Política Externa

O estado da economia mundial: uma questão de fé?

por em 08/06/2015
O estado da economia mundial: uma questão de fé?

Passados sete anos da crise financeira de 2008, tomadores de decisões em todo o mundo ainda estão procurando respostas para o atoleiro do crescimento. O debate em torno da situação da economia mundial acabou impregnado por crenças que lembram a mais famosa advertência de John Locke de que as pessoas, em geral, atribuem probabilidades mais elevadas às suas crenças do que as evidências sugeririam. Atualmente há um excesso de certezas para explicar o apagado crescimento, o que resulta em grandes teorias que nem sempre correspondem às evidências, como é o caso da chamada “Estagnação Secular”. Este artigo avalia o estado da economia mundial sem recorrer a argumentações exageradas. Recentes acontecimentos e desafios políticos no Brasil são igualmente discutidos em face do panorama para a economia mundial nos próximos anos.

Seven years following the financial crisis of 2008, policymakers around the globe are still looking for answers to the growth quagmire. The debate over the state of the world economy has become entrenched with beliefs reminiscent of John Locke’s famous warning: beware of the surplusage of assurance for that usually owes itself to some other affection. There is currently a surplusage of assurance in explaining lackluster growth around the world resorting to grand theories that do not necessarily stand up to the evidence. Such is the case of so-called Secular Stagnation. This article reviews the recent state of the world economy without recourse to overarching explanations that often fail the validity test: they simply do not apply to all cases, at all times. Recent economic developments in Brazil and the policy challenges facing the country are also discussed against the larger backdrop of the outlook for the global economy in the years ahead.

“For the evidence that any proposition is true (except such as are self-evident), lying only in the proofs a man has of it, whatsoever degrees of assent he affords it beyond the degrees of that evidence, it is plain that all the surplusage of assurance is owing to some other affection, and not to the love of truth”.
John Locke

Em seu Ensaio acerca do entendimento humano, o filósofo John Locke adverte que as pessoas em geral atribuem probabilidades mais elevadas às suas crenças do que as evidências sugeririam. Além dessa inequívoca falha cognitiva que nos une, há outra igualmente perniciosa: o ser humano gosta de achar que valoriza a verdade pela verdade, quando de fato o julgamento que faz a respeito do que é a verdade é imbuído de outros impulsos, como o preconceito, o orgulho, a vaidade, ou mesmo da própria preguiça de refletir. Os economistas tendem a pensar que as crenças são meios para se alcançar determinado fim, e não o fim em si mesmas. Na realidade, é comum que acalentemos nossos pontos de vista não porque tenhamos chegado a eles por meio de um esforço de reflexão, mas sim porque associamos a eles valor intrínseco – o conforto de acreditar em algo que para nós faça sentido. Explicar a economia mundial é um pouco assim: questão de fé. Inclusive para os próprios economistas.

Passados sete anos bíblicos desde a crise de 2008, as crenças não abandonaram a visão dos analistas a respeito dos rumos globais. Há quem acredite, por exemplo, na tese da “Estagnação Secular”, segundo a qual o mundo desenvolvido estaria fadado a conviver com o crescimento baixo e a falta de perspectiva para a redução da desigualdade e do desemprego – dois temas que marcam o atual debate global e explicam o sucesso de O capital no século XXI, tratado extenso de Thomas Piketty sobre as disparidades presentes nos países maduros. Os proponentes da tese da estagnação secular citam não apenas as evidências de baixo crescimento, como também os juros reais em território nulo ou negativo praticados pelos países maduros, e as dificuldades de retomar o ritmo de expansão da atividade que vigorara antes da implosão de 2008. Que essas evidências são igualmente compatíveis com a ideia de que a crise global desvelou outra “verdade” sobre o mundo, no caso a insustentabilidade do crescimento mundial de quase 5% entre 2003 e 2008, é fato ignorado por grande parte dos seguidores da estagnação secular. Na realidade, como atestam os dados do FMI, o crescimento médio global dos últimos 30 anos está mais próximo de 3,5% do que de 5%, o que significa que “reconstruir o passado” está além das possibilidades atuais.

Se “reconstruir o passado” é impossível, “facilitar o futuro” deveria ser o mote dos líderes globais, como disse recentemente um funcionário público de primeiro escalão durante as reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial. Contudo, facilitar o futuro não está nada fácil. A crise de 2008, afinal, deixou legado indigesto. Nos Estados Unidos, as divergências socioeconômicas desveladas pela débâcle estão constantemente estampadas nos jornais: os embates entre a polícia e as populações carentes de Ferguson, Missouri e Baltimore, Maryland, a proliferação de matérias e colunas sobre a desigualdade americana, a frequente citação de estudos acadêmicos que buscam elucidar as formas de reduzi-la ante um sistema político há anos travado pelas divergências entre republicanos e democratas. Na Europa, a relativa calmaria dos mercados esconde os dramas permanentes, a Grécia, a possibilidade de nova reestruturação de dívida da Grécia, o risco de que tenha de deixar a união monetária por força de seus desafios cruéis. O Japão de Shinzo Abe foi rapidamente do “Abenomics” ao “Womenomics”: a principal razão para o relativo sucesso das políticas de estímulo foi a capacidade de aumentar a participação das mulheres na força de trabalho, área em que o país estava terrivelmente atrasado em comparação com seus pares maduros. Quando esse processo se esgotar, a tragédia demográfica, o envelhecimento da população japonesa e o encolhimento do montante de pessoas em idade ativa haverão de se impor novamente como temíveis obstáculos ao crescimento do país.

O mundo emergente não escapou dos desdobramentos de médio prazo da crise de 2008. A desaceleração que o acomete é resultado tanto de escolhas equivocadas de política econômica, escolhas muitas vezes motivadas pela mera crença, como bem ilustra o Brasil do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, como reflexo da China. A China, cujas mudanças tanto influenciaram o crescimento dos países emergentes – a redução do crescimento chinês se dá tanto por necessidade, quanto por escolha – assusta a todos. Aos emergentes pela capacidade de afetar suas perspectivas futuras, hoje menos auspiciosas, à exceção da Índia. Aos países desenvolvidos pela vontade que os chineses têm demonstrado de influenciar a nova ordem global que vem sendo construída desde 2008. O Bretton Woods de Xangai, a criação não apenas do chamado “Banco dos BRICs”, como a construção do Asian Infrastructure Development Bank (AIIB) revelam a extensão das mudanças em curso. Mudanças que provocam reações disparatadas como as tentativas do governo Obama de impedir que seus aliados históricos como a Grã-Bretanha façam parte do novo banco de infraestrutura. O faux pas de Obama não só em nada deu, como chamou atenção para outro tema que domina o debate pós-crise: a perda de relevância dos Estados Unidos como potência geopolítica e econômica.

Relevância que Obama tenta resgatar nos últimos meses de seu segundo mandato por meio dos mega-acordos comerciais que propôs, o Trans Pacific Partnership (TPP) e o Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP). Tanto o TPP quanto o TTIP têm escopo mais do que ambicioso: trata-se não apenas de fortalecer os laços entre os EUA e os países do Pacífico, os EUA e a Europa. Trata-se, sobretudo, de uma completa reformulação das regras internacionais que hoje influenciam as relações trabalhistas entre os países, a propriedade intelectual, a segurança cibernética, os mecanismos de resolução de disputas judiciais entre investidores e governos. Ou seja, o TPP e o TTIP têm a ambição de reescrever as normas globais em diversas áreas que influenciam direta e indiretamente os fluxos de comércio mundial. Caso avancem, esses acordos haverão de pôr em xeque a relevância de instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), ambas vistas, hoje, como entidades globais inadequadas para lidar com os desafios do século XXI. Não é, portanto de se estranhar que o TPP e o TTIP estejam gerando tanto barulho dentro e fora dos Estados Unidos. Os mega-acordos de Obama pisam nos calos de interesses diversos, das empresas, aos políticos, aos lobbies e sindicatos, às organizações internacionais. Os esforços de Obama têm enfrentado obstáculos severos inclusive dentro de seu próprio partido – há forte ala democrata contrária ao TPP e ao TTIP, bem como empenhada em impedir que o presidente consiga aprovar o Trade Promotion Authority (TPA), o dispositivo que daria ao governo Obama a latitude necessária para negociar os acordos sem a interferência do Congresso.
Os acordos também são tema controvertido na combalida Europa, que teme pelos possíveis abalos à unificação comercial do continente. Há quem defenda que o TTIP reduziria o livre-comércio intraeuropeu, enfraquecendo conquista que desfruta de enorme carga simbólica na região. Os opositores dos grandes acordos amarram-se em suas crenças deixando de lado as inúmeras evidências dos benefícios que o livre-comércio e a harmonização de regras e regulamentos proporcionam aos diversos países. Em se tratando de liberalização comercial, ou de liberalização de fluxos de investimentos, as observações de John Locke caem como luva. O consenso baseado em experiências e estudos acadêmicos que existe entre os economistas a respeito dos benefícios da liberalização simplesmente não é absorvido pela sociedade, esteja ela no Norte abastado, ou no Sul subdesenvolvido.

Se uma parte do crescimento global perdida nos últimos anos não puder ser restaurada pela via de maiores avanços no processo de integração, como reduzir a desigualdade e o desemprego que assolam o mundo? Eis o grande desafio que enfrentam os formuladores de política econômica. Os estímulos monetários excepcionais que sobrevieram da crise de 2008 têm alcance limitado. Nos EUA, as políticas de
Quantitative Easing foram capazes de dar algum suporte à recuperação, mas não foram suficientes para atenuar os grandes problemas do mercado de trabalho. O fato inconveniente é que, passados sete anos da crise, os salários americanos praticamente não subiram. O desemprego caiu, é verdade, mas parte relevante dessa queda esteve associada ao desalento, à saída voluntária de pessoas da força de trabalho. Agora o desafio do Banco Central Americano é normalizar os juros, isto é, sair do território inédito dos juros nulos, sem prejudicar a recuperação do mercado de trabalho. Como prenunciaram os mercados em 2013, a normalização da política monetária americana terá fortes repercussões mundo afora, sobretudo para economias mais vulneráveis como o Brasil.

A Europa, com seu recém-instaurado Quantitative Easing, o “whatever it takes” que Mario Draghi prometera em 2012, tem surtido algum efeito: os riscos de materialização de uma perversa espiral deflacionária estão sendo dirimidos, o crédito bancário para o setor privado começa a dar os primeiros sinais de vida em três anos, há esperanças de que o crescimento econômico de 2015 seja uma surpresa positiva pela primeira vez desde que a Grécia despontou como o pedaço visível do proverbial iceberg. Mas, a Grécia. Como desatar o nó da Grécia? A Grécia afogada em dívidas, hoje nas mãos dos governos de seus parceiros no euro após a reestruturação de 2011/2012 que retirou do setor privado o ônus de encarar os estilhaços do país mediterrâneo. Não há saída para a Grécia, o que não significa, necessariamente, que o único jeito de salvá-la seja a saída do euro. Por enquanto, o recém-eleito primeiro-ministro Alexis Tsipras tenta moderar as demandas dos credores enquanto promete à população que não haverá de ampliar a dor da austeridade que vitima a Grécia há cinco anos. A corda bamba em que tenta se equilibrar, entretanto, está esgarçada. E, como afirmou em evento recente promovido pela Brookings Institution o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble, não há espaço para dar mais alívio à Grécia inclusive porque as dívidas excessivas continuam a ser um problema para a Europa inteira – além do que “a Grécia tem a responsabilidade política de manter a estabilidade do euro”, disse. Os níveis absolutos de endividamento europeu, hoje, estão mais elevados do que durante a crise.

O que se pode dizer da zona do euro é que, em certos aspectos, a crise foi uma oportunidade melhor utilizada do que se poderia imaginar há cinco anos, quando a Grécia implodiu. Criaram-se os mecanismos para prover liquidez aos países afetados – o European Financial Stability Fund (EFSF) e o European Stability Mechanism (ESM) – além de terem avançado as discussões para a união bancária e para a maior sincronia entre as políticas fiscais. É fato pouco mencionado que, hoje, o EFSF e o ESM são os principais responsáveis pelo programa da Grécia, substituindo o papel do FMI. O FMI cuja reforma prometida em 2010 ainda não saiu do papel devido à resistência do Congresso americano. Sem dúvida, esse foi mais um flanco que se abriu para que a China promovesse o Bretton Woods asiático.

Em meio aos enormes desafios geopolíticos e econômicos que enfrenta o mundo, as ameaças do ISIS, o esfacelamento da Rússia, para completar a lista que nos trouxe até aqui, o Brasil tenta se manter acima da linha d’água. É claro que as reviravoltas do quadro internacional nos prejudicaram em alguns momentos, tornando menos evidentes as linhas que separam o experimentalismo macroeconômico construtivo das invencionices destrutivas. Mas, que o país flertou de forma desmesurada com as invencionices ante a oportunidade de fazê-lo sem que fosse punido pelos investidores externos não resta dúvida. Afinal, o mecanismo disciplinador dos mercados externos fora desmantelado pelos juros nulos praticados nos países maduros – se os investidores internacionais não tinham como colher rendimentos polpudos nas grandes praças financeiras do mundo, vieram fazê-lo nos Trópicos, a despeito da má condução da política econômica. A grande mazela dos diversos Quantitative Easings não foi, portanto, a “guerra cambial” do ex-ministro Guido Mantega, mas a “licença para matar” dada aos países pouco disciplinados como o Brasil.

Nos últimos anos tratamos de bagunçar a economia brasileira em nome de crenças gastas, como a ideia de que controlar preços e interferir nos mecanismos de demanda e oferta dos mercados ajuda a reduzir a inflação. Crenças obsoletas como a de que regras de conteúdo local favorecem as empresas nacionais ao deixar para elas o mercado doméstico que lhes cabe. Há vasta literatura documentando como as regras de conteúdo local estão entre os expedientes mais danosos a que se pode recorrer: tratam-se de regras opacas, que impedem que se observe seu real impacto enquanto estimulam práticas nocivas, inclusive criando condições favoráveis à corrupção. Não é surpresa que essas regras tenham sido introduzidas com maior peso no setor de óleo e gás brasileiro: deu no que deu.

A lista do que o Brasil fez de errado nos últimos quatro anos é extensa. Além dos controles de preços e das barreiras comerciais obscuras, como as regras de conteúdo local, abalamos a credibilidade da política monetária, desmantelamos a Lei de Responsabilidade Fiscal, interferimos nos mercados de câmbio de maneira indevida, abusamos da Petrobras e das empresas estatais, e utilizamos os bancos públicos da pior forma possível. Entre 2006 e 2014, os empréstimos do BNDES aumentaram inacreditáveis 15 pontos percentuais do PIB – passando de cerca de 10% do PIB para algo em torno de 25%. Essa geração extraordinária de crédito foi parar nas mãos das maiores empresas do país: segundo relatório recente do FMI, cerca de 40% dos financiamentos do BNDES se destinaram às dez maiores empresas brasileiras. Ou seja, o BNDES passou boa parte dos últimos anos concedendo crédito subsidiado para quem tem acesso aos mercados de capitais. É difícil exagerar as distorções criadas por essa atuação do BNDES: de um lado, o aumento do crédito subsidiado prejudica a política monetária ao impedir que os juros praticados pelo Banco Central encareçam parte relevante dos financiamentos, forçando a autoridade monetária a fazer mais com muito mais; de outro, ao emprestar para as empresas de maior porte e melhor perfil de risco, o BNDES deixa para os bancos privados a tarefa inglória de atender as empresas com perfil de risco pior, o que alimenta as taxas de juros elevadas que vigoram no país. Taxas de juros altas elevam o custo do capital e reduzem a atratividade dos investimentos. Eis que o Brasil exibe uma das mais baixas taxas de investimento entre os seus pares emergentes: cerca de 19%, em média, nos últimos 20 anos.

Não por acaso, a presidente Dilma Rousseff foi forçada a iniciar seu segundo mandato tomando medidas impopulares em momento particularmente ruim: o oportunismo do passado está saindo demasiado caro. A recessão pressagiada em 2015 é resultado não das correções de rumo que hoje estão sendo feitas, e sim dos despautérios em matéria de política econômica cuidadosamente acumulados nos últimos quatro anos sob a desculpa constante da crise internacional. Os realinhamentos de preços e tarifas que fizeram a inflação brasileira disparar, os aumentos de impostos e os cortes de benefícios e gastos do ajuste fiscal, a tentativa de frear as operações do BNDES asfixiando o financiamento da infraestrutura, todos são reflexo não do quadro externo hostil, mas das escolhas erradas dos últimos anos. A isso se soma o problema que por muito tempo ficou escondido nas sombras da bonança externa iniciada em 2004 e finda em 2010: a notória incapacidade brasileira de tomar medidas que melhorassem os rumos da produtividade e do crescimento potencial.

Crescimento potencial é conceito abstrato, refere-se à capacidade de crescer sem inflação empregando plenamente os fatores de produção: trabalho e capital. A tentativa de estimar o crescimento potencial de um país é ingrata, sujeita a erros de mensuração diversos. Ainda assim, é cálculo de suma importância para a formulação das políticas econômicas e para a elaboração de uma agenda de reformas que identifique corretamente os gargalos a serem removidos. Não por acaso, em seu último World Economic Outlook publicado durante as reuniões de primavera em Washington, o FMI dedicou capítulo inteiro aos métodos e estimativas de PIB potencial para diversos países. Os resultados desanimadores atiçaram os defensores da estagnação secular e trouxeram novamente à tona as discussões sobre o resgate do crescimento. No caso do Brasil, algumas contas preliminares de minha autoria revelam que nos últimos quatro anos, o PIB potencial caiu de cerca de 3,5% ao ano, para não mais do que 2% ao ano. Ou seja, ainda que a economia brasileira hoje tivesse a capacidade de empregar de modo eficiente toda a sua força de trabalho e estoque de capital, o país não conseguiria crescer mais de 2%. A razão? Já não há ganhos de produtividade: tamanho foi o descaso nos últimos anos em construir as condições que favorecessem a produtividade, – das melhorias no ambiente de negócios à educação, da infraestrutura à abertura comercial, da redução das distorções às reformas politicamente difíceis, como a tributária e a trabalhista – que hoje enfrentamos prognóstico indigesto. Ainda que voltemos a crescer 2% em futuro não muito distante, não há garantias de que isso seja o suficiente para mantermos intacto o único legado que realmente construímos nas últimas décadas: a mobilidade e a inclusão social.

Na verdade, para garantir a continuidade da inclusão social, da redução da desigualdade de renda e de oportunidades, é necessário mais do que o crescimento. O governo brasileiro insiste em dizer que a retomada do crescimento é passaporte para que a redução da desigualdade prossiga. Países como os Estados Unidos revelam a falácia do argumento, afinal estão crescendo sem que caia a disparidade de renda.

Hoje, há debate intenso nos EUA sobre políticas que permitam às pessoas de baixa renda alcançar não apenas salários mais elevados, mas acumular o chamado “capital social”, isto é, construir as redes de relações pessoais que permitam que crianças e adolescentes provenientes de famílias mais pobres tenham as mesmas chances de que desfrutam os filhos de famílias mais prósperas. Extensa pesquisa acadêmica feita pela Universidade de Harvard revela que famílias realocadas por meio de políticas públicas para regiões e bairros mais abastados, onde estão as melhores escolas públicas e as melhores chances de interagir com pessoas que possam contribuir para o futuro de seus filhos, conseguem alcançar melhores perspectivas do que aquelas que ficam para trás. No caso brasileiro, onde é considerável a distância entre a favela e o asfalto, onde a redução da desigualdade ficou circunscrita ao aumento da renda do trabalhador sem levar em consideração a importância do capital social, o futuro da inclusão e da diminuição das disparidades socioeconômicas não é alentador.

No entanto, no momento não temos como nos entregar ao luxo dessas reflexões, ao contrário do que fazem outros países. No momento temos uma crise política para desarmar – se é que isso será possível nos próximos quatro anos – e uma crise econômica para resolver. Fala-se muito no ajuste fiscal como tábua de salvação.

Como bem revela a experiência europeia recente, a austeridade é conserto, arrumação de casa, não elixir do crescimento. O ajuste fiscal é condição necessária, porém não é suficiente para restaurar o crescimento brasileiro. Eis, portanto, a pergunta: por que ao contrário do que fazem outros países – os EUA, a Aliança do Pacífico capitaneada pelo Chile e pelo México – o Brasil insiste em deixar de lado a abertura comercial como um caminho para a expansão da atividade e para a melhoria da produtividade? Tendo estabelecido que as resistências ao livre-comércio são universais, estão presentes, inclusive, em países cujos governos a defendem, por que o Brasil é mais refratário à ideia do que os outros? Afinal, é fato comprovado que a economia brasileira está entre as mais fechadas do planeta por qualquer métrica que se use para aferir o grau de abertura do país. Na verdade, há muita carga ideológica no debate sobre a abertura comercial e pouco conhecimento dos fatos, sobretudo no Brasil.

Abertura ao comércio prejudica os empregos de um país? Em certos setores e empresas que perderam a capacidade de competir internacionalmente, é evidente que a resposta é um redundante sim. Mas, se nem todos ganham com a abertura econômica, no longo prazo ela traz enormes benefícios, como documenta a extensa literatura acadêmica sobre o tema e os inúmeros estudos de caso. Pensem na Coreia, em Cingapura, em Taiwan. Considerem a Índia, a China. Todos esses países alcançaram taxas invejáveis de crescimento por tempo prolongado graças ao seu maior engajamento internacional.

O “entreguismo” que atiça os argumentos protecionistas repercute a intensa preocupação com grupos específicos que inevitavelmente haverão de perder com a abertura econômica. Protecionistas exortam os governos a impor barreiras comerciais para proteger os empregos, as fatias de mercado das empresas nacionais. Entretanto, o que se sabe é que quando essas barreiras são impostas, o custo do protecionismo pode ser incrivelmente alto. Quando um país adota maiores tarifas de importação para “proteger” os produtos locais, como fez o Brasil em 2012 com a famosa lista de cem produtos que incluía de pneus a produtos siderúrgicos, de materiais de construção a utensílios de cozinha, de plásticos a batatas, ele aumenta o custo das empresas que precisam desses insumos para produzir. A importação mais cara de pneus prejudica as empresas do setor automotivo; a de materiais de construção, o setor imobiliário, assim por diante. Se as empresas compram seus insumos no exterior a preços mais elevados, terão de repassar esses custos para o consumidor ou irão reduzir a produção. O corte na produção haverá de afetar não apenas o investimento, como também o emprego. Ou seja, o ciclo protecionista se encerra não com a proteção do povo, mas com a perda de empregos, o aumento da inflação, a queda dos investimentos.

Os argumentos contrários à abertura tendem a ser bem-sucedidos porque se é fácil enxergar onde empregos serão perdidos devido ao aumento das pressões competitivas, é difícil ver onde novos empregos surgiriam em função do maior acesso às novas tecnologias e aos novos mercados motivados pelo comércio. Mas, a realidade é que ao aumentar os custos dos insumos, o protecionismo permite que firmas estrangeiras do mesmo ramo sejam mais competitivas do que os exportadores domésticos. Desse modo, o protecionismo penaliza o trabalhador. Há ampla evidência de que empresas exportadoras geralmente pagam salários mais altos do que outras firmas. Assim, o trabalhador que poderia encontrar um emprego bem remunerado numa indústria exportadora cuja tendência seria de se expandir na ausência de medidas que limitam o comércio, encontrará dificuldades devido ao protecionismo. Ou seja, os custos de fechar-se são especialmente perniciosos, pouco visíveis para o povo.

A abertura econômica, portanto, tende a facilitar o futuro, enquanto o protecionismo tenta reconstruir o passado. Talvez a crise política que o país atravessa seja a chance de destravar o debate sobre a abertura comercial, quiçá seja a oportunidade de abandonar crenças que não são baseadas em fatos. O governo brasileiro começa a ensaiar os primeiros passos na revisão das regras de conteúdo local, conforme têm aventado a presidente da ANP, o presidente da Petrobras, e o ministro das Minas e Energia. É sinal de que crises são valiosas, proporcionam espaço para que se reavalie o dogmatismo, são momentos em que o persistente entusiasmo humano, aquele que abraça ideias duvidosas no calor da emoção, cede ao pragmatismo e à racionalidade. Assim, ao menos, pensaria John Locke.

Maio de 2015

Esta matéria faz parte do volume 23 nº4 da revista Política Externa
Volume 23 nº 4 - abr/mai/jun 2015 Revista Política Externa

A situação geopolítica da Ásia neste século é tão peculiar como tensa devido às aspirações de seus três principais atores. Japão, China e Coreia ainda não resolveram questões históricas entre si, mantêm alianças antigas e atuais que se conflitam e, curiosamente, preservam os legados de seus três velhos líderes.

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