Política Externa

Clodoaldo Hugueney Filho (1943-2015) tinha para cada problema dez soluções

por em 19/11/2015
Clodoaldo Hugueney Filho (1943-2015) tinha para cada problema dez soluções

A morte de um familiar, de um amigo ou amiga, é sempre dura e penosa. É um momento em que cada um somatiza a sua perda, reflete sobre a fugacidade da vida, sobre o amor, o afeto, a convivência. Todos de minha geração no Itamaraty em algum momento, ou em muitos momentos, fomos tocados por Clodoaldo. Quem conviveu com ele certamente apreciou o amigo, o colega, o chefe, o grande diplomata que foi ao longo de toda uma vida profissional voltada para a defesa dos interesses do Brasil no mundo. Estamos perplexos diante de uma vasta e irreparável perda.
A cabeça precocemente grisalha e branca de Clodoaldo dava à sua figura um semblante adicional de sabedoria e de vida vivida que acentuava, junto aos seus interlocutores, as virtudes de seu pensamento e o entusiasmo com que travava as nossas batalhas. Para cada problema, Clodoaldo aparecia com dez soluções. Seu interesse e sua adesão às lutas com que nos defrontávamos ao longo de nossas vidas profissionais eram mobilizadoras. Estudava e refletia a fundo. Na ação, seu entusiasmo era contagiante e sua racionalidade irretocável. Um homem brilhante, denso, corajoso.
Trabalhamos juntos na Secretaria de Estado e no exterior. Ele começou sua vida profissional pelos temas econômicos e comerciais. Eu pelos políticos, sobretudo por temas regionais. Cada qual no seu caminho, sempre em interação frequente.
Como subsecretário, responsável pela formulação e a condução de nossas estratégias na OMC em Genebra, trabalhamos harmoniosamente e com muito proveito para a formulação e a condução de nossas políticas na Rodada de Doha.
Havendo-me substituído em Genebra, Clodoaldo elevou nossa presença nos foros de negociação. De Genebra à China, um longo caminho, uma abertura audaciosa para o novo, para o horizonte de possibilidades que se abria para o Brasil.
Fez tudo certo, manteve o entusiasmo, a inteligência, a capacidade de ação que o conduziria de Pequim à aposentadoria em São Paulo, onde não parou de enriquecer o debate acadêmico e empresarial com os temas de política externa, aos quais dedicou toda sua vida profissional.
Mantivemos sempre contato e fecundo diálogo, por telefone, por e-mail, compartilhando angústias e perplexidades diante de um quadro crescentemente preocupante para os interesses a que havíamos dedicado nossas vidas profissionais.
Ao ter a notícia de sua morte dias atrás senti a imensa frustração da finitude. O desfecho inesperado e prematuro de uma vida amiga, de uma convivência importante para mim, de uma amizade real e antiga. Do colégio Santo Inácio ao Rio Branco, à vida na carreira. Veio-me à mente uma frase de Grande Sertão de Guimarães Rosa: “a lembrança de vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento”.
Agora é questão de juntar esses trechos, os signos e sentimentos de nossas lembranças de Clodoaldo e mantê-lo vivo e relevante nas nossas existências singulares.
Aos que ficamos ainda algum tempo, sua presença amiga e seus sábios juízos não deixarão de nos acompanhar. Como nos acompanharam hoje nesta ocasião em que nos reunimos para evocar sua vida e recuperar seu exemplo de homem de bem.
Como São Paulo, ao final de sua existência, Clodoaldo poderá certamente ter dito: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé!”
Fique em paz, Clodoaldo, sentiremos muito a tua falta nestes tempos incertos e difíceis que temos pela frente.

Esta matéria faz parte do volume 24 nº1 e 2 da revista Política Externa
Volume 24 nº 1 e 2 - jul/dez 2015 O Histórico Acordo de Viena

O Acordo de Viena sobre o projeto nuclear iraniano evitou as consequências trágicas da hipótese de o Irã, país inserido na região mais tensa do mundo, obter armamento nuclear.

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