Política Externa

Evgeny Primakov (1929-2015), servidor de seu país, a Rússia

por em 19/11/2015
Evgeny Primakov (1929-2015), servidor de seu país, a Rússia

A morte de Evgeny Primakov, em 29 de junho de 2015, foi objeto de obituários os mais diversos, desde o da revista Economist (semana de 13-19/07/2015) e de Nicolas G. Gvosdek, professor especialista em estudos de segurança e editor de National Interest, revista publicada em Washington (Johnsons Russia List, nº 128/2015), até o do presidente Putin (Johnsons Russia List, nº 128/2015).
Chama a atenção nestes obituários, a longa e multifacetada carreira de Primakov, desde correspondente do jornal Pravda no Oriente – graças ao seu conhecimento da língua e da cultura árabe, sua especialização acadêmica – até a Presidência da Câmara de Comércio da Rússia. Talvez por força mesmo dessa multifacetada carreira, descrita em riqueza de detalhes em site de biografias famosas russas (www.bestpeoplepofrussia.ru) é que são diferentes as apreciações que se fazem dela.
Um traço, porém, é comum a todas, sejam negativas, sejam positivas: Primakov, ao longo de sua vida, foi servidor do seu país. E nesta qualidade foi um grande negociador diplomático, usando seu talento e sua capacidade de “saber como resolver difíceis tarefas, com calma, construtivamente e, o mais importante, efetivamente”, traço ressaltado pelo presidente Putin em sua fala, durante o velório realizado na Sala das Colunas da Casa dos Sindicatos, centro de Moscou, no dia de sua morte.
As negociações diplomáticas foram, contudo, acompanhadas também por atitudes afirmativas da posição russa, como a que se seguiu ao primeiro bombardeio do Ocidente sobre Belgrado, quando ordenou a volta para Moscou, do avião que o levava para conversações com Clinton nos Estados Unidos. Como diplomata, desenvolveu intensa atividade em defesa da coexistência pacífica entre os dois sistemas, atividade esta que coordenou com a posição de vice-presidente do Comitê Soviético de Defesa da Paz. E, last but not least, revelou-se ainda um formulador de estratégias de política externa da Rússia. Como assinala Gvosdek, foi Primakov o mentor da política de alinhamento com os países emergentes e do rumo para a Ásia, lançando ainda nos anos 1990, as sementes para a participação posterior da Rússia na Organização Shanghai de Cooperação e no grupo dos BRICS.
Primakov nasceu em 29 de outubro de 1929 em Kiev. Ao contrário do que se afirma na Economist, não escondeu sua filiação judaica – não como Finkelstein, segundo indicação da revista, mas como Kirchemblat, sobrenome de solteira de sua mãe, mantido em seu casamento – com quem partilhou a educação de sua filha; nem usou o sobrenome Primakov por conveniência ou por segurança, mas por se tratar do sobrenome paterno, talvez por homenagem ao pai, desaparecido no GULAG.
A tuberculose fê-lo largar a Escola Naval Militar após dois anos de estudo. Em 1948, ingressou no Instituto Moscovita de Estudos Orientais, onde teve aulas de especialização em questões do Islã. Fez o doutorado (kandidat nauk) na Universidade Lomonossov de Moscou, após o qual foi convidado para trabalhar na redação árabe da Gestão Central de Radiodifusão para o Exterior. Como jornalista, trabalhou nos anos 1960 como correspondente do jornal Pravda, na Ásia e na África inicialmente e no Oriente Próximo, com residência em Bagdá, posteriormente. Nesta última atividade, manteve relações pessoais com líderes locais e pode conhecer a situação regional, o que foi providencial para a sua posterior atividade diplomática e para a elaboração da tese com a qual se tornou doutor (doktor nauk), em 1969, sobre o desenvolvimento econômico e social do Egito.
Primakov desenvolveu amplo trabalho de pesquisa acadêmica, dirigido a questões de política externa. Em 1956, ingressou como pesquisador sênior no IMEMO – Instituto da Economia Mundial e das Relações Internacionais, da Academia de Ciências da URSS, importante think tank soviético para estas questões. Neste instituto atuou como coordenador do trabalho de pesquisa para aplicação política, realizado em brain storms de análises de situação, através das quais foi possível fazer previsões da conjuntura política internacional. Tornou-se vice-diretor do IMEMO em 1970 e seu diretor nos anos de 1985 a 1989. Entre 1977 e 1985, exerceu a direção do Instituto de Estudos Orientais, da Academia de Ciências da URSS, publicando vários livros sobre a história contemporânea do Oriente. Foi eleito membro correspondente da Academia de Ciências da URSS em 1974 e membro pleno, ou seja, Acadêmico em 1979.
No plano doméstico, também não foram pequenas as contribuições de Evgeni Primakov ao seu país. Sob influência da mãe, que considerava Stalin um facínora (além do marido desaparecido no GULAG, conforme referido anteriormente, um irmão dela foi fuzilado em 1937, sob a acusação de ter servido o exército como recruta meses antes da revolução) e pelo impacto que lhe provocou, como a toda geração de jovens na época, o informe apresentado por Nikita Kruschev ao XX Congresso do PCUS – a partir deste informe, segundo Primakov, foi possível pensar o passado de outra forma – Primakov apoiou a perestroika de Gorbachev.
Além de assumir missões internacionais por este a ele confiadas, aceitou a indicação do líder reformista para candidatar-se a deputado do Soviet Supremo, para nele presidir a Comissão de Assuntos Internacionais; e tornou-se, ao deixar a instituição, membro do Conselho Presidencial para questões da política externa. Assumiu posição ativa contra o golpe de membros da direção do PCUS contra Gorbachev, em 21 de agosto de 1991 e, quando o Conselho Presidencial foi dissolvido, tornou-se membro do Conselho de Segurança da URSS. Nomeado em setembro de 1991, como chefe do Serviço de Inteligência e, posteriormente, em novembro do mesmo ano, como diretor do Serviço Internacional de Inteligência da URSS, Primakov manteve o último cargo depois da dissolução da URSS até 1996, no período inicial de seu desempenho de funções no governo de Boris Yeltsin na Rússia.
Nele se propôs estabilizar o órgão, desorientado diante das radicais mudanças ocorridas no país, além de definir as funções que a este caberiam, com o esperado fim da Guerra Fria. Neste último sentido, fez aprovar uma lei na Duma, segundo a qual caberia à referida instituição, acompanhar os processos econômicos e políticos internacionais que poderiam causar prejuízos aos interesses da Rússia.
Em 1996, foi nomeado ministro das Relações Exteriores da Rússia, causando “arrepios” nos meios ocidentais, por sua anterior posição nos Serviços de Inteligência – ainda atualmente, como se pode observar no obituário da revista Economist acima referido, o epíteto para designá-lo é de “espião” ou de “super-espião”.
A sua atuação, entretanto, foi a de defensor do desarmamento e das negociações com a OTAN; mesmo exigindo o cumprimento dos acordos assinados quanto à expansão desta instituição para o Leste, assinou, em maio de 1993, em Moscou, em nome do governo russo, o ato sobre relações mútuas de cooperação e segurança com essa instituição.
Ainda durante o governo Yeltsin, Primakov serviu como primeiro-ministro, indicado e aprovado pela Duma, em 11 de setembro de 1998. Esta foi uma época em que o país estava mergulhado não só em grave crise política interna, devida basicamente à oposição aos chefes do gabinete ministerial anteriormente indicados por Yeltsin, como também sob os impactos da crise financeira internacional, necessitando sérios entendimentos com o FMI.
Não cabe neste texto discutir a política por ele adotada para enfrentar a crise financeira, reconhecidamente exitosa. Duas observações podem, porém, de alguma maneira indicar a importância do seu papel nesta passagem da história russa. Em primeiro lugar, foi o primeiro líder russo desde 1993 a gozar de uma ampla legitimidade; seus indicadores de apoio, nas pesquisas de opinião pública, ultrapassaram consistentemente os indicadores de outros políticos, principalmente “porque os russos viam nele um homem de Estado, que não punha seus interesses pessoais acima dos da nação” – comportamento comum aos políticos da época (Reddaway, P. & Glinski, D. The Tragedy of Russian Reforms. Washington D.C., US Institute of Peace Press, 2001). Em segundo lugar, era “o homem que a Rússia precisava por ser defensor dos interesses nacionais russos, conforme carta dirigida por Yeltsin ao presidente Clinton, quando de sua indicação como primeiro-ministro. E em tal qualidade granjeou o respeito de líderes mundiais como o ex-chanceler Gerhard Shroeder e da então Secretária de Estado dos Estados Unidos Madeleine Albright, com a qual, aliás, desenvolveu duradoura amizade pessoal (ibidem).

Esta matéria faz parte do volume 24 nº1 e 2 da revista Política Externa
Volume 24 nº 1 e 2 - jul/dez 2015 O Histórico Acordo de Viena

O Acordo de Viena sobre o projeto nuclear iraniano evitou as consequências trágicas da hipótese de o Irã, país inserido na região mais tensa do mundo, obter armamento nuclear.

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