Política Externa

O amigo americano: Nelson Rockefeller e o Brasil*

por em 03/11/2014
O amigo americano: Nelson Rockefeller e o Brasil*

O historiador Antonio Pedro Tota percebeu que Nelson Aldrich Rockefeller, herdeiro da maior fortuna da história, quatro vezes governador de Nova York e ex-vice-presidente dos Estados Unidos, era também um personagem da história do Brasil ao pesquisar em seu livro anterior, O imperialismo sedutor, a influência americana no país à época da Segunda Guerra Mundial. Em 1940, Rockefeller, republicano, é nomeado pelo presidente democrata, Franklin Delano Roosevelt, para dirigir uma divisão do governo dedicada às relações dos Estados Unidos com as outras repúblicas do nosso continente. O objetivo era garantir o apoio do Brasil à causa dos Aliados. A base aérea de Natal, no Rio Grande do Norte, era, como se sabe, de enorme importância estratégica, um dos dois caminhos aéreos para o teatro da guerra na Europa.

Rockefeller desempenha a função com afinco, ganhando corações e mentes no Brasil. Sua influência no período levou o historiador aos arquivos de Nelson, onde descobre que o magnata manteve com o país uma relação forte durante décadas. Interessa-se pela motivação do herdeiro da Standard Oil. O que o trouxe para cá, pergunta Tota? Que tanto fez aqui no Brasil? O que procurava? Petróleo? Quanto mais pesquisou mais interessante ficou a história. As respostas para estas perguntas são todas surpreendentes. O historiador foi percebendo que seria interessante fazer uma biografia focada na relação de Nelson Rockefeller com o Brasil. O empresário teve um impacto discernível no país, em áreas que vão do agroanegócio ao urbanismo de São Paulo, passando pela arte moderna. O personagem serve, ainda, como um veículo narrativo capaz de elucidar a história da cultura americana, sempre mais exótica do que se supõe, quando olhada de perto por um brasileiro.

Não sou de todo isento para comentar este livro, devo dizer. Sou amigo do autor há mais de 30 anos. Participei indiretamente da feitura desta obra, lendo e comentando capítulos ao longo do processo de elaboração. Mesmo assim, ao relê-lo prontinho e editado tive uma grata surpresa. O texto é fluente e direto. Nelson Rockefeller é um personagem interessante que traz à tona a história das sete primeiras décadas do século XX. Tota não se perde em devaneios acadêmicos ou ideológicos. Mas tampouco nos priva de observações eruditas e incisivas a respeito dos valores e motivações dos norte-americanos, feitos, na maioria das vezes, com base em comentaristas clássicos como Alexis de Tocqueville e Richard Hofstadter.

Tota narra da seguinte forma o nascimento de Nelson Aldrich Rockefeller no dia 8 de julho de 1908: “Ele veio ao mundo numa casa alugada em Bar Harbor, na costa do Maine, praia frequentada pela alta sociedade da Costa Leste americana. Tudo isso porque o obstetra da família costumava passar as férias lá e Abby quis ficar perto de seu médico de confiança. O nascimento de Nelson foi anunciado em cinco linhas na primeira página do New York Times. No futuro, seus feitos ocupariam um espaço bem maior”.

Nelson viria a servir quatro mandatos de governador do estado de Nova York. Mas iniciou a carreira na condição de empresário, cuidando dos interesses da família. Uma das suas primeiras viagens de trabalho o levaria para as instalações da Creole Oil na Venezuela. O que encontrou arrepiou o jovem. Foi uma das principais inspirações para a chamada Responsabilidade Social Corporativa que viria a orientar as empresas da família nas décadas seguintes. Escreve Tota: “Sabe-se apenas que a situação nos campos petrolíferos da Venezuala lhe pareceu insustentável, o que, para alguns dos seus biógrafos ajudou a moldar seu caráter liberal [no sentido americano do conceito]. Na posição de acionista e diretor da Creole, ele superou as resistências dos executivos e começou uma singular “revolução”. Enviou para a Venezuela doze professores de espanhol da escola de idiomas Berlitz e mandou arrancar as cercas de arame farpado das instalações e moradias às margens do lago Maracaibo. Iniciou a construção de casas populares, igrejas e capelas católicas. Com a ajuda e a experiência da Fundação Rockefeller, instituiu programas de combate à malária e outros parasitas. Pavimentou ruas, construiu escolas para as crianças”.

Os motivos da atuação civilizatória de Rockefeller nos trópicos são discutidos em profunidade no livro. Eles têm a ver com religião e ambiente familiar. Ao traçar um perfil biográfico e psicológico de seu personagem, Antonio Pedro Tota avança no entendimento em língua portuguesa da cultura americana. Esta talvez seja a principal contribuição de O amigo americano. O livro é fascinante porque inverte o sinal do brasilianismo e discute a história americana do ponto de vista do Brasil. É bom de ler por ser construído a partir da biografia de um personagem excepcional. Recupera, ainda, a história narrativa de forma lúdica e informativa.

Outubro de 2014

* Companhia das Letras, São Paulo, 2014, 480 pp.

Esta matéria faz parte do volume 23 nº2 da revista Política Externa
Volume 23 nº 2 - out/nov/dez 2014 Riqueza, crescimento e desigualdade

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