Política Externa

Apresentação de Celso Lafer na cerimônia de entrega do título de professor emérito da Universidade de São Paulo

por em 02/03/2015

São Paulo, 13 de setembro de 2014

 

Na qualidade de quem usufruiu do privilégio de ter sua formação intelectual conduzida pelo professor Celso Lafer, tenho agora a honra de escrever esta laudatio, por ocasião da entrega do título de professor emérito da Universidade de São Paulo. Como disse Hannah Arendt, ao efetuar uma homenagem ao seu mestre Karl Jaspers, um louvor só pode tentar expressar o que todos já sabem, mas fazê-lo em público não é supérfluo, pois o fato da homenagem ser compartilhada confere a ela um “poder iluminador, que confirma sua existência real”.

O professor Celso Lafer formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo em 1964 e fez pós-graduação em Ciência Política na Universidade de Cornell (1965-1970). Em 1971, iniciou suas atividades como docente na Faculdade de Direito, tornou-se livre-docente em Direito Internacional em 1977 e professor titular de Filosofia do Direito em 1988. Foi agraciado com a Medalha Armando Salles de Oliveira em 2011 e recebeu o título de professor emérito do Instituto de Relações Internacionais da USP em 2012. O reconhecimento de suas virtudes acadêmicas e intelectuais estendeu-se por diversas Universidades do mundo. Recebeu o título de Doutor honoris causa na Argentina (Buenos Aires, Córdoba e Tres de Febrero), na França (Lyon-Jean Moulin), em Israel (Haifa) e na Inglaterra (Birminghan).

Celso Lafer dedicou-se também à vida pública, levando consigo os valores humanistas de sua formação. Com extrema seriedade e dedicação, prestou importantes serviços ao país. Foi embaixador chefe da missão do Brasil em Genebra (1995-1998), ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (1999) e ministro de Estado das Relações Internacionais em dois mandatos (1992 e 2001-2002). Durante sua gestão em Genebra, foi eleito presidente do Conselho Geral e do Órgão de Solução de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio, demonstrando que seu preparo no trato de assuntos complexos e seu brilho pessoal foram reconhecidos igualmente pela comunidade internacional.

Suas múltiplas competências fizeram com que ele fosse acolhido em vários colegiados, nacionais e internacionais. É membro da Corte Permanente de Arbitragem Internacional de Haia (2002), membro da Academia Brasileira de Ciências (2004) e da Academia Brasileira de Letras (2006). Desde 2007 é presidente do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Celso Lafer representa os mais altos valores da Universidade de São Paulo que, quando de sua criação em 1934, já estabelecera como finalidade precípua a “transmissão pelo ensino de conhecimentos que enriquecem ou desenvolvem o espírito, sejam úteis à vida e que tenham valor cultural”. Com efeito, seus ensinamentos sempre foram voltados para o incremento do espírito, sem deixar de se conectar com a vida “real”, ou seja, com a prática do jurista que tem como função aplicar seus conhecimentos para solucionar os problemas do convívio entre os homens. Seus ensinamentos sempre foram de alto valor cultural, por sua erudição ímpar, aliada a sua generosidade na transmissão do saber.

Outra finalidade de nossa Universidade, definida desde seu início, foi “estimular a cooperação no trabalho intelectual”. Neste particular, Celso Lafer sempre se dedicou em promover o entendimento e a cooperação no ensino e na pesquisa universitária. Conforme suas próprias palavras, herdou de sua mãe Betty Lafer, que foi professora de escola pública, o amor à educação. Com seu pai, Abrahão Jacob Lafer, jurista formado pela Faculdade de Direito em 1930, aprendeu a “pensar com inteireza”, o que pressupõe o circunstanciado conhecimento dos assuntos e o apoio de equipes competentes, mobilizadas pela fraternidade de uma tarefa comum, sem os quais não se leva adiante uma responsabilidade coletiva.

Também aprendeu com seu grande mestre, Norberto Bobbio, as virtudes da serenidade e da tolerância. Serenidade, como qualidade de deixar o outro ser o que é, e recusando-se a exercer a violência em qualquer situação. Tolerância, como capacidade de receber as opiniões alheias sem preconceitos. Apesar de muitas vezes ser pressionado para ingressar em disputas rasteiras ou ideológicas, Celso Lafer sempre manteve sua ética universitária, procurando estabelecer um diálogo construtivo com seus interlocutores.

No campo das letras e das artes, Celso Lafer se destacou com a mesma erudição e elegância demonstrada nos outros campos do saber aos quais se dedicou. Quando cursou a Faculdade de Letras, foi aluno de Antonio Candido, e ficou profundamente marcado pelos ensinamentos desse mestre. Publicou, quando ainda estava no curso de graduação de Direito, o livro O judeu em Gil Vicente, que recebeu boa apreciação da crítica especializada e o ensaio “O problema dos valores n’ Os Lusíadas”. Antonio Candido assim se exprimiu sobre seu aluno: “Pude então avaliar a qualidade rara daquele moço apaixonado pelo saber, que entrava pela madrugada sobre os livros, com um interesse ardente que sempre extravasou os limites da sua especialidade e lhe permitiu constituir uma cultura múltipla nos campos da filosofia, da história, da literatura e das artes”.

Igualmente no campo da literatura, participou do movimento de vanguarda intitulado Concretismo e foi um interlocutor privilegiado do poeta Haroldo de Campos. Com ele, publicou texto acerca do poeta Octavio Paz no livro Transblanco, demonstrando extrema desenvoltura ao falar de sua poesia. Também foi pioneiro ao tratar do pensamento político de Paz, no ensaio O poeta, a palavra e a máscara.

Com a mesma competência demonstrada com relação ao Direito, à Literatura e à Filosofia, escreveu sobre as artes plásticas. Analisou, em diversas ocasiões, a obra do artista Lasar Segall. Organizou o livro Judeus e judaísmo na obra de Lasar Segall é autor do texto “Navio dos emigrantes: ‘um quadro pensadíssimo’” e Aquarelas de Segall: olhar sereno, olhar aflito, múltiplos olhares. Além de sua contribuição teórica e crítica, teve papel fundamental na criação e desenvolvimento do Museu Lasar Segall, uma das mais importantes instituições do gênero no país.

Publicou dezenas de livros, artigos e prefácios que tratam de diversas áreas do saber: Direito Internacional, Relações Internacionais, Ciência Política, História e Filosofia do Direito. Sempre contribuiu com diversos jornais, especialmente o Estado de S. Paulo, trazendo temas e autores ao grande público e propondo discussões importantes para a realidade nacional e internacional. Tem cumprido, dessa forma, a missão de levar a cultura da Universidade para a sociedade civil.

Celso Lafer dedicou todo seu magistério à Universidade de São Paulo, formando alunos de graduação, mestres e doutores. Dentre suas contribuições à nossa Universidade, gostaria de destacar, finalmente, a promoção e a defesa dos direitos humanos. Lafer aprendeu, com Hannah Arendt, que o espírito e a vida, assim como a razão e a paixão, não são excludentes. No mesmo sentido, aprendeu nas Arcadas, com o grande mestre da Filosofia do Direito, Goffredo Telles Jr., que devemos valorizar a “inteligência espiritual”, formadora de ideias e capaz de direcionar a invenção e o planejamento em prol dos valores superiores. Esses ensinamentos dotaram seu trabalho em prol dos direitos humanos de um caráter singular. Publicou diversos livros e textos com análises inovadoras nesta área, assim como ministrou cursos sobre a temática durante todo seu magistério. Sua obra e seus ensinamentos neste campo sempre privilegiaram a perspectiva dos governados, ou como ele prefere, ex parte populi, evidenciando assim sua visão humanista das relações internacionais.

Em sua brilhante obra A reconstrução dos direitos humanos – um diálogo com Hannah Arendt, reconhecida pelo Prêmio Jabuti em 1988, partiu da afirmação de que a cidadania é um princípio e não um apenas um meio para o efetivo exercício “do direito a ter direitos”, demonstrando que os direitos humanos não são um dado, mas algo construído, e que a luta pela sua defesa deve ser constante e permanente.

As principais características de Celso Lafer são a inteligência, a honestidade intelectual e a tolerância às opiniões diversas. Como professor, procurou sempre “tirar o valor das coisas da obscuridade para a luz”, abrindo assim o caminho para que muitos de seus alunos possam continuar a perseguir os mais altos valores da Universidade de São Paulo, seguindo seu belo exemplo de docente e cidadão.

Fevereiro de 2015

Esta matéria faz parte do volume 23 nº3 da revista Política Externa
Volume 23 nº 3 - jan/fev/mar 2015 A Tragédia do Charlie

O atentado contra o semanário satírico Charlie Hebdo foi interpretado por muitos como parte de um conflito entre extremistas muçulmanos e um jornal em campanha quase sistemática contra o Islã extremista.

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