Política Externa

Um aprofundamento sem limites na cooperação entre Japão e América Latina-Caribe

por em 03/11/2014

Os três ideais da diplomacia japonesa para a América Latina e Caribe

Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão
02 de agosto de 2014, sábado, São Paulo, Brasil

A promessa do Japão

Boa tarde.

Sinto-me honrado em poder discursar neste seminário de hoje. Obrigado por me apresentar tão calorosamente. A viagem que fiz pela América Latina e Caribe chega ao fim aqui em São Paulo.

Aproveitando este bom ensejo, quero fazer uma promessa aos senhores. O primeiro-ministro e os ministros do Japão vão visitar o Brasil e os países latino-americanos e caribenhos com mais frequência.

Providenciarei para que o ministro dos Negócios Estrangeiros, obviamente, mas também outros como o das Finanças, da Economia, Comércio e Indústria visitem o Brasil e os vários países latino-americanos e caribenhos, de maneira constante.

Com isso, o que é que o Japão pretende fazer com o Brasil e com os países da América Latina e do Caribe?

Vou tentar resumir isso em três propósitos. Tentei traduzir para o meu português medíocre, mas peço a sua atenção.
“Progredir juntos”, “liderar juntos” e “inspirar juntos”.
(aplausos)

Suponho que os senhores entenderam meu português.

Chamarei estes três propósitos “juntos” de os “Três Princípios” da política japonesa para a América Latina e Caribe. O Japão, daqui em diante, irá proporcionar um aprofundamento sem limites na sua cooperação com a América Latina e Caribe. O meu ideal é conduzir essa obra permanentemente.

Eu quero enfatizar a importância de o Japão e o Brasil, o Japão e os países latino-americanos e caribenhos, unindo as mãos, unindo os corações, compartilharem as dificuldades, os esforços e, se possível, as alegrias, ou seja, a importância da palavra “juntos”.

Então, vamos dizer, em voz alta: Japão e Brasil, Japão e América Latina e Caribe, juntos!!

“Progredir juntos”

Então, vou falar sobre o primeiro princípio, o “Progredir Juntos”.

Antes de qualquer coisa, o que quero propor é um aprofundamento ainda maior, dos laços econômicos entre a América Latina e Caribe e o Japão, que iniciou um forte avanço.

O que se convencionou chamar de “Abenomics” constitui em lançar três flechas continuadamente, alvejando o âmago do Japão, a saber: a “primeira flecha”, uma política financeira arrojada; a “segunda flecha”, uma dinâmica política fiscal; e a “terceira flecha”, o fomento dos investimentos privados.

No Japão, foram iniciadas, em diversas áreas, reformas que só ocorrem uma vez em décadas. Na agricultura, na assistência médica, ou ainda no setor energético, eu tenho prosseguido nas reformas de forma destemida. Tenho prosseguido nos esforços para abrir o país e a sociedade, para oferecer oportunidades às mulheres, lançando novas plataformas.

Quero que façam desse Japão um parceiro confiável. Esse é meu primeiro desejo.

Nesta viagem, muitas lideranças econômicas e de diversos setores do Japão estão me acompanhando.

Vamos juntos almejar o florescer do “Progredir Juntos” entre o empresariado do Japão e do Brasil, do Japão e dos países latino-americanos e caribenhos, com resultados para ambos os lados.

Na área de tecnologia de ponta, inclusive, vemos inúmeras possibilidades de cooperação, como por exemplo, no monitoramento da Floresta Tropical amazônica com o emprego de satélites.

Ademais, o Japão possui uma capacidade única de contribuir, em especial, na formação de recursos humanos do setor produtivo.

Ayrton Senna, que foi para o céu há 20 anos, se vivo estivesse e se neste lugar estivesse, certamente estaria concordando com todas essas afirmações.

Ainda está viva na memória a imagem do Ayrton Senna, um autêntico paulista, correndo velozmente em seu carro com motor Honda, e sua coragem entrando na curva com determinação. O Senna em Suzuka seduziu o coração dos japoneses. Ele dizia o seguinte, sobre a Honda: “A equipe da Honda dedica todos os esforços para um ideal. Jamais quebra um compromisso. Na área técnica, evidentemente, mas nas relações com as pessoas, acontece o mesmo”.

O Ayrton Senna afirmava categoricamente que essa característica dos japoneses e das empresas japonesas eram exclusivas. Afirmava também: “o Japão e os fãs japoneses têm um lugar especial no meu coração”.

O que difere a empresa japonesa da maioria das empresas do mundo? Trata-se de uma relevante particularidade em que o local de trabalho das fábricas se transforma em uma escola onde se ensina a alegria de trabalhar.

Um líder africano certa vez me disse: “somente a empresa japonesa me ensinou a moral sobre o que seria o trabalho”.

A Usiminas, um empreendimento conjunto entre o Japão e o Brasil na siderurgia, passou a ser chamada de “escola Usiminas”.

A Ishibrás também, empreendimento conjunto na área da construção naval, foi denominada de “escola Ishibrás”, pela sua filosofia de formação de pessoal.

Quando as empresas japonesas tornarem-se um componente constante da economia latino-americana e caribenha, aquela poesia composta pela grande poetisa Gabriela Mistral virá à tona: “Que triste seria o mundo se tudo já estivesse terminado, se não tivesse uma rosa a plantar, uma empresa que empreender”.

Acredito que a poetisa estava querendo dizer com isso que é possível encontrar a alegria no trabalho. O que as empresas japonesas propõem certamente é essa alegria.

As empresas japonesas, que recuperaram a vitalidade, mais do que nunca, estão agora com os olhos voltados para a América Latina e Caribe com seriedade.

Segundo dados recentes sobre a instalação das empresas japonesas no exterior, a América Latina e Caribe são as regiões onde, são indicados recentemente o maior aumento de empresas japonesas. Daí a razão do “progredir juntos”. Quero que façam das empresas japonesas suas parceiras. Vamos progredir juntos!

Liderar juntos

“Liderar juntos”. Mas, liderar o quê e de que forma?

Para começar, os países latino-americanos e caribenhos têm aberto novos horizontes para o Japão. Dentre os Acordos de Parceria Econômica (EPA) firmados pelo Japão, aqueles estabelecidos com o México, o Chile e o Peru foram os primeiros, além de serem exemplos de grande sucesso. Com base nesses resultados positivos, o Japão está voltado ao estabelecimento de uma Parceria TransPacífica (TPP) envolvendo esses três países.

E, neste momento, estamos negociando um Acordo de Parceria Econômica (EPA) com a Colômbia. Concluídos os trabalhos, teremos uma rede de EPAs com todos os países da Aliança do Pacífico.

Vamos voltar um pouco na história.

Na época em que o Japão lutava pela sua modernização, quem prontamente firmou acordos com o Japão em condições de igualdade e quem, após a Segunda Guerra, aprovou em conjunto a entrada do Japão na ONU foram os países latino-americanos e caribenhos.

Senhoras e senhores, eu penso o seguinte: neste momento em que o Japão deseja ampliar os horizontes de sua diplomacia, a América Latina e Caribe é exatamente a parceira em que se deve confiar. Entre o Japão e a América Latina e Caribe existe uma comunhão de valores e objetivos. É a coerência das nossas trajetórias na busca permanente pela paz.

Além disso, compartilhamos os valores como respeito à liberdade, importância da democracia, respeito aos direitos humanos e à soberania do Direito.

Quando o Japão e a América Latina e Caribe forem trabalhar juntos em prol de um mundo por pouco que seja, melhor, esses valores irão sustentar os nossos passos. Lembremos do Tratado de Tlatelolco. Foi o primeiro exemplo no mundo de um tratado para se estabelecer uma zona de desnuclearização. Também é do conhecimento geral que da Rio-92, resultou a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB).

Atualmente, o Japão, juntamente com o Brasil, promove a “Reunião Informal sobre Ações Futuras para o Combate à Mudança do Clima”, para que se possa fomentar debates construtivos acerca do combate à mudança do clima, transpondo as barreiras entre países em desenvolvimento e industrializados.

Este é o exemplo ideal do “liderar juntos”, uma força que orienta de forma positiva a comunidade internacional, para enfrentar as diversas e difíceis questões globais. Tenho a convicção de que o Japão e o Brasil, o Japão e a América Latina e Caribe reúnem, de forma ímpar, as qualificações necessárias para enfrentar as diversas questões do mundo.

Do Rio Grande ao Rio da Prata, creio que o modo de vida dos senhores, que prezam a liberdade, a democracia os direitos humanos e a soberania do Direito, transpondo inúmeras adversidades, sempre se mantiveram inalterados.

Nós japoneses, sentimos grande confiança nisso. É essa a razão do “liderar juntos”.

O Japão, doravante, tendo exatamente isso como objetivo principal, deseja continuar as conversações na América Latina e no Caribe, com os dirigentes latino-americanos e caribenhos, aproveitando todas as oportunidades.

Para que o Japão possa contribuir mais ativamente para a paz mundial e à paz regional, recentemente, eu decidi elaborar um ordenamento jurídico para o tema da segurança. A atuação das Forças de Autodefesa do Japão no Haiti foi muito agradecida e aplaudida. O mesmo ocorreu quando foram a Honduras socorrer as vítimas do furacão.

O que a experiência na América Latina e no Caribe nos ensinou, interpretada nos versos de Gabriela Mistral, seria “o prazer em servir”. Isso tornou o Japão confiante para poder tomar a decisão de erguer a bandeira de “Contribuidor Proativo para a Paz”.

Quero conclamar os brasileiros, os latino-americanos e os caribenhos: vamos juntos caminhar na frente, para que, por pouco que seja, possamos eliminar do mundo a infelicidade, o perigo e as violações do Direito.

Desarmamento, não proliferação nuclear e, ainda, questões ambientais. Nos últimos anos têm aumentado consideravelmente as áreas em que podemos trabalhar juntos. Cooperando e aproveitando todas as oportunidades, vamos liderar juntos, para podermos fazer deste mundo, por pouco que seja, um lugar melhor !

Inspirar Juntos

Para quê tudo isso? Por nossos filhos e netos. É para que possamos construir e deixar um mundo pacífico e próspero para eles. A Assistência Oficial para o Desenvolvimento (ODA) que o Japão tem destinado à América Latina e ao Caribe soma 30 bilhões de dólares. Isso tudo nada mais é que um investimento para as gerações futuras.

Certamente, o fato de um japonês chamado Yutaka Hongo, ter se esforçado por mais de 20 anos, acreditando que poderia plantar soja no cerrado, foi devido a ele ter acreditado no futuro dos jovens brasileiros. E, conforme sua percepção, o Brasil é atualmente o maior produtor mundial de soja. O desenvolvimento do cerrado fez com que grandes extensões de terras consideradas outrora “terras inférteis” fossem transformadas em grandes zonas produtoras de cereais. Uma cultura de zona temperada como a soja, desenvolveu-se magnificamente em zonas tropicais. De regiões onde não havia nada, nasceram grandes cadeias de valores da indústria de produção, como o processamento de alimentos.

Literalmente, foi uma conquista histórica da cooperação entre o Japão e o Brasil. E, atualmente, os especialistas do Brasil, que acumularam experiências no desenvolvimento do cerrado, junto com japoneses como o sr. Hongo, estão trabalhando no cultivo da soja na África, uma região cujas terras têm um aspecto semelhante ao do cerrado brasileiro. Não seria isso a reedição de um sonho, seguramente, o “Inspirar Juntos”?

O Chile, atualmente, orgulha-se de ser o maior exportador mundial de salmão. Mas, há 40 anos, não havia quem pensasse em criar salmão no Chile. Todavia, naquela época, nos fiordes extremamente frios, havia um japonês que se empenhara ao longo de 15 anos, e um especialista na criação de salmão, que falecera subitamente. Estou falando de Akiaki Nagasawa e de Yoshikazu Shiraishi, que, em 1972, faleceu em Santiago prematuramente aos 50 e poucos anos.

O sr. Shiraishi, embrenhou-se em uma localidade a 2.000 quilômetros de Santiago, dedicando-se à construção de um criadouro de salmão. Tenho a certeza que tanto o sr. Nagasawa, quanto o sr. Shiraishi, acalentaram um sonho juvenil em prol das grandiosas possibilidades da América Latina e Caribe. Se quisermos dar continuidade aos seus ideais, a postura mental necessária é “Inspirar Juntos”. Vamos unir os corações com os laços das emoções.

Entre o Japão e a América Latina e Caribe, há uma longa amizade que remonta mais de 400 anos. Vamos dar um novo sopro de vida aqui. Vamos zelar pelas relações entre as pessoas, para o bem das gerações mais jovens.

Para que possamos aprofundar os laços com os jovens líderes que irão conduzir o futuro da América Latina e Caribe, desejo expandir as iniciativas de intercâmbio. Para este ano, decidimos oferecer uma grande variedade de programas de intercâmbio para mais de 1.000 futuras lideranças e nipo-descendentes latino-americanos e caribenhos. Tendo isso como pontapé inicial, queremos ampliar os programas em prol do intercâmbio de jovens. Mencionei sobre os nipo-descendentes, os nikkeis.

A credibilidade, que veio sendo construída pelos nikkeis ao longo de seis gerações, constitui a base da confiança para com o Japão, na América Latina e no Caribe. Quando penso nas dificuldades que os nikeis suportaram, sinto-me no dever de sempre me empenhar com seriedade.

Queremos ampliar consideravelmente o “Programa de Intercâmbio de Jovens para a Formação da Futura Geração Nikkei” e o “Programa de Envio de Voluntários da JICA para a Comunidade Nikkei”. Decidimos investir mais no ensino da língua japonesa na América Latina e no Caribe, contando com a ajuda dos nikkeis. Vamos apoiar os professores de japonês. Vamos elevar a eficiência do ensino da língua japonesa, com o emprego da tecnologia de informação.

O que o “Shinkai 6500” nos ensina

Um fato nos ensinou que nossa cooperação se torna uma dádiva quando nos dedicamos com o espírito de “juntos”. Foi o que aconteceu no ano passado, entre abril e maio de 2013.

Em alto-mar brasileiro, nas profundezas do mar, mergulhou o “Shinkai 6500”.

O “Shinkai 6500” é o submersível tripulado japonês capaz de mergulhar até 6500 metros no fundo do mar. A expedição em busca de formas de vida e de formações geológicas das profundezas do mar nunca antes vistas foi uma pesquisa conjunta realizada por cientistas do Japão e do Brasil, unindo cada qual sua sabedoria, suor e esforços.

O pesquisador japonês que liderou a expedição em alto-mar brasileiro, relembra:

“Minha grande lembrança é que nasceu uma amizade verdadeira entre os cientistas do Japão e do Brasil com suas diferentes culturas”.

Em outras palavras, os cientistas japoneses sentiram que havia sido uma ótima colheita, pois a alegria do “juntos” florescera também nas descobertas científicas.

Senhores, agora permitam-me apresentar uma brilhante tripulante do Shinkai 6500, a sra. Vivian Pellizari, que pesquisa biologia marinha na Universidade de São Paulo. Peço a todos para aplaudirem.

A professora Pellizari disse que mergulhar nas profundezas do mar de sua pátria era um sonho que perseguia há 15 anos. As águas que a senhora viu a 4.000 metros de profundidade parece-me que eram azuis e infinitamente transparentes, não é mesmo?

A notícia da descoberta de formações de granito submersas no mar também foi assunto no Japão, com a cogitação de que seriam parte do continente perdido da Atlântida. Seja como for, eu acho que o mais maravilhoso de tudo é o fato de a professora Pellizari e seus colegas terem trabalhado juntos com cientistas e especialistas japoneses, com o espírito de “juntos”. Muito obrigado. Queira se sentar.

Do Rio a Tóquio, o revezamento dos sonhos

Entre os brasileiros que aqui estão e nós japoneses, existe um “juntos” muito especial.

Os senhores do Brasil, em 2016, e nós, quatro anos depois, vamos sediar os Jogos Olímpicos. O festival dos jovens está para acontecer.

Tóquio vai receber a tocha dos sonhos do Rio de Janeiro. Os sonhos dos jovens brasileiros, latino-americanos e caribenhos, no Rio de Janeiro, serão passados para Tóquio.

Isso ocorrerá daqui a seis anos, em 2020.

Tendo isso como uma meta, vou incentivar os jovens japoneses a saírem mundo afora para se relacionarem com jovens de outros países. O programa de difusão do desporto chamado “Esporte para o Amanhã” será promovido intensamente aqui na América Latina e no Caribe.

Cecília Meireles escreveu um belíssimo poema:

“Por mais que
longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança”.

Nós sabemos que Ayrton Senna e Soichiro Honda, o fundador da Honda, cultivaram a união de espíritos, conforme bem compôs Cecília Meireles. As distâncias não eram barreiras para ambos.

Vamos progredir juntos. Vamos trabalhar juntos, para fazer do mundo um lugar melhor. E, como base para tudo, vamos injetar forças no intercâmbio de pessoas, para criar sentimentos de profunda empatia, confraternizando os espíritos.

Esses são os três ideais que vão unir o Japão e a América Latina e Caribe e que vão fortalecer infinitamente a cooperação mútua. Japão e América Latina e Caribe, juntos!!

Muito obrigado!

Outubro de 2014

Esta matéria faz parte do volume 23 nº2 da revista Política Externa
Volume 23 nº 2 - out/nov/dez 2014 Riqueza, crescimento e desigualdade

A partir da leitura do de Thomas Pikkety, Le Capital au XXI Skiècle, o autor escreve um ensaio sobre a questão da desigualdade na sociedade contemporânea, e chega à conclusão de que a tese do francês é indiscutível

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