Política Externa

História conhecida não tira vigor e tensão de romance – O homem que amava os cachorros* de Leonardo Padura Fuentes

História conhecida não tira vigor e tensão de romance - O homem que amava os cachorros*

A morte de Trotsky a golpes de picareta no crânio desfechados por Ramon Mercader, revolucionário espanhol e agente da polícia secreta de Stalin, em 1940, no México, já foi contada de muitas maneiras.

Nascido Lev Davidovitch Bronstein, Leon Trostsky dividiu com Nikolai Lenin a liderança da revolução de Outubro de 1917; foi o primeiro Comissário do Povo para Assuntos Exteriores do governo revolucionário; organizou o Exército Vermelho e levou à vitória bolchevique na guerra civil ( 1918 e 1921); foi afastado por Stalin da direção do Partido Comunista da União Soviética, em 1927; expulso do país, dois anos depois, sob a acusação de trair a revolução, iniciando um tormentoso exílio durante o qual, a perseguição tenaz de Stalin, o levaria à Turquia, Noruega, França e, finalmente, México. Aí, Diego Rivera e Frida Kahlo, deram-lhe abrigo na Casa Azul – em Coyoacan, bairro tranquilo da Cidade do México – transformada em fortaleza murada, depois de um atentado frustrado, sob o comando de David Alfaros Siqueiros, comunista e pintor que, com Jose Clemente Orozco e o próprio Rivera, compunha a trinca dos grandes muralistas mexicanos. Os muros altos que escondiam a Casa Azul não impediram a entrada de Ramon Mercader, sob o nome de Jacques Mornard, namorado de Sylvia Agelof, secretária norte-americana de Trotsky e pessoa de confiança da família.

Existem pelo menos quatro grandes biografias que reconstituem a saga trágica de Trotsky e de sua mulher Natalia Sedova. Nos anos 1950, Isaac Deutscher publicou a monumental trilogia O profeta armado, O profeta desarmado e O profeta banido. É de 1988, a biografia escrita por Pierre Broué, simpatizante do trotskismo, intitulada Trostky. Mais recentemente, Dimitri Volkogonov, o historiador e antigo general do Exército soviético, publicou, em 1996, Trotsky the Eternal Revolutionary, e o historiador britânico Robert Service Trotsky – a biography, em 2009. Volkogonov e Service beneficiaram-se da abertura dos arquivos soviéticos, depois do colapso do regime socialista.

No terreno da ficção, a morte do companheiro de Lenin inspirou um filme menor do diretor norte-americano, radicado na Inglaterra, Joseph Losey (1909-1984), O assassinato de Trotsky, de 1972, com roteiro de Nicholas Mosley, e o magnífico romance A segunda morte de Ramon Mercader, do escritor, militante antinazista e antifranquista, ex-dirigente e dissidente do Partido Comunista Espanhol Jorge Semprun (1923-2011).

Contar uma estória conhecida não tira nada da tensão e vigor do romance de Padura Fuentes, escritor cubano, morador do bairro de Mantillas, em Havana, membro da geração que já se criou sob Fidel Castro, que sofreu as consequências da desastrosa campanha cubana na África e experimentou as agruras do período especial, que se seguiu ao fim da URSS. Antes de escrever O homem que amava os cachorros, Leonardo Padura ganhou notoriedade internacional por uma série de romances policiais que, no melhor estilo da literatura policial norte-americana da linhagem de Dashiel Hammet, Raymond Chandler, Ross MacDonald e Chester Himes, nos apresenta o inspetor Mario Conde, que luta para manter seu agudo sentido de justiça em meio à névoa produzida por muito rum e pela falta de horizontes e perspectiva, na Cuba pós-URSS.

A força de O homem que amava os cachorros vem do fato de ser um romance, no melhor estilo desse gênero literário: uma ficção que dá ordem e sentido à realidade a partir da experiência íntima dos personagens. Os personagens, no caso, são Trotsky, seu assassino e o narrador cubano, Ivan Cárdenas Maturell – este sim, fictício — viúvo recente, escritor fracassado, reduzido a redator de um revista sobre veterinária. Um encontro fortuito na praia, onde Ivan e um personagem misterioso passeavam seus cachorros, transforma o primeiro em confidente do segundo. Este é Ramon Mercader, que na vida real, depois de 20 anos preso no México, alternou residência entre a Rússia, onde foi condecorado Herói da União Soviética e Cuba, onde morreu, em 1978.

As estórias que Mercader, o homem que amava os cachorros, vai contando ao cubano conduzem à reconstituição do périplo de Trotsky no exílio e do trajeto do jovem comunista em Barcelona, bastião da república e ponto de encontro dos revolucionários de todo o mundo, durante a Guerra Civil espanhola (1936-1939), quando é recrutado pela NKVD, serviço de espionagem e polícia política de Stalin.

A narrativa se estrutura de forma semelhante aos grandes romances de Vargas Llosa – Casa verde, Conversa na Catedral, A guerra do fim do mundo, A festa do bode – alternando e entrelaçando as estórias dos personagens centrais. “Cada vez que escrevo”, disse Padura em entrevista a The Guardian, “eu releio J.D. Salinger e Mario Vargas Llosa. Eu tenho que lutar contra esses dois grandes mestres”.

Dos capítulos saltam personagens vivos. Trotsky é altivo, incansável no seu afã de construir a rede internacional de oposição ao domínio de Stalin; obcecado com sua tarefa histórica; implacável com seu filho e braço direito Leon Sedov – assassinado a mando de Stalin, em Paris, em 1938 – e com seus correligionários vacilantes; um personagem grandioso ao enfrentar a tragédia, mas desagradável em sua intolerância, determinação e egoísmo. Isaac Deutscher escreveu, em O profeta armado, que Trotsky era dominado por seu ego, mas seu ego era dominando pela ideia de revolução. Esse Trotsky surge por inteiro na ficção de Padura. Ramon Mercader é o jovem revolucionário arrastado pelo vendaval de paixões despertadas pela luta contra Franco, em uma Barcelona na qual o heroísmo diário convive com a intriga entre os diferentes grupos que defendem a república, onde comunistas assassinam anarquistas e é exíguo o espaço para a expressão dos sentimentos individuais. Sua mãe, figura fantástica de mulher burguesa liberada pelos ares da revolução, é amante de um membro do serviço secreto soviético, tem atuação decisiva para enredar Mercader nas maquinações dos partidários de Stalin e transformá-lo no agente da NKVD, fanático, manipulador e determinado em sua tarefa de eliminar o inimigo número 1 da pátria soviética. Enquanto Mercader e Trotsky perdem-se pelo fanatismo, pela crença cega de que a vitória do socialismo, com Stalin ou contra ele, justifica seus atos; Ivan afunda na melancolia e na desesperança de uma revolução cujas promessas libertárias são corroídas, pouco a pouco, pelo cotidiano de privações anotadas na libreta de racionamento ou aliviadas no mercado negro, por um governo autoritário que administra privilégios mesquinhos, em uma cidade de prédios decrépitos, comidos pela maresia e o abandono, onde engenheiros ganham a vida como motoristas de táxi.

Em A segunda morte de Ramon Mercader, Jorge Semprun usa a tragédia de Trotsky e de seu algoz para falar, também, da morte do comunismo espanhol, subjugado pelo stalinismo e apequenado pela liderança medíocre de Santiago Carillo.

Padura faz algo semelhante e, talvez maior, pois as estórias entrecruzadas de Leon Trotsky, Ramon Mercader e Ivan Cardenas, marcadas pela morte, falam, também, das diferentes formas de extinção do comunismo como utopia generosa de uma sociedade de pessoas livres e iguais: com um estrondo, nas ruas bombardeadas de Barcelona e no austero escritório da Casa Azul, em Coyoacan; ou com um suspiro, na Havana em ruínas. Afinal, como nos lembra Bacon, a verdade é tão difícil de dizer, que às vezes precisamos da ficção para torná-la plausível.

* Editora Boitempo, São Paulo, 2013, 592 pp. (trad. Helena Pitta).

Esta matéria faz parte do volume 22 nº3 da revista Política Externa
Volume 22 nº 3 - Jan/Fev/Mar 2014 Comércio Internacional

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