Política Externa

The emerging markets century: how a new breed of world-class companies is overtaking the world* de Antoine van Agtmael

por em 27/09/2007
The emerging markets century: how a new breed of world-class companies is overtaking the world*

Mais um livro sobre globalização, e sobre a “ameaça” – para as economias mais ricas do mundo – da competição que vem das economias emergentes. Diferente de Thomas Friedman em O mundo é plano, outro livro recente também alarmado com essa competição, o foco de van Agtmael é o das companhias multinacionais como a força dinâmica que integra o mundo, porque o mundo é de fato a base de suas operações, e não a nação. E ele acha que “a dominância das companhias americanas está se esvaindo de maneiras diversas que até agora não se haviam imaginado” (p. 249). O entusiasmo de van Agtmael com as multinacionais que nasceram em países emergentes, e estão conquistando o mundo, transborda na análise da história de empresas que quase naufragaram em catástrofes em seus próprios países, mas souberam adotar estratégias para se transformarem em corporações de “classe mundial” (world-class é o adjetivo mais usado para as empresas que o autor destacou).

Baseado em sua vasta experiência e em pesquisa detalhada, o autor aponta os fatores, as inovações, o pioneirismo e as opções estratégicas que levaram ao sucesso essas empresas ainda relativamente desconhecidas na competição internacional. “Classe mundial” não é meramente sinônimo de tamanho, insiste van Agtmael, ainda que o tamanho seja uma característica impressionante de várias delas, em particular as chinesas. O autor relata diversos episódios curiosos das prolongadas visitas às plantas industriais das corporações que compõem sua lista de “25 multinacionais emergentes de classe mundial”, entre as quais aparecem quatro brasileiras.

Poucos terão tanta autoridade quanto Antoine Van Agtmael para falar do tema. Ele está há mais de 20 anos investindo em países em desenvolvimento, que entrementes passaram de “países do Terceiro Mundo” a “países emergentes”. Consta que foi ele quem cunhou o termo “mercados emergentes”, em 1981, quando estava trabalhando no Banco Mundial, com a incumbência de estruturar o braço do Banco para investimentos, a IFC-International Finance Corporation. “Investir em mercados emergentes” parecia mais promissor que “investir em ações no Terceiro Mundo”.[1]

Em 1987, lançou EMM (Emerging Markets Management), um dos fundos de investimento pioneiros cujo foco era exclusivamente o de investir em ações em mercados emergentes. EMM sobrevive até hoje, com mais de 40 profissionais e investindo em mais de 50 países, administrando ativos estimados, em meados de 2007, em US$ 23 bilhões. Não é uma façanha menor, considerando a quantidade de fundos de investimento específicos de países emergentes que se expuseram exageradamente em períodos ascendentes do ciclo para ver seus ativos derreterem em períodos de crise – e não foram poucas nem moderadas as crises em países emergentes nas duas últimas décadas do século XX. Não é à toa que EMM anuncia que sua equipe é uma das mais antigas no setor, e que “a mesma equipe passou por períodos de crescimento e de crise”. E não é por acaso que seu fundador e CEO, ao relatar a história das empresas emergentes de “classe mundial” dá bastante ênfase à maneira pela qual elas enfrentaram e sobreviveram a crises em seus respectivos países. Em alguns casos, partir para a conquista do mundo foi a maneira pela qual a corporação conseguiu evitar o naufrágio em uma crise em seu país de origem.

O Brasil aparece na avaliação de van Agtmael com quatro empresas de classe mundial, ou melhor, em sua perspectiva, empresas mundiais de origem brasileira: Aracruz Celulose, Cia. Vale do Rio Doce, Embraer e Petrobras. Essas são as empresas para as quais aparece um histórico mais detalhado e uma análise para extrair lições. No caso de outras corporações, como a AmBev (cujas vendas mundiais de cerveja são hoje maiores que as da mexicana Modelo incluída entre as 25), há apenas uma ou outra menção.

Além do Brasil, só México e Coréia aparecem com quatro empresas cada. Para o primeiro, o Grupo Modelo com sua conquista do mercado americano pela cerveja Corona, Televisa e a exportação das novelas mexicanas, Cementos Mexicanos-Cemex, para quem cimento deixou de ser produção local e que tratou de vencer acusações de dumping passando a produzir no país onde se originou a acusação, e America Movil, empresa de telecomunicações controlada pelo mexicano Carlos Slim. Para a Coréia, a siderúrgica Posco, Samsung Electronics (que começou em 1938 como exportador de verdura para a China e gradualmente construiu uma marca de eletrônicos), Hyundai Heavy Industries (maior estaleiro do mundo, construindo navios de grande porte como navios-tanque, navios de containers e de transporte de produtos químicos), e a automobilística Hyundai Motor Company. Há na lista três corporações da China: Lenovo, a principal produtora de computadores da China catapultada para fama mundial em 2004, quando comprou IBM Thinkpad; a gigantesca Yue Yuen, que se orgulha de importar do Brasil e dos EUA mais de 8 mil toneladas de couro por dia, responsável por 17% da produção mundial de tênis e sapatos de atletismo em geral e, silenciosamente, por 39% da produção da Nike, 25% da Adidas e 20% da Reebok; e Haier, a 3ª maior produtora de geladeiras e 4ª maior produtora mundial de eletrodomésticos (depois de Whirpool, Electrolux e Bosch-Siemens). E também três de Taiwan: High Tech Computer Corp. (HTC), Hon Hai Precision Industry Co., discretamente produzindo componentes e produtos eletrônicos completos para as grandes marcas, e TSMC, líder mundial na fabricação de semicondutores. Da Índia foram igualmente selecionadas três empresas: a farmacêutica Ranbaxy, com produção em sete países; o conglomerado Reliance Industries, envolvido principalmente em petroquímica (segundo maior produtor mundial de fibras de poliéster), e a famosa empresa de software Infosys Tecnologies que, junto com seu principal executivo, Nandan Nilekani, já fora personagem-chave de O mundo é plano de Thomas Friedman. África do Sul (com Sasol, maior produtor mundial de combustível sintético líquido, a partir do carvão), Argentina (com Tenaris, tubos sem costura), Chile (com a vinícola Concha y Toro) e Malásia (com MISC, transporte marítimo de gás liquefeito) aparecem cada um com uma empresa mundial.

A Embraer é a única a ter sozinha um capítulo inteiro (capítulo 8), e é um prazer acompanhar, em meras 20 páginas com muitos louvores, a trajetória e o potencial da empresa que é hoje a quarta maior exportadora de aviões do mundo, para entender o seu sucesso e o papel que desempenharam os seus líderes em diferentes etapas. Aqui aparece nitidamente, como em praticamente todas as demais histórias das empresas campeãs do livro, o papel do conhecimento técnico: não poderia ter havido a Embraer sem o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, o famoso ITA de São José dos Campos. A quarta parte do seu quadro de empregados é de engenheiros, e van Agtmael considerou emblemático um momento quando, em visita recente, flagrou um engenheiro com toda a naturalidade ajudando um operário a resolver um problema na linha de produção.[2] Ressalta ainda a competência técnica de figuras como Casimiro Montenegro, responsável pela criação do Centro Técnico da Aeronáutica em São José dos Campos, de Ozires Silva, primeiro CEO quando a Embraer começou em 1970 e que voltou a liderar a empresa quando ela estava quase naufragando em 1992, preparando-a para a privatização em 1994, e de Mauricio Botelho, que conseguiu transformar a empresa em sucesso comercial. Entre os diferentes fatores de êxito, fundados na competência técnica, é citada a percepção de mudanças na aviação que levou à aposta nos jatos pequenos e o outsourcing às avessas, de um país em desenvolvimento encomendando componentes nos países desenvolvidos.

Ao chegar ao fim do livro, não alcancei toda essa certeza de que o século XXI será “o século dos mercados emergentes”, como diz o título. Não faltam riscos de longo prazo à espreita nos mercados emergentes. É verdade que há outros analistas que, de um ângulo macroeconômico, destacam o papel crescente das economias emergentes. Há quem julgue que as maiores dentre elas já não mais devem ser consideradas “emergentes”, pois a força de sua demanda doméstica já tem impacto sobre a economia mundial e “o mundo entrou em uma fase do processo de globalização em que essas economias que não fazem parte do G-7 ajudarão a dotar a economia global de maior resiliencia para enfrentar choques adversos” (Stephen Jen in Morgan Stanley Global Economic Forum, 27 de julho de 2007). Em certa medida, as páginas do livro estão permeadas do clima de otimismo dos mercados financeiros, característico desses últimos anos de prolongada fase ascendente do ciclo da economia mundial. É de um otimista que viveu os últimos anos de escalada mundial das fusões e aquisições a percepção do que sejam as lições do passado e os desafios futuros para cada grande empresa, pois as sobreviventes de hoje conseguiram manter-se à tona durante graves crises macroeconômicas no passado.

Por último, mas também importante: este é um homem de negócios que escreve bem. Conseguiu fazer um relato de nascimento, vida e futuro de 25 corporações internacionais que é sério, factual, sem nunca chegar a monótono, e daí destila lições de gestão que escapariam à maior parte dos teóricos de administração de empresas.

*Free Press – A Division of Simon & Schuster Inc., New York, 2007.

Notas

[1] Devido à crescente diferenciação entre os níveis de desenvolvimento dos chamados “países em desenvolvimento” já se colocara antes a necessidade de novas categorias para distinguir entre eles. No fim dos anos 70 e nos anos 80, depois de duas décadas de crescimento industrial espetacular de países do Sudeste asiático, entrou em uso a categoria dos NICs (Newly Industrializing Countries), por exemplo. Em meados dos anos 70 já se usava na Alemanha o termo Schwellenländer para caracterizar os países que estavam na “soleira da porta” que dava entrada para o grupo dos desenvolvidos (Schwelle = soleira da porta). O Brasil era dado como exemplo de Schwellenland e, 30 anos depois, continua na soleira.

[2] Aliás, van Agtmael conta que o analista da EMM para o Brasil é um engenheiro formado pelo ITA (p. 172).

Esta matéria faz parte do volume 16 nº2 da revista Política Externa
Volume 16 nº 2 - Set/Out/Nov 2007 Rumos da América Latina

Caminhos novos? Reflexões sobre alguns desafios da globalização

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