Política Externa

Timbuktu* de Abderrahmane Sissako

por em 08/06/2015
Timbuktu*

“Toda arte política é ruim – toda boa arte é política”.
Poul Henningsen, arquiteto e crítico dinamarquês

Uma cidade antiga, mítica, de quase mil anos de existência, cujas glórias ficaram no século XIII. Algumas de suas edificações características, mesquitas construídas em barro, suas bibliotecas de manuscritos medievais e alguns antigos mausoléus de santos muçulmanos são patrimônio da humanidade, declarado pela UNESCO em 1988. Em suas ruas e casas, nas dunas ao redor, uma tragédia contemporânea.

Timbuktu, segundo o dicionário Oxford é “qualquer lugar extremamente distante ou remoto”. Deixou de ser esse lugar tão longe quando, em abril de 2012, rebeldes islamistas ocuparam a cidade, aproveitando que o resto do país estava envolvido no caos resultante do golpe separatista do Movimento Nacional pela Libertação de Azawad, que declarou independente a região norte do Mali. Ansar Edine (que significa Defensores da Fé), um grupo apoiado por Al-Qaeda, assumiu o controle em Timbuktu e impôs a sharia, um conjunto de preceitos fundamentalistas. Em julho, Ansar Edine condenou e matou por ritual de apedrejamento um casal que não estava casado segundo tais preceitos, deixando órfãs duas crianças.

Azawad não foi reconhecido por nenhum governo como Estado independente e, em janeiro de 2013, o governo do Mali retomou o controle contra os separatistas e os jihadistas acabaram sendo expulsos pelo exército do Mali com a ajuda essencial de forças francesas na Operação Serval (com luz verde do Conselho de Segurança da ONU). Os jihadistas em retirada ainda incendiaram uma biblioteca onde estariam preciosos manuscritos medievais de muçulmanos.

O cineasta da Mauritânia Abderrahmane Sissako sentiu que o mundo ficou indiferente à tragédia. A indiferença mundial o atingiu mais diretamente, talvez, pois viveu sua infância e juventude no Mali. Seu filme tem sido interpretado como um delicado protesto contra a indiferença: que futuro terão aquelas crianças? Mais que a tomada repentina pelos jihadistas e os seus métodos violentos, Sissako capta em belas imagens ocreadas a lenta invasão do medo, o medo que entra pelas dunas e se esparrama pelo chão de areia, penetra as paredes de barro de misteriosa geometria, ocupa pouco a pouco e sem trégua os pensamentos das mulheres, das crianças, dos homens também.

Sissako contou que chegara a pensar em um documentário, mas isso seria impossível com a tensão e a insegurança reinantes no Mali. Decidiu-se por rodar no seu país natal, a vizinha República Islâmica da Mauritânia, uma fábula.
A fábula se compõe de duas estórias paralelas, que acabam por se misturar:

  1. a invasão da cidade por estranhos fortemente armados, que tratam de impor uma série de proibições supostamente ditadas por Alá. O chefe-mor dos invasores fala só francês e tem um jovem chofer e intérprete africano;
  2. a vida pacata e carinhosa de um casal seminômade, Kidane e Satima, e sua filha de uns 12 anos, Toya, que moram em uma grande tenda fora da cidade. Por suas atitudes e vestimenta parecem ser muçulmanos, e descendentes de habitantes antigos do lugar, os tuaregues. Seu sustento vem de um rebanho de oito vacas, e há um menino de pastoreio, Issan, aproximadamente da idade de Toya, que conduz as vacas a buscar pasto e água na região semidesértica.

O filme começa pela invasão. Uma gazela delicada correndo, voando, pelo areal imenso dourado de sol, é acompanhada por estrondos, que a seguir revelam jipes levando homens fortemente armados, em uniformes militares não identificáveis, atirando contra o animal. Uma voz repete monotônica: não a mate, ela vai cansar. Em seguida metralham e destroem grandes estátuas de madeira identificáveis como arte africana. Entram na cidade.

Uma infinidade de proibições são gritadas em francês por modernos megafones: mulheres devem cobrir a cabeça e todo o corpo, usar meias e luvas, é proibido fazer música, proibido dançar, proibido jogar futebol, proibido fumar, proibido andar na rua sem motivo. O que vem em seguida são as várias ações dos jihadistas para fazer cumprir essas proibições e outras inventadas ao sabor do momento.

Um dia, quando Issan leva as vacas até o rio para beber água, a vaca preferida, que está prenhe, escapa do grupo e invade as redes de um pescador. Este, para proteger o que pescou, remete sua lança contra a vaca, que morre. Issan volta chorando e conta ao tuaregue dono das vacas, Kidane, que decide ir atrás do pescador, levando embrulhado sob as roupas um revólver. Ao partir da tenda declara: “é preciso acabar com essa humilhação”. Na beira d’água, pastor tuaregue e pescador negro entram em luta corporal, quase se afogam mutuamente, e a arma de Kidane dispara sem que ele a empunhe. Kidane é preso e processado por um tribunal dos jihadistas, e como a família do pescador não quer perdoá-lo, nem por uma indenização de 40 vacas, é condenado à morte. Satima não conseguiu informação nenhuma sobre o que se passava, e depois de muito esperar, consegue alguém de motocicleta que a leva a procurá-lo, corre para ele quando finalmente o vê, e morre junto fuzilada.

O fecho do filme de algum modo remete ao seu início. De novo, as imensas dunas, agora menos douradas e mais cor de areia, e dois órfãos, Toya e Issan, duas crianças frágeis correndo, fugindo, sem rumo, caindo, levantando, quase voando, perdendo fôlego. Que futuro terão aquelas crianças?

Timbuktu, o filme lançado em dezembro de 2014, ganhou em fevereiro de 2015 quase todos os troféus do tradicional César do cinema francês:[1] melhor filme, melhor realizador, melhor montagem, melhor fotografia, melhor cenário original, melhor som, melhor música. O filme concorreu ao César como produção francesa, e a premiação tem a ver com o sucesso de público na França (mais de 730 mil ingressos vendidos antes do prêmio), mas é indiscutível que os votantes foram afetados pelo clima pós-atentados de Paris. A declaração do presidente do CNC (Conselho Nacional do Cinema francês) que, minutos após a premiação, saudou o filme como “um canto de luta contra a barbárie e um canto de esperança humanista”, além da retórica de grandiosidade francesa, reflete o clima daquele momento.

Houve quem perguntasse: Será que este filme teria sido premiado se Cabu, Charb, Wolinski e os outros colaboradores do Charlie Hebdo não tivessem sido assassinados? Talvez não.[2] Mas é esse o contexto de Timbuktu em 2012-2013, ainda que a paisagem sugira também uma Timbuktu dos séculos XII e XIII, quando era o ponto de encontro das caravanas de camelos carregando sal das suas minas para comércio no Norte da África e era, também, centro de estudos islâmicos que atraía importantes intelectuais muçulmanos da época.

Não é o enredo simples o que remete ao século XXI, mas detalhes das cenas, ora tranquilas, ora violentas. Os jipes dos invasores são Toyota com tração para enfrentar o imenso areal. O sistema de comunicações é moderno. Os fiscais que procuram quem está infringindo suas regras medievais se comunicam por celular. Os celulares sempre funcionam, mas a comunicação não é fluida, interrompe-se quando é diferente a língua dos interlocutores. Os tuaregues na tenda longe da cidade também usam celular, embora ali o sinal seja mais instável. A vaca prenhe, justamente a que se desorienta e é morta, chama-se GPS, e jihadistas sabem o que é remédio genérico.

Os métodos de propaganda também são modernos: prepara-se um vídeo em que um ex-rapper deve mostrar arrependimento e contar sua conversão ao Islã dos fundamentalistas. Mas o jovem recomeça muitas vezes a fala sendo filmada, simplesmente não consegue prosseguir.

A população local fala tuaregue. Ainda que entre os invasores haja algum que saiba tuaregue, eles falam francês, árabe, inglês (a refletir o quanto é de fato diversificada a proveniência dos recrutados para o terror). Intérpretes são requisitados a todo instante. O jovem intérprete do chefe jihadista, criticado por seu francês limitado, retruca: mas eu sei tuaregue, árabe, inglês. Além disso, ele está ensinando o chefão a dirigir o jipe. Depois, durante o julgamento de Kidane, ficamos sabendo que o jovem foi recrutado ainda menino na Líbia, e que de lá vêm, também, os antepassados de Kidane. Haverá, aí, uma sugestão de que são fracas as identidades nacionais na região? E de quanto o Estado falido na Líbia produziu jihadistas, alguns extraídos do antigo exército de Kadafi?

Há diversos momentos irônicos, que marcam a insensatez das proibições. O homem que é abordado por um dos jihadistas para que levante a barra de sua calça simplesmente tira a calça e segue o caminho de cueca sem ser incomodado. Nenhum dono se apresenta para uma bola pulando pelas escadarias e ladeira abaixo, ainda que antes alguns jovens estivessem discutindo sobre Zidane e Messi, e o Brasil, que, segundo um deles, “é pobre, a ONU mandou um navio de arroz”. O protesto mais indignado é da vendedora de peixe que se recusa a colocar luvas: como irá lavar peixe de luva?

Será que fundamentalismo gera hipocrisia como defesa? É lindo e colorido um jogo de futebol sem bola, na areia, como uma dança, em que os movimentos se congelam repentinamente para enganar a fiscalização do jihadista que passa de jipe. O chefe-mor jihadista, além de visivelmente cobiçar a mulher do tuaregue e gostar de ver os longos cabelos dela, vai à tenda quando o tuaregue não está, fica olhando encantado, e ordena que ela cubra a cabeça. E se esconde atrás de uma duna para fumar.

Uma misteriosa feiticeira africana que anda pelas ruas carregando um galo e uma roupagem com imensa cauda consegue desafiar às gargalhadas os homens armados, sem ser perturbada. Quando um dos invasores descobre o pescador morto na beira do rio, chama o que seriam agora as novas autoridades da polícia. Quem atende na cidade só entende inglês e ordena: “English!”. O comunicado da morte vira uma cena cômica.

Mas outros não conseguem escapar do terror. A moça que foi descoberta cantando (e era uma canção em louvor a Alá!) é condenada à chibata, e continua cantando sob a dor de cada chibatada.[3] Um dos jihadistas jovens leva em casamento, à força, uma jovem local, que chora inconsolável. E um casal é morto por apedrejamento, sem que se saiba o motivo.

A cena mais reveladora está quase no início do filme, quando os homens armados invadem a mesquita nervosos, na hora da reza. O imame os repreende com tranquilidade, argumenta muito calmo que o que eles estão fazendo contradiz o Corão, explica que os mandamentos de Alá estão sendo distorcidos, que essa não é a jihad de Alá, que eles devem deixar aos que estão rezando a liberdade de honrar Alá. Talvez seja perceptível ver naquele momento alguma faísca de dúvida nos olhos de alguns dos jihadistas. Mas essencialmente o sermão não tem efeito.

Em todo caso fica bem marcada logo de início a diferença entre o muçulmano comum, que leva a vida em paz, e os invasores jihadistas que chegam e logo querem controlar os habitantes tradicionais do lugar. O imame defende que o islame é contra a violência – pelo menos aquele imame de Timbuktu.

Por que Sissako tem sido obrigado a insistir que o filme não é descrição de uma realidade histórica como se faria em um documentário ou reportagem?

Após as premiações, Sissako tornou-se o centro de uma polêmica feroz, sobretudo na França. Alguns dos críticos usaram retórica bastante hostil: o filme teria mostrado uma visão colonial da África, teria sido feito para apoiar a intervenção francesa no Mali e ajudar François Hollande, teria edulcorado os terroristas, seja ao ridicularizá-los, seja através de um esteticismo que suavizaria a barbárie. Um dos críticos irritou-se exatamente com a beleza da paisagem, chamando Sissako de “BHL das dunas”. (BHL é Bernard-Henri Levy, figura polêmica das letras francesas, mas acho que só mesmo intelectual francês para entender a comparação: será porque BHL defende o apoio militar da França aos curdos no Iraque contra o Estado Islâmico?). As agressões transbordaram para ataques à sua biografia, pois Sissako tem um posto de assessor cultural da Presidência da Mauritânia, apresentado como um país de regime ditatorial que ainda tolera a escravidão.

Cinema é para ver. Não consigo sequer sugerir, ao escrever, a imensa beleza desse filme. Certamente não é um conto simplista do bom tuaregue muçulmano e do mau terrorista islâmico. É uma fábula com muitas sugestões, uma imensidão de referências ao que está acontecendo no mundo real, inclusive a tensão racial, latente e antiga, entre africanos tuaregues e negros nas regiões de fronteira do Mali. Tem ironia e tem poesia. E tem a música extraordinária de Amin Bouhafa unindo todas as cenas.[4] É uma pequena parte de um quadro mais amplo e bem complicado. Mas quem sabe a tragédia de Timbuktu, tal como mostrada na arte de Abderrahmane Sissako, possa ser uma introdução, um alerta, um impulso para começar a estudar o problema mais geral.

Maio de 2015

* Filme de 2014, direção de Abderrahmane Sissako, roteiro de Abderrahmane Sissako e Kessen Tall.

Notas

[1] O prêmio César (considerado como um Oscar francês) não tem um júri como outros. Os votantes são os membros da “Academia dos César”, atualmente mais de 4.500 membros, repartidos em vários ramos: atores, realizadores, autores, técnicos, produtores, adidos de imprensa. A votação é secreta e em dois turnos. O primeiro turno indica os candidatos em cada categoria.

[2] No atentado de 7 de janeiro de 2015 ao jornal satírico Charlie Hebdo morreram 12 pessoas, entre colaboradores e policiais encarregados da segurança. Em 14 de janeiro Al-Qaeda no Yemen reivindicou autoria do atentado. Nesse dia a tiragem do jornal foi de 3 milhões e esgotou. A tiragem dessa edição de janeiro foi aumentando e chegou a 8 milhões. Charlie Hebdo, que tinha dez mil assinantes antes do atentado, agora ultrapassa os duzentos mil.

[3] A bela voz da cantora africana Fatoumata Diawara, a Fatou, que faz o papel, não consegue encobrir nesse lamento inesquecível o som da chibata.

[4] Além do pedaço vocal de Fatoumata Diawara, a trilha musical de Amin Bouhafa para Timbuktu reúne músicos famosos em uma mistura de música oriental, de trechos em Kora, a harpa do Mali, com destaque para o Duduk, uma flauta típica da Armênia e dos Países Bálticos, tocada por conhecido flautista da Turquia, além de percussão incomum e registros sinfônicos pela Orquestra Filarmônica de Praga.

Esta matéria faz parte do volume 23 nº4 da revista Política Externa
Volume 23 nº 4 - abr/mai/jun 2015 Revista Política Externa

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