Política Externa

A vontade e a fortuna* Romance de Carlos Fuentes de Carlos Fuentes

por em 07/10/2012
A vontade e a fortuna* Romance de Carlos Fuentes

O desejo insaciável pela fortuna não é uma exclusividade latino-americana, evidentemente.
A crise de 2008 que implodiu o sistema financeiro americano e repercutiu mundo afora foi, antes de tudo, o curto-circuito da busca pelo dinheiro por ele mesmo, da ascensão do capitalismo financeiro sobre o capitalismo industrial, aquele que marcara a primeira metade do século XX nos EUA. A busca pelo poder e pelo prestígio proporcionados pelo dinheiro. Eis que a temática da narrativa da crise de 2008 é a mesma do último romance de Carlos Fuentes, A Vontade e a fortuna, lançado, curiosamente, em 2008 – ano da grande débâcle global, ano zero dos novos dilemas e paradigmas mundiais.

O livro de Carlos Fuentes narra a história de dois personagens arquetípicos. Castor e Pólux, primeiro. Caim e Abel, depois. Dois personagens que se conhecem no auge da adolescência, em plena fase de arrogância intelectual e idealismo utópico. Dois personagens que compartilham o gosto pelas grandes ideias, que debatem Nietzche, Spinoza, Santo Agostinho, e Maquiavel como se tivessem a vivência para compreendê-los. Mais tarde, os dois amigos se separarão e se reencontrarão. Quando se reencontrarem, cada um buscará, a seu modo, a fortuna financeira e o poder. A outra fortuna, o destino, lhes reservará caminhos que colidirão. Um enveredará pela política, o outro pelo mundo empresarial, como executivo de uma grande empresa do ramo de telecomunicações.

Josué e Jericó, orfãos. Josué, cuja cabeça cortada flutua no oceano Pacífico, narrando postumamente a sua história de forma circular e convoluta. Uma trama repleta de teorias conspiratórias, alucinações, fantasias, e observações mordazes. Como as de María Egipciaca, uma espécie de guardiã de Josué Nadal, sobre a supremacia dos norte-americanos: “se os brancos nos governassem, seríamos um grande país. Os índios são o nosso atraso”. Ou os contrapontos que o presidente Carrera, chefe de Jericó – cujo sobrenome é misteriosamente desconhecido –, faz sobre os vizinhos do norte: “olhe para os gringos. Quão cara lhes sai a prosperidade! Trabalham sem descanso, comem mal…eles não têm férias, não têm seguro social, se aposentam aos cinquenta anos e morrem manejando um cortador de grama”.

O presidente Valentín Pedro Carrera é o estereótipo do político corrupto e populista latino-americano. Um ser amoral, envolvido em inúmeros escândalos de corrupção, absolutamente indiferente à pobreza, material, e, sobretudo, ao atraso intelectual do seu povo. “Eu não quero que os mexicanos sejam ricos”, diz, “quero que sejam felizes”. O magnata Max Monroy, para quem Josué vai trabalhar, é o fundador de uma grande empresa de telecomunicações, cuja obsessão é dar a todos os mexicanos o acesso imediato e irrestrito à informação em nome da preservação de uma democracia utópica e hipócrita. Afinal, ele, Monroy, detém o controle da informação, como explica Asunta Jordán, alta executiva das empresas do magnata e sua amante, a um Josué embasbacado com sua beleza.

Tão amoral quanto Carrera, Max Monroy é também o seu principal rival. Como diz Carrera à Jericó no seu primeiro encontro com o rapaz: “antes era possível governar quase em segredo, as pessoas acreditando que as estatísticas eram sinônimo de felicidade. Isso já não existe. As pessoas se informam e se inconformam, e a mim cabe preencher os vazios que vão ficando com a festa patriótica, com o desfile comemorativo, com as cerimônias que suprem a imaginação, apaziguam os espíritos e aplacam a sede e a fome”.

Jericó e Josué têm o mesmo mentor, o advogado Antonio Sanginés, conselheiro de Carrera e de Monroy. Sanginés é também o protetor de Miguel Aparecido, a quem Josué visita na cadeia como parte da prática forense exigida para concluir a faculdade de Direito. Aparecido é, como todos os demais personagens do livro à exceção de Carrera e Monroy, um mistério a ser desvendado. Está encarcerado por sua própria vontade, preso para que não cometa o crime que cometeria se estivesse à solta.

O enigmático Antonio Sanginés separa os dois rapazes depois do seu reencontro, quando já são adultos. É ele quem os encaminha ao seu destino. A partir daí, os inúmeros mistérios da trama, a paternidade de Josué e Jericó e as razões que levaram à morte do protagonista e narrador póstumo, vão sendo revelados por meio de nuances narrativas e de muitas reviravoltas no enredo.

O último livro de Carlos Fuentes não é uma leitura fácil. Sua estrutura é a de um grande mosaico, a prosa, caleidoscópica. Há referências bíblicas e míticas, descrições exaustivas da Cidade do México, trechos puramente fantasiosos quebrando a narrativa, supostamente representando os devaneios do protagonista, que já não pertence a este mundo, mas tampouco chegou ao outro. Em algumas dessas passagens, Josué trava diálogos alegóricos com o túmulo de Antigua Concepción, a falecida mãe de Max Monroy. Nelas, o autor faz muitas referências à história do México, alusões que se perdem para os leitores que não têm um conhecimento profundo do país. Contudo, o esforço é recompensado. Temas como a amoralidade do capitalismo desenfreado ressoam fortemente no momento atual, passados quatro anos do lançamento do romance de Fuentes e do cataclismo financeiro americano. Para a América Latina, à deriva num mundo marcado pelo vácuo de lideranças dos países desenvolvidos e pela ausência de referências políticas e ideológicas do mundo avançado, o romance de Fuentes é um alerta ominoso. Sua mensagem é que nossas democracias imaturas só sobrevivem por causa do poder da imprensa livre, alimentando-se do inconformismo proveniente do acesso amplo à informação, como diz o presidente Carrera a Jericó. No entanto, nossa imprensa age como Max Monroy. Nas palavras de Josué: “Max Monroy era tudo aquilo de que Max Monroy se distanciava e aquilo de que se distanciava era a ilusão e a prática da política latino-americana”.

A Vontade e a fortuna de Josué e Jericó são o espelho da vacilação e do infortúnio que acometem os países latino-americanos neste delicado momento da economia mundial. Os governantes, mexicanos e brasileiros, vacilam em meio às instituições claudicantes e a um sistema político marcado pelo clientelismo e pela troca de favores. Enquanto isso, os infortúnios da economia global ameaçam a todos.

Fiquemos, pois, com a sabedoria de Max Monroy: “No México, em toda a América Latina, confundimos a retórica com a realidade. Progresso, Democracia, Justiça. Basta que repitamos estas palavras para acreditarmos que são verdadeiras. E assim vamos, de fracasso em fracasso”.

* Romance de Carlos Fuentes, editora Rocco, 2009, 446 págs. Tradutor: Carlos Nougué.

Esta matéria faz parte do volume 21 nº2 da revista Política Externa
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