Política Externa

Genocídio armênio: uma introdução histórica

Genocídio armênio:  uma introdução histórica

Ao se completar o centenário do genocídio armênio pelo Império Otomano, a Humanidade ainda se defronta com a resistência turca em assumir a responsabilidade por tal crime. O massacre de 800 mil a um milhão de armênios entre 1915 e 1923 – em prisões, nas marchas para a morte, em campos de concentração – foi gerado pelas condições históricas e pela onda nacionalista turca daquele momento. Mas comporta comparação com o Holocausto dos judeus promovido anos mais tarde pela Alemanha nazista e não pode ser negado. A questão armênia continua atual e reverbera nos massacres de minorias em curso.

Upon completing 100 years of the Armenian genocide by the Ottoman Empire, the humanity still faces the Turkish resistance to take responsibility for this crime. The massacre of more than 800 thousand Armenians between 1915 and 1923 – in prisons, during the marches to death and inside concentration camps – was generated by historical conditions and by the Turkish nationalist wave at that period. But it is comparable to the Holocaust of Jews promoted years later by Nazi Germany and cannot be denied. The Armenian issue remains present and it is still reverberating on the ongoing massacres of minorities.

Introdução

O historiador britânico Eric Hobsbawm define o século XX como a “Era da Guerra Total”, um tempo no qual novas palavras, como genocídio e apátrida, ganharam sentido e significado na sociedade.[1] Pela primeira vez na história contemporânea o extermínio de um povo pôde ser minuciosamente planejado e executado. A ideia de uma sociedade ocidental que marcha a longos passos rumo ao progresso foi profundamente avariada por “duas guerras mundiais, por dois períodos globais de revoluções após cada guerra, pela descolonização generalizada e, em parte, revolucionária, e por duas expulsões em massa de povos que culminaram em genocídio”.[2]

A Alemanha nazista mostrou ao mundo como a morte e o extermínio podem ser sistemáticos e precisos quando se tem um Estado forte, organizado e compenetrado na missão de matar o outro. O Holocausto foi a expressão máxima da morte cientificamente calculada, o ápice do assassinato em massa provocado pela modernidade, que ataca e destrói os pilares da igualdade, soberania e autonomia de um povo.[3]

Entretanto, foi o Genocídio Armênio de 1915 a 1923, perpetrado pelo governo otomano, a primeira tentativa sistemática de levar a cabo uma solução final contra uma minoria. O caso armênio foi o paradigma do século XX para massacres e intolerâncias que perpassam os anos, cujos ecos ressoam até os nossos dias. Para Arnold J. Toynbee, o massacre dos armênios criou algo inteiramente novo: a extinção de uma nação.[4] Estima-se que entre um e um milhão e meio de armênios tenham morrido durante esse período.[5]

Um genocídio não ocorre de forma aleatória. De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, sua ocorrência é fruto da ação deliberada para infringir a uma minoria étnica, nacional, racial ou religiosa um estado físico ou mental de degradação.[6] A definição passa pela qualificação do extermínio daquele grupo específico, e não outro qualquer, pelas mãos dos que teriam o dever ético, moral e jurídico de protegê-los. O genocídio ocorre também graças à inação da comunidade internacional, que adota uma postura passiva na prevenção e sanção dos crimes contra a humanidade. Destarte, a impunidade de um ato genocida incentiva outro. Perpetradores percebem que nada se faz àqueles que infringem minorias a condições degradantes. Para Peter Balakian, a ausência de punição aos responsáveis atua na psicologia social do grupo ao qual os perpetradores pertencem, legitimando novos massacres.[7]

Pretendemos abordar o genocídio armênio sob uma perspectiva histórica, inserindo esse evento no contexto de decadência do Império Otomano.[8] Como as sucessivas derrotas nas possessões dos Bálcãs, centro nevrálgico otomano, e as constantes mudanças internas, são centrais para entender porque os armênios se tornaram alvo do governo otomano, controlado pelos Jovens Turcos.[9] O ápice conjuntural foi o advento da Grande Guerra, de 1914 a 1918, que criou o ambiente propício para que os massacres contra os armênios fossem executados, enquanto as potências ocidentais estavam voltadas para o conflito que se deflagrara.

A proposta aqui é entender como o genocídio armênio foi um plano arquitetado e levado a cabo pela Sublime Porta [10]para refundar um país cujas estruturas estavam prestes a ruir. Veremos como o império entrou em colapso a partir, principalmente, da segunda metade do século XIX. Desse ponto até a fundação da moderna República da Turquia em 1923 – pelas mãos de Mustafá Kemal, posteriormente chamado de Atatürk, o “pai dos turcos” –, com a manutenção da integridade territorial turca na Anatólia, há um longo caminho a ser percorrido. Em suma, é necessário compreender como o extermínio dos armênios e a vitória otomana na Grande Guerra poderiam, no entendimento dos Jovens Turcos, salvar o Império Otomano.

A Questão Armênia permanece em aberto até os dias atuais. O governo da República da Turquia, herdeira do Império Otomano, não reconhece os episódios de 1915-1923 como genocídio. O reconhecimento poderia implicar reivindicações de devolução de terras, pagamento de indenizações, reconstrução e restauração de bens culturais, além dos danos morais causados pelo trauma e pelo desastre social. Assim, o genocídio armênio também perpassa questões de Direitos Humanos e de Direito Internacional.

O Império Otomano: instituições sociopolíticas

Por volta do século XI, povos nômades oriundos dos planaltos da Ásia Central migraram rumo ao Ocidente, em busca de melhores condições para os seus. Chegando à Anatólia, ainda como nômades, conseguiram se instalar em um terreno inóspito, onde os árabes haviam sido derrotados anos antes.

Entretanto, a terra conquistada não era inabitada. Diversos povos se encontravam ali. Entre eles, havia os armênios. Instalados no sopé do Monte Ararat, os armênios viram seu Estado chegar à extensão máxima sob o governo de Tigranes, o Grande, entre os anos de 95 e 56 a.C., o que os fez aliados importantes do Império Romano, que precisavam dos armênios para conter a ameaça persa vinda do Oriente, funcionando como uma espécie de “tampão”.

É na era cristã, porém, que a história dos armênios ganha novo significado. Já sem a força de um Estado estável e ameaçados pelas potências romana, bizantina e persa, os armênios encontraram na sua Igreja o elo político, social e cultural que os mantém até hoje ligados, ajudando a forjar uma identidade comum, mesmo na diáspora pós-genocídio.

Os turcos, por sua vez, aos poucos foram conquistando terreno sob as possessões árabes. A decadência desses no Oriente Médio facilitou o avanço dos forasteiros, que conquistaram Bagdá e fundaram um Império Seljúcida já sedentarizado, aproveitando toda a estrutura jurídica e administrativa deixada pelos árabes. Em meados do século XIII, as invasões mongóis fragmentaram a unidade existente dos Estados turcos, transformando-os em um mosaico de emirados sem unidade. Desse cenário heterogêneo, o sultanato osmanli – origem dos otomanos – surge como força capaz de dominar as demais instituições e unificá-las em torno de um grande império.[11]

O historiador Perry Anderson chama a atenção para a convergência de instituições culturais e religiosas que teriam dotado o Império Otomano do poderio que este teria durante os próximos 500 anos. Para o autor, a racionalidade administrativa islâmica, herdada pelos turcos, somada ao zelo militar, teria propiciado a esse império os contornos peculiares que nenhum Estado europeu poderia criar.

Os turcos mantinham uma relação dúbia com os não islâmicos que se encontravam sob jugo durante a expansão da dinastia otomana: se, por um lado, havia a necessidade da conversão do “infiel” para que o império prosperasse; por outro, a conversão de todos os cristãos – ainda que isso fosse possível – não seria viável do ponto de vista administrativo, uma vez que o Islã prevê a tolerância a não muçulmanos, desde que esses sejam devidamente tributados pelo Estado. Tal tributação, seja ela em gêneros alimentícios, metais, animais, ou até mesmo em pessoas – devshirme[12] – era vital para a sobrevivência do império.

Entre os anos de 1839-1876, o império sofreu uma profunda reorganização – em turco, tanzimat – em suas estruturas políticas e sociais. O tanzimat colocava fim às interações paternalistas existentes na estrutura otomana, tornando através de dois decretos – sendo o mais importante deles o Rescriptum Imperial – o Otomanismo a nova política do império. O Otomanismo englobava todos os habitantes do império, muçulmanos ou não. Dessa forma, muitos cristãos ascenderam no aparelho estatal, mas ainda eram tratados diferenciadamente. Esses, por exemplo, não podiam ocupar cargos nas pastas de relações internacionais e finanças do império.[13]

Para organizar as minorias que viviam no Império Otomano, foram criados os millet, sistema administrativo que agrupava uma mesma coletividade que vivia sob o controle otomano. O Ermeni Millet recebeu das autoridades turcas, em 1461, a nomeação de um patriarca armênio com sede na cidade de Constantinopla, a fim de balancear a grande influência do millet grego. No caso dos armênios, o único millet existente reunia armênios apostólicos, católicos e protestantes, o que gerava certo desconforto e desgaste dentro da própria coletividade.[14]

Em 1863, após anos de discussão entre posições políticas distintas no millet armênio, a Porta ratificou um documento chamado de “Regulamento da Nação Armênia” contemplando algumas aspirações dos cristãos, que alcunharam o texto de “Constituição Nacional Armênia”.[15] O regulamento garantia aos armênios liberdades religiosas e culturais pouco comuns entre as outras minorias otomanas. Tal concessão foi propagandeada pela Porta como um voto de confiança àqueles que eram chamados pelas autoridades otomanas de “millet leal”. Em suma, a Constituição Nacional armênia e a institucionalização do millet são partes de um “pacto de domínio” feito entre o povo armênio e o Estado otomano, a fim de garantir a coesão interna do império. Entretanto, a relativa autonomia política e a vigência de uma compilação de leis que garantiam aos armênios alguns direitos não eram suficientes para atingir com eficácia todas as partes do império.

A crise do Império Otomano

As províncias da Anatólia, da Síria e do Egito viviam seu apogeu no século XVI, beneficiadas pelo deslocamento do eixo político, econômico e administrativo do império para os Bálcãs. A unidade otomana no Oriente Médio criara um cenário de paz, ideal para a prosperidade dos comércios de especiarias que cruzava a região. A população rural da Anatólia aumentou dois quintos ao longo do século e assistiu a um surto de crescimento urbano, tendo Constantinopla cerca de 400 mil habitantes. Entretanto, esse crescimento econômico teria limites bem definidos: o abastecimento de alimentos não era suficiente para suprir o excedente populacional que surgiu na região durante o século XVI, fruto da sedentarização de povos nômades.[16]Além disso, o aumento dos gastos com o exército, para a conquista e controle das províncias supracitadas, foi subsidiado pelas populações rurais otomanas até o ponto de se tornar insustentável.

Com o fim da expansão das fronteiras otomanas rumo à Europa, no século XVII, a Porta começou a perder força. Assim como aconteceu com Roma, no período da pax romana, no século I a.C., o Império Otomano se viu diante de um dilema: sem meios de fazer frente às tropas europeias que reconquistavam as possessões turcas no leste do Velho Continente, os otomanos também não poderiam manter as suas instituições sem o espólio das conquistas. Segundo Anderson, as terras conquistadas e as riquezas confiscadas pelos exércitos da Porta eram essenciais para manter a sociedade de privilégios do império.[17] Como não havia a propriedade privada de terras, a concessão do uso dessas, bem como de cargos administrativos, eram as principais distinções aristocráticas otomanas. Destarte, é compreensível o efeito devastador que o estancamento das fronteiras e da influência otomana teve sobre a sociedade.

Ademais, na esfera econômica, Şevket Pamuk chama a atenção para a grande onda inflacionária que tomou conta do império. Segundo o autor turco, entre 1469 e 1914, os preços de produtos cotidianos e essenciais – principalmente os gêneros alimentícios – subiram cerca de 300 vezes, em média 1,3% ao ano.[18] Durante a Primeira Guerra, a fome assolava as classes baixas do Império Otomano.

No século XIX, o Império Otomano assistiu ao seu declínio. O equilíbrio de poder das Potências, mediado pela chamada Santa Aliança, gerara uma orquestração pela paz nos anos 1800. Com isso, as fronteiras se tornaram estáticas, e as possessões otomanas nos Bálcãs mostraram graves rachaduras. A paralisia administrativa da Porta no final do século XVIII permitiu o crescimento dos poderes agrários locais na Anatólia e de explosões nacionalistas nos Bálcãs. As tentativas de reformas liberais por volta do ano de 1820, patrocinadas pelo Ocidente, fracassaram.[19]

Outro império, o Russo, emergia como protagonista no cenário internacional. Foi justamente no nicho de poder deixado pelos otomanos nas regiões balcânicas, desde o século XVII, onde os russos se instalaram e trouxeram para perto de si a aristocracia local, criando uma zona de influência no antigo centro nevrálgico da Porta. A disputa entre as duas forças se tornou belicosa em 1877, não obstante o esforço alemão para evitar o conflito. Uma vez instalado, a Grã-Bretanha e o Império Alemão ficaram do lado dos turcos, como forma de manter a todo custo o equilíbrio de poder que se encontrava sob ameaça. Entretanto, no Congresso de Berlim, firmado entre as partes após o término do litígio, em 1878, as possessões otomanas na Europa, que anos antes eram vistas como partes indissociáveis da Porta, agora encontravam-se fragmentadas,[20] em nome da manutenção da estabilidade de forças. Para agravar a complexa situação da região, o Império Austro-Húngaro, que há muito havia se lançado em uma campanha expansionista sobre os Bálcãs, viu-se dilacerado em 1890 pelas várias etnias que compunham a região. A derrocada otomana acirrou os ânimos e alterou ainda mais o fiel da balança naquele canto de mundo, onde estouraria o barril de pólvora da Grande Guerra.

De protagonista no teatro das Nações mundiais a alvo dos interesses das potências europeias: eis a trajetória otomana até a segunda metade do século XIX. Porém, esse país em decadência ainda daria lampejos para provar que estava vivo. Os próprios conflitos com o Império Russo são exemplos disso. E é nesse contexto que surge a figura do sultão Abdul-Hamid II, em 1878, com o seu “despotismo pessoal frágil, porém brutal”,[21] repressor radical das nacionalidades e entusiasta do centralismo otomano.

O sultão e a radicalização

Para o maior controle da Porta sobre os territórios da Anatólia com grande contingente populacional armênio, esses foram divididos em seis vilayets – ou províncias. A questão é que, após a Guerra da Crimeia, povos muçulmanos, como os circassianos, emigraram para dentro das fronteiras do Império Otomano, fugindo do processo de russificação levado a cabo pelo czarismo.[22] Isso aumentou a tensão entre os povos recém-chegados e os armênios já radicados. A sedentarização dos curdos, bem como o nascer de um sentimento panislâmico e panturquista, também contribuíram para o acirramento dos conflitos nas províncias. Diversos grupos disputavam o mesmo nicho geográfico e administrativo, o que gerou inúmeros protestos do lado armênio junto à Porta, denunciando a violência e abusos dos curdos no trato com os cristãos. O governo otomano, entretanto, não atendeu ao chamado armênio para a execução de reformas na estrutura do império, de forma a apaziguar os ânimos acalorados que tomavam conta da porção oriental. Assim, a saída visualizada pelas autoridades armênias foi recorrer às potências ocidentais, de forma a pressionar a Porta de fora para dentro, chamando-a a assumir as responsabilidades pelos acontecimentos.[23]

Os conflitos entre as minorias não eram sanados pelas autoridades otomanas justamente porque, aos olhos do sultão Abdul-Hamid II, a aniquilação mútua das diversas etnias que compunham o mosaico da fração oriental do império era interessante. Explorando o fanatismo religioso e aproveitando-se da apatia internacional, o sultão inflamava com um discurso radical os muçulmanos contra os cristãos armênios para justificar e aplicar uma ação de extermínio na região. Os interesses do sultão eram claros: além da nítida intolerância religiosa e étnica específica para com os armênios, Abdul-Hamid II temia que a questão armênia servisse de álibi para uma intervenção russa no Império Otomano, assim como aconteceu com a questão balcânica.

Abdul-Hamid II via o império sendo penetrado, cada vez mais, pelo capital ocidental, principalmente após a crise financeira otomana de 1876, quando a Porta declarou moratória. O país que mais aproveitou esse momento de fragilidade foi o Império Alemão. Um acordo de chanceleres cedeu à Alemanha o direito de ser a financiadora do exército otomano, armando-o com modernos materiais bélicos vindos de Berlim. Além disso, ficou a cargo dos oficiais alemães o treinamento da força terrestre otomana aos moldes ocidentais, tornando-a combativa perante os maiores exércitos mundiais. Fora dos acordos militares, o Deutsche Bank, uma das mais poderosas instituições financeira europeias, também começou a operar dentro das fronteiras otomanas.[24]

Apesar do acordo com a Alemanha, a entrada do Ocidente no império de Abdul-Hamid II era vista com desconfiança pelo sultão, sentimento esse agravado pelas perdas territoriais do império nos Bálcãs desde 1870 e pela crescente escalada social e econômica dos armênios após o Tanzimat, o que fez com que o governante deflagrasse uma política pan-islâmica, fortalecendo o elemento muçulmano que vivia no império. Assim, ele conseguiu legitimar a união de turcos, curdos e outras etnias contra o elemento cristão – grego e, principalmente, armênio –, tido como causador de todos os problemas econômicos e sociais do Império Otomano.

É importante perceber a relação direta que há entre a crise econômica e política que se abate sobre o império, atingindo principalmente os turcos, e a gradual radicalização do discurso pan-islâmico, dotando as minorias cristãs – e as Potências – de culpa pelas mazelas do período. Tal percepção aumentou após a implementação do Tanzimat, que permitiu a ascensão armênia se comparada com seus compatriotas turcos. O pan-islamismo de Abdul-Hamid II era uma forte reação ao otomanismo do Tanzimat. Na concepção do sultão e seus correligionários, o império não era para os otomanos, mas apenas para os muçulmanos, excluindo armênios, assírios, gregos e outros súditos cristãos ou não islâmicos.

Ademais, o impacto das perdas territoriais nos Bálcãs já no segundo ano de sultanato de Abdul-Hamid II se somava às radicalizações nacionalistas tanto de turcos como de armênios, agitando o cenário político e social no império de finais do século XIX. Nesse sentido, o sultão, temeroso de um levante armênio no nordeste da Anatólia incentivado pelas potências europeias, lançou-se sobre os armênios em uma empreitada aniquiladora, com o intuito de desmobilizar as possíveis pretensões emancipatórias desses cristãos através da aniquilação física e cultural. Essa é a explicação oferecida por Henry Morgenthau para os morticínios de armênios na década de 1890.[25] As investidas de Abdul-Hamid II seriam uma espécie de massacre preventivo, isto é, antes que os armênios se sublevassem contra a Porta e alcançassem a sua independência, o sultanato deveria agir para evitar que uma onda revolucionária e separatista acontecesse na Anatólia, seguindo o que vinha acontecendo nos Bálcãs.

A ascensão dos Jovens Turcos

A situação do Império Otomano piorava a cada dia. A dívida externa da Porta alcançava cifras impagáveis, o que obrigava o governo a negociar com os seus credores ocidentais. Assim, o imperialismo europeu se fazia presente por meio de seu capital, cujos interesses divergiam de acordo com a origem. Para a França, interessava a integridade do sultanato otomano, pois a queda desse abriria um nicho no qual o Império Alemão poderia penetrar e ganhar força, ameaçando assim os interesses da primeira potência na região.[26] Ambos os países disputavam também o direito de fornecer armas e de construir e usufruir as ferrovias na Anatólia. As duas contendas foram vencidas pelos alemães. Esse país teve um papel crucial nos últimos anos do Império Otomano, principalmente após a visita do Imperador Guilherme II.

Nesse contexto, uma onda liberal advinda da Europa já vinha efervescendo os otomanos. Dentro da sociedade otomana, jovens estudantes de famílias abastadas do império e com contato direto com as mais recentes ideias europeias – principalmente, o positivismo – começaram a questionar a organização da Porta e os rumos que o império estava tomando. Dentro desses círculos de intelectuais, compostos também pelo jovem oficialato do exército otomano, tomou forma o que viria a constituir depois o Comitê União e Progresso[27] – Ittihad ve Terakki – que ficou mundialmente conhecido pela alcunha de Jovens Turcos.

Com propostas reformadoras que agregavam os diversos povos otomanos, o Comitê União e Progresso obteve apoio das minorias que habitavam o império e viam nos Jovens Turcos uma esperança de melhora das condições políticas, sociais e econômicas. Assim, importantes forças políticas, como a Federação Revolucionária Armênia (FRA), aderiram ao programa do Comitê, inclusive enviando delegados para compor um congresso de oposição ao sultanato em Paris. Os delegados clamavam, sobretudo, pela queda do regime de Abdul-Hamid II, em benefício de um sistema parlamentar e constitucional de governo. A FRA, fiel à sua orientação ideológica, considerava lícito recorrer ao uso de meios revolucionários para atingir tais objetivos.[28] Ou seja, mais que incentivar o movimento emergente no império, os armênios – ou parte deles – compunham e fortaleciam politicamente a frente contra o absolutismo hamidiano.

Ocorre que, em 1908, estourou outra questão nacional nos Bálcãs que ameaçava a integridade territorial do império. O movimento emergente na Macedônia foi o estopim para que as forças políticas oposicionistas se reunissem e assediassem o sultão. A parte dos Bálcãs ainda sob jugo otomano – Macedônia e, principalmente, Salônica – concentrava muitos dos oficiais simpáticos aos novos ventos que sopravam na direção do império. Dessa forma, a efervescência de uma questão nacional, que almejava se insurgir contra o governo instalado, era uma boa oportunidade para o crescimento da frente de oposição a Abdul-Hamid II.

Em julho de 1908, contingentes militares comandados por figuras como Niazi Bey e o jovem oficial Ismail Enver se juntaram aos rebeldes da Macedônia e Albânia para pressionar politicamente a Porta a ceder às exigências dos rebelados. Gregos e búlgaros se juntam ao movimento que, fortalecido, enviou um ultimato ao sultão: a Constituição de 1876 deveria estar em vigor dentro de 24 horas ou as forças oposicionistas marchariam rumo à Constantinopla. Enfraquecido politicamente e militarmente ameaçado, o sultão cedeu às pressões oriundas dos Bálcãs e restaurou a Constituição. Assim, a vitória dos Jovens Turcos permitiu ao Comitê União e Progresso, restrito a algumas regiões do império, atingir o núcleo otomano do qual suas ideias passariam a emanar por toda a Anatólia a partir de então.[29]

Ainda em 1908, Bulgária, Creta e Grécia proclamaram suas independências da Porta, e a Bósnia foi anexada pelo Império Austro-Húngaro. A perda de territórios enfraquecia o discurso do comitê de manutenção da pujança do império. As forças pró-sultão se manifestaram contra a política dos Jovens Turcos. Temerosos de um contragolpe de Abdul-Hamid II, o mesmo exército da Macedônia, que tornou o golpe de julho de 1908 possível, interveio e pressionou o Parlamento a exilar o sultão em Salônica. No trono vacante, ascendeu o irmão de Abdul-Hamid II, como figura meramente ilustrativa. Os Jovens Turcos e o Comitê União e Progresso se sagraram definitivamente vitoriosos em sua revolução. No entanto, o golpe de Estado de fato só se concretizou em 1913, quando os ittihadistas – ou seja, membros do Ittihad ve Terakki, os Jovens Turcos – assumiram o poder em definitivo, sem figurantes para fazer um mise en scène, de forma a legitimar a ação golpista.

Os armênios celebraram a vitória dos Jovens Turcos. Esses últimos, fortalecidos politicamente, derrubaram o regime hamidiano retomando a Constituição de 1876, o que era uma antiga reivindicação armênia. Entretanto, o fortalecimento político do Comitê União e Progresso fazia com que a sua cúpula planejasse alçar voos mais altos e distantes, e esses não pareciam tão liberais quanto o discurso anterior deixava transparecer.

Com a Constituição em vigência e o panorama de um futuro estável e próspero, o movimento revolucionário armênio foi em parte desarticulado. Os partidos revolucionários armênios tomaram feições democráticas e disputaram as eleições do Parlamento otomano como atores políticos institucionalizados no império. Contudo, a vitória dos Jovens Turcos na porção ocidental e em Constantinopla não alterou o quadro caótico que os armênios vivenciavam na parte oriental da Anatólia. Lá, os direitos constitucionais não tinham valor, pois o Estado não se fazia presente para colocá-los em prática. Destarte, as populações dos seis vilayets orientais ainda eram assediadas por grupos curdos e turcos. A insegurança dos tempos de Abdul-Hamid II ainda estava longe de se dissipar naquelas terras.

A precariedade das relações entre turcos e armênios era patente. Conflitos como o que ocorreu na cidade de Adana, na Cilícia, em 1909, ilustram bem esse ponto. A Cilícia – ou Armênia Menor, região localizada no sul da Anatólia, banhada pelo Mar Mediterrâneo – não havia sido molestada pelas forças paramilitares do sultanato, mas viu-se em situação crítica em março de 1909. Região economicamente próspera, com 25% da população composta por armênios, a Cilícia sempre se destacou pelo potencial comercial explorado, sobretudo, por judeus e armênios.[30]

Na ocasião, a convivência entre armênios e turcos tomou feições agressivas quando a Porta nomeou dois homens para os cargos de vali e comandante militar que haviam participado das deportações e massacres hamidianos nos anos de 1890. Em torno desses nomes, os movimentos reacionários turcos se reorganizaram e se armaram, na iminência de um conflito com os cristãos da Cilícia. Por outro lado, a desarticulação dos braços armados das entidades políticas armênias os tornava presas fáceis de seus inimigos.

Finalmente, a tensão se converteu em ação. Em Adana, a morte de dois turcos pelas mãos de um armênio em uma briga desencadeou uma onda de violência por toda a Cilícia. Turcos exaltados conclamavam os seus compatriotas a combater os cristãos armênios, causadores de todo o mal-estar que a região presenciava.[31] As autoridades de Adana solicitaram à Porta reforços militares, que foram prontamente enviados à cidade, a fim de reprimir as agitações. Contudo, com um discurso anticristão e anti-armênio, as forças militares foram lançadas sobre as propriedades dos armênios da cidade, ceifando a vida de centenas deles.[32]

Os conflitos perduraram por meses e transcenderam os limites de Adana. Mais uma vez, repetindo a prática dos massacres hamidianos, houve a demonização do elemento armênio, posto como causador de todo o mal. Com o uso do exército otomano, legitimado e apoiado pela sociedade turco-muçulmana, não foi difícil que o saldo do conflito tomasse grandes proporções: entre 15 a 20 mil mortos.[33]Assim, Adana foi a prova que a mera mudança do governo central e a Constituição não seriam suficientes para apaziguar os ânimos entre turcos e armênios. O acontecimento de 1909 mostrou ao mundo que o passado recente da Porta não estava sepultado e ainda que os armênios permaneciam como alvo do ímpeto das autoridades turcas.

Enquanto armênios e turcos se culpavam mutuamente pelos acontecimentos, as potências cobravam da Porta medidas para que novos conflitos não tomassem lugar no império. O governo dissimulou. Entretanto, era patente a participação das tropas legalistas otomanas no massacre de Adana, o que provava o envolvimento doloso da Porta. Para Balakian, Adana foi uma espécie de teste para a relação entre armênios e turcos na nova era do Império Otomano.[34] Segundo Yves Ternon, 1909 constitui o elo genocida entre os anos de 1890 e 1915,[35] elo esse que nos permite concluir que os planos de expurgo do elemento armênio de dentro do Império Otomano nunca deixaram de existir na cúpula dos Jovens Turcos. A aniquilação dos armênios sempre esteve em pauta, esperando apenas o momento ideal para tomar formas de solução final.

O ano de 1909 marca também o início da mudança de postura dos Jovens Turcos. A política otomanista dá lugar a uma prática nacionalista e excludente das minorias, que teria o seu ápice na solução genocida da questão armênia em 1915. Em 1908, o Comitê União e Progresso ainda não tinha a estrutura que seria capaz de organizar o genocídio poucos anos mais tarde. Ameaçados por correntes oposicionistas e reacionárias no ambiente político do império, os Jovens Turcos firmaram uma posição por um Estado forte e centralizado, cujo comando emanaria de uma única fonte em Constantinopla.

O Segundo Congresso do Comitê União e Progresso, em 1910, ensejou a criação de um conclave liderado por Mehmet Talat Paxá, que defendia o abandono da política otomanista e a adoção do panturquismo, prevendo a eliminação dos cristãos hostis ao Comitê. Essa tendência ganhou força, e os encontros subsequentes ratificaram posições que em nada lembravam o discurso de agregação e igualdade de poucos anos atrás.[36]

Os congressos eram um termômetro da situação política dos Jovens Turcos e de todo o império, mas não eram a causa da radicalização do discurso do Comitê. Segundo Yves Ternon, a derrota do Império Otomano na Guerra dos Bálcãs, nos primeiros anos da década de 1910, é a melhor explicação para o panturquismo ter virado política de Estado.[37] Com a insurgência definitiva dos territórios balcânicos, unidos por uma grande coalizão contrária à Porta, o Império Otomano perdeu cerca de 25% de seu território e em torno de cinco milhões de pessoas.[38]

Além da piora da estabilidade política da Porta, com os movimentos oposicionistas crescendo e forçando o Comitê a manobrar politicamente e com a redução populacional eslava e cristã do império decorrente da independência balcânica, foi a primeira vez que os turcos islâmicos se tornaram a maioria absoluta no império.[39] Como consequência dessa alteração demográfica e social, o discurso nacionalista panturquista reverberou com mais ênfase na população que, descontente com as derrotas nos Bálcãs, seria a base de apoio para a radicalização das ações dos Jovens Turcos.

No campo internacional, a Porta elegeu o Império Russo como adversário por esse último motivar os ensejos libertários dos Bálcãs, graças à também nacionalista postura pan-eslava. Ademais, a Rússia exercia sua influência no Cáucaso, área ocupada pelos muçulmanos, mas principalmente pelos armênios.[40] A Armênia, assim como em um passado não tão distante, era uma constante ameaça de emancipação de Constantinopla e, consequentemente, uma maior amputação territorial do Império Otomano. O temor que a Armênia virasse uma “nova Bulgária”, como afirmava Talat, fez com que os cristãos da Anatólia, Ásia Menor e Cáucaso fossem os novos alvos eleitos pelo Comitê União e Progresso.[41] Além disso, dentro da proposta de uma grande Turquia que unificasse os povos de origem turca da Europa e Ásia, a Armênia era um enclave no núcleo desse país que, para Yves Ternon, longe de ser uma utopia, era o objetivo almejado pelos Jovens Turcos.[42]

Como uma entidade paraestatal, o Comitê União e Progresso criou em sua estrutura grandes objetivos a serem alcançados a qualquer preço. A pauta panturquista estava na ordem do dia. Com esse discurso, a legitimação do genocídio armênio seria feita assim que os Jovens Turcos elegessem os armênios como o mal a ser extirpado do império. A partir daí, coube ao Comitê montar o aparelho genocida utilizando o controle do Estado. Nomeando secretários, delegados, governadores e inspetores, os arquitetos do genocídio conseguiram ter capilaridade em todo o império para atingir os seus fins.

Nessa altura, as mais proeminentes figuras, que ainda na primeira década do século XX deram origem ao movimento que derrubaria o sultanato, estavam estabelecidas em importantes cargos da administração otomana. O carismático Ismail Enver, herói da Guerra dos Bálcãs, ocupou a pasta da Guerra, e Mehmet Talat tornou-se chefe do pragmático Ministério do Interior. Essa pasta possuía a prerrogativa de nomear e destituir governadores e autoridades de províncias. O Ministério lançou mão dessa prática, por exemplo, na cidade de Van, em 1915, ao destituir um governador mais tolerante e político pelo radical Cevdet Bey, cunhado de Enver Paxá.[43]

Idealizada por Talat, a Organização Especial – Teshkilât-i Mahsusa – funcionava como uma força paramilitar da cúpula do Comitê União e Progresso e, em alguns momentos, chegou a ter mais poder e prestígio do que o próprio governo.[44] Composta por nomes como Ziya Gökalp,[45] Mehmet Nazim, além do próprio Talat, a Organização foi responsável por manter vivos os princípios radicais do nacionalismo, panturquismo e anticristianismo que permearam o Comitê União e Progresso durante a maior parte de sua existência. Para Taner Akçam, a decisão de levar a cabo o genocídio partiu de alguns setores dos Jovens Turcos que ocupavam alguns ministérios, e não de todo o gabinete otomano.[46]

Enfim, a burocracia otomana foi deturpada para agir em prol do massacre. Porém, essa prática não constituía uma novidade. Na década de 1890, a mesma burocracia já utilizava o aparelho estatal para extorquir os armênios, enquanto grupos armados executavam a ação de ordem prática, ou seja, o assassinato.

A prática genocida

A Grande Guerra foi deflagrada em 1914. Para a Porta, soou como uma oportunidade de revanche em cima das potências que, na opinião dos Jovens Turcos, foram as responsáveis pela derrota da Guerra dos Bálcãs.

Segundo Balakian, a Primeira Guerra Mundial criou para o Comitê União e Progresso uma condição de “guerra total”,[47] ou seja, uma mobilização nacional em torno de um objetivo beligerante, envolvido em um sentimento de risco à segurança nacional, além de uma profunda xenofobia e um senso de caos. Em uma situação como essa, os perpetradores podem associar o grupo-alvo com os inimigos, legitimando e mascarando assim a sua ação criminosa.[48] No genocídio armênio não foi diferente. A rivalidade russo-turca existente há anos estava então institucionalizada. A Guerra colocou os impérios de lados opostos, exacerbando ao máximo as divergências entre ambos. A Organização Especial do Comitê União e Progresso formou grupos de curdos nômades e de prisioneiros anistiados para invadir o território russo e incitar as populações islâmicas que viviam nesse país a se rebelarem contra o czarismo.[49] A Primeira Guerra Mundial serviu tanto de cortina para esconder os crimes do Comitê quanto como pretexto para que os Jovens Turcos pudessem lançar suas forças a fim de aniquilar os armênios.

Dois pretextos básicos foram usados pelos Jovens Turcos para legitimar – e, posteriormente, negar – os massacres: uma possível revolta armênia separatista[50] e o apoio que esse povo estaria dando ao Império Russo.[51] Ambas as acusações são infundadas ou supervalorizadas. Mas o alto escalão do Comitê tinha tudo o que precisava: o plano, as condições materiais, a oportunidade e o pretexto.

No dia 24 de abril de 1915,[52] o Comitê deu ordens para a polícia de Constantinopla procurar e prender cerca de 250 armênios residentes na cidade. As prisões não eram aleatórias. Só interessavam às lideranças da comunidade, membros da intelligentsia armênio-otomana. Eliminando essas figuras, os Jovens Turcos intencionavam silenciar os armênios, “decapitando” a comunidade.[53] Os intelectuais presos, deportados e mortos serviriam de exemplo a todos os armênios do império.

A ação de 24 de abril não foi isolada. Concomitantemente, a Porta ordenou o desarmamento de todos os armênios – fossem os civis, fossem os que ocupavam postos nas Forças Armadas – e a realocação desses em “batalhões especiais” que eram, na realidade, grupos de trabalhos forçados para a construção de estradas Anatólia adentro. Quando os trabalhos eram finalizados, aqueles que ainda não haviam morrido devido às péssimas condições de trabalho eram assassinados.[54]

Nos seis vilayets armênios, a prática genocida foi organizada metodicamente. Curdos, turcos e outras minorias residentes nas redondezas – a exemplo do que aconteceu nos massacres hamidianos – foram usados como forças paramilitares com a missão de percorrer as centenas de vilas e cidades da Anatólia, preparando os armênios para serem deportados e agindo com brutal violência. Muitos prisioneiros do império foram anistiados em troca de, uma vez soltos, tomar lugar nos massacres. Esses elementos formavam forças paramilitares a serviço do Comitê União e Progresso, e seus comandantes reportavam diretamente a Enver e Talat Paxá.[55]

Com as populações seminômades, as autoridades otomanas fizeram um pacto: os primeiros se lançariam sobre as cidades e vilas armênias, expulsando os que lá viviam através de quaisquer meios, e poderiam ficar com os bens e propriedades. Ou seja, o genocídio armênio gerava um espólio para os curdos e turcos sem posses que rodavam pela Anatólia e Ásia Menor em busca de oportunidades de sobrevivência. Segundo Toynbee, muitos muçulmanos, expulsos dos Bálcãs após a independência das possessões otomanas, também estavam entre essas colunas que expulsavam e matavam armênios.[56] Para Vahakn Dadrian, essa prática tinha também uma função social e econômica para a Porta.[57] Curdos e outros grupos seminômades eram populações marginais no império e viviam a mercê do pastoreio e de eventuais saques, o que criava um desequilíbrio no interior da Anatólia. Assim, o genocídio e a distribuição do espólio resultante das desapropriações e assassinatos foram uma espécie de redistribuição forçada de renda.[58] O argumento do sociólogo ganha força se lembramos da importância que a expropriação tinha para o Império Otomano desde suas origens, sendo uma prática validada culturalmente e vital para a manutenção econômica do sultanato.[59] Além do espólio propriamente dito, muitos armênios, com a incapacidade de levarem seus bens nas caminhadas de deportação, eram obrigados a vender a preços ínfimos aos turcos que estivessem dispostos a comprá-los.[60]

A chegada dos grupos armados nas cidades e vilas era apenas o primeiro passo. A partir daí, os armênios eram destituídos de suas casas e posses, organizados em colunas que marchariam até “colônias agrícolas”, afastadas das áreas que estavam ameaçadas por causa da Guerra. Obviamente, tais colônias não existiam e eram apenas um eufemismo para grandes campos de concentrações de deportados, como o da cidade de Aleppo. Depois de reunidos na cidade, os armênios marchavam rumo ao deserto de Der-el-Zor, ou seja, rumo à morte.[61]

O fato é que a maioria dos armênios deportados sequer chegava aos campos de refugiados. As colunas de mulheres, crianças e idosos iam se desintegrando pelo caminho, com muitos de seus componentes morrendo por inanição e maus-tratos. Muitas mulheres e crianças eram raptadas e levadas para haréns, como parte do espólio conquistado.[62]Outras tantas eram estupradas e mortas. Em algumas regiões, a deportação dos armênios era feita por ferrovias, inaugurando assim o uso das estradas de ferro para transportar a população civil com propósitos genocidas.[63]

Para resumir a prática genocida na Anatólia e Ásia Menor, Balakian elenca as principais ações do alto escalão do Ittihad ve Terakki da seguinte forma: 1) recrutamento dos homens aptos a servirem ao exército, mas nas frentes de trabalhos forçados, após terem sido previamente desarmados; 2) prisão dos armênios com condições de exercer algum tipo de resistência aos grupos de massacre; 3) preparação da Organização Especial do Comitê União e Progresso para exterminar os armênios e pilhar suas propriedades; 4) priorização da destruição de cidades que resistiram aos massacres hamidianos em 1895-96, como Zeytun; 5) utilização da resistência dos armênios – como na cidade de Van – para legitimar os ataques otomanos, servindo como pretexto para o Comitê União e Progresso alegar que os morticínios foram respostas à traição armênia,[64] 6) eliminação da intelligentsia armênia em Constantinopla no dia 24 de abril de 1915; 7) organização das deportações e dos grandes massacres,[65] que ceifaram entre 800 mil e um milhão de vidas entre os anos de 1915-17.[66] Normalmente estes são os anos mais lembrados do genocídio. Todavia, as perseguições não terminam nesse período. Além de massacres dispersos que ocorreram até 1922, houve uma parte do genocídio que não foi praticada por gendarmes e soldados, mas por diplomatas e políticos.

Os Tratados de Paz

O fim da Primeira Guerra Mundial veio em 1918 e, com ele, a derrota do Império Otomano e das potências centrais. Os países beligerantes se puseram então a negociar as rendições e os espólios do grande conflito. Para além de Versalhes, outros tratados tiveram lugar em diferentes momentos, cada qual tratando de interesses específicos.

A questão armênia não poderia estar excluída das negociações. Em 1918, o mundo tinha total conhecimento dos massacres ocorridos no interior do Império Otomano. Alguns países solidários à causa, incluindo o Brasil, estavam dispostos a negociar com a derrotada Porta uma Armênia livre e independente, como lar nacional para os que sobreviveram. O povo armênio se tornou, definitivamente, uma nação diaspórica.

Em março de 1918, a Rússia Soviética negociou em Brest-Litovsk com os Impérios Alemão, Austro-Húngaro e Otomano, bem como com a Bulgária. Nessa oportunidade, a Rússia aceitou evacuar as regiões de Batum, Kars e Ardahan e o restante da Anatólia ocupada, devolvendo as terras aos turcos. A essa altura, a Armênia compunha o Comitê Transcaucasiano, com Geórgia e Azerbaijão. A união era uma tentativa dos três países de se fortalecerem para terem suas aspirações atendidas nas negociações que aconteciam. Em 28 de maio de 1918, algumas semanas depois de Brest-Litovsk, o Comitê entrou em colapso, e a Armênia se declarou um Estado independente, tendo como território nacional a chamada “Armênia russa” e uma parte dos seis vilayets que compunham o Império Otomano e que foram palco do genocídio.[67]

O tratado mais importante para os armênios foi o firmado na cidade de Sèvres em 1919. Na ocasião, duas delegações armênias se sentaram à mesa para discutir qual seria o espólio que caberia ao país. As pretensões territoriais compunham a chamada “Armênia de mar a mar”, que compreendia os seis vilayets, a Armênia russa, as províncias ocidentais do Império Otomano e a Cilícia. Evidentemente, numa negociação de grande porte, o pedido inicial armênio foi elevado, para que durante as discussões as pretensões de cada parte fossem sendo ajustadas de acordo com a viabilidade.[68]

A situação da Armênia em Sèvres foi acompanhada por Woodrow Wilson. O presidente norte-americano seria o responsável por delimitar as fronteiras do novo Estado armênio. Os turcos abdicariam dos territórios delineados por Wilson e garantiriam a segurança e a integridade das minorias que viveriam dentro de suas fronteiras. Além disso, era de responsabilidade da Porta julgar os culpados pelos massacres em tempos de guerra.[69] Em 10 de agosto de 1920, a Grã-Bretanha, França, Itália, Japão, Armênia, Bélgica, Grécia, Polônia, Portugal, Romênia e Tchecoslováquia assinaram o Tratado de Sèvresa por um lado, enquanto a Turquia era signatária pela outra parte.

O Tratado de Sèvres atendia às expectativas dos armênios, dando a esses o território historicamente reivindicado, bem como obrigava os turcos a reconhecerem os crimes de guerra. Contudo, ele nunca entrou em vigor. A ascensão de Mustafá Kemal na Turquia deu uma nova roupagem ao nacionalismo da população e pontuou como princípio a modernização e a ocidentalização do país, às custas do desrespeito ao Tratado que desintegrava o território otomano. Em dezembro de 1920, o exército kemalista começou seus ataques contra os territórios armênios, de forma a recuperar o que estava sob controle do país vizinho.[70]

A reação internacional foi imediata e contundente. A Inglaterra e os EUA vociferaram contra a ofensiva kemalista, enquanto países como Espanha e Brasil[71] se mostravam dispostos a colaborar diplomaticamente para a resolução do conflito. Porém, a ajuda prometida nunca chegou de fato a ser enviada, e a Liga das Nações vetou a entrada da Armênia na entidade. Desamparada, a Armênia se via mais uma vez frente a frente com a ameaça turca, sem ter a quem recorrer. A única opção era ceder a autonomia em troca da existência e, em 2 de dezembro de 1920, a Rússia revolucionária anexou os territórios armênios de Yerevan e Nagorno-Karabah.

Na Turquia, Mustafá Kemal ficaria conhecido como o “pai dos turcos” e “eterno líder”. Assim como Paxá, suas vitórias e glórias nos campos de batalha cobriram-no de prestígio na população. Assim, a tradição militarista otomana e o peso sociopolítico se fizeram presentes. Foi sob o seu governo nacionalista que a moderna República da Turquia foi fundada, e as derrotas do Império Otomano foram sepultadas. Se a queda da Porta foi inevitável, o genocídio foi um plano elaborado e bem-sucedido. Metade da população armênia otomana – que era de cerca de dois milhões de pessoas antes da Grande Guerra – foi dizimada, e a Turquia conseguiu manter a sua integridade territorial através do Tratado de Lausanne, em 1923, que entrou em vigor no lugar de Sèvres, rejeitado por Kemal.

A questão é que a Armênia wilsoniana não interessava a ninguém. O território desenhado pelo presidente norte-americano faria da Armênia uma nação extensa, forte e sob o protetorado norte-americano, o que para a Rússia não era interessante. Esta, por sua vez, abriu mão, desde o Tratado de Brest-Litovsk, das terras da chamada Armênia turca. A porção caucasiana foi preservada e, em 1920, anexada. Mais uma vez, os armênios perderam o direito de ter um Estado nacional livre e independente, situação que só iria se reverter em 1991, com o fim da União Soviética.

Considerações finais

Após a Segunda Guerra Mundial, os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer preocupavam-se com os riscos de repetição dos mecanismos que tornaram o Holocausto possível.[72] Em obra posterior, o próprio Adorno relembra o genocídio armênio, acusando as autoridades alemãs de saberem sobre o ocorrido na época dos acontecimentos, apesar do silêncio absoluto sobre esse crime contra a humanidade.[73] O Holocausto já era a reedição da violência, da exclusão, da intolerância e da aniquilação que o genocídio armênio mostrou ao mundo.

A reincidência genocida acontece, em grande medida, por conta da apatia mundial frente aos horrores perpetrados no interior do Império Otomano, em Auschwitz, nos gulags, em diferentes prisões e campos de extermínio espalhados pelo mundo a partir de 1915. Essa apatia não é acidental, como bem destaca Samantha Power. Há a necessidade de refletir sobre os motivos que, por detrás das cortinas, mitigam o dever ético e moral da comunidade internacional em impedir a perpetração de genocídios. A inação de povos e dos governos perante os genocídios é prática política deliberada. Por mais que as missões humanitárias e religiosas norte-americanas na Anatólia tenham sido pioneiras para tentar parar o massacre, assim como a ação do embaixador dos EUA no país, Henry Morgenthau, o governo norte-americano hesitou ao prestar ajuda efetiva ao povo armênio no momento que o genocídio ocorria. O presidente Woodrow Wilson, que ao final da guerra iria “adotar” a Armênia, recusou-se a declarar guerra contra o Império Otomano e nem sequer rompeu as relações diplomáticas com este.[74] Outra potência, a Alemanha, era aliada de primeira hora do Comitê União e Progresso. Se não podemos discorrer com clareza acerca da função desempenhada por oficiais alemães nas deportações e mortes de armênios, podemos seguramente dizer que eles estavam cientes do que ocorria com os armênios e adotaram uma postura omissa frente às mortes.

Também ocultada por uma guerra mundial, a inação internacional diante do Holocausto seguiu os passos dos acontecimentos com os armênios. Enquanto os nazistas faziam o seu papel de perpetradores, ou seja, negando a morte sistemática de judeus, os Aliados mantinham distância do caso, alegando que mortes daquele calibre não poderiam realmente estar acontecendo na Alemanha.[75] Para os norte-americanos, a vitória na Segunda Guerra Mundial seria a melhor maneira de agir contra a matança de judeus nas “fábricas nazistas de processamento de cadáveres”.[76] A incredulidade para matanças em larga escala permeou tanto o caso armênio como o judeu. No primeiro, a sociedade ocidental não queria acreditar na brutalidade das mortes dos armênios e, no segundo, o Ocidente achava descabidas as acusações de que milhões de judeus estavam sendo reduzidos a cinzas. Em suma, os Jovens Turcos e os alemães nazistas quebraram os paradigmas da história de tal modo que, para os céticos expectadores ocidentais, tudo aquilo não passava de fantasia.

Vahakn Dadrian destaca em um de seus trabalhos outros pontos de intersecção entre o genocídio armênio e o Holocausto. O autor mostra como, em ambos os casos, partidos políticos tomaram o aparelho estatal – Ittihad ve Terakki, na Turquia, e Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, na Alemanha – tendo figuras carismáticas à frente – Ismail Enver Paxá e Adolf Hitler, respectivamente – com desígnios radicais que reverberaram na população.[77]

A comparação entre os dois crimes contra a humanidade também encontra lugar nas perseguições ocorridas no início dos processos de extermínio. A Kristallnacht, pogrom que depredou propriedades e levou cerca de 20 mil judeus de grandes cidades da Áustria e da Alemanha para campos de concentração durante novembro de 1938, foi o acontecimento correlato ao 24 de abril de 1915 em Constantinopla, quando os intelectuais armênios foram presos e deportados. Mais do que causar um grande impacto demográfico, esses massacres têm como objetivo enviar uma mensagem ao restante da população-alvo, instalando o medo e a confusão.

É possível comparar também a utilização das deportações como mecanismo de genocídio. Principal arma das autoridades do Comitê União e Progresso para dar cabo dos armênios, as marchas para a morte conduzidas pelos grupos armados curdo-turcos tornavam possível a eliminação, por inanição, de centenas de milhares de armênios, sem que muita tecnologia precisasse ser empregada.[78] No genocídio perpetrado pelos nazistas, as marchas da morte foram uma forma eficaz de esvaziamento dos campos de concentração no final da Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que acontecia o abandono de milhares de prisioneiros nas estradas. Os Einsatzgruppen – unidades móveis de execução – faziam o trabalho de deportação no interior da Polônia e da Lituânia:

Homens de 14 a 60 anos eram conduzidos para um único local, uma praça ou um cemitério, onde eram trucidados, metralhados ou mortos com granadas de mão. Tinham de cavar suas próprias sepulturas. Crianças de orfanatos, idosos internados em asilos, doentes hospitalizados eram fuzilados, mulheres eram mortas nas ruas. Em muitas cidades, os judeus eram levados para “um destino desconhecido” e mortos nas florestas próximas.[79]

Para os armênios, a narrativa segue da seguinte maneira:

Há poucos homens entre eles, muito poucos, pois a maior parte foi morta pela estrada. Todos contam a mesma história de terem sido atacados e roubados pelos curdos, por mais de uma vez, e um grande número, sobretudo de homens, foi assassinado. Foram também mortas mulheres e crianças. Muitas morreram de doença e debilidade pelo caminho (…) Têm chegado vários grupos e, depois de ficarem um ou dois dias, continuam sua marcha, aparentemente sem destino. Os que têm chegado aqui são apenas uma pequena parte dos que marcharam. Continuando a forçá-los a marchar desta forma será possível dispor deles em espaço de tempo relativamente curto.[80]

Para “um destino desconhecido” e em uma marcha “aparentemente sem destino”. Longe de meras coincidências semânticas, as semelhanças entre os dois testemunhos de diferentes genocídios explicitam o papel das deportações tanto no Holocausto quanto no genocídio armênio. Também é conhecido o uso de ferrovias pelos turcos a fim de deslocar um grande contingente da população armênia, como os alemães fariam com os judeus poucos anos mais tarde. No limite, o genocídio armênio inaugura na modernidade a transferência populacional como instrumento letal.

A queda do Império Otomano provocou modificações políticas e sociais em seu interior. A perda dos Bálcãs, no final do século XIX e início do XX, ensejou uma explosão anticristã, xenófoba e nacionalista que propiciou o ambiente ótimo para o surgimento dos Jovens Turcos – Comitê União e Progresso. Ainda, a pressão das potências – principalmente a rivalidade com o Império Russo – provocava um constante estado de medo no governo otomano de uma intervenção externa em seu território. Por fim, o nacionalismo e o crescente engajamento político dos armênios se somaram à equação, gerando um quadro altamente inflamável na Anatólia.

A grave crise econômica otomana piorou drasticamente o quadro caótico apresentado. Com os custos de vários conflitos e uma inflação nunca antes vista, a Porta não tinha estabilidade suficiente para conduzir tranquilamente os rumos políticos do império. Nesse cenário, surgiu o elemento estereotipado do armênio causador do mal-estar do Império Otomano, de mãos dadas com os interesses ocidentais que iam violentamente contra o nacionalismo turco e a sobrevivência do império.

A opção por tomar partido no conflito mundial junto aos Impérios Alemão e Austro-Húngaro, contra França, Grã-Bretanha e Rússia foi a forma encontrada pelo governo otomano de ter a revanche sobre as potências que apoiaram, na sua visão, as nações balcânicas nos conflitos que fragmentaram a porção europeia de seu império.

Além disso, a entrada na Primeira Guerra serviria, segundo Taner Akçam, para a expansão dos ideais panturqusitas e pan-islâmicos pelos diversos territórios balcânicos e russos que outrora pertenceram ao Império Otomano.[81] O historiador turco frisa a crescente pressão tanto interna, por parte dos armênios, como externa, oriunda das potências, para a execução de reformas nos vilayets orientais. Na visão dos Jovens Turcos, as reformas seriam mais uma derrota para os turcos, que preferiram resolver a contenda pela solução genocida. O genocídio foi uma tentativa de criar um Estado turco na Anatólia e, assim, manter vivo o império.[82]

Entretanto, nenhum desses fenômenos pode ser entendido como única causa, seja do genocídio armênio, seja do fim do Império Otomano. Todos os fatores enumerados são frutos da crise do império e das fracassadas tentativas do sultanato – e, posteriormente, do Comitê União e Progresso – em conter a trajetória descendente. Assim foi o genocídio armênio: a resposta do Império Otomano à sua própria queda, após anos de desgaste econômico, político e social.

Muito além de vivenciar a queda de impérios e o nascimento de nações e movimentos nacionais, a década de 1910 ficou especialmente marcada por apresentar ao mundo uma nova modalidade de crime: o assassinato em massa, que anos mais tarde seria nomeado de genocídio.[83] Nesse sentido, os Jovens Turcos foram modelos para os nazistas que, poucos anos mais tarde, também organizariam marchas pela morte, reuniriam suas vítimas em campos de concentração, demonizariam os elementos indesejáveis, classificariam esses como causadores de todo o mal etc. Entretanto, os nazistas foram julgados, e o Holocausto foi reconhecido tanto por seus perpetradores como pela comunidade internacional, enquanto o massacre de armênios é negado até os dias atuais.

O extermínio de judeus e a criação do crime de genocídio promoveu, algum tempo depois, um reajuste de terminologias entre os militantes da causa armênia. Imediatamente após o término da Segunda Guerra Mundial, poucos intelectuais categorizavam o massacre de armênios dessa forma. Mas isso mudou drasticamente em 1965 quando uma grande manifestação em Yerevan, capital da Armênia Soviética, fomentada pelo governo central marcou o 50º aniversário de início dos morticínios. A partir de então, cresceram as reivindicações para que os massacres de armênios no Império Otomano fossem conceituados como genocídio, dentro dos marcos da definição da ONU de 1948.[84] A estratégia de Moscou, ao estimular que os armênios soviéticos reivindicassem os territórios perdidos para a Turquia após o rompimento do Tratado de Sèvres, de 1920, consistia em melindrar o país vizinho, membro da OTAN e cabeça de ponte das potências ocidentais no Oriente Médio, a fim de frear quaisquer atitudes do governo turco que pudessem colocar em risco as posições soviéticas no Cáucaso.

A partir de então, a disputa pela aplicabilidade do conceito de genocídio no caso armênio se tornou mais intensa. De um lado, armênios soviéticos e da diáspora pressionavam suas respectivas áreas de influência para obterem resoluções de governos nacionais e de organismos multilaterais em favor do reconhecimento do genocídio armênio; de outro, a República da Turquia financiava publicações editoriais e centros de pesquisas ao redor do mundo para neutralizar as investidas armênias, ao mesmo tempo em que a diplomacia coordenada por Ancara trabalhava para destacar a singularidade da “Solução Final” no caso judeu durante a Segunda Guerra Mundial numa tentativa de enfraquecer a experiência armênia de algumas décadas antes.[85]

Nos anos 1970-80, a disputa que até então estava nos campos da academia e da diplomacia tomou contornos mais dramáticos. Extenuados pelo jogo político que girava em torno do lobby armênio, por um lado, e da negação como política de Estado na Turquia, por outro, grupos dissidentes de partidos políticos armênios que operavam em diferentes países decidiram partir para a luta armada como forma de propaganda da causa. Entre 1973 e 1985, cerca de 50 diplomatas turcos foram mortos durante ações armadas que visavam representações diplomáticas turcas pelo mundo.[86] A mais famosa delas, em outubro de 1983, terminou com a morte dos cinco militantes armênios que tomaram a Embaixada da Turquia em Lisboa.

Ainda que a estratégia dessas células armênias possa ser questionada, o fato é que as atenções do mundo naquele período se voltaram para a causa armênia. Enquanto o governo da Turquia se colocava em uma situação de fragilidade perante a opinião pública, utilizando da condenação do chamado “terrorismo armênio” para desqualificar as demandas daquele povo, os armênios aproveitavam a visibilidade causada pelos ataques para criar instituições educacionais e de pesquisa que fornecessem insumos para o debate, esperando fazer, assim, o contraponto ao esforço estatal turco.

Depois disso, os pedidos de reconhecimento do genocídio em diversos espaços políticos pelo mundo se intensificaram. Ainda em 1984, uma resolução conjunta da Câmara dos Representantes dos EUA solicitou que o dia 24 de abril de 1985 fosse declarado como o “Dia Nacional de Rememoração da Desumanidade do Homem para com o Homem”,[87] após intensas disputas entre parlamentares influenciados pelos lobbies de armênios e turcos, gerando texto lacônico. Uma resolução do Parlamento Europeu de junho de 1987 teve tom menos conciliador e definiu que:

(…) os trágicos eventos entre 1915-1917 envolvendo os armênios que viviam em território do Império Otomano constituem genocídio no sentido da Convenção pela Prevenção e Punição do Crime de Genocídio adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 9 de dezembro de 1948.[88]

Donald Bloxham destaca que essa crescente onda de conscientização europeia, no que tange à causa armênia e a não observância aos direitos humanos na Turquia, colaborou para frustrar os planos turcos de ingresso no que na época era chamado de Comunidade Econômica Europeia, antecessora da União Europeia. Não obstante essa derrota política, o país intercontinental não deixou de ter um peso relevante na geopolítica ocidental, sobretudo no contexto de incertezas da virada dos anos 1980-90.[89]

Com o fim da URSS e da Guerra Fria, todo o tabuleiro geopolítico foi alterado, assim como as estratégias dos armênios para obter o reconhecimento. A partir de 1991, a existência de um Estado armênio autônomo fez com que os trabalhos políticos feitos pelas comunidades diaspóricas ao redor mundo pudessem ter um centro, ainda que, não raramente, o governo em Yerevan e a diáspora discordassem drasticamente dos métodos e objetivos utilizados para angariar apoio à causa. Apesar dos grandes problemas enfrentados pela recém-independente república, como um terremoto de grande magnitude que destruiu uma importante cidade no crepúsculo dos anos soviéticos e um conflito territorial com o vizinho Azerbaijão – que acarretou no fechamento da fronteira armênio-turca por decisão unilateral de Ancara, em apoio aos aliados azerbaijanos em 1993 –, os anos 1990 foram promissores para a divulgação da causa e a obtenção de reconhecimento governamental do genocídio armênio. Na Europa, Grécia, Chipre e Bulgária reconheceram os acontecimentos de 1915 como genocídio, lançando mão da demanda armênia para causar certo desconforto à Turquia, adversária histórica dos três países[90] – sobretudo do país insular, cuja parte setentrional foi ocupada pelo exército turco nos anos 1970.

Na América Latina, o reconhecimento do genocídio tomou um caminho distinto. Com comunidades significativas presentes na Argentina, Brasil e Uruguai e, em menor grau, na Venezuela, Chile e México, os armênios gozavam de certa liberdade e autonomia para reivindicar seus direitos junto aos países onde residiam, uma vez que o subcontinente estava à margem do tabuleiro geopolítico, distante dos interesses imediatos da Turquia ou das potências ocidentais. O Uruguai foi o primeiro país no mundo a passar uma resolução legislativa que menciona os massacres de 1915. Em 20 de abril de 1965, os parlamentares uruguaios aprovaram o texto da Lei nº 13.326, que decreta o dia 24 de abril como “dia de rememoração dos mártires armênios”.[91] A grande concentração de armênios e descendentes na capital dessa pequena república platina certamente colaborou para o pioneirismo, em que pese as profundas cisões que marcam a coletividade de Montevidéu.

A onda de regimes autoritários entre os anos 1960-80 não permitiu que outros países sul-americanos seguissem o exemplo uruguaio. Apenas depois da redemocratização do subcontinente a causa armênia foi reinserida com vigor na pauta política. O Senado argentino aprovou texto nesse sentido em 1993,[92] ratificado por outras resoluções semelhantes nos anos 2000. Chile, Venezuela e, mais recentemente, Bolívia, trilharam o mesmo caminho.[93] A falta de articulação da coletividade armênia do Brasil junto às esferas políticas nacionais depois da redemocratização – não obstante a consecução da alteração do nome de uma estação de metrô na capital paulista para “Armênia”, em 1985, e a aprovação da Lei n° 6.468, de 19/05/1989, que institui o dia 24 de abril como o “Dia da Solidariedade para com o Povo Armênio”,[94] na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo – não permitiu que a demanda do reconhecimento chegasse aos poderes Legislativo e Executivo federais, embora as entidades da coletividade lutem, com apoio da República da Armênia, diuturnamente para que isso aconteça o mais rápido possível.

Conclusão

Se o Império Otomano foi o perpetrador das matanças dos armênios, é a República da Turquia responsável pelo espólio genocida de seu antecessor. Se não é essa nação a responsável direta pela maior parte das mortes, é a atual república que nega os acontecimentos, compondo assim o último estágio do genocídio: a sua negação.[95] Na Turquia, a negação é uma política de Estado. Intelectuais são incentivados a publicar estudos que tentam mitigar os acontecimentos de 1915. Fora do país, Ancara faz lobby em universidades espalhadas pelo mundo a fim de conseguir que historiadores e cientistas sociais de renome assinem textos que corroborem a argumentação criminosa. A cartilha negacionista é invariável: relativiza números, credita os crimes à insurreição armênia, argumenta que as acusações de genocídio são parte de uma propaganda dos adversários de guerra ou que são motivadas por propósitos econômicos e políticos etc. Os que trabalham em prol da negação distorcem e matam a verdade, última vítima do genocídio.[96]

O artigo 301 do Código Penal turco estabelece como crime insultar a dignidade e as instituições da Turquia. Esse capcioso mecanismo legal foi usado por muitas vezes para silenciar vozes dissonantes na Turquia que insistiam em afirmar que o genocídio armênio aconteceu. Elif Shafak, Taner Akçam, Hrant Dink e o Nobel de Literatura Orhan Pamuk são alguns dos intelectuais de nacionalidade turca enquadrados nesse dispositivo. Dink foi o que pagou mais caro pela intolerância patrocinada pelo Estado: em janeiro de 2007, o jornalista e editor-chefe do jornal Agos foi assassinado a tiros em frente da redação do periódico, em Istambul. O atirador era um jovem a serviço de uma organização ultranacionalista, cujos tentáculos se espalham pela burocracia estatal, Forças Armadas, empresariado e movimentos religiosos.

O genocídio armênio foi fruto das condições históricas existentes no momento em que aconteceu. Entretanto, um genocídio tem a capacidade de atravessar a história e permanecer como um espectro que ronda o mundo. Armênios, assírios, judeus, cambojanos, bósnios, tutsis, sudaneses etc. formam uma corrente na qual o último elo está diretamente conectado ao primeiro. Os anos passam, mas os elementos que tornam os genocídios possíveis continuam se reproduzindo. Os ecos de 1915 reverberam até hoje, seja na disputa diplomática entre Armênia e Turquia, seja em outros massacres em curso no momento. Passado um século do início dos morticínios de armênios, o genocídio armênio permanece atual.

Maio de 2015

Notas

[1] HOBSBAWM, Eric J. The Age of Extremes. Nova York: First Vintage Books, 1996, p. 50.

[2] HOBSBAWN, E. A Era dos Impérios: 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003, 8ª ed., pp. 454-455.

[3] FEIERSTEIN, Daniel (org.). Genocidio: La administración de la muerte en la modernidad. Buenos Aires: Eduntref, 2005.

[4] TOYNBEE, Arnold J. Atrocidades turcas na Armênia. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p. 99.

[5] “A Primeira Guerra Mundial produziu a morte de um incontável número de armênios pela Turquia – a cifra mais aceita é de 1,5 milhão –, o que pode ser considerada como a primeira tentativa moderna de eliminar toda uma população”. HOBSBAWM, E. op. cit., 1996, p. 50. Alguns historiadores, como Donald Bloxham, preferem trabalhar com a estimativa de um milhão de mortos. Cf. BLOXHAM, Donald. The Great Game of Genocide: Imperialism, Nationalism, and the Destruction of the Ottoman Armenians. Nova York: Oxford University Press, 2005.

[6] O termo Genocídio foi criado pelo jurista e filólogo judeu-polonês Raphael Lemkin em 1944, em sua obra Axis Rule in Occcupied Europe, juntando o derivativo grego geno – raça ou tribo – com o derivativo latino cídio – ato ou efeito de matar – formando assim uma nova palavra, específica para o crime que Lemkin desejava punir e evitar. Mais do que um teórico sobre o tema, Raphael Lemkin foi ativista político da causa, exercendo pressão nas autoridades mundiais – inclusive na recém-criada Organização das Nações Unidas – em forma de lobby para que o Genocídio fosse qualificado como crime internacional, ainda para o julgamento dos nazistas em Nuremberg. POWER, Samantha. Genocídio: a retórica norte-americana em questão. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, pp. 71-86; LEMKIN, Raphael. El dominio del eje en la europa ocupada. Buenos Aires: Prometeo Libros/Eduntref, 2009.

[7] BALAKIAN, Peter. The Burning Tigris: the Armenian Genocide and America’s Response. Nova York: Harper Perennial, 2003, p. 157.

[8] . AKÇAM, Taner. A Shameful Act: the Armenian Genocide and the Question of Turkish Responsibility. Nova York: Holt Paperback, 2007, p. 12.

[9] Alcunha pela qual ficaram conhecidos os membros do “Comitê União e Progresso” – Ittihad ve Terakki Cemiyeti.

[10] Sublime Porta (em turco Bab-i Ali) ou simplesmente Porta são nomes usados para referir-se ao governo do Império Otomano, assim como nos referimos por vezes ao governo dos EUA como Casa Branca ou ao governo russo como Kremlin.

[11] ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 1989, 2ª ed., pp. 361-363.

[12] O devshirme – criado na década de 1380 – constituía no recrutamento de crianças oriundas de terras cristãs, enviadas para serem educadas sob a égide do Islã. Essas crianças, uma vez formadas, constituíam um corpo de escravos que eram empregados na burocracia do Império Otomano e no exército. Ainda segundo Anderson, tal status de escravo não continha um sentido pejorativo. No Império Otomano, ser escravo via devshirme era, antes de tudo, um sinal de proximidade com o poder do Império. ANDERSON, P. op. cit., pp. 365-367.

[13] ASTOURIAN, Stephan H. Modern Turkish Identity and the Armenian Genocide: from Prejudice to Racist Nationalism. Yerevan: Museum-Institute of the Armenian Genocide of the National Academy of Sciences of Republic of Armenia, 2004, p. 5.

[14] TERNON, Yves. Les Arméniens: Histoire d’un génocide. Paris: Seuil, 1996, p. 33.

[15] Ibid., p. 52.

[16] ANDERSON, P. op. cit., pp. 373-375.

[17] Ibid., p. 378.

[18] PAMUK, Şevket. “The Price Revolution in the Ottoman Empire reconsidered”. In: Journal Middle East Studies. Nº. 33, EUA: Cambridge University Press, 2001, pp. 73-82.

[19] ANDERSON, P. op. cit., pp. 387-388.

[20] POLANYI, Karl. A grande transformação. Rio de Janeiro: Elsevier/Campus, 14ª tiragem, 2000, pp. 22-23.

[21] ANDERSON, P. op. cit., p. 390.

[22] TERNON, Y. op. cit., pp. 159-162.

[23] Ibid., pp. 56-57.

[24] Ibid., p. 83.

[25] MORGENTHAU, Henry. Ambassador Morgenthau’s History. Nova York: Doubleday, Page and Company, 1918, p. 116.

[26] TERNON, Y. op. cit., pp. 148-149.

[27] Ternon chama a atenção para o nome do Comitê – União e Progresso – ser oriundo do lema positivista “Ordem e Progresso”. Entretanto, ainda como parte do movimento otomanista, a palavra “União” toma um caráter simbólico de aglutinar todos os otomanos – incluindo os cristãos – em prol do progresso do império. No momento de sua fundação, o Comitê União e Progresso ainda não tinha tomado o viés chauvinista que teria poucos anos mais tarde. Ibid., p. 163.

[28] Ibid., pp. 163-165.

[29] TERNON, Y. op. cit., p. 170.

[30] TERNON, Y. op. cit., p. 175.

[31] A incitação do ódio aos cristãos foi uma prática corrente do Comitê União e Progresso para legitimar o assassinato de armênios. Apesar da declaração a jihad contra os infiéis armênios ter sido uma ferramenta para o Genocídio, não podemos considerar o islamismo como causador dos massacres. Para Lorde James Bryce: “não havia em jogo exaltação muçulmana contra os cristãos armênios. Tudo foi feito pela vontade do governo e não por considerações de fanatismo religioso, mas simplesmente porque desejavam, por razões puramente políticas, desfazer-se de um elemento não muçulmano que contrariava a homogeneidade do império e constituía um elemento que não poderia sempre sujeitar-se à opressão” TOYNBEE, A. op. cit., p. 18. Para o militar alemão Armin T. Wegner, combatente na frente oriental da Guerra, fotógrafo e denunciante dos massacres durante os acontecimentos: “Ninguém responsabiliza a religião do Islã por isso, e seria um erro afirmar que os simpatizantes da Armênia o tenham feito. Ao lado de Cristo, Buda, Lao-Tse, encontra-se também a doutrina de Maomé, e se ela de fato desempenhou algum papel nestes acontecimentos, isto ocorreu apenas porque usaram-na indevidamente. Não fizeram o mesmo com a doutrina de Cristo? E os países europeus também não fizeram o uso indevido de suas palavras para em seu nome empreenderem guerras e pilhagens pérfidas contra os povos indefesos de suas colônias?” Um genocídio em julgamento: O Processo Talaat Paxá na República de Weimar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994, p. 21.

[32] TERNON, Y. op. cit., pp. 176-177.

[33] Ibid., p. 177.

[34] BALAKIAN, P. op. cit., p. 156.

[35] TERNON, Y. op. cit., p. 179.

[36] TERNON, Y. op. cit., pp. 186-189.

[37] Ibid., pp. 190-191.

[38] Ibid., pp. 194-195.

[39] Ibid., p. 195.

[40] TERNON, Y. op. cit., p. 196.

[41] BALAKIAN, P. op. cit., p. 172.

[42] TERNON, Y. op. cit., p. 197.

[43] BALAKIAN, P. op. cit., p. 200. Talaat Paxá chegou até a pedir ao Império Alemão para trocar o embaixador no Império Otomano, pois o diplomata indicado para o cargo havia tomado uma posição de defesa dos armênios. AKÇAM, T. op. cit., p. 121.

[44] BALAKIAN, P. op. cit., pp. 181-182.

[45] Principal teórico e propagandista do nacionalismo panturquista do Comitê União e Progresso. Na década de 1890, a família de Ziya Gökalp – que, ironicamente, não era turco, mas curdo – participou dos massacres hamidianos contra os armênios em Diyarbekir. BALAKIAN, P. op. cit., p. 163.

[46] AKÇAM, T. op. cit., p. 8.

[47] BALAKIAN, P. op. cit., p. 166.

[48] LEVENE, Mark. “A twentieth-century phenomenon?” In: RITTNER, Carol. et. alii. Will Genocide Ever End? St. Paul: Aegis/Paragon House, 2002, p. 70.

[49] AKÇAM, T. op. cit., p. 132.

[50] BALAKIAN, P. op. cit., p. 172.

[51] POWER, S. op. cit., p. 27.

[52] A data de 24 de abril ficou para a História como o início do Genocídio Armênio e é nesta data que tradicionalmente os armênios rememoram as suas vítimas e clamam pelo reconhecimento do Genocídio. Mas as mortes de armênios e as pilhagens de suas propriedades já vinham acontecendo em 1914. AKÇAM, T. op. cit., p. 130.

[53] BALAKIAN, P. op. cit., pp. 211-216.

[54] TOYNBEE, A. op. cit., pp. 79-80.

[55] AKÇAM, T. op. cit., pp. 134-136.

[56] TOYNBEE, A. op. cit., p. 78.

[57] DADRIAN, Vahakn N. “Configuración de los genocídios del siglo veinte”. In: FEIERSTEIN, Daniel (org.). Genocidio: La administración de la muerte en la modernidad. Buenos Aires: Eduntref, 2005, pp. 94-95.

[58] Ugur Umit Üngör e Mehmet Polatel demonstraram, em trabalho de grande importância para a historiografia, como as produções armênias, sobretudo de cobre e algodão, foram “turquificadas” durante o Genocídio. ÜNGÖR, Ugur Ümit& POLATEL, Mehmet. Confiscation and Destruction: the Young Turk Seizure of Armenian Property. Nova York/Londres: Continuum, 2011.

[59] ANDERSON, P. op. cit., p. 378.

[60] BALAKIAN, P. op. cit., p. 234.

[61] TOYNBEE, A. op. cit., pp. 58-61.

[62] Ibid., pp. 41-63; REED, John. Guerra dos Bálcãs (1916). São Paulo: Conrad, 2002, p. 234.

[63] BALAKIAN, P. op. cit., pp. 190-214.

[64] Para a resistência de Van, cf. BALAKIAN, P. op. cit., pp. 197-210.

[65] Isso inclui o aparato legal que o Comitê União e Progresso montou para legitimar constitucionalmente as deportações e mortes de armênios. Ibid., pp. 186-188.

[66] Ibid., pp. 176-180.

[67] EL TRATADO DE SEVRES Y LA CUESTION ARMENIA. Buenos Aires: Argentina: Consejo Central Pro Causa Armenia para la América Latina, 1970, pp. 21-24.

[68] Ibid., pp. 26-27.

[69] EL TRATADO DE SEVRES Y LA CUESTION ARMENIA. op. cit., pp. 31-33. Os julgamentos aconteceram, mas foram considerados inválidos pouco tempo depois. Cf. AKÇAM, Taner & DADRIAN, Vahakn. Judgment at Istanbul: the Armenian Genocide Trials. Nova York: Berghahn Books, 2011.

[70] TOYNBEE, A. op. cit., p. 44.

[71] O jornal The New York Times de 02 de dezembro de 1920 já trazia uma reportagem que anunciava o comprometimento de Brasil e Espanha com W. Wilson em prol da Armênia. Em telegrama ao presidente americano, o chanceler brasileiro Azevedo Marques afirmava que o Brasil estava disposto a colocar um fim no sofrimento armênio, seja sozinho ou em conjunto com outras nações. The New York Times. 2 de dezembro de 1920, pp. 1-2.

[72] Apud: SELIGMANN-SILVA, Márcio. “Apresentação da questão”. In: ___________. História, Memória, Literatura: o testemunho na Era das Catástrofes. Campinas: Editora Unicamp, 2005, p. 93.

[73] ADORNO, Theodor. “Educação após Auschwitz” In: ___________. Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 3ª edição, 2003, p. 120.

[74] POWER, S. op. cit., pp. 37-38. A falta do reconhecimento dos EUA para o Genocídio Armênio permanece até os dias atuais, graças a um delicado equilíbrio geopolítico. Aliada norte-americana desde as épocas de Guerra Fria, a Turquia é uma base avançada dos EUA na porta de entrada do Oriente Médio. Assim, melindrar Ancara vai contra os interesses estratégicos norte-americanos na região. Pelos mesmos motivos, Israel também não reconhece o massacre dos armênios como Genocídio.

[75] Ibid., pp. 59-60.

[76] Ibid., p. 61.

[77] DADRIAN, Vahakn N. op. cit., pp. 24-25.

[78] TOYNBEE, A. op. cit., pp. 41-53.

[79] POWER, S. op. cit., pp. 55-57. Grifos nossos.

[80] TOYNBEE, A. op. cit., p. 51. Grifos nossos.

[81] AKÇAM, T. op. cit., pp. 112-113.

[82] Ibid., p. 122.

[83] LEMKIN, R. op. cit.

[84] BLOXHAM, D. op. cit., pp. 215-216.

[85] Ibid., p. 216.

[86] BLOXHAM, D. op. cit., p. 219.

[87] http://www.genocide-museum.am/eng/U.S._House_of_Representatives_Joint_Resolution_247.php, acessado em 23/01/2015.

[88] http://www.genocide-museum.am/eng/European_Parliament_Resolutio3.php, acessado em 23/01/2015.

[89] BLOXHAM, D. op. cit., p. 221.

[90] Ibid., p. 223.

[91] http://issuu.com/causaarmenia/docs/asambleagral20abr65_ley13326, acessado em 23/01/2015.

[92] http://www.genocide-museum.am/eng/Argentina_Senate_Resolution_1993.php, acessado em 23/01/2015.

[93] http://www.genocide-museum.am/eng/states.php, acessado em 23/01/2015.

[94] http://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/1989/lei-6468-19.05.1989.html, acessado em 23/01/2015.

[95] FEINSTEIN, Stephen C. “Understanding the ‘G’ word”. In: RITTNER, Carol. et. alii. Will Genocide Ever End? St. Paul: Aegis/Paragon House, 2002, p. 41.

[96] HOVANNISIAN, Richard G. Denial of the Armenian Genocide in Comparison with Holocaust Denial. Yerevan: Museum-Institute of the Armenian Genocide of the National Academy of Sciences of Republic of Armenia, 2004, pp. 5-7.

Esta matéria faz parte do volume 23 nº4 da revista Política Externa
Volume 23 nº 4 - abr/mai/jun 2015 Revista Política Externa

A situação geopolítica da Ásia neste século é tão peculiar como tensa devido às aspirações de seus três principais atores. Japão, China e Coreia ainda não resolveram questões históricas entre si, mantêm alianças antigas e atuais que se conflitam e, curiosamente, preservam os legados de seus três velhos líderes.

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