Política Externa

Discurso de doutor Honoris Causa da Universidade de Tel Aviv

por em 05/08/2014

Tel Aviv, 15 de maio de 2014

Estimados administradores, professores e estudantes da Universidade de Tel Aviv, respeitáveis convidados, senhoras e senhores.

É com emoção que, em nome de meus colegas que recebem seu doutorado, agradeço-lhes a honra a nós conferida no dia de hoje.

Em seu discurso de aceitação do Prêmio Jerusalém, em 1977, Octavio Paz falou de chegar a esta antiga e nobre cidade como quem retorna às raízes. A esta terra muito especial, onde a palavra humana e divina se interligam em um diálogo que deu origem à dupla ideia que nutre nossa civilização: a ideia de liberdade e a ideia de história.

A liberdade, acrescentou ele, não é um conceito, mas sim uma experiência singular. Única e em perpétua transformação, a liberdade é a história. Ou, melhor dizendo, a história é o lugar onde a busca pela liberdade se manifesta.

A cerimônia de hoje é uma celebração do conhecimento, da responsabilidade, da criatividade e da inovação.

Ao lhe pedirem para definir um judeu, George Steiner – o grande crítico literário e erudito – não hesitou: um judeu é uma pessoa que lê um livro com um lápis na mão, ocupado em marcar, comentar, corrigir e reescrever.

De fato, de Proust a Pasternak, de Kafka a Wiesel, os judeus foram mestres do verso e da narrativa. Eles também se distinguiram, com presença desproporcional a seu número real, nas ciências naturais e sociais, e também em campos tão díspares quanto as artes, as finanças, a tecnologia, o entretenimento, a psicanálise e a revolução.

A conclusão é inevitável. Os judeus sentem-se à vontade na busca pelo significado, na exploração de territórios mentais ainda não mapeados, na expansão da esfera do possível, no desvendamento dos mistérios do universo. Eles brilham na argumentação e na controvérsia, no movimento e na mudança. Em uma palavra, eles prosperam na liberdade.

Esse profundo respeito pela criatividade humana em toda a sua diversidade é a provável razão de vocês terem escolhido para homenagear hoje pessoas tão diferentes como um poeta e um inovador tecnológico de Israel, um empreendedor de Hong Kong, um matemático do Canadá, um médico cientista e especialista em serviços de saúde da Austrália, juntamente com um assistente social da Argentina e um cientista político do Brasil.

O valor atribuído à arte e à cultura em todas as suas formas de expressão também explica o grau honorário conferido ao Teatro Cameri de Tel Aviv, conhecido por seu apreço por muitas culturas e línguas.

* * *

Como brasileiro e latino-americano, eu gostaria de ter permissão para dizer algumas palavras de elogio e gratidão pela notável contribuição dos judeus para a democracia e cultura em nosso continente.

Tenho o privilégio de hoje ter comigo alguns de meus mais próximos amigos e colegas brasileiros.

Um deles, o historiador Boris Fausto, em seus estudos sobre a imigração judaica no Brasil, que hoje são um ponto de referência indispensável, descreve os preconceitos e a discriminação que os judeus tiveram que enfrentar por terem sofrido a dupla acusação de serem ao mesmo tempo plutocratas cosmopolitas e revolucionários.

Mesmo assim, apesar de todas as dificuldades, eles alcançaram êxito porque, junto com seus parcos pertences, os judeus trouxeram para o Brasil um profundo senso de identidade, a riqueza de sua vida comunitária, a grande propensão ao trabalho e a capacidade de construir instituições sociais.

A rede construída por eles de sinagogas, associações de auxílio mútuo e de voluntariado, sociedades funerárias, açougues kosher, restaurantes, escolas, bibliotecas e teatros permitiu que os judeus se integrassem em sociedades multiculturais sem perder suas raízes.

Eles foram excelentes vendedores ambulantes – apelidados de clientelchiks no Brasil e de cuenteniks na Argentina. Essa invenção de canais eficazes de crédito informal permitiu que muitos deles alcançassem sucesso como empresários do comércio e da indústria.

Essa mobilidade social ascendente de modo algum ocorreu apenas no Brasil. Em sua história social dos judeus de Buenos Aires, Eugene Sofer diz que para os que fugiam dos pogroms do Leste Europeu, a Argentina representava uma esperança: “Se não era a terra prometida, era pelo menos uma terra que prometia”.

Originalmente destinados a serem assentados em colônias agrícolas, os imigrantes judeus não tardaram a tirar partido das oportunidades oferecidas pela urbanização e pela industrialização. “Plantamos trigo e colhemos doutores” é uma expressão que ilustra esse improvável desdobramento.

Igualmente, o compromisso com a liberdade e a história que eles trouxeram do Velho Mundo fez com que se postassem na linha de frente da história política e intelectual da América Latina.

Desde inícios do século XX, os judeus sempre estiveram na vanguarda da luta pela justiça social. Foi por essa razão que pagaram um alto preço por sua oposição às ditaduras que assolaram o continente desde a década de 1960 até os anos 1980 do século passado.

Os militares argentinos elegeram os judeus como alvos prioritários de sua bárbara repressão a toda e qualquer dissidência.
No Brasil, o culto ecumênico realizado na Catedral de São Paulo em protesto contra a morte e a tortura do jornalista Vladimir Herzog, que contou com a presença de milhares, apesar da ameaça de repressão, foi um ponto de virada na luta pela restauração da democracia e do estado de direito.

De Cesar Milstein, na medicina, a Daniel Bareboin, na música, de Clarice Lispector, na literatura a Manuel Sadosky na matemática e José Goldenberg na física, que aliou ciência e política para ampliar nossa compreensão das mudanças climáticas e da importância de uma matriz de energia sustentável.

De Vitor e Roberto Civita, nas comunicações, a José Mindlin e Israel Klabin, em atividades empresariais importantes associadas ao interesse humanístico pelo bem comum, e os irmãos Safra, no setor bancário, as contribuições dos judeus às artes e à ciência, aos negócios e à política, são incontáveis.

E talvez ainda mais notável; tudo isso foi alcançado com espírito de tolerância e de respeito mútuo por outras culturas e religiões, cada uma preservando sua própria identidade e o valor da diversidade.

Para concluir esta seção com um exemplo revelador, permitam que eu relembre que o maior mercado de rua do Rio de Janeiro, criado há dois séculos por mercadores árabes e judeus, que recebeu com tanta justeza o nome de Sahara, continua a vender todas as mercadorias que se possa imaginar em um espírito compartilhado de coexistência harmoniosa.

* * *

Caros amigos,

Liberdade, pluralismo, criatividade e inovação são as pedras angulares das sociedades abertas e democráticas, os judeus, com sua capacidade inata de aprender, adaptar-se e coexistir estão bem posicionados para florescer neste mundo multicultural que se desdobra frente a nossos olhos.

Tornou-se lugar comum dizer que vivemos hoje em uma era de riscos e incertezas. As velhas certezas, de fato, estão sendo postas à prova e tudo parece em estado de fluxo.

Como alguém que sempre fita o inesperado e o imprevisível, creio que estamos vivendo em um mundo assombroso, onde o poder é mais difuso, as inovações tecnológicas são o motor das mudanças sociais, os Estados são mais vulneráveis, as sociedades são mais resilientes, os indivíduos conectados em rede são mais informados e têm mais poder em suas mãos.

Mais que nunca, sabemos hoje que todos vivemos em um único mundo e somos confrontados pelo mesmo conjunto de problemas globais: terrorismo, proliferação nuclear, armas de destruição em massa, mudanças climáticas, epidemias, populações desalojadas, violações sistemáticas dos direitos humanos.

Essas ameaças transnacionais nos forçam a desenvolver para toda a humanidade um novo ponto de vista quanto a como lidar com essas questões que nos afetam a todos.
E, entretanto, esse pertencer a um único mundo frágil e finito tem que coexistir com a tendência oposta: a ascensão do poder da identidade e o ressurgimento do senso de comunidade.

Cada comunidade quer preservar suas raízes culturais e sua identidade. Cada indivíduo quer viver sua própria vida, livre de um destino preordenado ou das injunções do Estado.

Todas as sociedades, de Israel ao Brasil, do Canadá à Austrália, terão que encontrar suas próprias respostas ao paradoxo intrínseco nesse reencontro com os conceitos de humanidade e comunidade, universalidade de valores e diversidade de identidades culturais.

* * *

Senhoras e senhores,

É hora de concluir. Antes, contudo, eu gostaria de pedir sua permissão para dar voz a algumas opiniões pessoais, faladas de coração, como amigo de Israel e seu convidado na noite de hoje.

Pronuncio essas palavras inspirado na razão e na emoção. Tenho o maior respeito e admiração pelo gênio do povo judeu e pelo admirável feito histórico que é o Estado de Israel.

Posso imaginar que fonte de orgulho é para todos vocês a construção desta terra livre e democrática, onde todos os judeus do mundo encontram um porto seguro, uma pátria onde podem viver uma vida plena, com liberdade e dignidade.

Cada vez que venho a Israel sinto-me confrontado com a liberdade e a história sendo feita.
Neste belo e fascinante pequeno pedaço do mundo, um milagre aconteceu. Uma promessa foi cumprida. E, mesmo assim, como em todas as empreitadas humanas, problemas antigos e novos permanecem sem solução.

Ouso dizer que, apesar de tudo o que alcançaram, vocês ainda enfrentam o desafio de viver em paz e segurança com seus vizinhos, em especial os palestinos.

Vocês limparam a terra e fertilizaram o deserto. Israel reinventou uma língua, absorveu imigrantes de diferentes continentes, e sustentou instituições e valores democráticos.

Mas, com um maior poder e prosperidade vem também uma maior responsabilidade.
Guerra após guerra foi vencida, mas a paz ainda não foi alcançada.

Às vezes, até mesmo a esperança de paz parece se desvanecer. Mas a esperança – como todos vocês, mais que ninguém, sabem – tem o poder de mover montanhas.

Perdoem-me se sentem que estou quebrando as regras da hospitalidade ao falar-lhes como falo agora.

Faço-o por ter a profunda convicção de que a paz para Israel seria a realização suprema da promessa judaica.

E a paz – como também sabemos – exige que o parceiro mais forte aja com generosidade.

Eu de modo algum me deterei na interminável enumeração dos argumentos e contra-argumentos tratando das chances e das condições exigidas para a paz. Vocês as conhecem muito melhor do que qualquer estrangeiro, que nada poderia lhes ensinar.

No entanto, como um cientista político que deseja o melhor para Israel, acrescentarei apenas umas poucas palavras. O tempo urge. O mundo está mudando. O Oriente Médio está mudando. Israel está mudando. O status quo é insustentável.

Sejam ousados e pragmáticos: firmem a paz com os palestinos. Permitam que eles construam – ou melhor, ajudem-nos a construir seu próprio Estado democrático e pluralista. Criem condições para o estabelecimento de relações econômicas e culturais pacíficas entre os dois Estados. Isaiah Berlin, sem negar a enorme dificuldade do processo de construção da paz, afirmou: “A solução tem que ser da ordem de uma tolerância relutante, por temor a algo de muito pior, uma guerra selvagem que poderia infligir danos irreparáveis a ambos os lados”.

Sem a generosidade do parceiro mais forte e sem convicções democráticas, os valores fundamentais da humanidade, nutridos e cultivados pela visão de mundo judaico-cristã, permanecerão como letra morta.

Os problemas são assustadores. Muita coisa está em jogo. E, no entanto há tanta vitalidade, tanta energia na sociedade israelense, tamanha capacidade de pesquisa e inovação, que tenho a certeza mais absoluta de que vocês podem enfrentar e de fato enfrentarão o desafio de um novo tipo de start-up, um start-up para a paz.

Se não vocês, quem?
Se não agora, quando?
Muito obrigado por sua atenção.

Tradução Patrícia Zimbres
Julho de 2014

Esta matéria faz parte do volume 23 nº1 da revista Política Externa
Volume 23 nº 1 - Jul/Ago/Set 2014 O Mundo dos Candidatos

A Revista enviou aos três principais candidatos à Presidência da República, como tem feito desde 2002, um questionário sobre temas de política externa para que a comunidade interessada neste assunto possa avaliar o que cada um pretende fazer nessa área se conseguir se eleger.

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