Política Externa

O Palácio Francês* de Bertrand Tavernier

por em 05/08/2014
O Palácio Francês*

Procurar fazer a análise de uma sátira ou de uma farsa empregando-se as ferramentas da racionalidade e as tintas da moderação é, quase sempre, um exercício de pouca ou nenhuma utilidade. O sentido mesmo da sátira (ou da farsa) está em sua capacidade de distorcer a realidade (ou se preferirem) de revelar uma realidade subjacente fazendo com que os traços fortes da caricatura e o efeito dissolvente do riso substituam as cores mais matizadas e as palavras sóbrias do discurso que derivaria de uma visão formalmente objetiva.

Este filme, que foi lançado em 2014 no Brasil e nos Estados Unidos e, uns poucos meses antes, na própria França seja como “Quai d ‘Orsay” (o renomado endereço da chancelaria francesa em Paris) ou como “The French Minister!” (para destacar a centralidade de seu alvo principal, um titular da diplomacia francesa) ou, na sua distribuição no Brasil, como “O Palácio Francês” (que é, por sua imprecisão o menos satisfatório dos três títulos) ilustra o que procurei dizer acima.

A trama é, no essencial, simples. O governo francês, preocupado com a pouca repercussão e a escassa qualidade literária de alguns de seus pronunciamentos contrata um jovem recém-diplomado pela prestigiosa “Escola Nacional de Administração”, a tão conhecida ENA, para cuidar das questões de “linguagem” nos discursos e outros textos produzidos pelo chefe da diplomacia francesa.

Essa preocupação com a linguagem é realçada, quase como se esta pudesse estar separada do próprio conteúdo, seria um traço, tantas vezes caricaturado, do caráter francês mais atento à forma à sonoridade e à consistência lógica das partes de um discurso do que com a verdade que esse texto devesse ou pudesse revelar.

Estamos, ao assistir o filme, envolvidos na preparação acelerada e desordenada, como costuma acontecer, de textos que devem ser apresentados, como é aqui o caso, às Nações Unidas em Nova York sobre as grandes crises daquele momento. Os prazos para a preparação do texto são exíguos, as circunstâncias internacionais ambíguas e instáveis e o orador não disporá, na tribuna, mais do que uns poucos minutos para apresentar suas ideias e seus planos de ação.

O filme é, por outro lado, intensamente realista na descrição do tumultuado processo de elaboração de importantes documentos diplomáticos e a ação é filmada, seja em Paris ou em Nova York, nos verdadeiros locais em que tudo acontece. Não se trata do emprego de estúdios, pois tanto as cenas nos salões suntuosos do Quai d’Orsay como os momentos do outro lado do Atlântico no Conselho de Segurança da ONU foram filmados, com fidelidade, nos próprios espaços em que transcorre a ação.

O maestro que rege de forma frenética sua pequena orquestra diplomática é o ministro das Relações Exteriores da França, no filme identificado como Alexandre Taillard de Worms nome que encobre o nome não menos sonoro do verdadeiro titular, na época, do Quai d’Orsay Dominique Galouzeau de Villepin. Alexandre aliás Dominique é o objeto mesmo da sátira.

O ministro é mostrado como um hiperativo (que corre em exercício vigoroso pelas margens do Sena) que provoca uma turbulência de papéis que voam, portas que se abrem e fecham com estrépito à sua aproximação e passagem e que, numa paródia dos lemas da Revolução Francesa que pregava a liberdade, a igualdade e a fraternidade, propõe agora para a orientação de seus colaboradores um novo trinômio composto pela perseguição, sem tréguas, da “legitimité, unité et efficacité”.

Outros traços atribuídos ao ministro Francês são sua compulsão em tratar como “camarada” seus colaboradores e uma irreprimível vocação por encontrar nos fragmentos de Heráclito citações daquele filósofo pré-socrático aplicáveis aos desafios que o mundo e a diplomacia francesa deviam enfrentar naqueles momentos.

Não é difícil imaginar como aquele elegante aristocrata, amigo dos clássicos e da história seria visto pelos olhos americanos da administração Bush. O ministro objeto da sátira e seu modelo na vida real encarnavam vários dos traços que fazem a elite francesa tão incompatível com os sentimentos fundamentais americanos, sobretudo naqueles anos em que uma sucursal (ou quem sabe a verdadeira matriz) da Casa Branca funcionava no Texas.

O diretor Bertrand Tavernier, exceção feita da montagem da figura do ministro, não carrega demais nas tintas da sátira. O “entourage” do ministro é essencialmente plausível e seus integrantes são identificáveis como pessoas que poderiam ter sido formadas pelas Grandes Escolas que são sementeiras dos altos escalões da burocracia francesa.

O melhor e mais fiel modelo é o do principal colaborador do ministro e seu chefe de gabinete Claude Maupas, numa interpretação magistral de Niels Arestrup, que lhe valeu merecidamente, como ator coadjuvante, um César em 2014, a contrapartida gaulesa do Oscar. Os demais integrantes da força tarefa ministerial, convocada para atuar sem descanso, no encalço de seu chefe como se fossem um comando militar, mostram os desafios e as desventuras de produzir um texto redigido por várias mãos, sob constante interrupção e que seja capaz definir uma realidade cambiante e, a rigor, imperfeitamente conhecida.

Um dos conselheiros do ministro é interpretado pela formosa e talentosa Julie Gayet, que naquela altura já estaria envolvida, na sua vida real, com o presidente da república François Hollande, de quem se tornaria mais tarde “maitresse en titre”(para tomar emprestado o título que tinham no Ancien Régime as amantes oficiais do Rei).

Temos, assim, uma farsa dentro da farsa, e é um assombro que desse caos possa emergir, para que seja dito no Conselho de Segurança e para que o mundo escute, um texto que se pretende claro, preciso e memorável. Saio mais uma vez do filme e volto ao mundo real. Villepin conseguiu em janeiro de 2003 fazer um discurso presciente no qual, sem qualquer concessão a Saddam Hussein, fazia apelo a que se desse mais tempo para que Hans Blix e Mohamed El Baradei pudessem concluir o processo de inspeções em que estavam engajados. Os dados já estavam lançados e não foi possível evitar uma malfadada invasão que iniciaria uma longa e inconclusiva guerra que causou tantas mortes e incontáveis perdas materiais e que, no fim, deixou o país invadido ainda menos governável do que era antes.

O filme é agradável e pode ser visto em qualquer de seus vários planos: como uma viagem interessante através dos bastidores da ação diplomática em Paris em Nova York; como uma comédia e uma sátira dos jogos absurdos das vaidades e do poder, em qualquer latitude, e, sobretudo, como um ingresso para o teatro da diplomacia, que mesmo nos seus momentos mais farsescos costuma ainda ser um exercício útil que, por vias complexas e tortuosas, pode levar a que um conflito seja abreviado, atenuado ou, quem sabe, até mesmo evitado.

Julho de 2014

* Filme dirigido por Bertrand Tavernier (2013

Esta matéria faz parte do volume 23 nº1 da revista Política Externa
Volume 23 nº 1 - Jul/Ago/Set 2014 O Mundo dos Candidatos

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