Política Externa

Intuições sobre a ausência do Brasil em O capital no século XXI

por em 08/06/2015
Intuições sobre a ausência do Brasil em O capital no século XXI

O Brasil é quase absolutamente ignorado no livro de Thomas Piketty, um dos mais importantes e discutidos best-sellers do ano passado, exceto por uma nota de rodapé, em que o autor se queixa sobre a falta de fornecimento de dados fiscais pelo governo. O ensaio procura oferecer o possível para minorar a exclusão: algumas intuições pessoais treinadas em 20 anos de pesquisas sobre história econômica brasileira, abrangendo desde a produção das sociedades pré-cabralinas até o capitalismo. A intenção é tentar fornecer elementos numéricos que possibilitem vislumbrar um lugar para a economia brasileira na comparação com as séries estatísticas mundiais do livro – mas, sobretudo, indicações de hipóteses para diálogos com as disciplinas com as quais Piketty interage.

Brazil is almost totally absent in the best-seller and much discussed book “Capital in the Twenty-First Century”. Except for a single mention in a footnote, the country is not addressed by its author, Thomas Piketty, not even once. This essay attempts to offer what is available with the actual level of statistical knowledge about the country's economic history to allow a evaluation of the Piketty’s scenarios. Its intention is to offer figures that may help finding a place for the Brazilian economy in comparison with the world statistical series shown in his book and, mostly, to suggest hypotheses for a dialogue with the disciplines Piketty interacts with.

A poderosa argumentação de Thomas Piketty em O capital no século XXI está estribada numa fusão disciplinar rara. Na base de todos os argumentos existe um conjunto de estatísticas históricas sobre o desempenho da economia planetária nos últimos três séculos. Esse conjunto serve como fundamento para o autor dialogar com diversas áreas de conhecimento. No lado da economia, as estatísticas são empregadas como contraponto de prova empírica para teoremas matemáticos; na história, como dados estruturados que colocam à prova argumentos narrativos; em ciências sociais, como instrumento de análise de opções institucionais. Não bastassem tantos contatos, as estatísticas do passado secular servem também para algumas projeções de cenários futuros, a partir das quais o autor discute a desigualdade na distribuição de riqueza em escala mundial nas próximas décadas e propõe alternativas de política econômica global.

Ao longo de toda esta maciça apresentação, o Brasil aparece apenas como uma nota de rodapé, numa queixa sobre a falta de fornecimento de dados fiscais pelo governo. Esses dados permitiriam calcular algumas tendências sobre desigualdade a partir da segunda metade do século passado, que fariam parte de um conjunto sobre países emergentes. Em todo o mais, o Brasil é inexistente.

Este pequeno ensaio procura oferecer o possível, embora pareça muito pouco, para minorar a exclusão: algumas intuições pessoais treinadas em 20 anos de pesquisas sobre história econômica brasileira, abrangendo desde a produção das sociedades pré-cabralinas até o capitalismo. A intenção é tentar fornecer, até onde as pesquisas e conhecimentos permitiram chegar, elementos numéricos que possibilitem vislumbrar um lugar para a economia brasileira na comparação com as séries estatísticas mundiais do livro – mas, sobretudo, indicações de hipóteses para diálogos com as disciplinas com as quais Piketty interage.

A tarefa parece grande e as limitações são evidentes, a começar pela pretensão de empregar a obra pessoal, recendente a cabotinismo. Mas, por outro lado, tal contraste pode ser melhor entendido com uma avaliação sumária do cenário geral.

Piketty não emprega estatísticas seculares brasileiras porque elas simplesmente inexistem com um grau de precisão vagamente semelhante àquele das empregadas no livro. E não existem porque é fraca no país a tradição que as gerou. Tão fraca que também esta história precisa ser contada.

O livro de Piketty é fruto de uma linha de pesquisa que tem um poderoso marco inaugural: a publicação em 1974, nos Estados Unidos, do livro Time on the Cross,[1] de autoria da dupla Robert Fogel e Stanley Engerman. Os dois empregaram a tecnologia da informação para construir bancos de dados históricos quantitativos sobre escravidão e técnicas estatísticas para organizar séries capazes de servir de teste para argumentos de economistas e historiadores tradicionais sobre a economia da escravidão. Anos mais tarde, Fogel explicaria desta forma os interesses iniciais no trabalho:

Como muitos outros estudiosos, não estava especialmente interessado na história da escravidão norte-americana, mas um acidente de pesquisa acadêmica transformou a economia da escravidão num teste para a aplicação de métodos estatísticos.[2]

O “acidente” se amplificou pelo grande impacto do livro. A análise a partir dos dados quantitativos levou a dupla a conclusões diametralmente opostas a várias crenças até então sustentadas por economistas e historiadores sobre a produção escravista. Entre as mais polêmicas, a constatação de que o trabalho escravo era tão produtivo quanto o assalariado, a qualidade da alimentação dos escravos semelhante à dos pobres livres e a acumulação de capital muito efetiva na sociedade escravista.

Prevendo que teriam problemas no diálogo com os historiadores e economistas que sustentavam o inverso, os dois autores resolveram tornar públicos e abertos seus bancos de dados para quem quisesse formular séries e argumentos contrários a partir deles, exigindo apenas que os pesquisadores que os usassem também tornassem igualmente públicos e abertos aqueles dados novos que obtivessem.

Assim, além de criar um novo instrumento de análise, os dois inauguraram um procedimento de pesquisa e debate intelectual no qual o enriquecimento dos dados de pesquisa se faria de modo coletivo, colaborativo e aberto – para gerar conhecimento progressivamente consistente em torno de novos argumentos. Deu certo. Não apenas o repto foi aceito, como historiadores e economistas de diversas tendências se apresentaram para debate e colaboração. O que parecia impossível aconteceu muito depressa.

Já em 1975, Stanley Engerman e o principal estudioso marxista norte-americano de escravidão na época, Eugene Genovese, publicaram juntos Race and Slavery in the Western Hemisphere.[3] O livro marcou não apenas o início de uma trajetória interdisciplinar como também uma ampliação do escopo dos estudos sobre escravidão, de um país para o Ocidente como um todo. Graças às novas relações entre pesquisadores, nas quais a ideologia contava menos que a precisão dos dados no debate, a área da economia da escravidão se transformou num laboratório efervescente, na qual a combinação de bancos de dados sempre enriquecidos, análise quantitativa comum e interpretação qualitativa diversa se combinaram.

Para resumir em um parágrafo: Fogel ganhou o prêmio Nobel de economia em 1993, Engerman se tornou o padrão de referência em história econômica em seu país: é o editor da The Cambridge Economic History of The United States [4] – e praticamente todos os artigos que a compõem são baseados em estatísticas históricas, cobrindo não apenas a escravidão como todos os demais aspectos da economia. O estudo experimental se transformou muito depressa em padrão.

Não foi apenas um processo local. As pesquisas colaborativas e os métodos quantitativos desenvolvidos a partir da fonte original da escravidão foram sendo empregados para vários outros objetos e histórias de muitos países, gerando muitos dados e estudos em vários campos.

Essa imensa massa de trabalho passado sobre dados quantitativos está por baixo de cada linha de cada gráfico do livro de Piketty. Até chegar a números comparáveis de vários países e períodos longos de cobertura correram décadas de trabalho de centenas de pesquisadores. Graças às tradições da pesquisa colaborativa, Piketty, foi capaz de encontrar parceiros que o ajudaram a construir as monumentais séries de dados unificadas que estão na base de seu trabalho.

Toda esta tradição passa muito ao largo da vida intelectual brasileira. Não deixa de ser significativo que quase nenhum dos clássicos produzidos no mundo inteiro com esses procedimentos, a começar por Time on the Cross, o inaugurador, tenham sido traduzidos no Brasil.

Ao longo das últimas quatro décadas prevaleceu por aqui a tradição das disciplinas rigidamente separadas pelas paredes dos departamentos universitários. Os principais cursos de História do país formam profissionais que cultuam um solene desprezo pela estatística; as faculdades de economia mantém o amor pelos teoremas matemáticos e o desdém pelas narrativas; estudantes de estatística com um mínimo de talento acabam contratados por bancos ou seguradoras antes de poderem se exercitar com números históricos; nas escolas de Ciências Sociais, que misturam formação em estatística com estudos institucionais, poucos se interessam por enfrentar as barreiras para a multidisciplinaridade já postas.

Desse isolamento nasce a sensação de novidade da discussão integrada. Entre muitos outros méritos, o sucesso do livro de Piketty no Brasil permitiu ao leitor se surpreender e acostumar com raciocínios que não levam em conta as barreiras mentais imperantes entre disciplinas e profissionais acadêmicos brasileiros. Por outro lado, tornou também evidente o estado marginal do conhecimento sobre Brasil nos novos moldes interdisciplinares, fundados em números comparáveis sobre vários períodos e várias realidades.

Por isso fica para o leitor brasileiro a impressão da irrelevância, da marginalidade de sua história. E ela não pode ser vencida se a pretensão for aquela de igualar o rigor dos números apresentados no livro. Nesse registro, seria simplesmente impossível argumentar com propriedade ao modo de Piketty para o caso local. A tábua de referências fundamental para sustentar afirmações – números relativamente consensuais sobre aspectos comparáveis do passado econômico – simplesmente inexiste.

Para se ter uma ideia da precariedade, só há cálculo de PIB brasileiro a partir de
1947 e inferências mais sistemáticas sobre a economia como um todo para um passado que só chega a 1900.

Neste cenário, não resta mais que o apelo ao impressionismo para ensaiar um tratamento para o passado brasileiro que leve em conta, ao mesmo tempo, as séries estatísticas de longo prazo e os diálogos disciplinares. Como Piketty trouxe para o leitor brasileiro uma base de dados mundial e séries seculares muito focadas, o emprego de sua obra como referência permite apresentar essas sugestões impressionistas de uma forma que, apesar de pessoal, pode eventualmente ser significativa para alguns leitores.

Minha obra foi construída dentro das limitações da realidade brasileira, mas penso que lidou de alguma forma com desafios interdisciplinares que permitem construir, no diálogo com os dados do livro, um roteiro, ainda que impreciso, das etapas necessárias para chegar a um conhecimento da história econômica brasileira que leve em conta as novas possibilidades comparativas trazidas pelo livro.

Piketty trabalha basicamente com duas séries clássicas: produção, olhando para a economia pelo lado dos fluxos, e riqueza, considerando os estoques. Divide os dados seculares em períodos, tendo como prioridade a produção. O primeiro deles, que iria do ano zero até o de 1700, seria caracterizado pela estabilidade relativa dos níveis da produção; daí viria um período de crescimento lento, até 1820; um tempo de crescimento com desigualdade, que atravessaria o século XIX e chegaria a 1913; o período seguinte iria até 2012.

Esta não é a periodização usual para história do Brasil. Mas será adotada aqui como a tábua de comparação capaz de ajudar a pensar a história econômica local na sua relação com o ritmo da economia mundial definido pelas séries estatísticas de Piketty. O primeiro dos períodos isolado nessas séries foi assim caracterizado por ele:

Segundo os cálculos de Maddison, as taxas de crescimento demográfico e econômico entre o ano 0 e 1700 eram inferiores a 0,1% ao ano (mais exatamente: 0,06% por ano para a população e 0,02% para a produção por habitante). A precisão dessas estimativas é, sem dúvida, ilusória: nosso conhecimento sobre a evolução da população mundial entre 0 e 1700 é muito limitado – e as informações sobre a evolução da produção por habitante são quase inexistentes. No entanto, quaisquer que sejam as incertezas sobre a cifra exata, o que, aliás, não tem tanta importância, não há dúvida alguma de que o crescimento foi muito baixo da Antiguidade até a Revolução Industrial, inferior a 0,1-0,2% ao ano.[5]

Uma simples visada impressionista sobre a economia da colônia brasileira neste período permite imaginar certo dinamismo, em vez de estagnação notada pelo autor: nele foram instaladas as produções mercantis do açúcar e do tabaco, no nordeste, a estrutura de tráfico internacional de escravos com centro no Rio de Janeiro e braços em Angola e Buenos Aires; um complexo de trocas com as produções nativas tanto em Belém como São Paulo, além de uma pecuária no interior do nordeste.
Um indício mais forte deste dinamismo vem do detalhamento da capacidade de produzir fluxos de produtos e estoques de renda monetária no setor considerado menos dinâmico pelos historiadores tradicionais, aquele das regiões cujo maior negócio eram as trocas com as produções indígenas. Meu livro O banqueiro do sertão [6] contém um estudo bastante detalhado de uma das redes de negócios montada com o sertão de São Paulo, aquela inaugurada e comandada pelo capitão Guilherme Pompeu de Almeida e continuada por seu filho de mesmo nome, o padre Guilherme Pompeu de Almeida, entre 1630 e 1713.

A rede cresceu a partir de um empreendimento de processamento de ferro, a mercadoria básica para as trocas com os nativos. Começando com uma oficina de ferreiro artesanal, o empreendedor se tornou sócio das caravanas comerciais e guerreiras que percorriam o interior, empregando seus fornecimentos de ferro como adiantamento de capital e recebendo em troca mercadorias trazidas do sertão. Acumulou renda suficiente para transformar a oficina artesanal numa manufatura especializada, com cinco oficinas de fundição e acabamento que ocupavam mais de uma centena de trabalhadores permanentes, entre livres e escravos (alguns dos quais tinham significativos ganhos monetários).

Juntou capital bastante para se lançar em negócios mais ousados, numa rede que ligava o Peru ao Brasil. O fruto mais desejável deste intercâmbio eram as moedas de prata de Potosí. Trazendo moradores e prata pelo sertão, de um lado, e financiando trocas marítimas com Buenos Aires, do outro, o capitão que nunca saía de Santana de Parnaíba passou a acumular cada vez mais prata.

O filho, padre Guilherme Pompeu de Almeida, foi ainda mais longe. As moedas de prata trazidas do Peru que herdou foram empregadas por ele em mais negócios com o sertão. Um deles foi o de financiar os primeiros grandes descobridores de ouro – e os ganhos das descobertas foram aplicados em incursões para comprar gado no Sul do Brasil e escravos em Salvador, vendidos com altíssimos lucros para os mineradores. O estoque de riqueza manteve a mesma forma da moeda peruana, mas o aumento de escala da acumulação foi brutal. No testamento do padre que raramente saía de seu palácio de Araçariguama foram registrados, entre outros bens, nada menos de 113 quilos de prata, com valor equivalente a 1% das exportações da colônia no período.

É necessário ainda dizer que nem o capitão nem o filho padre foram os paulistas mais ricos da capitania em seu tempo, muito menos os coloniais mais ricos do Brasil de então. Nos oito primeiros capítulos de A nação mercantilista [7] podem ser encontrados os conjuntos de indícios numéricos detalhados para as afirmações resumidas abaixo, para o restante da economia brasileira.

Pernambuco e a Bahia tinham uma dinâmica acelerada de crescimento. Não se tratava apenas do plantio e processamento de açúcar (o engenho, embora manufatura que empregava trabalho escravo combinado com o livre, guarda mais afinidades com a atual indústria que com a produção artesanal regulada pelas corporações de ofício), mas também de uma estrutura de produção local que incluía pecuária (e isso significou a ocupação para produção mercantil de um vasto sertão), energia (corte e transporte de lenha para as caldeiras), divisão do trabalho (o plantio da cana era no geral “terceirizado”, para brincar com um termo atual). Além disso, a região do Recôncavo baiano sediou a produção de tabaco. Para completar, traficantes locais do Rio de Janeiro comandavam os negócios com a África do qual resultavam tanto o trabalhador vendido como mercadoria como a riqueza na forma de prata.

Tal prata leva diretamente para as referências ao estoque, riqueza acumulada que funcionava como capital. Ao contrário de São Paulo, onde as fortunas particulares tinham um peso grande e apenas as ordens terceiras funcionavam como investidores institucionais, a Bahia chegou a ter uma Santa Casa que funcionava como banco capaz de fornecer crédito para os grandes negócios locais. Num espaço intermediário estavam Pernambuco e o Rio de Janeiro, onde se acumularam capital e crédito suficientes para bancar tanto a expansão produtiva como os arriscados negócios oceânicos e internacionais do tráfico de escravos.

No todo, tal conjunto de indícios parece indicar um quadro geral de dinamismo tanto dos fluxos de produção quanto dos estoques de acumulação. Eles sugerem uma razoável possibilidade de considerar a economia da colônia brasileira até 1700 como um espaço com características de crescimento que contrastavam com a estabilidade da produção em todo o restante do mundo definidas por Piketty.

Se esta intuição para o período estiver correta, os diálogos disciplinares ganhariam outra forma. A nova tábua de comparações traz outras exigências explicativas: seria preciso entender que características institucionais dessa economia colonial brasileira permitiriam um dinamismo superior ao da economia europeia do tempo.

Apenas para registro indicativo na direção das sugestões, valeria a pena notar que as instituições coloniais brasileiras tinham algumas características importantes para estimular a acumulação – que o ocidente só conheceria muito mais tarde. A sugestão pode começar com apelo a palavras do próprio Piketty:

Muitas sociedades aristocráticas tradicionais têm como base [do sistema de herança] o princípio da primogenitura, dando ao filho mais velho a totalidade da herança, ou ao menos uma parte desproporcional do patrimônio parental, de modo a evitar seu esfarelamento e preservar – ou fazer crescer – a fortuna familiar. (…) Em relação à riqueza, a Revolução Francesa e o Código Civil por ela cunhado fundaram-se em dois pilares essenciais: a abolição das substituições hereditárias e da primogenitura, com a afirmação do princípio da divisão igualitária dos bens entre irmãos e irmãs. (…) a Revolução Americana, não sem certa polêmica, chegou às mesmas conclusões (…) e o princípio de divisão igualitária das heranças entre irmãos foi inscrito na lei como regra padrão. (…) No Reino Unido (…) a primogenitura continuou como regra padrão até 1925 (…) [e] na Alemanha foi necessário esperar a República de Weimar em 1919 para que se abolisse [a primogenitura]. (pp. 353-4).

Quando se trata do sistema de heranças, o caso brasileiro é singular. A herança igualitária entre irmãos era a regra geral e absoluta na colônia brasileira desde o século XVI, enquanto no Reino ainda imperava o princípio da primogenitura, na versão castiça dos morgadios. Deste modo a economia colonial conheceu, muito antes do restante do Ocidente, (inclusive dos Estados Unidos) os benefícios da distribuição de oportunidades entre herdeiros, estímulo ao empreendedorismo, incentivo ao mérito e desconcentração de rendas.

Vale notar que os benefícios do mecanismo da herança igualitária eram ainda mais reforçados por alguns outros, derivados da cultura tupi e estudados com certo detalhe em O banqueiro do sertão.[8] A regra matrimonial tupi era aquela da manutenção das mulheres na casa e circulação dos homens: filhos precisavam se mudar para fora no casamento, genros vinham para a casa dos sogros. Em poucas palavras: mulheres eram educadas para casar com gente “de fora”. Tal regra se tornou praxe entre os coloniais do tempo (e foi além: não por coincidência, mulheres que se casam com migrantes moldam uma situação que se repete pela história afora). Para atrair genros no século XVII havia o emprego generalizado da instituição do dote, através do qual os membros da geração maior adiantavam capital para as mulheres mais jovens no casamento destas, tornando-se geralmente sócios dos negócios do novo casal – o que era mais uma forma de incentivar o empreendedorismo deste.

Outra peculiaridade da economia colonial num tempo europeu de aristocratas e morgadios estava no fato de que a terra sempre foi mercadoria na colônia. Era comprada e vendida à vontade, embora as instituições medievais trouxessem certa dificuldade para que credores tomassem unidades produtivas inteiras (especialmente engenhos no nordeste) para receber uma fração de seu valor, impedindo seu pleno funcionamento como garantia creditícia. Apenas no século XIX esta seria a norma no Ocidente.

Piketty liga a herança igualitária a outros valores importantes, que levam da sociologia para a política:

Nossas sociedades democráticas se apoiam em uma visão meritocrática do mundo, ou, ao menos, numa esperança meritocrática – a crença numa sociedade na qual as desigualdades seriam mais fundadas no mérito e no trabalho que na filiação e na renda. (p.411).

Esta visão geral está aqui para lembrar que a sociedade colonial brasileira nos dois primeiros séculos teve como instituição fundamental de poder político a administração local, que foi regularmente eleita em todas as vilas brasileiras ao longo do período, inclusive naquelas dos mais brutos sertões. Vereadores escolhidos pelos moradores exerciam a soma dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário atuais. Mais ainda, esta autoridade local era quase a totalidade daquilo que se chama “governo”: a instância intermediária de administração do período era a capitania, no geral sob comando de donatários particulares ausentes; a instância central, o governo geral, tinha ação efetiva quase sempre restrita à capital Salvador, com exceção de uns poucos funcionários nas alfândegas e dos padres jesuítas (os demais clérigos, embora quase todos funcionários, não recebiam do governo central).

Nunca é demais relembrar: a menção às instituições incentivadoras do dinamismo econômico como o sistema de heranças ou o governo local não tem nunca o sentido de funcionar como “prenúncio” do que viria depois no Ocidente. Tanto o sistema de heranças como a administração das vilas por representantes eleitos conviviam com escravidão e genocídios, apenas para lembrar de duas outras características conspícuas da vida colonial. Mas sua presença como ingrediente substantivo deste todo permite eventualmente entender a existência de dinamismo econômico maior que aquele do Ocidente no mesmo período.

A economia colonial brasileira do século XVII não conheceu capitalismo nem democracia moderna. Mas certamente a soma destas instituições incentivadoras do crescimento com os indícios estatísticos possíveis, retirados da análise de testamentos, contratos de empréstimo, orçamentos municipais e registros alfandegários permitiria certamente um quadro capaz de transformar esta intuição do crescimento ditada unicamente por indícios numa afirmação de história econômica com o rigor quiçá semelhante daquelas de Piketty.

Já com relação ao segundo período definido pelo autor, que vai de 1700 a 1820, talvez seja possível ir além da pura intuição. Nele teria começado a aceleração da economia mundial, embora em escala ainda modesta. O ritmo de crescimento da produção, segundo Piketty, teria passado de 0,1% para 0,5% anuais, o crescimento da população de 0,1% para 0,4% – o que resultaria num incremento anual de 0,1% da renda per capita.

Os números brasileiros para o final deste período, tanto para população como para produção, tem já certa consistência. Por isso há sentido numa certa inversão da exposição: começar pelo retrato mais preciso da população, produção e estrutura social no ponto final, para voltar depois à evolução como um todo. Em meu livro História do Brasil com empreendedores apresento alguns dados censitários, não apenas da população total como dos grupos de proprietários e não proprietários de escravos na população como um todo:

Segundo as estatísticas oficiais brasileiras disponíveis, em 1819 a população total brasileira seria de 4,39 milhões de pessoas, considerados os índios livres. A composição da população seria a seguinte: 56,6% de colonos livres; 18,2% de índios livres (portanto um total de 74,8% de pessoas livres); 25,2% de escravos. (…) Como as pesquisas indicam que o número médio de escravos por proprietário era de cinco cativos, o número de proprietários de escravos pode ser estimado em 220 mil – ou 9% do contingente de pessoas livres. Sendo assim, 2,26 milhões de pessoas livres não eram proprietários de escravos – mas representavam 62% da população.[9]

A própria existência deste tipo de evidência de maior precisão estatística já indica os pontos onde o avanço do conhecimento quantitativo do passado econômico brasileiro traz suas marcas – no caso, a marca da área pioneira de aplicação da nova metodologia, o conhecimento sobre escravidão. Um dos poucos historiadores econômicos cuja obra se construiu no novo modelo, Francisco Vidal Luna, resumiu com essas palavras o grande impacto das revelações trazidas pela inovação sobre as interpretações históricas montadas sem elas:

Nos últimos 30 anos emergiu no Brasil uma nova compreensão da sociedade escravista organizada nos períodos colonial e imperial, especialmente no modo como a mão de obra cativa foi utilizada. (…) A visão dominante começou a ser contestada na década de 1980, com os estudos mostrando que os pequemos proprietários de escravos predominaram na economia extrativa de Minas Gerais nos períodos colonial e imperial. (…) Não só os plantéis foram pequenos mas também a própria posse de escravos distribuiu-se mais amplamente pela sociedade do que antes se supôs. A profunda dicotomia que existiria entre uma minoria de senhores de engenho, que concentravam seus cativos nas culturas de exportação, e a maioria dos brancos, pretos e pardos livres que não possuíam escravos foi também questionada nos novos estudos”.[10]

Um dos estudos que realizou este questionamento foi o de Iraci del Nero da Costa, que analisou censos de todo o Brasil colonial para comparar as relações entre a minoria de proprietários de poucos escravos e a maioria dos produtores livres. Suas conclusões:

O crescimento econômico, mesmo quando orientado pela expansão do comércio exterior, vinha acompanhado de oportunidades das quais usufruíam também os não proprietários, de sorte que estes não eram excluídos das áreas economicamente mais dinâmicas, nem perdiam sua posição numericamente dominante. (…) A conclusão maior é que, tanto na órbita demográfica como daquela marcada por elementos de natureza socioeconômica, não havia hiato absoluto a distinguir proprietários e não detentores de cativos. A impressão deixada pela análise era a de que estávamos a tratar de duas amostras da mesma população.[11]

Essa sociedade relativamente uniforme de pequenos proprietários/produtores (sem escravos ou com muito poucos escravos) que sai do retrato estatístico da estrutura de população ajuda a entender melhor a estrutura da produção. Na virada do século XIX a economia brasileira teria uma dinâmica fundada num domínio da produção interna sobre a parte das transações metropolitanas segundo proporções que já pude resumir em números:

Entre 1796 e 1807, as exportações brasileiras corresponderam a 83,7% de todas as colônias portuguesas para a metrópole; no mesmo período, as reexportações dessas mercadorias foram responsáveis por 56,6% das receitas portuguesas no comércio exterior. Na via inversa, o Brasil consumia 78,4% dos produtos enviados por Portugal a todas suas colônias e 59,1% dos produtos importados pelo Reino. Mas esta alta participação nos negócios metropolitanos era obtida com uma fração relativamente reduzida da produção local. Estudos recentes [para o século XXI] indicam que algo em torno de 85% da produção brasileira era consumida no mercado interno e apenas 15% era destinada à exportação.[12]

Neste cenário se pode entender melhor outro fenômeno constatado por medições quantitativas: uma dinâmica de crescimento da produção que era própria do espaço colonial. No último quarto do século XVIII a economia metropolitana portuguesa entrou num período recessivo, enquanto a economia colonial brasileira manteve um ritmo forte de expansão – mesmo com o declínio da produção de ouro. Este é um indício muito forte de que sua dinâmica interna, a produção dominada por trocas mercantis entre pequenos produtores do litoral e sertão, era já totalmente dominante.

Feito o retrato do momento final com apelo a dados quantitativos de melhor qualidade, fica mais fácil entender a evolução durante todo o século. Os arranjos produtivos construídos com base numa combinação de pequena produção familiar e capital comercial, iniciadas no século XVI, ampliaram-se mesmo com a monetização proporcionada pelo ouro no século XVIII, ajudando a formar uma sociedade fundada na produção de empreendedores capazes de combinar adiantamentos de capital com trabalho (inclusive escravo, mas predominantemente livre).

O quanto estes arranjos permitiram de crescimento econômico para um período no qual ele era bastante baixo no Ocidente ainda é uma questão em aberto. Mas uma comparação da produção mercantil interna da virada para o século XVIII com aquela de seu final revela uma expansão espacial notável: do Rio Grande do Sul à Amazônia, do litoral até o Mato Grosso e Goiás, por todo o sertão nordestino, havia agora atividades econômicas conectadas pelo capital e acumulação.

Do ponto de vista dos estoques de riqueza, apenas uma palavra marca as novas possibilidades deste século: ouro. Ele tomou o lugar da prata espanhola como substância do estoque de riqueza e capital que moveu a economia colonial brasileira num ritmo elevado e permitiu que ela chegasse a um patamar relevante.

Em termos de tamanho no cenário da América, a economia colonial brasileira era provavelmente maior que a norte-americana na primeira década do século XIX. Neste período as duas economias tinham exportações de valor semelhante (em torno de quatro milhões de libras esterlinas anuais), mas o mercado interno brasileiro ocupava uma área bem mais extensa e com atividades mais variadas que as treze colônias originais.

Somando tudo, parece provável que a economia brasileira tenha conhecido uma expansão notável ao longo do século XVIII. Embora as taxas ainda não possam ser estimadas, as evidências para este período são bem mais indicativas que meras intuições, tendo já uma base estatística mais sólida ao menos para o final do período.

Assim se pode passar a outra espécie de problema. No terceiro período definido por Piketty, que vai de 1820 a 1914, a economia do Ocidente passa por uma transformação muito profunda, trazida pela disseminação do capitalismo. Os limites da aristocracia e dos impedimentos estamentais para a circulação ampliada do capital e seu domínio sobre o trabalho foram vencidos – e o resultado numérico aparece com toda sua potência nos números apresentados no livro.

O ritmo de crescimento da produção econômica passa de 0,5% para nada menos de 1,5% ao ano, enquanto aquele do crescimento populacional vai de 0,4 para 0,6. A combinação das duas tendências faz com que o crescimento da renda per capita ganhe uma velocidade exponencialmente maior, saltando de 0,1% para 0,9% anuais.

Para o caso brasileiro deste período não são necessárias grandes intuições para definir a relação entre a economia local, agora organizada politicamente como nação independente, e o andamento do mundo. Mas esta relação apresenta grandes disparidades, que obrigam a uma divisão do período geral em dois. O primeiro subperíodo iria de 1820 ao fim do século. Apenas um dado estatístico resume tudo que se passou em economia.

Segundo Angus Maddison, a renda per capita do Brasil era de 670 dólares em 1820 – e de 704 dólares no final do século.[13] O crescimento teria sido de míseros 5% num gigantesco período de 80 anos – ou seja, a economia brasileira no século XIX teria regredido aos padrões mundiais de crescimento anteriores ao século XVIII.

Algumas poucas comparações extraídas da mesma fonte dão uma dimensão do pífio desenvolvimento no século XIX. Apenas entre 1870 e 1900 a renda per capita da Argentina mais que dobrou, passando de 1,3 para 2,7 mil dólares. Nos Estados Unidos a renda per capita mais que triplicou entre 1820 e 1900, passando de 1,3 mil para 4 mil dólares. Em Portugal, o crescimento entre 1870 e 1900 foi de 40%, com a renda chegando a 1,4 mil dólares. Até mesmo a Indonésia teve desempenho melhor no século, com a renda per capita passando de 614 dólares para 670, entre 1820 e 1900, com um crescimento de 9%.

Por mais que os números sejam imprecisos, as tendências não são. O período que vai de 1820 até o final do século XIX dificilmente deixará de ser enquadrado como aquele no qual a economia brasileira perdeu pé em relação ao Ocidente – um período certamente de atraso em relação ao mundo agora capitalista em redor, mas talvez até mesmo de regressão numa era de crescimento forte no além-fronteiras.

Como, no entanto, o longo século XIX de Piketty vai até 1913, é preciso considerar ainda o comportamento da economia brasileira num período do século XX. E, também para resumir, basta um dado estatístico para marcar uma mudança radical de ritmo. Carlos Peláez e Wilson Suzigan fizeram a seguinte observação sobre o período que vai de 1906 a 1918:

Durante a valorização [do café] a economia brasileira experimentou pela primeira vez uma taxa de crescimento real per capita superior à dos Estados Unidos. A taxa foi provavelmente maior que 2% ao ano. Com base em qualquer dos indicadores de preços pode-se concluir que a economia cresceu rapidamente.[14]

A conclusão é evidente: aconteceu uma mudança muito radical no ritmo de crescimento da economia brasileira dentro de um mesmo período do crescimento mundial. Num primeiro momento, fora do país houve uma revolução milenar no ritmo da economia Ocidental, enquanto a estagnação dominava a produção brasileira. Logo em seguida, e muito rapidamente, o Brasil encontra um caminho. Sua economia passa a se recuperar do atraso e ganha uma dinâmica que a recoloca entre aquelas de maior crescimento da produção no mundo.

Tal estrutura sugere fortemente que fatores internos seriam responsáveis pela transformação radical. E mudança nenhuma é mais coincidente com a cronologia de ruptura que aquela da troca de regime político, a derrubada da monarquia e a implantação da república.

Essa passagem está tratada em detalhes no meu livro Júlio Mesquita e seu tempo,[15] inclusive com um volume inteiro com os dados estatísticos possíveis de se reunir para o entendimento do fenômeno de mudança feroz no ritmo de crescimento interno.

A dimensão da mudança é tal que os números se tornam detalhe frente a uma questão fundamental. Para passar da estagnação ao crescimento acelerado não foi necessário mudar radicalmente nem a estrutura do mando político nem a educação da população tradicional. E isso sugere outro foco eventualmente capaz de explicar a mudança: as reformas do papel do governo promovidas pelos republicanos, começando pelo governo central.

Nos tempos do Império o Poder Moderador, o poder irresponsável reservado constitucionalmente ao monarca de maneira privativa, mantinha com zelo uma série de monopólios.[16] Dele partiram as políticas explicitamente destinadas a impedir mudanças institucionais na direção do capitalismo, que transformava o padrão de crescimento econômico no Ocidente. Entre elas podem ser destacadas aquelas que impediam a liberdade de formar empresas, uma política monetária extremamente restritiva ou as tentativas permanentes de impor uma taxa de câmbio elevada – que acabavam tornando pouco competitivas as produções locais e subsidiavam as importações para consumo.

Todas essas políticas foram abatidas em um dia, pelos decretos de Rui Barbosa do dia 17 de janeiro de 1890, dois meses após a mudança de regime.
O primeiro dos quatro decretos assinados no dia transferia do Estado para a sociedade, do Poder Moderador para o cidadão, o poder de constituir empresas segundo sua vontade, e limitava o papel do Estado ao de registrar as empresas criadas e verificar se não feriam a lei. Era uma revolução tardia: por todo o Império, a capacidade de um cidadão investir sua própria poupança pessoal foi considerada perigosa para o bem público, e por isso estava sujeita à tutela do Poder Moderador, no caso das sociedades anônimas, ou a mistura compulsória por conta da lei das contas das pessoas físicas e jurídicas, nos demais.

Só esta medida dá uma dimensão do monumental atraso em relação ao Ocidente agora capitalista construído pelas instituições imperiais.
Mas havia mais. Dois decretos de Rui Barbosa modificavam os chamados direitos de propriedade. Um deles buscava tornar plenamente alienável a terra – eliminando as dificuldades dos credores de tomar propriedades (que eram razoáveis ou boas no século XVII, quando comparadas aos direitos da nobreza, mas um fóssil que sobrevivia no Ocidente da virada para o XX). Outro dispunha sobre a transformação de outros bens em garantias para empréstimos, o que permitia um imenso impulso para o sistema de crédito.

O quarto decreto acabou sendo o mais famoso. Numa parte dele permitia que bancos de desconto se estabelecessem sem autorização do governo – e o Brasil de 1889 tinha uma dúzia de bancos num tempo onde eles andavam pela casa da dezena de milhar nos Estados Unidos. Noutra, mantinha restrições para o estabelecimento de bancos emissores, para os quais era dada a franquia de emitirem moeda de papel.

A reforma do governo central brasileiro foi completada com outra transferência de poderes do Estado diretamente para a sociedade: a administração da igreja foi entregue para o Vaticano, cortando outro pedaço arcaico do governo central.

Também houve transferência de poderes e recursos do governo central para outras instâncias. Aconteceu uma tímida reforma tributária, com a transferência de tributos para os estados, que deixariam de ser, ao menos em tese, financeiramente subordinados à esfera federal. Além disso, os governadores dos novos estados passaram a ser eleitos, e não mais serem delegados do poder central, como os antigos presidentes de província.

Já em 1906 alguns governadores foram responsáveis por uma nova mudança institucional, juntando-se na tentativa de regular o mercado internacional de café (o que era uma política setorial) e firmar uma taxa de câmbio favorável (esta sim, uma política nacional). O sucesso da mudança combinada para gerar crescimento da economia é hoje claramente mensurável em números – e são estes números que sustentam a afirmação do forte crescimento da economia brasileira mostrada acima.

Mudanças institucionais raramente são levadas em conta por historiadores tradicionais ou economistas. Mas ganham outro peso quando confrontadas com evidências quantitativas como aquelas que sugerem uma mudança de ritmo local num mesmo período global. Com elas, é talvez possível explicar a mudança radical de comportamento da economia brasileira nos dois subperíodos que se passam enquanto corria o ciclo mundial de crescimento entre 1820 e 1913.

No primeiro deles, sob regime monárquico, a taxa de crescimento per capita foi próxima de zero, levando a um gigantesco atraso com relação ao Ocidente. No segundo, sob regime republicano, ocorreu uma violenta aceleração do crescimento: já a partir de 1906 as taxas brasileiras haviam superado aquelas do crescimento da economia dos Estados Unidos – e mantinham um ritmo muito superior à média mundial do período.
Esta monumental diferença não é fruto apenas da intuição, uma vez que já existiam evidências estatísticas de certo relevo capazes de identificá-la. Mas só pode ser explicada como um todo a partir de mudanças institucionais trazidas pela mudança de regime – e aqui novamente o retrato estatístico se choca violentamente com as tradições de historiadores. Não é preciso mais que a sobrevivência do arcaísmo “República Velha” para mostrar o tamanho das mudanças interpretativas que serão necessárias para ajustar o quadro local definido por julgamentos normativos de valor ao cenário geral das comparações numéricas– no momento em que forem estabelecidas séries estatísticas confiáveis sobre o comportamento da economia brasileira de todo este período.

Problema semelhante, mas com sinais invertidos, acontece no período seguinte definido por Piketty, aquele que vai de 1913 a 2012. Nele, o crescimento da produção mundial teria se elevado em ritmo ainda maior, saltando de 1,6% para 3,0% ao ano. O crescimento populacional teria passado de 0,6% para 1,4% anuais – e assim a renda per capita mundial teria um incremento de 1,6% anuais.

A relação entre a economia brasileira e esta realidade mundial começa com sinais iguais no subperíodo que vai de 1913 até os anos 1970. Neste momento a economia brasileira tem, provavelmente, um dos melhores desempenhos em termos de crescimento econômico per capita em todo o planeta – eventualmente superado apenas por aquele do Japão.

Também são relativamente consensuais as avaliações das causas institucionais deste sucesso: manutenção do crescimento com abertura econômica ao longo dos anos 1920; rápida adequação à crise de 29, com uma intervenção governamental capaz de minorar as perdas em relação ao restante do mundo; políticas consistentes de industrialização no período pós-Segunda Guerra.

Mas, a partir daí, basta novamente um número para aquilatar a extensão do novo descolamento entre o ritmo local e o mundial. Em 1973, o PIB brasileiro era maior, em números absolutos, que aquele da China.

De novo o problema: a economia brasileira com dois ritmos opostos enquanto o mundo tem apenas um. De novo as questões institucionais: o desempenho fraco que acontece da década de 1970 em diante, num cenário onde as estatísticas de PIB existem em profusão para funcionar como medida, poderia eventualmente ser explicado por mudanças institucionais às quais o Brasil não se adaptou: fim do padrão outro, condições legais favorecedoras dos fluxos de capital de empresas e investidores entre países, construção de unidades supranacionais (Comunidade Europeia e Zona do Euro), fim da Guerra Fria.

Mudanças produtivas também poderiam entrar nas explicações: separação de plantas industriais e sedes corporativas entre diversos países, telecomunicações que permitem lançamentos financeiros em tempo real, internet, robotização, produção just in time, etc.

Cada uma dessas mudanças certamente importa nas explicações sobre o mau desempenho da economia brasileira nas últimas décadas – mas eventualmente levaria a perder o fio da relação entre o desempenho econômico brasileiro em relação ao mundial a partir dos importantes números de Piketty.

Tendo como norte maior de sua periodização da economia mundial os ritmos de aumento da produção e da renda per capita, ele reúne num conjunto único de aceleração produtiva o século seguinte a 1913. Mas a análise fundamental do livro está centrada não naquilo que une, mas antes no que separa radicalmente os subperíodos 1913/anos 1970 e anos 1970/ 2012 – não por acaso, dois momentos onde a economia brasileira têm relações opostas com o conjunto mundial.

Para realizar tal análise, Piketty introduz um novo conjunto de dados estatísticos reveladores. No momento em que trabalhava com períodos seculares, o foco analítico estava nas estatísticas sobre produção e renda per capita, indicadoras da tendência secular única, ascendente. Para opor duas tendências opostas dentro deste período maior, o autor traz um novo conjunto, aquele das séries que mostram o destino dos ganhos econômicos após as mercadorias serem produzidas, ou seja, as formas pelas quais os ganhos sobre os fluxos de produção se transformam em estoques de riqueza que se acumulam.

Os dados para os países ricos (Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Japão, Canadá, França, Itália e Austrália) revelam uma tendência clara, assim enunciada:

Há uma tendência de longo prazo no conjunto dos países ricos entre as décadas de 1970 e 2010. No início da década de 1970 o valor total da riqueza privada – subtraídas as dívidas – era de entre dois e 3,5 anos da renda nacional em todos os países ricos de todos os continentes. Quarenta anos mais tarde, no início dos anos 2010, a riqueza privada representa entre quatro e sete anos de renda nacional, também em todos os países estudados. A evolução geral não deixa dúvida alguma: além das bolhas, estamos assistindo à volta triunfal do capital privado nos países ricos (p.171).

Uma afirmação como esta poderia levar a supor que o fenômeno da acumulação de riqueza pelo setor privado se limitaria aos ganhos da globalização pelos países ricos sobre os países menos desenvolvidos. Mas a parte seguinte do livro traz estatísticas comparadas de distribuição de riqueza no interior de diversas economias, inclusive de países ricos menores (Suécia) ou com menor renda per capita (Índia, Indonésia, África do Sul, China, Argentina e Colômbia). A conclusão é igualmente uniforme:

As ordens de grandeza obtidas para a parcela do centésimo superior na renda nacional das nações pobres ou emergentes são, a princípio, extremamente próximas das observadas nos países ricos. Durante as fases de maior desigualdade, em particular ao longo da primeira metade do século XX, (…) o centésimo superior detinha em torno de 20% da renda nacional nos quatro países considerados [Índia, África do Sul, Indonésia e Argentina] (…). Nas fases de maior igualdade, ou seja, entre os anos 1950 e 1970, a parcela do centésimo superior caiu para níveis de 6-12%, de acordo com o país (…). A partir dos anos 1980, assistimos a uma recuperação mais ou menos generalizada da parcela do décimo superior (p. 318).

É importante notar que a tendência vale inclusive para a China:

Na China observamos um forte aumento da parcela do centésimo superior na renda nacional ao longo das últimas décadas, mas que partiu de um nível relativamente baixo, quase escandinavo, em meados dos anos 1980: menos de 5% da renda nacional para o centésimo superior. (…) O aumento das desigualdades chinesas foi muito rápido após o movimento de liberalização da economia nos anos 1980 e durante o crescimento acelerado dos anos 1990-2000, mas, de acordo com nossas estimativas, a parcela do décimo superior (…) situa-se em torno de 10-11% da renda nacional (p. 318).

E vale também para a Suécia, especialmente no que se refere à concentração de capital nas mãos da parcela mais rica da população:

“A Suécia não é o país estruturalmente igualitário que costumamos imaginar. A concentração de riqueza na Suécia por certo atingiu nos anos 1970-1980 o ponto mais baixo observado em nossas séries históricas, (…) [mas ela] aumentou sensivelmente desde os anos 1980-1990” (p. 337).

Os dados deixam clara uma tendência relativamente universal de concentração de riqueza no setor privado a partir dos anos 1970, tanto em países ricos como nos hoje chamados emergentes. Tal uniformidade não exclui nem mesmo os antigos países socialistas que conseguiram reciclar suas economias na direção do crescimento da atividade produtiva – o que leva a uma eventual inferência.

A lista de países que apresentam a mesma tendência de acumulação de riqueza no setor privado inclui variantes políticas expressivas: regimes com política dominada monopolisticamente por um partido único, como a China; direções predominantemente sociais-democratas como a Suécia; países com Estados grandes como França ou Itália, que alternaram direções políticas entre conservadores e a esquerda no período, sem que as tendências de concentração mudassem; a Alemanha, onde sociais-democratas e conservadores se alternaram; o Japão, majoritariamente dirigido por forças próximas ao centro; Reino Unido e Estados Unidos, onde conservadores neoliberais se alternaram no poder com trabalhistas ou democratas – tanto uns como outros incapazes de alterar a tendência geral.

Embora Piketty não faça inferências políticas, a dominância da unanimidade do processo econômico por sobre a variedade das opções políticas pode eventualmente levar a imaginar que a capacidade dos Estados nacionais de impedir a concentração de riqueza no setor privado – e entre os mais ricos, dentro do setor privado – tem sérios limites. Ou, pensando na via inversa, o sucesso na globalização econômica não está sendo uma questão de ideologias políticas (conforme o espectro dos anos 1970), mas de imposição real de uma estrutura econômica mundial por sobre sistemas políticos nacionais de qualquer natureza.

A própria concentração de riqueza no setor privado pode ser melhor entendida quando esta relação geral se estabelece. Os Estados nacionais são capazes de ordenar o processo produtivo apenas em seu espaço. Enquanto isso os capitais privados majoritariamente movimentam os circuitos globais de investimentos e estoques, produção e acumulação. Dito em outras palavras, o peso dos Estados nacionais vai se tornando progressivamente menor com o progresso da acumulação privada em escala mundial.

É neste contexto que se pode eventualmente propor uma última intuição sobre o lugar do Brasil no livro de Piketty. Voltando mais uma vez ao problema: no que se refere ao desempenho produtivo secular, os indícios são de que a economia local alterna bons e maus momentos – andando em paralelo ao ritmo universal, num momento, e se contrapondo a ele, no outro. Mais ainda, parece possível imaginar que tal alternância tenha mais a ver com instituições ou decisões internas que com imposições externas.

Por isso, eventualmente as causas para o pífio desempenho do período pós-1970 deveriam ser procuradas nas decisões nacionais. Assim, por exemplo, talvez valesse a pena olhar de outra forma para as escolhas feitas no momento da mudança de sinais na direção da acumulação global e privada, no momento de mudança da década de 1970.

A primeira reação nacional ao processo caminhou na direção inversa do movimento geral de abertura para os capitais globais e fortalecimento da participação privada na acumulação de riqueza: a partir de 1974 o Brasil deu início a um ciclo de investimentos feitos na suposição de que o mercado nacional deveria ser o motor quase único de seu desenvolvimento – e que o Estado nacional seria o grande controlador do processo de acumulação. O resultado não foi exatamente melhorar a posição do país na economia mundial, como se viu a partir do início da década de 1980.

Já tentativa de realizar uma inserção tardia na mudança, baseada na abertura e no crescimento do setor privado colocada em prática na década de 1990, com grandes esforços, foi revertida na década seguinte com mais uma rodada de investimentos cujo norte seria novamente um crescimento fundado no mercado nacional e acumulação controlada pelo governo via favores. Os resultados deste último ciclo aparecem agora.

Mas esta é apenas uma intuição – que só pode ser verificada caso seja vencido um problema de natureza significativa. Seria interessante se houvesse à disposição dos brasileiros duas séries estatísticas capazes de permitir uma avaliação numérica efetiva, capazes de vencer a imprecisão intuitiva.

Em primeiro lugar, um quadro claro da composição da riqueza pública e privada nos últimos 40 anos. Com ele seria possível debater se houve ou não aumento dos estoques privados de riqueza, segundo a tendência mundial. Ou, caso a resposta seja negativa, esmiuçar sobre as razões do descolamento e isolamento da economia local do grande motor de crescimento mundial do subperíodo.

Outra série seria aquela que Piketty tentou obter: concentração de renda construída a partir de dados fiscais. Ela permitiria não apenas complementar a primeira série, mas também aquilatar a espécie de apropriação de riqueza no interior da elite empresarial privada.

Mas aqui, significativamente, o problema muda de figura. No que se refere ao passado, a inexistência de estatísticas ajuda a manter a análise do desempenho da economia brasileira no campo das impressões dogmáticas, das narrativas tradicionais, na escuridão da falta de critério. Este cenário, no mundo, foi tornado cada vez mais marginal na história econômica a partir de 1974.

A exclusão do debate para o período pós-anos 1970 é de outra natureza. Como bem apontou Piketty: os dados para montar as séries que tornariam o caso brasileiro numericamente comparável aos demais no mundo existem – mas o governo brasileiro, que detém os dados, julga que eles são perigosos demais para estar à disposição de cidadãos e estudiosos do país e do exterior.

A situação lembra um pouco o modo como o Poder Moderador julgava a capacidade de discernir sobre investimentos dos súditos: um conhecimento acima da capacidade de seres comuns, de modo que deveria estar reservado apenas aos dirigentes do Estado. E lembra também onde anda o atraso local: todos os países relevantes tornam públicos os dados derivados da ação fiscal.

Sendo basicamente uma decisão de Estado que promove a exclusão do Brasil neste
período crucial analisado no livro (e dos brasileiros no debate sobre as causas do mau desempenho de sua economia), fica impossível para o leitor local não apenas o conhecimento do passado, mas também os debates comparados sobre o futuro.

A falta de comparação, somada à falta de coordenação intelectual na produção do conhecimento cobra seu preço. Disciplinas estanques, considerações ideológicas fossilizadas na dicotomia entre esquerda e direita da extinta Guerra Fria, com seu desenho de um mundo não global, planos nacionais autárquicos que levam o país na direção contrária do que está dando certo no mundo ficariam mais visíveis como fontes institucionais de atraso, caso fossem realmente confrontadas com as tendências estatísticas mundiais mostradas no livro.

E assim vai aqui uma última intuição: o surgimento de estatísticas que permitam argumentar na forma global de Piketty para o período pós-anos 1970 eventualmente pode vir a mostrar uma correlação entre fraqueza da acumulação no setor privado (o único capaz de reter riqueza como estoque na globalização, como mostra à exaustão o autor) e o crescimento baixo da produção brasileira.

Pena que esta intuição seja apenas parte do atraso vigente. O cenário de futuro proposto por Piketty contempla hipóteses sobre regulamentação global de fluxos de capital como forma de conter a desigualdade e o surgimento de novas bolhas e crises.

E o livro nem toca na questão ecológica, outra possível fonte de regulamentação mundial. No que se refere ao debate de tal futuro, o atraso brasileiro pode ficar ainda maior caso seus agentes continuem a pensar de modo autárquico.
O grande livro de Thomas Piketty permite que, a partir do silêncio nos números e argumentos, se possa começar a pensar um lugar para o Brasil fugindo das limitações da intuição – e enfrentando as indicações dos números mundiais.

Maio de 2015

Notas

[1] FOGEL, Robert William; ENGERMAN, Stanley L. Time on the Cross: The Economics of American Negro Slavery. Boston: Little, Brown, 1974.

[2] FOGEL, Robert William. Without Consent or Contract: the Rise and Fall of American Slavery. Nova York: Norton, 1994. p. 13. [trad. do autor].

[3] ENGERMAN, Stanley L.; GENOVESE, Eugene D. (eds.). Race and Slavery in the Western Hemisphere: Quantitative Studies. Princeton, EUA: Princeton University Press, 1975.

[4] ENGERMANngerman, Stanley L.; GALLMANallman, Robert E. (eds.). The Cambridge Economic History of the United States. Nova York: Cambridge University Press, 2000.

[5] PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Trad. Monica Baumgarten de Bolle. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. Título original: Le capital au XXI e siècle. pp. 78-79.

[6] As referências bibliográficas à minha obra têm aqui o sentido de conduzir o leitor a conjuntos mais completos de argumentos e dados empíricos de referência que contêm.

[7] CALDEIRA, Jorge. A nação mercantilista. São Paulo: editora 34, 2001. pp. 13-202

[8] CALDEIRA, Jorge. O banqueiro do sertão. São Paulo, Mameluco, 2006.

[9] CALDEIRA, Jorge. História do Brasil com empreendedores. São Paulo: Mameluco, 2009. p. 15.

[10] LUNA, Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S. Economia e sociedade escravista: Minas Gerais e São Paulo em 1830. In: LUNA, Francisco Vidal; COSTA, Iraci del Nero da; KLEIN, Herbert S. Escravismo em São Paulo e Minas Gerais. São Paulo: Edusp/Imesp, 2009. pp. 197-200.

[11] COSTA, Iraci del Nero da. Arraia-miúda: um estudo sobre os não proprietários de escravos no Brasil. São Paulo: MGSP, 1992. pp. 115-116.

[12] CALDEIRA, Jorge. O Processo econômico. In: SILVA, Alberto da Costa e (Coord.). Crise colonial e independência: 1808-1830. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. (História do Brasil nação: 1808-2010, v. 1.). p. 168.

[13] MADDISON, Angus. Monitoring the World Economy: 1820-1992. Paris: Development Centre Studies (OECD), 1995. Disponível em: http://www.ggdc.net/maddison/Monitoring_the_world/1995_Monitoring_the_World/TextTables/tables_chapter1.pdf. Acessado em: 05/05/2015.

[14] PELÁEZ, Carlos Manuel; SUZIGAN, Wilson. História monetária do Brasil: análise da política, comportamento e instituições monetárias. 2ª ed. Brasília: ed. Universidade de Brasília, 1981. (Coleção Temas Brasileiros, 15). p. 152.

[15] CALDEIRA, Jorge. Júlio Mesquita e seu tempo. São Paulo, Mameluco, 2015.

[16] Essa relação é estudada em detalhes nos cinco capítulos finais de A nação mercantilista.

Esta matéria faz parte do volume 23 nº4 da revista Política Externa
Volume 23 nº 4 - abr/mai/jun 2015 Revista Política Externa

A situação geopolítica da Ásia neste século é tão peculiar como tensa devido às aspirações de seus três principais atores. Japão, China e Coreia ainda não resolveram questões históricas entre si, mantêm alianças antigas e atuais que se conflitam e, curiosamente, preservam os legados de seus três velhos líderes.

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