Política Externa

Cadernos de Política Exterior* de Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri)

por em 08/06/2015
Cadernos de Política Exterior*

A política externa do Brasil pode não ter mudado substancialmente nos últimos quatro anos. Mas há sinais de ligeiros câmbios no clima interno do Ministério das Relações Exteriores desde o início deste ano, todos benéficos no sentido de desanuviar o Palácio Itamaraty de tensões desnecessárias e de permitir maior bem-estar aos diplomatas no exercício de suas funções em Brasília e no exterior. Discretas e ainda pouco ousadas, essas mudanças já permitiram, entre outros, o lançamento em abril passado do primeiro número dos Cadernos de Política Exterior pelo Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri).

O projeto de revista semestral dedicada à divulgação de trabalhos intelectuais de diplomatas brasileiros é muito bem-vindo por contribuir ao debate no Brasil sobre a política externa e os temas relevantes da agenda internacional. Os Cadernos terão sua publicação coordenada pelo embaixador José Humberto de Brito Cruz e sustentada por um conselho editorial presidido pelo embaixador Sérgio Eduardo Moreira Lima, atual condutor da Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), ao qual o Ipri está subordinado. A nova revista retoma iniciativas abandonadas, como os Cadernos do Ipri e a DEP (Diplomacia Estratégia Política), esta última sobre temas sul-americanos e com contribuição de empresas privadas.

Como os editores apresentaram no primeiro número, o propósito dos Cadernos será divulgar o conhecimento e a reflexão dos quadros do Itamaraty. Em especial, as teses elaboradas e defendidas com rigor acadêmico pelos diplomatas durante o Curso de Altos Estudos (CAE), na fase intermediária da carreira. A Funag tem publicado algumas delas na forma de livros. Mas a maioria dessa produção tem sido esquecida nos arquivos do Ministério. Os Cadernos permitirão, portanto, o acesso do leitor interessado aos temas debatidos nas entranhas da Casa de Rio Branco e às reflexões de diplomatas convidados a escrever sobre um tópico específico.

Proposital ou inconsciente, a escolha do autor do artigo de abertura da edição número 1 dos Cadernos diz muito sobre a qualidade desse projeto editorial e das mudanças discretas em curso no Itamaraty. O embaixador José Alfredo Graça Lima está entre os nomes mais respeitados da diplomacia brasileira, particularmente na seara das negociações comerciais, mas figurou na lista dos condenados ao ostracismo durante a última gestão do embaixador Celso Amorim no Ministério (2003-2011). Resgatado da atividade consular pelos então chanceleres Antonio Patriota e Luiz Alberto Figueiredo, Graça Lima atualmente conduz a subsecretaria-geral do Itamaraty responsável pelas relações do Brasil com a Ásia.

Com muita propriedade e experiência, o embaixador Graça Lima detalhou em seu artigo para os Cadernos os avanços extraídos da reunião de cúpula dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) de Fortaleza, em julho de 2014. Os resultados desse encontro – em especial, os acordos sobre o Arranjo Contingente de Reservas e a criação do Novo Banco de Desenvolvimento – foram considerados vantajosos para o Brasil e indicaram a continuidade da cooperação dos cinco países em temas de seus interesses comuns e também com a agenda dos demais países em desenvolvimento.

O embaixador Francisco Mauro assina o artigo seguinte e complementar ao de Graça Lima, sobre a agenda econômica bilateral Brasil-China. A temática muda nos três artigos seguintes: Rodrigo Baena Soares relaciona à política externa a atual base industrial de Defesa do Brasil; Arthur Henrique Villanova Nogueira aborda a resistência do Brasil em reconhecer a República do Kôssovo, mesmo quando 108 países já a consideram como Estado soberano; João Marcos Paes Lemes reflete sobre os conceitos de “responsabilidade de proteger” e de “responsabilidade ao proteger” no caso da intervenção militar na Líbia, em 2011.

Em uma nova guinada, a revista trata de diferentes temáticas a seguir. Daniel Roberto Pinto analisa a Cooperação do Fundo do IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) no Haiti; Roberto Doring Pinho da Silva aborda as aproximações e os desencontros nas relações entre o Brasil e a Colômbia; o embaixador Bernard Klingl detalha como se dá o processo decisório na União Europeia, e Carlos da Fonseca discorre sobre como a presença empresarial brasileira na América do Sul influencia a política externa do país.

A advertência de que as opiniões expressas não refletem, necessariamente, as posições do governo brasileiro está presente ao final da primeira página de cada um dos nove artigos do primeiro número dos Cadernos. O mesmo acontece em textos de autoria de diplomatas da ativa em qualquer publicação impressa ou disponíveis na internet, como nesta Política Externa. Trata-se de uma formalidade, no Itamaraty, destacar a responsabilidade única do autor sobre o conteúdo do artigo.

Não se deve, porém, iniciar a leitura dos Cadernos de Política Exterior com a ilusão de que os diplomatas convidados a escrever estejam completamente liberados para expressar suas opiniões. Nem mesmo nos trabalhos apresentados ao CAE os profissionais da nossa diplomacia se mostram totalmente confortáveis para emitir opiniões contrárias, mesmo que sinceras e bem sustentadas, à da cúpula da Casa de Rio Branco. A carreira diplomática continua bastante suscetível às opiniões expressas, mesmo em um período de distensão como o vivido neste momento no Itamaraty.

Críticas duras à atual política exterior brasileira serão raras nessas páginas, mas devem surgir na medida em que autores mais ousados forem convidados a escrever para os Cadernos. Seus artigos, de qualquer forma, devem ser acolhidos como referências consistentes e contribuições profundas, bem argumentadas e detalhadas ao conhecimento de temas e ao debate sobre as relações do Brasil com o mundo e os temas de interesse da arena internacional. A publicação será igualmente bem-vinda como mecanismo de interface do Itamaraty com a sociedade e de abertura de sua vasta produção intelectual aos brasileiros e estrangeiros interessados.

Maio de 2015

* Ano 1 – Nº 1 – 1º semestre de 2015; Ipri/Funag, Brasília, 2015, 240 pp.

Esta matéria faz parte do volume 23 nº4 da revista Política Externa
Volume 23 nº 4 - abr/mai/jun 2015 Revista Política Externa

A situação geopolítica da Ásia neste século é tão peculiar como tensa devido às aspirações de seus três principais atores. Japão, China e Coreia ainda não resolveram questões históricas entre si, mantêm alianças antigas e atuais que se conflitam e, curiosamente, preservam os legados de seus três velhos líderes.

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