Política Externa

Discurso de agradecimento ao receber a Medalha Gilbert

por em 08/06/2015

Santiago de Chile, 7 de maio de 2015

A Medalha Gilbert homenageia o falecido prof. Alan David Gilbert, sua visão da Universidade e seu papel como fundador da Universitas 21, concebida como uma rede de universidades que almeja o aprimoramento da parceria e da cooperação entre instituições de ensino superior. Todos aqueles que já receberam a Medalha Gilbert – Domenico Lenarduzzi, Allan E. Goodman e Jane Knight – empenharam-se, em suas funções e atividades, para aprimorar os objetivos da Universitas 21. Sinto-me muito honrado por estar na companhia deles, recebendo a Medalha Gilbert aqui no Chile, neste encontro de 2015 da Universitas 21. Os objetivos da Universitas 21 que a Medalha Gilbert honra são muito caros a mim. Inspiraram-me a promover a internacionalização da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo –, uma das maiores agências brasileiras de fomento, destinada a apoiar o avanço da pesquisa em todas as áreas do conhecimento. Por isso parece-me apropriado, neste discurso de agradecimento, compartilhar muito brevemente o cenário que vem orientando meu empenho como presidente da FAPESP e mostrar como se entrelaça com os objetivos da Universitas 21.

Desde o Renascimento, a ciência é uma atividade internacional. Por isso, as Academias Científicas incentivaram o compartilhar de ideias e de descobertas como parte de seus empreendimentos. É interessante lembrar, nesse sentido, que a Royal Academy inglesa criou o cargo de ministro das Relações Exteriores em 1723, quase 60 anos antes de o governo britânico nomear seu primeiro ministro de Estado para Assuntos Exteriores. José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, foi também um renomado cientista na área de mineralogia, e participou ativamente, no seu período de vida na Europa, dos procedimentos internacionais das Academias Científicas Europeias, compartilhando com seus colegas, em um contexto de reciprocidade, os resultados de suas pesquisas e descobertas acadêmicas.

O conhecimento vem adquirindo um lugar cada vez mais proeminente na agenda mundial do século XXI. A velocidade do processo com o qual a cultura científica de pesquisa básica e aplicada expande as fronteiras do conhecimento mudou também, em todas as dimensões, as condições de vida em escala planetária. Esse é um dos “dados de base” do cenário mundial. E por isso, a capacitação das sociedades e dos indivíduos requer apoio e manutenção de qualificadas competências de pesquisa e maior abrangência na divulgação dos resultados de seus trabalhos. Assim, para serem de fato eficazes, as políticas públicas precisam fundamentar-se em uma base científica sólida. Daí resulta a presença cada vez maior da ciência na diplomacia – lembro-me nesse sentido de minha própria experiência como ministro das Relações Exteriores e embaixador brasileiro no trato de questões sobre o meio ambiente e o desarmamento.

As formas como a ciência se insere hoje na pauta da agenda mundial vem recebendo formulações interessantes em documentos da Royal Society, principal entidade científica do Reino Unido, pontuando que as novas fronteiras na diplomacia da ciência transpõem a presença da ciência na diplomacia e nas políticas públicas em geral, e abarcam a diplomacia da ciência, que almeja facilitar os acordos de cooperação internacional, e também a ciência em prol da diplomacia, que enxerga a cooperação científica como meio próprio de aprimorar a convivência internacional nas relações entre nações.

A diplomacia da ciência vem orientando minhas atividades no processo de internacionalização da FAPESP, e seu potencial como ciência em prol da diplomacia surge também em minha mente como resultado natural de minha experiência prévia em lidar com a política externa brasileira e de minhas atividades acadêmicas como professor de Relações Internacionais. A diplomacia da ciência e a ciência em prol da diplomacia, em minha opinião, têm uma estreita relação com os objetivos da Universitas 21, que se dedica a aprimorar a convivência, a confiança e a parceria entre universidades. Por isso quis relembrar a sua importância, neste encontro de hoje, já que expressam uma visão compartilhada.

Gostaria de concluir com algumas observações sobre a estratégia que impulsionou a internacionalização da FAPESP. A pesquisa, num mundo globalizado, mais do que nunca, não se circunscreve a um território, e tem como uma de suas dimensões decisivas o funcionamento em rede de pesquisadores. Daí o papel da diplomacia da ciência, dotada de ampla abrangência, já que no mundo contemporâneo a geração de conhecimento não se limita a poucos centros. Com efeito, a geração de conhecimento opera em um mundo mais nivelado e exige uma grande interconexão entre pesquisadores de todas as regiões do mundo. Como resultado desse cenário, durante meu mandato como presidente, a FAPESP assinou mais de 100 acordos (chegando a um total de 125 atualmente vigentes) com universidades, agências de fomento que dão apoio à pesquisa e empresas. Esses acordos geraram mais de 800 projetos de pesquisa em colaboração internacional, aumentando a visibilidade e o impacto da ciência feita em São Paulo. O objetivo é aumentar, com base na reciprocidade de interesses, a capacitação dos pesquisadores de São Paulo em todos os campos, consolidando a vantagem comparativa do valor agregado do conhecimento, que faz parte, com um impacto internacional, de nossa identidade regional no Brasil.

Uma palavra final sobre a ciência em prol da diplomacia. Os pesquisadores compartilham os valores e os méritos da investigação científica. Assim sendo, constituem uma espécie própria de comunidade internacional integrada transfronteiras, e são parte interessada na sua sustentação e na solidariedade real que criam. Trata-se, portanto, de uma esfera da vida internacional efetivamente aberta à cooperação, à confiança e ao mútuo entendimento. É um ativo em um sistema internacional com tantas tensões e conflitos, para os quais a Universitas 21, com sua visão e objetivos, sabiamente dá uma contribuição relevante.

Esta matéria faz parte do volume 23 nº4 da revista Política Externa
Volume 23 nº 4 - abr/mai/jun 2015 Revista Política Externa

A situação geopolítica da Ásia neste século é tão peculiar como tensa devido às aspirações de seus três principais atores. Japão, China e Coreia ainda não resolveram questões históricas entre si, mantêm alianças antigas e atuais que se conflitam e, curiosamente, preservam os legados de seus três velhos líderes.

Ver detalhes desta edição
Voltar Topo

Comentários

EDIÇÃO ATUAL - VOL. 24 Nº 1 e 2
Vol. 24 nº 1 e 2 - jul/dez 2015 jul/dez - 2015 O Histórico Acordo de Viena O Acordo de Viena sobre o projeto nuclear iraniano evitou as consequências trágicas da hipótese de o Irã, país inserido na região mais tensa do mundo, obter armamento nuclear.
Mais Política Externa