Política Externa

A sobriedade de ambições do presidente Hollande

por em 09/06/2012

Várias observações podem ser feitas sobre a recente eleição que consagrou François Hollande como presidente da França: em primeiro lugar, o “Gaullismo” já é hoje apenas parte da história, e Jacques Chirac terá sido o último mandatário que cresceu à sombra do general; o Partido Comunista representa apenas uma fração de sua antiga presença e não se observa mais, com a mesma clareza, a antiga clivagem entre esquerda e direita. As causas que hoje de fato mobilizam a França parecem ser o conjunto de problemas relacionados com a imigração e com a preservação da identidade nacional; as exigências com a proteção de uma sociedade que continuará a ter na agricultura e no campo uma de suas principais bases; as questões relacionadas com a seguridade social e a proteção de direitos adquiridos e consolidados ao longo das últimas décadas. Hollande irá proteger o agronegócio de seu país da competição brasileira, apoiar as mui- tas empresas francesas aqui implantadas, trabalhar para que finalmente o Brasil se decida a comprar aviões de caça e outro equipamento militar avançado de fornece- dores franceses, além de abençoar o intercâmbio cultural e artístico que é tão intenso e tão espontâneo entre nós e os

Nobody expects from the Socialist François Hollande, the new President of France, as much as was expected from his predecessor François Mitterrand,  the first Socialist President  of the Fifth Republic, elected in 1981, who promised to radically change French politics, European policies and the international  order. Hollande’s modest ambitions will surely avoid the repetition of Mitterrand’s frustrating two initial years in power. Among many possible observations about Hollande’s election, it is possible to say that Gaullism is over in French politics, that the Communist Party represents now only a tiny fraction of it historically did and that the split between left and right in France is not as clear as it had been for decades.

A eleição de François Mitterrand como presidente da França, em 1981, foi cercada de grande pompa e não menor circunstância .Ficou, para a posteridade, o registro dele, caminhando sozinho pelos grandes e solenes espaços do Pantheon em Paris e levando na mão as rosas vermelhas que são o símbolo dos socialistas e que seriam depositadas nos monumentos funerários de grandes heróis do Partido. O objetivo era marcar a chegada ao poder do primeiro presidente socialista da Quinta República e solenizar a promessa que trazia consigo de mudar os rumos da política francesa, da política europeia e influenciar mesmo a ordem internacional então ainda determinada pela rigidez da Guerra Fria.

A vitória mais pedestre de François Hollande nas eleições presidenciais da França em 2012 e as comemorações que se seguiram a ela em Tulle (sua base eleitoral na Corrèze) e em Paris não tiveram nem uma fração do ”eclat” da chegada ao poder do primeiro François nem se criaram em torno dela as esperanças nem as desconfianças que aquela outra posse provocou .Ninguém espera que um novo ciclo inovador esteja sendo inaugurado e as expectativas e projeções para o futuro próximo da França são realistas e, por isso mesmo, modestas. Vale recordar que a sobriedade das ambições do novo presidente deve poupá-lo de repetir aquele desastroso início da gestão Mitterrand que o obrigou, passados dois anos de seu mandato, a desfazer boa parte do que então fora feito com algum estrépito e muito gasto e pouco sentido de medida ou previsão dos rumos que a história iria tomar.

Nicholas Sarkozy não foi derrotado por uma ampla margem de votos e sua gestão no Palácio do Élysée ao longo dos últimos cinco anos foi percebida, em linhas gerais, como competente e seu comportamento a expressão de um incessante ativismo que é uma das características incontornáveis de seu temperamento o que foi, no primeiro momento, um bem-vindo contraste com o fim da administração Chirac em que aquele presidente depois de uma longuíssima trajetória, virtualmente sem interrupções, como prefeito de Paris como primeiro-ministro e, depois por doze anos, como chefe de Estado estava drenado de ideias e de energia e assediado por acusações de improbidade que iriam mais tarde levar à sua condenação.

Sarkozy fez, quase sempre, o que precisava ser feito: estabeleceu com a Alemanha e com Angela Merkel em especial, apesar de uma antipatia inicial, um relacionamento intenso e fluido e com Washington, primeiro com Bush e depois com Obama uma relação muito mais cordial e confiante do que aquela que havia mantido seu predecessor com as autoridades norte-americanas. A economia francesa foi administrada de maneira prudente e atravessou bem até agora a crise reclamando apenas um pequeno controle de avarias e uma discreta redefinição de rumos.

Os altos índices de rejeição que acompanharam sua trajetória como presidente da República se deveram à sua associação, ocasionalmente temerária, com grandes fortunas e de se ter aproveitado de maneira pouco discreta de suas relações com personalidades poderosas do mundo econômico e financeiro; a sua alegada insensibilidade aos problemas dos grupos mais marginalizados do país e, sobretudo, a certos traços de caráter percebidos como expressão de um temperamento autoritário e impaciente .

Sobretudo, Sarkozy foi vítima dessa poderosa tendência europeia atual de substituir quem estava no poder o que levou a que em onze recentes eleições tivessem sido afastados em todas os titulares, fossem eles de esquerda, de centro ou de direita. O sentimento preponderante desde a crise é substituir quem está no poder por outro grupo político, qualquer que seja sua orientação. A única sobrevivente até agora é Angela Merkel, que não teve que se apresentar ao seu eleitorado, mas que deve estar preocupada porque em eleições separadas recentes foram derrotados vários de seus correligionários. Até no Reino Unido, que está fora da zona do euro, o fenômeno se repetiu com o afastamento de Gordon Brown e a chegada de David Cameron.

Sarkozy não vinha, a rigor, de nenhuma das duas grandes matrizes de onde emergem as recentes lideranças francesas: as grandes Escolas onde se formam as elites intelectuais do país ou as raízes mais rústicas do que se convencionou chamar de França profunda. Giscard d’ Estaing representa, emblematicamente, o primeiro modelo; Pierre Raffarin o segundo. Raymond Barre tentou ser a síntese dos dois .Sarkozy não era percebido como vindo de nenhum desses modelos e um número não pequeno de franceses não se identificava com ele nem o reconhecia como seu representante na expressão mais visceral da palavra.

Em certo momento, com a desgraça de Dominique Strauss Kahn, até aquele momento o mais forte candidato dos socialistas, e que sem o escândalo, em toda probabilidade, seria hoje o presidente da República francesa, o caminho de Sarkozy parecia relativamente desimpedido e observava- se com maior atenção o fenômeno do crescimento de uma direita liderada por Martine Le Pen à frente de um revigorado “Front Nacional” do que as perspectivas de uma esquerda que parecia dividida e sem um porta-bandeira capaz de uni-la e de inspirar entusiasmo.

Também ajudava a expectativa otimista de Sarkozy sua percepção de que a França, algo fragilizada pela crise europeia, não estaria disposta a trocar de timoneiro durante uma travessia turbulenta .Além disso, Sarkozy depositava uma esperança adicional na sua convicção de que a extrema direita revigorada iria certamente, em um segundo turno, preferi-lo ao retorno de um socialista ao poder.

Não foi bem isso o que aconteceu e os adeptos do Front Nacional e os seguidores de François Bayrou – que se autoproclama como o fio de prumo do centro do espectro político francês – preferiram dividir-se no segundo turno entre os que apoiavam Sarkozy, os que votavam em Hollande e um número grande que preferiu manifestar- se através de um voto de abstenção.

Houve também uma clara subestimação dos talentos e da capacidade de mobilização de Hollande, visto antes apenas como um durável administrador político – por quase uma década foi o secretário-geral do Partido Socialista – e achava-se que, sendo hábil para costurar alianças e para contornar crises, faltava-lhe a estatura e o carisma para se apresentar como um candidato vitorioso à Presidência da França .

Não resta dúvida de que se subestimou Hollande e o novo presidente se apresenta hoje rejuvenescido e autoconfiante, distante no aspecto físico e no comportamento, dos dias em que aparecia sempre em um segundo plano seja para Leonel Jospin seja para Martine Aubry seja para Segolene Royal, sua companheira doméstica de várias décadas e candidata socialista ao Élysée, derrotada em confronto com o próprio Sarkozy em 2006.

Várias observações podem ser feitas sobre a recente eleição presidencial: em primeiro lugar o “Gaullismo” já é hoje apenas parte da história e Jacques Chirac terá sido o último mandatário que cresceu à sombra do general; o Partido Comunista representa apenas uma fração de sua antiga presença e não se observa mais, com a mesma clareza a antiga clivagem entre esquerda e direita.

As causas que hoje de fato mobilizam a França parecem ser o conjunto de problemas relacionados com a imigração e com a preservação da identidade nacional; as exigências com a proteção de uma sociedade que continuará a ter na agricultura e no campo uma de suas principais bases; as questões relacionadas com a seguridade social e a proteção de direitos adquiridos e consolidados ao longo das últimas décadas.

A França debate ainda o seu papel internacional futuro e observa como a emergência dos BRICS e de outros grandes atores nacionais fez encolher o espaço da Europa, muito embora a região deva continuar a manter muitos de seus brilhantes indicadores e, em várias dimensões, uma maravilhosa qualidade de vida. O “malaise” francês sobre o futuro e o papel que nele caberá à França são uma constante da reflexão política naquele país e fonte que alimenta, em boa escala, o pessimismo que permeia hoje a avaliação da França sobre o porvir.

As recentes eleições demonstraram como é profundo e essencial o compromisso francês com a Europa e como é crucial a preservação da relação privilegiada entre Berlim e Paris. Não há, certamente, para a França relação que importe mais do que aquela mantida com a grande potência da outra margem do Reno. Hollande saiu diretamente da cerimônia de sua posse para uma visita à Alemanha prova da centralidade dessa relação para o esquema governamental francês.

Tanto Sarkozy quanto Hollande desenvolveram suas campanhas eleitorais com base na identificação de sua nação com a construção da Europa para o que o entendimento franco-germânico tem sido, desde o primeiro momento o fator essencial . A contribuição de ambos – mas sobretudo de Hollande – parece ser a de trazer ao debate a necessidade de que se some o imperativo do crescimento econômico ao conjunto de medidas de rigor e austeridade de que a Alemanha se faz hoje principal defensora.

Ao reexaminar a relação entre Paris e Berlim, é importante observar que esse eixo criado pelo entendimento inicial entre De Gaulle e Adenauer alterou-se bastante ao longo dos últimos cinquenta anos e que as mudanças ocorridas têm sido, de um modo geral, favoráveis à Alemanha que, neste intervalo, teve uma extraordinária expansão econômica, incorporou a antiga Alemanha Oriental ao seu espaço nacional e exerce hoje sobre a chamada Europa do Leste, mais apropriadamente identificada como sendo a Europa Central, uma influência decisiva e crescente.

Neste mesmo período a França, embora mantendo seu status de grande ator, teve que contabilizar as subtrações de quase todo o seu antigo império colonial, envolveu- se em conflitos dos quais saiu derrotada e diminuída (na Argélia e na Indochina) e o que resta de sua influência nas antigas partes de seu domínio africano subsaariano representa muitas vezes menos um ativo do que uma cobrança onerosa e desgastante.

A Alemanha, sem a hipoteca de um passado colonial significativo, pode dedicar-se, sem distrações, ao processo de seu renascimento político e econômico e, enquanto a França mantém uma relação em alguma medida ambígua com a memória do regime de Vichy, a Alemanha repudiou, da maneira mais categórica, o seu passado nazista.

Assim quando agora Hollande vai se encontrar com Merkel os termos da equação já não são mais os mesmos dos tempos em que De Gaulle ia a Bonn, capital temporária de uma Alemanha dividida e derrotada, mas é agora o visitante de uma Berlim reunificada e que se apresenta como a grande capital política da Europa continental.

Embora se deva reconhecer que a relação franco-germânica é mais desigual do que fora antes, é também indiscutível que é o eixo sem o qual a Europa não tem condições para se organizar. Os primeiros passos da administração Hollande foram dados em direção à Alemanha e, sem uma eficaz sintonia fina entre os dois grandes atores continentais, a Europa unificada não resiste. Mais significativa, ainda, foi sua escolha para primeiro-ministro de Jean Marc Ayrault, especialista em assuntos germânicos e que fez toda sua formação universitária como estudante da língua alemã.

Os passos e os gestos iniciais do governo Hollande não surpreenderam. Sua decisão de proceder a retirada das tropas francesas do Afeganistão já estava anunciada e segue um passo dado na mesma direção pelo governo Cameron, em Londres.

Seu Ministério chama a atenção pela ausência, com um par de exceções, de grandes nomes e pela preocupação de dar espaço maior aos grupos antes sub-representados nas mais altas posições da administração francesa. Assim, as mulheres têm uma grande presença no novo governo e criou-se um espaço, embora ainda pequeno, para representantes daquelas comunidades que compõem o mosaico étnico e cultural da França de hoje.

Hollande não terá que enfrentar o desafio adicional de uma coabitação sempre delicada entre os Palácios de Matignon e do Élysée, que ocorre quando o presidente e primeiro-ministro não são do mesmo partido. Observa-se que não integram o gabinete os grandes nomes tradicionais do socialismo francês o que deverá acentuar, ainda mais, a tendência a que o presidente detenha poderes bem maiores do que o primeiro-ministro – peculiaridade do sistema francês criado para refletir a supremacia que exercia o seu criador, o general De Gaulle, e o primeiro-ministro deverá aceitar uma posição virtualmente equivalente a de um chefe de Gabinete do presidente da República. Contudo uma das preocupações centrais do novo governo será proteger a maioria parlamentar de que hoje dispõe para evitar uma nova e, como sempre, traumática coabitação.

Logo começa o verão europeu e, com ele vêm uma trégua e uma interrupção do jogo político; François Hollande só deverá enfrentar seus primeiros desafios ao terminar o mês de agosto. Contudo, a expectativa, ao contrário do que costuma ocorrer, é de que a “rentrée” seja marcada por menos manifestações e menos reivindicações que do que é habitual, já que França e o resto da Europa se dão conta que a fase difícil se prolonga e para esse ciclo de dificuldades e de pouco ou nenhum crescimento não se identifica, com facilidade, a luz no fim do túnel.

Na composição do Gabinete, Hollande escolheu incluir dois pesos pesados da esquerda francesa que são, ao mesmo tempo, personalidades com grande trânsito junto aos outros grupos políticos que integram o espectro político-ideológico da França. São eles: Laurent Fabius, ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Assembleia Nacional, que ocupará agora a pasta das Relações Exteriores (em substituição a outra grande personalidade, desta vez de direita, Allan Juppé que teve uma trajetória tão brilhante quanto a de Fabius) e Pierre Moscovici, apontado para o Ministério da Economia, Finanças e Comércio Exterior.

Moscovici, que vem de uma adesão quando moço à esquerda radical, fez um trajeto em direção a uma esquerda moderna e aberta e era um dos homens de confiança de Strauss-Kahn. Sua presença é garantia de que Bercy estará em mãos extremamente competentes e que a França não terá políticas que possam trazer desassossego aos mercados.

Ficou de fora do Gabinete a principal rival de François Hollande, Martine Aubry, que deverá continuar a ser uma opção a ele e a exprimir os sentimentos de uma esquerda mais tradicional e mais combativa.

As indicações são de que Hollande não terá que atravessar o período de experimentação de políticas menos ortodoxas que quase fez naufragar o primeiro mandato de Mitterand. Seu discurso na campanha eleitoral e suas manifestações depois das eleições buscaram sempre retirar qualquer conotação ideológica mais radical de suas propostas e, também, o quadro internacional, marcado pela desconfiança e pela fragilidade, logo penalizaria experiências mais ousadas com a ordem econômica e social do país.

Cabe, então, a pergunta de como uma administração Hollande será diferente daquela realizada por Sarkozy. Creio que a diferença se dará em dois planos: o do estilo e o da substância.

A França, cansada do incessante protagonismo de Sarkozy, acolhe com satisfação um presidente cujas sobriedade, contenção verbal e ausência de histrionismo o fazem mais próximo de uma tradição de decoro e sobriedade que melhor se coadunam com as expectativas do eleitorado francês .Ao fazer menos, Hollande terá a probabilidade de ter maior influência.

Na substância, Hollande parece ser mais sensível a certas dimensões e reclamações do comportamento humano – sobretudo de grupos menos favorecidos – ao contrário de Sarkozy, cuja atitude traía uma indiferença e mesmo uma irritabilidade com quem ele tinha pouca ou nenhuma empatia que dificilmente era capaz de dominar com gestos e reclamações.

Por outro lado, é possível que o incessante dinamismo de Sarkozy tenha criado a expectativa de que o show deve continuar e que seja cobrada de Hollande uma performance que ele não parece disposto – ou mesmo preparado – para reproduzir.

De qualquer forma, a vitória por números apertados de Hollande não parece lhe conferir um mandato para aceitar riscos e inventar novos caminhos e as melhores indicações são de que governará com sobriedade e que formará um quarteto de atores principais regido por ele mesmo e integrado por Ayrault, Fabius e Moscovici e que os quatro darão à França a tranquilidade de que não corre o risco, em momento tão vulnerável para a Europa e de que seu governo não será um laboratório de experiências e práticas com alto coeficiente de risco.

Com o Brasil, Hollande não parece ter um passado de relacionamento mais intenso como tiveram, por exemplo e por uma diversidade de motivos, Chirac, Jospin e Roccard. Irá proteger o seu agronegócio da nossa competição, apoiar as muitas empresas francesas aqui implantadas, trabalhar para que finalmente o Brasil se decida a comprar aviões de caça e outro equipamento militar avançado de fornecedores franceses e abençoar o intercâmbio cultural e artístico que é tão intenso e tão espontâneo entre franceses e brasileiros.

Seu primeiro contato mais direto conosco, já como presidente, se dará como participante da Rio+20 para a qual já anunciou sua presença. Será, naturalmente, muito bem-vindo.

29 de maio de 2012

Esta matéria faz parte do volume 21 nº1 da revista Política Externa
Volume 21 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2012 Eleições 2012

Cinco países natural e historicamente importantes para a agenda externa brasileira mudam de presidente neste ano de 2012. França, Rússia, México, EUA e Venezuela

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