Política Externa

Discurso de Doutorado Honorário na Universidade de Haifa

por em 05/08/2014

Universidade de Haifa

Haifa, 27 de maio de 2014

Eu gostaria de agradecer sinceramente à Universidade de Haifa, em nome de todos os novos doutores honorários, pela honra que nos foi conferida hoje.
Representamos uma grande variedade de áreas de experiência e conhecimento:

  • Pesquisa científica
  • História e Religião
  • Artes performáticas e criativas
  • Diplomacia, governança e política
  • Psicologia e filosofia
  • Administração, serviços públicos e apoio a boas causas.

Sinto-me muito honrado em ter sido incluído neste grupo eminente de indivíduos. Todos eles atingiram a excelência em suas respectivas disciplinas. Todos merecem o reconhecimento representado por seus doutorados honorários. Todos contribuíram para a expansão do conhecimento e o aprofundamento da compreensão. Todos fizeram uma diferença significativa na direção de um mundo melhor.

Quanto a mim, eu sempre entendi a honra do título honorário mais como um reconhecimento do grande processo histórico no qual eu estive envolvido – e não como um reflexo de meu próprio papel naquele processo. A realidade é que eu não teria conseguido contribuir para a transformação democrática da África do Sul se não fossem as circunstâncias corretas e se o momento não tivesse sido propício.

A história tem seu próprio ritmo – às vezes agonizantemente lento – e outras vezes de velocidade alarmante. O papel do líder é avaliar as marés e as correntes dos acontecimentos e embarcar em grandes iniciativas no momento adequado. Nós não poderíamos ter feito o que fizemos com sucesso no início dos anos 1990 se tivéssemos tentado dez ou vinte anos antes. A situação simplesmente não estava madura.

No entanto, quando me tornei presidente, em setembro de 1989, havia uma confluência de fatores que tornaram possível nosso ousado movimento em direção à transformação de nossa sociedade.

  • O primeiro fator foi que o governo percebeu que sua política de “desenvolvimento separado” havia fracassado, e que em nosso caso ela era moralmente injustificável.
  • Um fator crucial foi a aceitação, por todas as partes, da impossibilidade da vitória militar ou revolucionária – e de que a continuidade do conflito simplesmente transformaria a África do Sul em uma terra de ninguém.
  • Contatos cautelosos entre o ANC e o governo – originalmente iniciados por Nelson Mandela enquanto ainda estava na prisão – permitiram que ambos os lados explorassem possibilidades de soluções negociadas.
  • É claro que as sanções também tiveram influência. Em meados dos anos 1980, nossa economia estava cada vez mais isolada e tínhamos que lidar com a crise que adveio quando os bancos internacionais se recusaram a prorrogar nossos empréstimos de curto prazo. Entretanto, as sanções foram muitas vezes contraproducentes. Elas aumentaram a oposição à interferência externa – e prejudicaram duas das maiores forças que movem as mudanças – o crescimento econômico e a exposição a influências internacionais.
  • Acontecimentos econômicos e sociais tiveram papel crucial. Não vou me ater a esses fatores, pois seria necessário um discurso inteiro só para isso.
  • Um outro fator foi a conclusão bem-sucedida de um acordo tripartido em 1988 entre África do Sul, Cuba e Angola, que resultou na retirada de 50.000 tropas cubanas de Angola, na implementação da Resolução nº 435 da ONU e na independência da Namíbia.
  • O último fator – de importância crítica – para a mudança foi o colapso do comunismo global em 1989. Tal fato removeu, de um só golpe, a principal preocupação estratégica do governo. A derrota do comunismo expansionista internacional criou um novo paradigma global estratégico e econômico. O sucesso manifesto das economias de livre mercado significava também que não havia mais nenhum debate sério a respeito das políticas econômicas que seriam necessárias para promover o desenvolvimento econômico em uma futura África do Sul democrática.

No início dos anos 1990, a história havia aberto uma janela de oportunidade para nós. Sabíamos que as circunstâncias nunca mais seriam tão propícias para um acordo negociado. Então, não hesitamos: pulamos pela janela.
Mesmo assim, não teríamos sido bem-sucedidos se não tivéssemos contado com os parceiros certos.

  • Se o ANC não tivesse um líder da estatura de Nelson Mandela, teria sido muito difícil administrar as muitas crises que surgiram no processo de negociação.
  • Se Mangosuthu Buthelezi, líder do IFP, e os líderes dos partidos brancos de direita não tivessem decidido participar de nossas primeiras eleições, vinte anos atrás, o resultado teria sido muito diferente.
  • E finalmente, se 70% dos sul-africanos brancos não tivessem votado a favor da continuidade das negociações em nosso referendo de 1992, eu não teria dado seguimento ao processo de transformação.

Portanto, com toda a humildade, eu gostaria de dedicar o prêmio que vocês me ofereceram hoje a todos os meus compatriotas sul-africanos, que possibilitaram o cumprimento de meu papel como presidente da forma como fiz.

Sua coragem, sua perseverança e sua crença em um futuro melhor que nos permitiram criar nossa nova sociedade. Com todos os desafios, temos hoje um país muito melhor, muito mais seguro e muito mais justo do que quando eu me tornei presidente, em 1989.

Eu espero que algumas das lições que aprendemos na África do Sul – sobre como gerir mudanças, sobre negociação e sobre aproveitar a oportunidade quando ela se apresenta – possam ajudar outras sociedades que enfrentam desafios complexos.

Para encerrar, gostaria de desejar, em nome de todos nós, tudo de melhor para a Universidade de Haifa, sua administração, sua equipe, corpo docente e alunos. Além de sua excelência acadêmica, sua atuação pela promoção da tolerância em uma sociedade multicultural é de fundamental importância.

Expressamos nosso mais sincero acordo com a crença expressa pelo presidente Shapira, em uma carta de novembro de 2013 endereçada a mim:

(…) a crença de que, por meio de nossas diferenças e nossa aceitação dessas diferenças, nós prosperaremos e nos destacaremos ainda mais.

Que vocês possam prosperar e atingir alturas ainda maiores ao desenvolver uma visão para 2025. E que continuem, aqui, do topo do histórico Monte do Carmo, a brilhar como um farol de esperança e oportunidade para as gerações jovens de hoje e de amanhã.

Tradução Paula Zimbres
Julho de 2014

Esta matéria faz parte do volume 23 nº1 da revista Política Externa
Volume 23 nº 1 - Jul/Ago/Set 2014 O Mundo dos Candidatos

A Revista enviou aos três principais candidatos à Presidência da República, como tem feito desde 2002, um questionário sobre temas de política externa para que a comunidade interessada neste assunto possa avaliar o que cada um pretende fazer nessa área se conseguir se eleger.

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