conhecimento direto e mais íntimo.

Não é demais assinalar que, nos cinco anos anteriores à sua eleição, quando exerceu postos ministeriais no Interior e na Economia, não viajou ao Brasil ou a qualquer outro país da América Latina. Faço o registro sem dar ao fato maior importância, mas para sublinhar que nossa relação, como país e como região, com Sarkozy, em várias dimensões, ainda está por ser construída.

Em duas outras importantes dimensões, o Brasil e a França deverão ter um diálogo: dentro da União Européia, onde o Brasil foi recentemente escolhido como parceiro estratégico, juntando-se a um punhado de países aos quais lhe foi conferi do esse status. Essa circunstância permitirá que se crie e dinamize uma nova avenida de diálogo e aproximação, e aproveitá-la bem, desde o início, parece o bom caminho a seguir. O outro caminho é o de aproveitar que um francês – Pascal Lamy – seja o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), para também criar canais valiosos de diálogo e negociação.

O Brasil parece-me que está a poucos meses de mudar de status. A nossa inclusão no G-8 ampliado nos colocará em outro patamar na hierarquia internacional, e teremos responsabilidades e prerrogativas adicionais. Se a isso se somar nossa elevação ao plano dos países em que é seguro investir (determinado pelas agências avaliadoras de crédito e risco) teremos de abandonar certas atitudes que não se adequarão mais a nossas novas circunstâncias. Ficará faltando o ingresso pleno na OCDE – onde somos insistentemente convidados a entrar, para que o Brasil se transforme, de jure e de facto, em um dos membros do diretório do poder internacional.

Essas novas circunstâncias obrigarão a uma revisão da natureza de nossas relações econômicas, políticas e comerciais bilaterais, que ainda guardam, amplamente, as características de uma relação clássica entre um país industrializado e um país em desenvolvimento. Isso se dará com naturalidade como reflexo de uma mudança das nossas circunstâncias.

Ao destacar o que deve haver de novo no relacionamento Brasil-França e na nova administração Sarkozy, não se pode deixar de fazer uma referência especial a todos os universos de afinidades e simpatias recíprocas que existem entre os países.

Deveria ser o objeto de um outro estudo indagar o que determina o processo permanente de sedução que um país exerce sobre o outro. Falei em afinidades e, a rigor, é importante falar também de complementaridades, as quais são numerosas. A França foi sede de um extraordinário ano de atividades culturais sobre o Brasil em 2004. Em 2009, será a nossa vez de acolher aqui uma grande temporada francesa. Os dois presidentes, Lula e Sarkozy, não precisam fazer mais do que deixar que o interesse recíproco se espraie e se aprofunde, como tem acontecido sempre. A França e o Brasil estão naquele pequeno grupo de países em que a cultura de um é uma fonte permanente de prazer e iluminação para o outro. Nisso não se deve mexer, mas deixar apenas que as coisas sigam seu rumo.

Sarkozy deve ser visto, acredito, mais como uma nova personalidade e um novo estilo de comandar, do que como um formulador de idéias. Não é um intelectual, na tradição francesa, mas um grande operador e um grande oportunista – e a palavra é usada aqui sem nenhuma conotação negativa. O seu maior desafio será o de inovar a partir de uma perspectiva conservadora. Isso pode ser feito e já tem sido feito, mas não é uma operação de fácil realização. Cabe-lhe também o desafio de reformar uma sociedade fundamentalmente afeiçoada a seus valores e sua maneira de ser, sem que conte para isso com o combustível e o lubrificante que uma grande crise ou uma guerra costumam fornecer. Não é difícil mudar o que vai muito mal ou aquilo que simplesmente parou de funcionar e não é o caso da França que, simplesmente, vai bem, menos, porém, do que os seus recursos e seus talentos permitiriam. O desafio, nesse caso, é ainda maior.

Com a chegada ao poder de Nicholas Sarkozy, não é possível deixar de ver que, de qualquer modo, um novo período se abre na vida política da França. De Gaulle, que sobreviveu a duas guerras mundiais e a alguns atentados, foi, finalmente, sepultado como influência significativa na vida francesa. Sarkozy tem uma outra idéia da França. A posição de De Gaulle na história de seu país está gloriosamente assegurada. Mas na condução da vida francesa atual pouco ou nada subsistirá de seu pensamento ou estilo. É normal que seja assim. O que surpreende é que sua sombra se tenha estendido por tanto tempo. Coube a Sarkozy fechar esse ciclo.

Esta matéria faz parte do volume 16 nº3 da revista Política Externa
Volume 16 nº 3 - Dez/Jan/Fev 2007 EUA e Determinantes Mundiais

A América Latina e suas opções estratégicas frente aos Estados Unidos

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Vol. 24 nº 1 e 2 - jul/dez 2015 jul/dez - 2015 O Histórico Acordo de Viena O Acordo de Viena sobre o projeto nuclear iraniano evitou as consequências trágicas da hipótese de o Irã, país inserido na região mais tensa do mundo, obter armamento nuclear.
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