Política Externa

El hombre que amaba a los perros* de Leonardo Padura

por em 04/02/2013
El hombre que amaba a los perros*

É romance, de paixão, terror, e, mais que nada, desengano. É construído como romance policial, e mantém suspense, pela minuciosa investigação do financiamento, da logística, e das motivações do mais longamente preparado e inútil dos assassinatos. Mas só em parte é ficção: pelas vozes paralelas do romance – Trotsky, o jovem espanhol que o matou, e um narrador cubano em primeira pessoa – temos ali uma história do comunismo desde os anos trinta até o início do século XXI e um balanço de fracassadas utopias do século XX.

Trotsky, ferido de morte, ainda conseguiu gritar a ordem para que os guarda-costas que o acudiram não matassem o homem que havia enterrado um piolet em sua nuca: ”… ele tem uma história para contar!” E a história está sendo contada por muitos autores.[1]

Padura leva-nos aos cenários do que foi alguma vez chamado de “revolução mundial”: a Rambla em Barcelona, Catalunha e Madrid da Guerra Civil Espanhola, Moscou dos processos e execuções estalinistas, México de Lázaro Cárdenas, Praga de 1968, Cuba dos anos setenta até o fim da ajuda soviética. Pelo caminho, aparece a Sibéria dos degredados e uma bucólica ilha da Turquia que aceitou o judeu russo e sua mulher no início do desterro, além das várias cidades francesas por que passa sempre em fuga, e da Noruega que o asilou, e depois também o despacha num cargueiro para o México. Até por Nova York e Coney Island passam os agentes secretos da NKVD neste romance.

Alguns dos personagens não são figuras históricas. Além do narrador Ivan Cárdenas – escritor cubano tão frustrado com o ambiente de opressão em Cuba nos anos setenta que desiste de escrever e vai trabalhar de veterinário –, são também de ficção as mulheres dele, familiares, colegas, seu amigo e confidente Daniel Fonseca.

Esses cubanos da imaginação literária são situados por Leonardo Padura em contextos conhecidos: Ivan corta cana como voluntário na safra de 1970; Ivan e Daniel sofrem com falta de comida e combustível quando não há mais subvenção russa e, da praia em Cojimar, no verão de 1994, observam “… centenas, milhares de homens, mulheres e crianças que aproveitavam a abertura de fronteiras decretada pelo governo para lançar-se ao mar em qualquer objeto flutuante, levando seu desespero, seu cansaço e sua fome, em busca de outros horizontes” (p. 539). São personagens que permitem um olhar sobre o cotidiano da ilha, como o detetive Mario Conde, protagonista dos romances policiais que tornaram Padura conhecido em Cuba e mundo afora.[2]

Ivan um dia encontra caminhando na areia a beira-mar um homem misterioso e triste, com dois borzoi. Aproxima-se através dos cães, conversam, e a curiosidade faz com que volte à praia muitas vezes, percorrendo longa distância em bicicleta, à procura do homem, que está sempre com seus borzoi e com um negro alto, que fica de longe, com jeito de guarda-costas. Consegue reencontrá-lo várias vezes, ouve dele relatos que suspeita serem confidências, até que um dia ele some. Ivan faz anotações do que o homem lhe contou, mas não pensa em publicá-las.

Depois de muitos anos, já na década de noventa, quando a preocupação maior de Ivan ainda é a sobrevivência, ele recebe um envelope enviado por German Sánchez, com falso endereço de remetente. É um livro de Luis Mercader sobre seu irmão Ramon e tem muitas fotos. Ivan tem a certeza, pelas fotos, que o homem que encontrara na praia como Jaime Lopez era de fato Ramon Mercader. Percebe que deve escrever a história que este lhe contou e que ainda não o fez por medo.

Há diálogos e emoções dos personagens reais para os quais obviamente não há documentação histórica. Assim, o sentimento de culpa de Trotsky durante seu affair com Frida Kahlo é “criação” de Padura, mas o tal caso acabou sendo notório. E é fato que Diego Rivera hospedou Trotsky e sua mulher Natalia quando chegaram ao México. O fracassado atentado ao asilado por um grupo de mexicanos armados que arrebentou muros da casa de Coyoacán em maio de 1940, e que teve a participação de Alfaro Siqueiros, teria sido instigado por Rivera ciumento?

De todos os modos, a campanha dos comunistas locais contra Trotsky, “o traidor”, compunha o ambiente para o atentado. As ideias políticas expressas nas conversas de Trotsky e dos outros personagens estão embasadas em seus livros, artigos e correspondência, mas é claro que nunca saberemos como foi cada diálogo real.

Trotsky aparece como o personagem perseguido, fugindo sempre, de um país para outro, cada vez que se esgotam as condições políticas para a permanência do asilado. Claro que nesse relato da gestação de um crime ele é mais vítima que algoz, dá pena. Mas não é louvado como “herói da classe operária” (que é o que seu assassino almejava ser). É um personagem obsessivo, para o qual o que mais interessa é o grande jogo político, pois crê nas “leis da história” e as pessoas ao seu redor são instrumentais (com exceção talvez de Natalia e dos borzoi). Até porque nos seus últimos anos precisa do dinheiro que lhe rendem seus artigos para jornais e revistas.

Cada vez que há uma purga em Moscou, com condenações e fuzilamentos de conhecidos e amigos dos primeiros tempos da revolução dos sovietes, Trotzky nota como o terror pode estar se aproximando dele. E volta à sua memória sua própria culpa no massacre dos marinheiros de Kronstadt. Mas ele justifica para si mesmo que em 1921 o governo revolucionário estava começando e não podia tolerar levantes que o punham em perigo.[3]

A biografia de Ramon Mercader que ali se revela é ainda mais sombria. Depois de lutar nas trincheiras da guerra civil espanhola, é convencido por sua mãe, Caridad Mercader, a se tornar agente da NKVD. Caridad, cubana de nascimento, aparece em muitas das ocasiões nesse romance, e é talvez o personagem mais sinistro, uma mulher em um mundo de homens, mais dura e fanática que todos eles. Sua militância começa por queimar a fábrica do marido.

O romance é de terror quando do treinamento de Ramon na URSS, para assumir vários personagens, convencer-se de que o fim justifica os meios e, sobretudo, para aprender a matar e a obedecer, o que chega a ser bastante doloroso para o catalão. É romance de espionagem quando mostra Ramon – então como Jacques Mornard – pouco a pouco ganhando a intimidade dos Trotsky e sua entourage. Depois de capturado em flagrante, em 1940, ficou preso 20 anos no México, sem jamais trair seus companheiros, reafirmando todo o tempo a identidade que aparecia em seu passaporte falso de belga. Sua verdadeira identidade foi sendo confirmada aos poucos. Depois de libertado, viveu incógnito em Moscou, e em Cuba entre 1974 e 1978. (E é assim que o Ivan, o veterinário que também gostava de cães, pôde encontrar Lopez com seus dois borzoi.) Morreu em Moscou em circunstâncias obscuras.

O livro não poderia ter sido escrito antes da queda do muro de Berlim, antes da glasnost, antes da abertura dos arquivos de Moscou nos anos noventa e a subsequente publicação de material sobre a realidade dos 70 anos de existência da União Soviética. Padura passou vários anos fazendo pesquisa de campo e de documentos, com a ajuda de pessoas em lugares diversos, sobretudo México, Espanha, Moscou, França, e Dinamarca.

Haverá quem não goste de ver a documentação colossal “organizada de acordo com as liberdades e exigências da ficção” e, ainda por cima, com uma enormidade de detalhes. Ou então, que não confie que a ficção pode transmitir bem uma verdade histórica e prefira os relatos de historiadores, biógrafos, jornalistas.[4] Leitura fácil esse romance não é. Mas tudo o que vivenciei até hoje no meu fiapo de linha do emaranhado que Padura quer desenredar – como e por que se perverteu a utopia do século XX? –, sustenta minha convicção de que o que está nesse livro é mais verdade que ficção. Ou é ficção que mostra a verdade.

* Tusquets Editores S.A., Barcelona, 2009, 765 págs.
1ª edição em português: O homem que gostava de cães, Porto Editora, Portugal, 2011. A edição em italiano é de 2010, em dinamarquês, de 2011. Em 2012 publicou-se a tradução alemã. A edição em inglês está anunciada por Farrar, Straus & Giroux para agosto de 2013. Em Cuba publicou-se uma pequena edição para a Feira do Livro de Havana, onde consta Leonardo Padura Fuentes, 2010, Ediciones UNIÓN Unión de Escritores y Artistas de Cuba, Calle 17 n.354 entre G y H, El Vedado, Ciudad de La Habana. E-mail: editora@uneac.co.cu. Essa edição está esgotada e é quase impossível encontrar livros de Padura em Cuba.

Notas

[1] Em 1990 foi publicado o livro de Luis Mercader (escrito com o jornalista Germán Sanchez), Ramón Mercader mi Hermano. Cinquenta años después, Espasa-Calpe S.A., Madrid. Luis fugiu bem jovem para Moscou no fim da guerra civil espanhola e conseguiu voltar para a Espanha depois da queda de Franco. Diz ele: “Meu irmão não era um vulgar assassino, mas alguém que acreditava na causa do comunismo. E naquele momento os comunistas do mundo todo consideravam Trotsky um perigo para o movimento e para a União Soviética.” No romance de Padura, esse depoimento é uma dentre inúmeras fontes.

[2] Mario Conde parece ser um personagem tão “normal” que vizinhos no bairro de Mantilla, em Havana, perguntam a Padura “como vai ele?”, supondo talvez que o romancista está contando as peripécias de algum conhecido dele.

[3] Em 1921, marinheiros da frota do Báltico concentrados na fortaleza de Kronstadt, uma ilha em frente a São Petersburgo, se rebelaram contra o governo e foram massacrados pelo Exército Vermelho sob as ordens do então Comissário para Assuntos Militares e da Marinha, Leon Trotsky.

[4] O que o romance mostra da Guerra Civil Espanhola é consistente, por exemplo, com o trabalho de Antony Beevor em A Batalha pela Espanha (Record, 2007, 711 pág.) ou com a grande reportagem de George Orwell publicada pela primeira vez em 1938, Homenagem a Catalunha.

Esta matéria faz parte do volume 21 nº3 da revista Política Externa
Volume 21 nº 3 - Jan/Fev/Mar 2013 Mercosul = - Paraguai + Venezuela

Paraguai, Brasil e o Mercosul

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