Política Externa

Um toque de pecado* – ou os abandonados pelos céus de Jia Zhangke

por em 14/04/2014
Um toque de pecado* – ou os abandonados pelos céus

O filme de Jia Zhangke retrata, em quatro episódios aparentemente desconexos, incidentes que foram notícia na China e que integram as estatísticas publicadas anualmente pela imprensa ocidental e a de Hong Kong. São mais de três mil incidentes graves por ano, envolvendo conflitos com as autoridades e manifestações, algumas com milhares de pessoas. Suas causas, como no filme, percorrem o cahier de doléances da população chinesa: a ocupação de áreas rurais, condições de trabalho desumanas, em especial dos trabalhadores migrantes, crimes ambientais, desmandos das autoridades locais e corrupção dos membros do Partido. Tais incidentes, quando ganham notoriedade, como ocorreu no caso da mocinha que trabalhava na sauna e defendeu-se do assédio do burocrata do Partido com uma faca, saem do registro numérico e impessoal e transformam-se em notícias, mesmo na imprensa oficial. Antes disso, correm pela internet e despertam o protesto.

Como na internet, os incidentes do filme de Jia são aparentemente desconexos, explodem em episódios individuais de revolta. Como incidentes isolados revelam a fragilidade do protesto, convertido em vingança pessoal ou ato impensado, ante a insensibilidade das autoridades e a impossibilidade de mudar o sistema. A resposta, a cargo dos poderes locais, em geral envolvidos diretamente nos desmandos e abusos, é, como mostra o filme, uma combinação de repressão aos revoltados, com medidas tópicas que ataquem os abusos mais gritantes e deem alguma satisfação à opinião pública, como ocorreu no incidente com o trem de alta velocidade que aparece no filme e com o caso da moça atacada na sauna. Quando os incidentes saem do nível local e chegam ao nacional, o que é cada vez mais frequente com a mídia social, Pequim se movimenta. No caso do desastre com o trem na linha Pequim-Xangai, os envolvidos tentaram ocultar suas causas e limpar rapidamente os destroços, mas a grita dos parentes das vítimas impediu a manobra e o próprio primeiro-ministro Wen Jiabao viajou para o local e determinou a criação de uma comissão de investigação.

No filme, Pequim não surge na tela, pois é o céu distante como era o imperador. Os incidentes ocorrem por toda a China, e os grandes responsáveis são as autoridades locais como o pequeno déspota corrupto que desembarca de seu avião particular e é saudado pela manifestação organizada por seus acólitos ou o chefete local que resolve cobrar pedágio nas estradas. O objeto da obra de ficção é a dimensão humana do poder expressa em atos personalizados e não o poder difuso e impessoal do sistema.

Abandonadas pelos céus, só resta às vítimas a resposta primitiva da vingança, como nos westerns, como no primeiro episódio. Ou então é a reação de autodefesa (a jovem da sauna), a imolação (trabalhador migrante) ou a brutalização (como no episódio do assassino que mata friamente). Estamos ante um cenário que precede o da justiça organizada, pois esta obedece aos desígnios do Partido. Nesse sentido, o filme é um grito de alerta para o Partido e para a necessidade de construir um estado de direito e um sistema político mais transparente e que dê resposta aos anseios da população. A capacidade de articulação das pessoas, potencializada pelos meios modernos de comunicação e pelas redes sociais é um indicador de que não estamos mais no mundo antigo dos boatos e rumores localizados e das petições levadas em mãos. A população chinesa tem sabido usar esses meios de comunicação para transformar incidentes locais em casos nacionais e Pequim tem tido que dar atenção.
Na verdade, a liderança atual com Xi Jinping à frente, está dando uma resposta mais abrangente a esses problemas, mostrando que eles têm um elo de ligação: o desgaste do Partido e do sistema político chinês. A campanha de massa em curso sobre desmandos, abusos de autoridade e gastos supérfluos, a luta contra a corrupção em escala nunca vista, a guerra contra a prostituição atingindo autoridades policiais, membros do Partido e grandes empresários, a campanha de moralização, que procura resgatar valores do socialismo, como ressaltado pelo próprio presidente em muitos discursos, mostra que o Partido reconhece que já não são apenas incidentes isolados. Xi Jinping, aliás, se diz admirador dos filmes de Jia.

Mas as respostas são ainda limitadas. Não há um reconhecimento da necessidade de um modelo político renovado, uma face política do socialismo com características chinesas que promoveu a espetacular ascensão econômica. Ao longo das últimas décadas de crescimento acelerado, as reformas políticas ficaram em segundo plano e a garantia da estabilidade como prerrequisito para o crescimento ocupou posição central. No dizer de um acadêmico chinês, a estabilidade foi ficando cada vez mais rígida, correndo o risco de romper-se. O papel central do Partido e das Forças Armadas como garantes dessa estabilidade, ficou marcado pela tragédia da Praça da Paz Celestial e pelo sacrifício dos líderes do Partido e militares que resistiram a esse desfecho. O fato de que até hoje o Partido não consegue fazer uma releitura desse episódio mostra que o caminho das reformas políticas será árduo.
O socialismo com características chinesas pós-Deng Xiaoping trouxe imensos resultados para a China em termos de crescimento e eliminação da pobreza, e hoje os chineses podem olhar para o mundo com outros olhos, deixando para trás o “século das humilhações”. Mas o modelo econômico chinês é indissociável de seu modelo político e nesse sentido deve ser contraposto, não só ao capitalismo liberal, mas à democracia ocidental. Mas, nos dias de hoje, essa confrontação não admite uma resposta trivial ou dogmática, pois também por aqui os sistemas políticos e os modelos econômicos estão sendo questionados. Na verdade, há relegados pelos céus em toda parte e o sentimento de impotência e o recurso à violência pipocam em todas as partes. O filme de Jia Zhangke é assim muito mais do que um retrato da sociedade chinesa. Aponta para algo que está ocorrendo em todos os quadrantes.

Para os que desejem conhecer a obra de Jia Zhangke recomendo a leitura do artigo de Tony Rayns, no filmcomment, disponível no site: http://www.filmcomment.com/article/a-touch-of-sin-jia-zhang-ke. Para mim, Jia Zhangke é o cineasta da China profunda, dos excluídos da modernização, daqueles que sofrem com ela sendo desalojados de suas casas inundadas por Três Gargantas, dos que tentam se reencontrar nas separações causadas pelo ciclo vertiginoso das mudanças, dos que aguentam com resignação os arbítrios e abusos das autoridades. A mudança é avassaladora, e seu ritmo alucinante, mas os personagens de Jia tentam a ela resistir e preservar suas origens e suas tradições. É a China em vias de desaparecimento que ressurge a cada passo, do campo que se rebela contra a urbanização usurpadora. A forma da resistência é a passividade do camponês, o exercício ao limite da capacidade de aguentar até o momento em que a ira divina explode em atos individuais e desconexos de resistência e rebeldia. A revolta do membro da aldeia contra o chefe do Partido que se apropria da mina de carvão da comunidade, a mocinha que resiste a facadas ao velho burocrata que pretende violá-la, o que traz à baila o machismo chinês na surpresa do violador ao não encontrar a esperada passividade, o suicídio do trabalhador migrante incapaz de encarar as exigências maternas e a tirania da fábrica, os assassinatos quase casuais do matador insensível. A capacidade de aguentar tem limites na China e no resto do mundo.

Pelos filmes de Jia Zhangke desfilam os deslocados, os desenraizados, os marginais, os excluídos do progresso. É o drama da transição campo-cidade reeditado no século XXI. São camadas que se vão sedimentando, culturas que não se integram, línguas que não se comunicam, vidas que se cruzam, tempos superpostos. Jia registra seu depoimento cinematográfico em cores toscas e esmaecidas, como se seu colorido refletisse a poluição da destruição, com a câmera na mão de um diretor independente, como começou. Não é didático, nem panfletário e por isso muito mais contundente e verdadeiro.

Este comentário é dedicado à professora Maria Hermínia Tavares de Almeida que fez com que eu não perdesse o extraordinário filme de Jia Zhangke

* Filme dirigido por Jia Zhangke (2013).

Esta matéria faz parte do volume 22 nº4 da revista Política Externa
Volume 22 nº 4 - Abr/Mai/Jun 2014 A Política Externa Durante o Regime Militar

Cinquenta anos após o seu início e 29 anos depois de seu fim, quão importante é para os dias de hoje saber como a política externa brasileira foi conduzida durante o regime militar?

Ver detalhes desta edição
Voltar Topo

Comentários

EDIÇÃO ATUAL - VOL. 24 Nº 1 e 2
Vol. 24 nº 1 e 2 - jul/dez 2015 jul/dez - 2015 O Histórico Acordo de Viena O Acordo de Viena sobre o projeto nuclear iraniano evitou as consequências trágicas da hipótese de o Irã, país inserido na região mais tensa do mundo, obter armamento nuclear.
Mais Política Externa