Política Externa

Cinquenta anos esta noite – o golpe, a ditadura e o exílio* de José Serra

por em 02/03/2015
Cinquenta anos esta noite – o golpe, a ditadura e o exílio*

Li quase de um só fôlego o livro de José Serra, Cinquenta anos esta noite, logo que foi publicado. Reli-o para escrever esta resenha. Repetiu-se a impressão inicial: uma pequena obra-prima. Acostumado a ler os trabalhos de economia do autor (até fomos coautores de um ensaio teórico na década de setenta) não fiquei surpreso com o raciocínio lógico e a escrita precisa. Entretanto, o tom pessoal e a forma jornalística, à moda de quem escreve um roteiro de cinema, sem perda de vigor nem de rigor, surpreenderam-me, tanto na primeira leitura como na atual.

Os acadêmicos, mesmo quando políticos, têm dificuldade para a escrita coloquial. Incluo-me entre eles. Mais ainda para deixar entrever sentimentos. Pois bem, Serra em Cinquenta anos esta noite deixa aparecer com escrita fluente a figura humana que se esconde na carreira do político e do economista. Para os que o conhecem melhor, não surpreende ver um Serra que sabe versos de cor, que conhece cinema como poucos, que tem trato com a literatura, com o teatro; nem vê-lo solidário com as pessoas. Mas mesmo para seu círculo mais íntimo surpreende vê-lo expondo estas características, e fazê-lo de forma simples e direta.

Essa “revelação” mostra virtude em Serra: ele não utiliza sua trajetória pessoal, nem suas qualidades humanas, na vida política. Nesta aparece o Serra diligente, obcecado, atropelador, que parece fazer enorme esforço para lograr seus objetivos. Sempre me perguntei por que não expor mais abertamente suas origens, seu meritório esforço de aprendizado, as agruras da vida de menino relativamente pobre, filho de imigrantes, que “subiu na vida” pelo esforço e pelo talento? Por que não mostrar o que fez no Chile, como esteve envolvido com a UNE e com as lutas democráticas e nacionalistas dos anos sessenta?

Neste livro tudo isso aparece com naturalidade, sem jactância nem pedidos de desculpas, como que a mostrar que foi por ter horror à demagogia e por pudor de “se mostrar” que Serra deixou seu “lado humano” ofuscado na vida pública. Neste livro, de forma natural e sem demagogia, a imagem do “político durão” é sacudida e, sem diminuição das qualidades do lutador, se desnuda a figura singular de uma pessoa sensível sem pieguices, crítico do que ocorre a sua volta, solidário mesmo quando em desacordo com as ideias e os gestos daqueles aos quais está política ou pessoalmente ligado.

Cinquenta anos esta noite conta a história de uma geração de jovens que abraçaram a política  na universidade e que foram engolfados pelas circunstâncias. O livro fala das pessoas e grupos  que apareceram para a cena brasileira nos anos sessenta. Geração que, para o bem ou para o mal, ficou marcada pelos anos das esperanças nacionalistas e socialistas renascidas depois da democratização da Constituição de 1946 e se viram esmagadas pelo golpe de 1964. Serra foi contemporâneo, na universidade, nas lutas políticas, no exílio, na vida enfim, dos que viram suas opções balizadas à esquerda entre a Ação Popular (AP) e o Partidão. A AP era composta inicialmente por jovens oriundos da Juventude Universitária Católica, alguns dos quais, mais tarde, se foram para o PC do B. O Partido Comunista Brasileiro Brasileiro (PCB), o “Partidão”, se fragmentou no PC do B, na ALN de Carlos Mariguella e nas múltiplas tendências dos defensores da “luta armada”.

A geração de Serra era uma década posterior à minha, quando à esquerda havia apenas o Partidão, o radicalismo nacionalista e, de importância mais teórica do que prática, o trotskismo. Em conjunto essas tendências não davam espaço para a chamada “esquerda democrática” ou para qualquer forma de social-democracia. Quando a geração de Serra despontou para a política as pessoas mais ativas de minha geração já exerciam funções institucionais (no Parlamento ou no Executivo) ou haviam se recolhido nas cátedras universitárias. O encontro entre estas duas gerações se deu no exílio e nas lutas democráticas posteriores a 1964.

Foi assim que, para personalizar, vim a encontrar Serra em Santiago em 1966, como ele mesmo descreve, ambos no exílio. Não tivemos, portanto, experiências políticas comuns na fase pré-golpe. Vivemos, entretanto, os mesmos episódios que o livro relata, embora de perspectivas diferentes. Eu, desde 1953, aos 21 anos, era professor-assistente na USP, inicialmente na Faculdade de Ciências Econômicas, mais tarde, na Faculdade de Filosofia, na cadeira de Sociologia. Estava apartado, portanto, das atividades estudantis, mergulhado em leituras teóricas e em pesquisas, nos anos sessenta sobre os empresários e o desenvolvimento econômico. Apesar disso tivemos sentimentos semelhantes sobre o que se desenrolava na cena política.

Serra, participante ativo das lutas da época, estava mais próximo do poder, mesmo discordando de seu rumo. No livro é surpreendente o olhar crítico que o jovem presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) lançava sobre o governo Jango Goulart e, especialmente,  sobre o presidente. Sem a mesma proximidade com o poder, embora eu fosse considerado na época pelos que deram o golpe e por colegas da USP como agitador e esquerdista, senão comunista – o que já não era mais – na verdade era crítico do populismo de Jango e Brizola. Só para dar um exemplo de como a despeito da diferença geracional e de experiências de vida, havia coincidência de percepção dos acontecimentos relato um pequeno episódio.

Eu estava no Rio no dia 13 de março de 1964, em casa de meu pai, que vivia na rua Conselheiro Lafayette, no Arpoador. Enquanto Serra fazia seu discurso atrevido diante do presidente da República no comício da Central do Brasil eu tomava um táxi que me conduziria ao destino, a estação de trens da Central do Brasil. Na calçada, olhei em volta e vi centenas de velas acesas nas sacadas dos prédios, não certamente na de meu pai, ex-deputado federal do PTB, nem, ao que me lembre, na do poeta Carlos Drummond de Andrade, que vivia no mesmo prédio. Era a classe média que no momento do comício da Central (relatado minuciosamente neste livro) protestava com temor pela perda de suas propriedades imaginárias, por causa da reforma agrária e da temida reforma urbana, que nem o próprio Serra sabia o que era. Passei de longe pelo local do comício e fui direto para o trem que me levaria a São Paulo.

No trem, mal deixadas as valises, fui para o vagão do jantar (bons tempos) onde me sentei à mesma mesa de três pessoas: Plínio de Arruda Sampaio, que fora meu colega de curso primário no Colégio Perdizes, em São Paulo, José Gregori, que viria a ser meu ministro da Justiça e embaixador em Portugal, e Marco Antônio Mastrobuono, que se casaria com Tutu Quadros, filha de Jânio. A conversa não poderia ser outra: quem daria o golpe, Jango ou a “direita”; o que aconteceria depois. Lembro-me que tanto eu como Plínio achávamos que sofreríamos as consequências negativas do que viesse a ocorrer, fosse qual fosse o lado que golpeasse. Certezas, ninguém tinha, nem os que preferíamos Jango e as forças progressistas. Temíamos pelo Brasil nos dois casos. Não havia apego nem ilusões quanto ao que Jango pudesse fazer. Logo depois, em fins de abril, eu escaparia de São Paulo na direção da Argentina e do Chile, para não ser preso. Seis meses mais tarde, Plínio estava em Santiago, dormindo em minha casa, enquanto a família não chegasse. Quem me ajudou a sair semiclandestinamente do Brasil? O mesmo Maurício Segall, que ajudaria Serra a fugir e de quem eu havia sido colega, quando ambos éramos assistentes a Faculdade de Economia da USP.

Não são coincidências: a história das gerações se entrelaça e os sentimentos, as percepções, às vezes, encontram similitudes. Com Serra as convergências políticas e intelectuais foram muito grandes, desde que o vi em uma aula que eu dava na Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso), uma instituição da Unesco na qual ele trabalhou mais tarde. Mas não é isso o que importa: importa dizer que o livro recapitula a história política do Brasil desde os dias da agitação de massas do período Goulart até 1977 quando Serra, uma vez mais, retorna ao Brasil e desta vez para ficar e continuar participando da vida nacional. Por tudo quanto sei e posso avaliar – por isso a digressão das coincidências e do entrelaçamento das gerações – a história está bem contada, cheia de minúcias, e é objetiva.

Aliás, a memória do autor me deu inveja: basta lembrar o rosário de nomes citados com precisão, as datas, a descrição dos encontros havidos. Por mais que Serra tenha consultado fontes é óbvio que o encadeamento e certos detalhes do livro advêm de uma memória privilegiada. Ele mesmo diz que costuma escrever os discursos e memorizá-los, à moda de Octavio Mangabeira. Os leitores são beneficiários dessa qualidade. Como a escrita é fluente, aprende-se a história do período com flashes encimados por títulos criativos. Daí eu ter dito que parecem anotações para um filme. A leveza dos flashes não esconde, porém, a dramaticidade de muitas situações. Provavelmente só quem viveu o período da ditadura e foi perseguido perceberá, por exemplo, o significado da observação de Serra de que o exílio, além de ser a distância da pátria e, eventualmente, da família, é algo que pode parecer prosaico, mas é real: estar indocumentado ou, mesmo tendo passaporte, sabe-lo insuficiente para garantir o ir-e-vir. Assim como os que foram interrogados por “serviços especiais” e não tinham envolvimento com a luta armada sabem que a perplexidade e a raiva do interrogado aumentam na proporção da imbecilidade das suposições e perguntas sem sentido.

Além de ser uma boa síntese da história política da época, o livro mostra a perspicácia do autor no julgar processos econômicos. De modo breve e sem palavras que assustem o leitor, Serra diz, de repente, algo que teve profunda repercussão no modo como se dá a relação entre o Centro e a Periferia, para usar a linguagem da CEPAL, instituição em que ambos trabalhamos e nos influenciou. Cita ninguém menos do que Lenin em livro que marcou época, Imperialismo, etapa superior do capitalismo, para mudar o ângulo de análise e desvencilhar-se do que era usual nas análises “de esquerda” do período: se o imperialismo desenvolvesse os países da Periferia, deixaria de ser imperialismo. Era exatamente o que estava acontecendo, especialmente no Brasil. Com esta perspectiva Serra não poderia cair, como não caiu, nas armadilhas das teorias “foquistas”, de inspiração maoísta ou de Guevara, nem poderia esperar que o levante popular viesse do campo. Por mais que fosse convidado, e o foi muitas vezes, a começar por Brizola, e por mais que fosse amigo do Betinho e mantivesse laços com os militantes antiditadura, especialmente com os egressos da AP, nosso autor nunca participou dessas empreitadas.

Parte interessante do livro é a que descreve como o autor participou do governo Allende na qualidade de assessor do então ministro da Fazenda. As reticências que Serra manteve frente ao populismo, mesmo o de Goulart, não poderiam permitir que se entusiasmasse com os contornos do mesmo gênero que, por circunstância, brotaram no governo chileno ao qual ele servia. A tese para obter o grau de doutor que Serra escreveu, já depois de preso, refugiado na embaixada da Itália em Santiago (na primeira vez foi na da Bolívia, no Brasil) e por fim seguro, em Cornell, foi uma espécie de passar a limpo da experiência do período allendista. O amadurecimento econômico prosseguiu no Institute for Advanced Study, em Princeton, nos Estados Unidos.

Em Princeton Serra sofreu a influência direta de um dos pensadores que mais influenciaram a mim também e de cuja companhia, por menos tempo do que Serra, pude desfrutar no mesmo Instituto. A influência de Hirschmann vinha de longe. Quando Serra mergulhou nos estudos empíricos e teóricos da CEPAL (a figura dominante naquela instituição era Raúl Prebisch, mas Serra foi muito ligado e influenciado por outro grande economista, Aníbal Pinto, de quem fui vizinho e amigo no Chile e que atraiu a atenção de toda uma geração de brasileiros) não podia deixar de ter um olhar crítico diante de certos desdobramentos da “teoria da Cepal”. Era moda, então, discutir-se a marginalização crescente das populações urbanas da América Latina. Falava-se em superexploração da força de trabalho (tese que no ensaio conjunto que escrevemos em Princeton tratamos de desmontar) e não poucos teóricos latino-americanos sublinhavam os aspectos negativos das tecnologias que poupavam mão de obra. Para recusar o argumento Serra já utilizava a análise “hirschmaniana” ao dizer que os que assim acreditavam não estavam levando em consideração o efeito de encadeamento dos avanços tecnológicos, que se espraiavam por toda a economia, nem se davam conta de que estes, em geral, vinham embutidos nos bens de capital.

Ou seja, Serra não caiu na armadilha da má análise política que sustentou as teses guerrilheiras, nem no populismo, nem muito menos no “catastrofismo” dos que não aceitavam o lado “progressivo” do desenvolvimento do capitalismo ao expandir-se pelo mundo, que resultou na atual globalização. Armadilha da qual também eu escapei no livro Dependência e desenvolvimento na América Latina e em livros anteriores que escrevi sobre o Brasil. Nem sempre a análise político-econômica adequada conduz a uma prática política proveitosa. No caso de Serra, entretanto, é inegável que seu amor à democracia e sua trajetória vitoriosa tanto no Parlamento quanto no Executivo guardam conexão direta com sua poderosa mente analítica.

Termino, sem esgotar os múltiplos aspectos interessantes de Cinquenta anos esta noite, dizendo que o livro mostra outra particularidade de Serra, pouco conhecida. Homem de múltiplas relações, de algumas amizades constantes, tem, entretanto, um pendor particular por escutar mulheres. Entre as que mais escutou, está Ruth Cardoso, a respeito de quem, na missa de sétimo dia por seu falecimento disse palavras que me levaram às lágrimas. E, principalmente uma pessoa menos conhecida do grande público, madre Cristina, orientadora do Sedes Sapientia em São Paulo, que um dia lhe disse: “você é casado com a política”. Frase correta, que resume uma dimensão do Serra. Mas não mostra outras, que este livro mostra: o homem culto, rigoroso, cheio de emoção. Que se recorda pungentemente dos pais, da família, Que sabe ser solidário com os amigos. Contudo, tinha razão madre Cristina: Serra, acima de tudo tem o sentimento de responsabilidade pública. Qualidades raras, que estão a faltar na maioria de nossos políticos.

 

Fevereiro de 2015

* Editora Record, São Paulo, 2014, 266 pp.

Esta matéria faz parte do volume 23 nº3 da revista Política Externa
Volume 23 nº 3 - jan/fev/mar 2015 A Tragédia do Charlie

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