Política Externa

Discurso de abertura da Sessão Plena das Nações Unidas consagrada ao recrudescimento do antissemitismo no mundo

por em 02/03/2015

Nova York, 22 de janeiro de 2015

 

Senhoras e senhores embaixadores.

Senhor presidente e senhor secretário-geral.

Senhoras e senhores ministros.

Não é frequente que um filósofo seja incumbido de se expressar neste recinto.

Esta é uma das primeiras vezes (Elie Wiesel, Jiddu Krishnamurti há trinta anos…) que um filósofo é solicitado a se apresentar aqui, nesta tribuna onde ressoaram tantas grandes vozes e onde a causa da paz e da fraternidade entre os homens conheceu alguns de seus mais belos e nobres avanços. E, podem acreditar isso me traz uma viva emoção e uma imensa honra.

Mas vocês não me convidaram a esta manhã para eu cantar a honra e a grandeza da humanidade – e, sim, infelizmente, para chorar os progressos dessa inumanidade radical, dessa baixeza, que se chama antissemitismo. Bruxelas, onde há alguns meses foi atacada a memória judaica e seus guardiões. Paris, onde foi ouvido novamente o grito infame “morte aos judeus”, e onde, há alguns dias, desenhistas foram mortos por desenhar, policiais por estarem policiando e judeus por estarem fazendo suas compras e apenas por serem judeus.

Em outras capitais, muitas outras, na Europa e fora da Europa, a condenação aos judeus está se tornando novamente a senha de uma nova seita de assassinos – a menos que continue sendo a mesma, em novas roupagens.

Essa casa edificou-se contra isto. A Assembleia tinha a sagrada tarefa de evitar o despertar desses fantasmas.

Mas os fantasmas voltaram e é por isso que estamos aqui.

Sobre essa praga, sobre suas causas e sobre os meios de resistir a ela, quero em primeiro lugar, senhoras e senhores, senhor secretário-geral, senhor presidente, refutar análises que temo serem feitas apenas para nos impedir de encarar diretamente o mal.

Não é verdade, por exemplo, que o antissemitismo seja uma variedade do racismo entre outros. É claro que ambos devem ser combatidos, com a mesma determinação. Mas só é possível combater aquilo que se compreende bem. E é preciso compreender que, se o racista odeia no Outro sua alteridade visível, o antissemita, de seu lado, abomina nele sua invisível diferença – e é desta tomada de consciência que irá depender a natureza das estratégias que poderão e deverão ser empregadas.

Tampouco é verdade que o antissemitismo de hoje tenha, como se escuta por toda parte, e em particular nos Estados Unidos, suas principais fontes no mundo árabe-muçulmano. Em meu país, por exemplo, existe uma dupla fonte, um double bind. De um lado, é certo, temos os filhos de um islamismo radical que se tornou o ópio mais tóxico dos territórios perdidos da República. Mas de outro, há o antigo monstro francês que, desde os casos Dreyfus e Vichy, nunca adormeceu por completo, e que no final das contas, faz uma parceria com o monstro islamo-fascista.

E finalmente não é exato que a política de tal ou tal Estado, estou evidentemente me referindo ao Estado de Israel, produza esse antissemitismo, como a nuvem produz a tempestade. Conheci capitais, na Europa, onde a destruição dos judeus foi quase total e nas quais, no entanto, o antissemitismo é ainda máximo. Conheci outras, mais distantes, em que nunca houve judeus e onde, entretanto, o termo judeu é sinônimo de Diabo. E afirmo aqui que, se Israel fosse exemplar, se fosse a pátria de um povo de anjos, caso reconhecesse ao povo palestino o Estado ao qual este tem direito, o mais antigo dos ódios infelizmente em nada diminuiria.

Para compreender como funciona o antissemitismo de hoje, é preciso, senhoras e senhores embaixadores, descartar esses clichês e escutar a forma pela qual ele se expressa e se justifica.

Pois nunca, no fundo, os homens aceitariam dizer “bom, é isso mesmo, somos homens maus e odiamos os pobres judeus”.

Não.

Eles disseram: “nós os odiamos porque foram eles que mataram Cristo” – e foi esse o antissemitismo cristão.

Eles disseram: “nós os odiamos porque eles, ao contrário, ao produzir o monoteísmo, inventaram-no” – e foi esse o antissemitismo do Iluminismo que queria acabar com todas as religiões.

Eles disseram: “nós os odiamos porque eles são de outra espécie, reconhecíveis por traços naturais que pertencem somente a eles e que corrompem, poluem as outras naturezas” – e esse foi o antissemitismo racista, um contemporâneo do nascimento das ciências da vida moderna.

Eles disseram ainda: “não temos nada contra os judeus em si; não, não, realmente nada; aliás, pouco nos importa se eles mataram ou testemunharam o nascimento de Cristo, se eles formam ou não uma raça à parte, etc.; nosso único problema é que eles são horríveis plutocratas, obcecados por dominar o mundo e por oprimir os humildes e os pequenos” – e foi esse, em toda Europa, o socialismo dos imbecis que infectou o movimento operário do início do século XX em diante.

Hoje, nenhuma dessas retóricas funciona mais.

Por motivos relacionados à história do último século, só uma minoria de mulheres e homens deixam de enxergar que todas elas produziram abomináveis massacres.

E para que o velho vírus ataque novamente as mentes, para que lhe seja possível inflamar de novo vastas multidões, para que homens e mulheres possam, em grande número, e Deus nos livre disso, recomeçar a odiar abertamente em boa consciência ou, se preferirmos, a acreditar que existem boas razões para atacar os judeus, é preciso um novo argumento que a História Universal não tenha tido tempo de invalidar.

O antissemitismo de hoje diz, na realidade, três coisas.

Ele só pode operar em grande escala se chegar a proferir e articular três enunciados vergonhosos, mas inéditos, e que o século XX não desqualificou.

Os judeus seriam odiosos por apoiarem um Estado mau, ilegítimo e assassino – e esse é o delírio antissionista dos adversários sem trégua do restabelecimento dos judeus em seu lar histórico.

Os judeus seriam ainda mais odiosos por terem fundado sua Israel amada sobre um sofrimento imaginário ou, pelo menos exagerado – e temos aqui a ignóbil, a cruel negação da Shoah. E finalmente, assim procedendo, eles teriam cometido um terceiro e último crime, que os tornaria ainda mais detestáveis, ao nos entreter incansavelmente com a lembrança de seus mortos, para abafar as outras memórias, para silenciar outros mortos, a ofuscar os outros mártires que enlutam o mundo de hoje, e dos quais os mais emblemáticos seriam os Palestinos – e aqui estamos mergulhados nessa imbecilidade, nessa lepra chamada competição das vítimas.

O novo antissemitismo necessita desses três enunciados.

Como uma bomba atômica moral que neles encontrasse seus três componentes.

Cada um deles, tomados separadamente, já bastaria para desacreditar um povo que novamente se tornou objeto de opróbrio; mas caso eles se adicionem, caso os componentes somem, se os três fios entrarem em contato formando um nó ou uma trança – podemos estar quase certos de assistir a uma deflagração da qual todos os judeus, por toda parte, serão os alvos designados.

Pois como não deve ser horrível um povo sobre o qual se insinua ser capaz desses três crimes!

Como não deve ser horrível o retrato de uma comunidade de mulheres e homens acusados de traficar com o que eles possuem de mais sagrado, ou seja, a memória de seus mortos, para legitimar um Estado ilegítimo e reduzir ao silêncio os outros sofredores do planeta!

É isso o antissemitismo moderno.

O antissemitismo só renascerá em grande escala se conseguir impor esse quadro insensato e infame.

Ele será antissionista, negacionista, alimentado pela imbecil competição das dores – ou não existirá: ele apresenta uma coerência indefensável; mostra uma detestável, desprezível, mas infalível lógica.

Reconhecer isso, senhoras e senhores embaixadores, senhor secretário-geral, senhor presidente, significa começar a ver, simetricamente, o que nos cabe fazer para lutar contra essa calamidade.

Imaginemos uma Assembleia Geral das Nações Unidas onde Israel tivesse seu lugar, todo seu lugar, o de um país como os outros, nem mais ou menos culpado que os outros, submetido aos mesmos deveres, mas também aos mesmos direitos – e imaginemos que se lhe faça justiça, reconhecendo-lhe, assim, que seja o que realmente é: uma autêntica, sólida e corajosa democracia. Imaginemos uma Assembleia Geral das Nações Unidas que, fiel a seu pacto fundador, se tornasse a severa guardiã da memória do pior genocídio jamais concebido desde que existem homens – imaginemos que este ano de 2015 assista à realização, sob sua égide e com o auxílio das mais altas sumidades científicas mundiais, da mais completa, a mais exaustiva, a mais definitiva das conferências jamais reunidas sobre a tentativa de destruição dos judeus.

E sonhemos também, em algum lugar entre Nova York, Genebra ou Jerusalém, com uma segunda Conferência consagrada a todas as guerras esquecidas que enlutam as terras habitadas, mas das quais nunca se fala, pois elas não entram no quadro dos blocos, ou dos grupos, entre os quais os senhores se dividem – e sonhemos que essa segunda Conferência, essa Cúpula dos condenados, na contracorrente do preconceito idiota e monstruoso que afirma que só existiria lugar num coração para uma única compaixão, revelasse aquilo que foi a verdadeira verdade das décadas passadas: quando tínhamos a Shoah no coração víamos de imediato o horror da purificação étnica na Bósnia; quando tínhamos em mente esse arquétipo do inumano que foi o massacre dos judeus compreendíamos sem tardar o que estava acontecendo em Ruanda ou Darfour; longe de nos cegar para os tormentos dos outros povos, a vontade de nada esquecer do tormento do povo judeu é o que faz ressaltar, evidenciar a imensa aflição dos burundienses, dos angolanos, dos zairenses, e assim por diante.

Adotando esse programa, os senhores estarão lutando contra o antissemitismo real.

Reabilitando essa Israel que sua Assembleia levou a pia batismal há quase 70 anos, usando sua autoridade para calar, de uma vez por todas, os cretinos negacionistas, e em terceiro lugar, prestando auxílio aos novos condenados da terra imolados no altar da ideologia antissionista, os senhores estarão desconstruindo um a um todos componentes do novo antissemitismo.

Mas estarão defendendo, ao mesmo tempo, e no mesmo movimento, a causa da humanidade.

Eu não estaria aqui, senhoras e senhores embaixadores, se não pensasse que este recinto é um dos únicos lugares no mundo, talvez o único, em que pode ser orquestrada essa solidariedade dos chocados, da qual falava o grande filósofo Jan Patocka que foi o fio condutor de minha vida.

Quando, em meu país, as mais altas autoridades do Estado dizem: “a França sem os judeus não seria mais a França”, elas estão erguendo um dique contra a infâmia.

Mas quando, nesse mesmo país, vimos um quarto dentre nós, um chefe de Estado e de governo em quatro marchar a nosso lado para dizer “sou Charlie, sou policial, sou judeu”, isso constituiu uma razão de esperança que não mais ousávamos esperar.

E sua presença, aqui, nesta manhã, sua vontade de tornar este evento possível e, quem sabe, memorável, atesta que em todos os continentes, em todas as culturas e todas as civilizações, se começa a tomar consciência que a luta contra o antissemitismo é uma obrigação para todos – e essa é uma bela e grande notícia.

Quando se golpeia um judeu, dizia outro escritor, é toda a humanidade que é jogada ao chão.

Quando se ataca os judeus, insistia um antinazista de primeira hora, é como se uma primeira linha fosse abatida sob uma invisível metralhada, que em seguida irá atingir, um a um, o resto dos humanos.

Não, um mundo sem judeus não seria mais um mundo – um mundo em que os judeus recomeçassem a ser os bodes expiatórios de todos os medos e todas as frustrações dos povos seria um mundo em que os homens livres respirariam mal e onde os oprimidos seriam ainda mais oprimidos.

Agora é sua vez de tomar a palavra e agir. É a vez dos senhores, que são o rosto do mundo, serem os arquitetos de uma casa onde a mãe de todos os ódios veria seu lugar diminuído.

Que os senhores possam, daqui um ano e no ano seguinte, e em todos os outros, encontrar-se para constatar que a mobilização de hoje não foi em vão, e que é possível fazer a Besta recuar.

 

Tradução de Martha Gambini

Fevereiro de 2015

Esta matéria faz parte do volume 23 nº3 da revista Política Externa
Volume 23 nº 3 - jan/fev/mar 2015 A Tragédia do Charlie

O atentado contra o semanário satírico Charlie Hebdo foi interpretado por muitos como parte de um conflito entre extremistas muçulmanos e um jornal em campanha quase sistemática contra o Islã extremista.

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