Política Externa

Pepe Mujica e o novo populismo sul-americano

por em 27/02/2015
Pepe Mujica e o novo  populismo sul-americano

Após cinco anos no poder, Pepe Mujica se transformou num dos personagens mais admirados do cenário político internacional. A eleição de Tabaré Vázquez, a quem ele havia sucedido, para sucedê-lo garante a continuidade no Uruguai de um projeto de centro-esquerda que se distingue do bolivarianismo. Mais do que isso, Mujica garante para si uma celebridade mundial que poucos de seus compatriotas conquistaram.

The end of Pepe Mujica’s term as president of Uruguay coincides with a great exposure of his name in among several sector of the international public opinion as benign leader in South America, who was able to accomplish positive and progressive social policies without much political friction. The article analyses his personality, biography and the reasons for his success.

Pepe Mujica – como é chamado e gosta de ser chamado – encerra em 1 de março os cinco anos de seu mandato como presidente constitucional do Uruguai e passa o cargo ao seu sucessor que foi também seu predecessor imediato Tabaré Vázquez, como ele oriundo da Frente Ampla, terceira força política no país e que rompeu com aquela mais do que secular tradição de alternância no poder entre “blancos” e “colorados” cores e alinhamentos que remontavam à própria origem da nacionalidade quando as divergências entre Fructuoso Rivera e Manuel Oribe traçaram a divisória política do país.

O Uruguai viveu na primeira década do século XXI anos de prosperidade e abundância que trouxeram de volta algumas das esperanças criadas quando o país foi prematura e ingenuamente rotulado como a Suíça sul-americana. O país voltou a crescer; seus produtos se valorizaram nos mercados internacionais; a democracia cumpriu seus ritos; o turismo se fez um fator cada vez mais importante e o Uruguai não precisou mais praticar o equilibrismo daquelas décadas em que procurava atuar de forma pendular amortecendo as tensões entre o Brasil e a Argentina e, no processo, procurando definir um espaço próprio para sua atuação internacional.

O período presidencial de Mujica coincidiu com este período de bonança que ajudou a criar em Montevidéu uma sensação de bem-estar e otimismo semelhante àquela que acompanhou o ciclo presidencial de Lula no Brasil. Mujica soube navegar nesses mares serenos e deixa o poder com considerável prestígio interno e, sobretudo, cercado pela afetuosa disposição de muitos atores de fora, que identificaram nele uma pessoa marcada pela simplicidade, pela frugalidade e por ser a expressão de uma sabedoria caseira, que poderia servir como guia para o comportamento de futuros líderes de seu país e como modelo para o desenho de um comportamento público de governantes de outros países vizinhos ou não.

Nas duas margens, o Rio de Prata, que costuma produzir atores políticos de frondosa gesticulação e veemente retórica, Mujica – sobretudo o dos últimos anos – oferecia um contraponto inesperado e bem-vindo. Nada mais distante como estilo do que ele, se comparado a eminentes vizinhos como foram, por exemplo, Juan Domingo e Evita Perón. Não há nele nada que pareça remotamente militar na pompa, na vocação autoritária explícita ou não, na vestimenta ou na palavra. Não resisto à tentação de comparar sua maneira de ser ao comportamento do papa Francisco, seu ribeirinho na outra margem do Prata e seu virtual contemporâneo e que, em outro contexto, busca, à sua maneira, trilhar os caminhos da extrema simplicidade.

Não é fácil imaginar o Mujica de hoje como o líder Tupamaro da década de 1970. Mudaram as circunstâncias e mudou ele. No cotejo das fotografias de então com as de agora não há apenas em sua fisionomia e gesto os sinais evidentes do envelhecimento e da passagem do tempo, mas observo também uma suavização dos traços e uma expressão agora mais cordial, risonha e acolhedora.

Visto com a perspectiva do tempo o movimento Tupamaro, resultante das vacas magras da economia uruguaia daquele momento das tendências radicais das esquerdas e das direitas daquela quadra e das propensões autoritárias de seus militares parece um projeto fadado desde o início ao fracasso. Nenhum país da América do Sul seria a priori tão pouco acolhedor para um movimento de guerrilha urbana e rural quanto o Uruguai de pequena população e dos grandes espaços abertos, sem montanhas desertos ou florestas, com cidades de claro traçado impróprio para movimentos que reclamam espaço e condições físicas e demográficas que lhes permitam operar e prosperar na clandestinidade. Some-se a isso o fato de que os dois países limítrofes do Uruguai eram então governados por regimes autoritários que não estavam dispostos a dar refúgio e muito menos apoio aos ativistas uruguaios.

Não saberia teorizar (e menos ainda generalizar) sobre os efeitos do cárcere sobre o espírito humano. Observo apenas que em Mujica 14 anos de prisão, vários dos quais em confinamento solitário e sujeito a grandes privações e maus-tratos, o levaram a uma extraordinária aceitação do que o destino lhe oferecia e uma ausência quase que incompreensível de amargura e rancor.

Algumas linhas acima fiz um paralelo entre Mujica e o papa Francisco, na procura por ambos de uma simplificação da vida e de suas formalidades e rotinas. Permito-me fazer outra. Como Nelson Mandela, Mujica deixa a prisão um homem melhor do que entrou e com dose mínima de ressentimento e amargura. Não levo adiante os dois paralelismos que só estabeleci no que respeita a circunstâncias limitadas e específicas. Minha afetuosa avaliação de Mujica não o eleva, certamente, à importância histórica de Mandela nem o aproxima das imensas responsabilidades que o papa Bergoglio assumiu em seu desafio de fazer o necessário e urgente aggiornamento da Cúria e rever algumas políticas do Vaticano contraproducentes, mas profundamente enraizadas.

Pepe Mujica é uma personalidade reconhecida amplamente menos por uma obra governamental, que foi construtiva sem ser notável e que não mereceria por ela mesma maior destaque, mas pela construção de uma imagem política que o fez internacionalmente reconhecido e objeto de uma verdadeira curiosidade e atenção. O que parece atrair leitores e espectadores é menos o jogo da política interna do Uruguai nos últimos anos, mas observar como dessas circunstâncias e embates emerge uma personalidade de extraordinário interesse e que coloca Mujica na short list daqueles que podem receber (e merecer) o Prêmio Nobel da Paz.

Vejamos algumas coisas que Pepe Mujica fez durante seu mandato e que lhe trouxeram grande visibilidade sem respeitar a uma sequência cronológica rigorosa:

  • legalizou, em condições mais controladas do que se supõe, o consumo da maconha no seu país;
  • permitiu – dentro de uma normativa razoável – o casamento homossexual;
  • legalizou o aborto dentro de regras claramente definidas;
  • defendeu o meio ambiente de seu país e de seu entorno enfrentando grandes interesses econômicos domésticos e internacionais que ameaçavam degradá-lo;
  • acolheu uma dezena de prisioneiros da infame prisão de Guantánamo que não tinham para onde ir, em um gesto de imensa repercussão que vários países mais favoravelmente situados se negaram a fazer.

Unindo todas essas políticas existe um fio condutor que revela ao mesmo tempo o operador político astuto e afinado com as causas mais liberais de seu tempo, mas também um líder carismático e marcado por convicções que a prisão e a privação refinaram e aprofundaram.

Não terá sido importante o papel de Mujica na história do desenvolvimento das ideias políticas em seu país. Está longe de ser um formulador original de ideias ou de políticas e deverá ser visto, sobretudo, como alguém que soube apresentar com sedutora simplicidade e com maior destreza política do que se imagina algumas causas que não eram, a priori, fáceis de tornar vitoriosas no contexto conservador que ainda continua a ser o da sociedade uruguaia.

Como estadistas e formuladores de ideias e políticas foram Júlio Sanguinetti, no plano interno, e Enrique Iglesias, no plano internacional aqueles que mais contribuíram para a redefinição das prioridades uruguaias. Mujica é, contudo, o mais carismático dos líderes e aquele que consegue construir para si uma persona capaz de reunir fatores externos e traços interiores que reforçam a sua imagem como alguém autêntico e avesso às exterioridades do poder.

Mujica mora em uma pequena propriedade rural nos subúrbios de Montevidéu, devolve cerca de 90% de seus vencimentos ao Tesouro, dirige um Fusca azul com mais de 20 anos de circulação e é seguido em sua casa por um cachorro vira-lata que apesar de contar na sua velhice com apenas três patas mostra, como seu dono, uma irreprimível alegria de viver. Vive bem com sua mulher – hoje senadora e antiga militante – e a relação como quase tudo que diz respeito a Mujica parece verdadeira e autêntica.

Acredito que boa parte da imagem de Mujica é o resultado de uma cuidadosa orquestração de elementos e corresponde a evidentes objetivos políticos. Apesar disso, acredito que a persona pública está construída sobre uma base real e que Mujica é bem mais do que uma montagem de marqueteiros, mas sim o resultado do rico e contraditório depósito de uma longa vida intensamente vivida.

Não é fácil prever uma trajetória futura para Mujica. Por temperamento e estilo, não deverá atuar no circuito internacional de seminários e palestras fora, talvez, algumas incursões esporádicas. Também não o vejo com um futuro político no Uruguai. Sua idade (aproxima-se dos 80 anos) é um fator incontornável, e ele não me parece ter nem a vontade nem o talento para articular nos bastidores alguma coisa que se assemelhe a um shadow cabinet. Liderou pelo exemplo e, embora seja expositor claro e vigoroso, não é um formulador de políticas que possam ser continuadas sem sua presença e inspiração.

Ficará assim a marca de sua personalidade e o registro de suas ideias que, espero, serão retomadas por outros governantes que queiram recuperar credibilidade e assegurar prestígio duradouro junto ao povo. Espero que a marca de seu populismo benigno não desapareça e que tenhamos dirigentes que busquem, como ele, recuperar as bases da indispensável relação de confiança entre governantes e governados.

Janeiro de 2015

Esta matéria faz parte do volume 23 nº3 da revista Política Externa
Volume 23 nº 3 - jan/fev/mar 2015 A Tragédia do Charlie

O atentado contra o semanário satírico Charlie Hebdo foi interpretado por muitos como parte de um conflito entre extremistas muçulmanos e um jornal em campanha quase sistemática contra o Islã extremista.

Ver detalhes desta edição
Voltar Topo

Comentários

EDIÇÃO ATUAL - VOL. 24 Nº 1 e 2
Vol. 24 nº 1 e 2 - jul/dez 2015 jul/dez - 2015 O Histórico Acordo de Viena O Acordo de Viena sobre o projeto nuclear iraniano evitou as consequências trágicas da hipótese de o Irã, país inserido na região mais tensa do mundo, obter armamento nuclear.
Mais Política Externa