Política Externa

Neve de Orhan Pamuk

por em 11/02/2012
Neve

Neve*

Uma nevasca como a que neste ano cobriu a Europa toda em fevereiro, fechou estradas na Turquia e cancelou quase 200 voos da Turkish Airlines, é o clima (meteorológico) do romance Neve de Orhan Pamuk.

O clima social, político e psicológico é sombrio, com uma população de cidade pequena vigiada e pressionada por todo lado, pela polícia, por espias do governo central de Ancara ou por militantes de grupos fundamentalistas vários, islâmicos e/ou nacionalistas. Jovens, quase crianças, são agentes ingênuos de facções.

Violência e terror se desencadeiam quando militares locais tomam a prefeitura em um golpe para impedir eleições em que se previa a vitória de um curdo islâmico. Moderados ficam perdidos e isolados no paroxismo dos conflitos.

Ka é o personagem central, Kars é o lugar em que se desenrola a história e o título no original turco é Kar, que significa cristal de neve. Estamos em 1992.

Um poeta, depois de 12 anos asilado na Alemanha, volta à sua cidade natal, Istambul, para o funeral da mãe e para encontrar uma jovem turca com quem se casar.

A Istambul cosmopolita dos turistas, a maior cidade da Europa, só aparece ali nas lembranças do poeta. Este decide viajar para Kars, de ônibus, em busca de uma ex-colega por quem sentira atração nos tempos de estudante, quando eles eram membros de um grupo político republicano secular na Universidade em Istambul. A moça de beleza perturbadora, Ipek, se casara com outro colega desse grupo, o curdo Muhtar, de quem estaria agora divorciada.

Vai munido da credencial de um jornal de Istambul que um amigo lhe arranja para que pudesse explicar por que está naquele lugar longínquo e pobre, e recebe a incumbência de investigar ali uma onda de suicídios de mulheres e cobrir as eleições municipais.

Muhtar, ex-colega e ex-marido de Ipek, converteu-se e é o candidato a prefeito do partido fundamentalista islâmico, certo de ganhar.

A neve incessante fecha as estradas e Ka não consegue ir embora. No meio das entrevistas sonha em fugir de volta para Frankfurt levando Ipek, e se angustia por não saber se ela irá, e porque é atacado de dúvidas sobre si mesmo.

O cenário e as referências históricas são fato e, não fossem o entorno dos personagens de ficção e a memória do caráter principal (e de um narrador que é também personagem), poderiam ser uma espécie de reportagem literária.

A Kars que pode ser visitada fica em uma região montanhosa, a 1800 metros de altitude, com temperaturas que podem ir a extremos de 35+ a 35-. Está no extremo oposto de Istambul – a fronteira com a Armênia e com o Irã em linha reta está bem perto. Dista horas só porque as estradas estreitas serpenteiam pelas montanhas.

A poucas horas dali, de ônibus, nos arredores de Igdir, pode-se visitar um memorial ao trágico massacre da população armênia na Anatólia durante a I Guerra Mundial. Caso a fronteira com a Armênia esteja aberta (vai depender do momento político) pode se chegar em algumas horas a Yerevan, do outro lado, e visitar ali o museu no forte de Tsisernakaberd. De um lado se mostram como agressores os armênios, do outro, os otomanos, que seriam os antecessores da República Turca fundada oito anos após.

É uma região com alta concentração de curdos (em Neve o dono do jornal local diz a Ka que são 40% e por isso Muhtar vai ganhar a eleição), mas não chegam a ser tão predominantes quanto na região um pouco mais ao sul junto à fronteira com o Iraque, onde até agora ocorrem de quando em vez embates violentos entre exército e militantes do nacionalismo curdo.

Problema histórico de fronteira é o que não falta nessa parte da Turquia. Como a ilustrar, neste começo de 2012, o foco possivelmente está dirigido mais a sudoeste, para a região fronteiriça onde estão as tendas de um campo de refugiados cercado por placas azuis e polícia, na pequena Yayladagi, aonde chegaram desde meados do ano passado milhares de refugiados sírios.

Kars é um ponto de embate de muitas culturas – e isso transparece o tempo todo no romance. Na era medieval foi território armênio, exceto por alguns anos que esteve sob controle do império bizantino. Desde o século XIII exceto por dominada por diferentes exércitos otomanos. Durante a maior parte do século XIX, apesar de resistir em muitas batalhas, foi dominada pela Rússia, mas a população continuou diversa: além de turcos, armênios, curdos, gregos e transcaucasianos.

Quando a Rússia devolveu Kars ao Império Otomano durante a I Guerra Mundial, a região ainda estava fora do controle das tropas da Revolução Bolchevique que tomara o poder em Moscou. Os otomanos se renderam aos Aliados no fim de 1918. Kars voltou ao controle armênio. O império otomano chegava ao fim com a I Guerra Mundial, mas começava a construção do império soviético.

Após o controle da Armênia pelos bolcheviques, um tratado de 1921 com a União Soviética retornou Kars aos turcos, em troca de outros territórios, e a fronteira ficou mais perto da cidade. Em outubro de 1923 foi proclamada a República Turca. Na II Guerra Mundial tropas soviéticas (e a Armênia era república soviética) estiveram próximas de tomar mais uma vez aquela parte da Turquia. A Armênia já não é mais parte do império soviético que se desmembrou, mas as relações com a Turquia continuaram tensas.

Essas pinceladas são uma ultrassimplificação que quer mostrar o quanto é complicada a história de conflitos naquela zona.[1] Nesse contexto, o enredo de conspirações em Neve é até verossímil, pode ser uma espécie de “roman à clef“, em que a “chave” remete não a indivíduos, mas a arquétipos. Há quem os interprete como caricaturas ou figuras paranoicas, que entram em paroxismos de argumentação. Mas paranoia existe. E os argumentos das várias facções estão todos lá, explicitados à exaustão através das conversas com Ka.

Ka, que passa seu tempo conversando com todo mundo que importa na cidade de Kars e escrevendo poemas fantasmagóricos no seu caderno verde, provoca suspeita apesar desse pretexto jornalístico, tanto pelos que não creem que seja esse o real motivo da visita, mais ainda, porém, pelos que, sim, acreditam que veio como jornalista. Cada um se esforça por falar com o jornalista no intuito de convertê-lo ou de conseguir a publicação de versão favorável. O ambiente é de espionagem e contraespionagem.

Assim, temos a visão e a versão das figuras do enredo: do prefeito atual nomeado por Ancara; do candidato a prefeito pelo partido fundamentalista islâmico favorável a eleições; do líder islâmico terrorista na clandestinidade; da mulher não religiosa e de seu pai velho ex-comunista, que tentam não se envolver em política; do dono do jornal local Gazeta da Cidade Fronteiriça, que escreve a notícia antes de ela acontecer; da mulher religiosa que defende o véu cobrindo a cabeça e da mulher religiosa que decide arrancá-lo para salvar o líder clandestino ou para defender o direito de se suicidar; dos homens do serviço nacional de inteligência; do fanático muçulmano, que mata o diretor da escola citando o Corão; dos estudantes da escola islâmica e da secular; do poeta melancólico, que em sua confusão acaba agente duplo; da polícia, que investiga o assassinato do diretor da escola pelo terrorista (e no interrogatório espanca o candidato a prefeito, “pessoa sem importância”, mas trata bem o jornalista “que é de Istambul e conhece gente importante”). E até daquele que se aproveita de uma situação política para delatar alguém por motivos pessoais (como Ka parece ter feito antes de ser obrigado a sair de Kars).

É revelador também o que não é dito direto a Ka, mas o narrador anota: a quantidade de curdos desempregados nas casas de chá; dois homens, amantes, que há anos se encontravam toda semana na oficina do sapateiro dizendo a suas mulheres que iam tomar chá; a pobreza dos habitantes; um casal ainda mais pobre vindo ilegalmente da Geórgia, ali perto, em busca de trabalho; muita criança; a igreja abandonada pelos armênios; as casas de arquitetura russa e em estilo báltico em abandono. TVs estão por todo canto, das residências às casas de chá, e transmitem uma novela mexicana.

A epidemia de suicídio entre as mulheres vem da opressão exercida dentro da família pobre, segundo uns; segundo outros, vem da proibição de usar o véu na escola junto com a pressão da família, ora para que cubram ora para que descubram a cabeça; e para o líder fundamentalista clandestino, é manifestação anti-islâmica, pois entende que o Corão condena o suicídio e não é sujeito à interpretação (ordena a Ka que não noticie os suicídios, para que a epidemia não continue a se espalhar).

Antes de matar o diretor da escola, que se diz religioso, mas impede as moças de entrar com manto na cabeça porque assim dita a Constituição da República, o fanático discorre longamente sobre porque é infame não cobrir a cabeça. Ka recorda que em seu tempo em Istambul, ao ver uma mulher com a cabeça coberta, imaginaria que ela vinha de zonas pobres da cidade. Aqui não são os mais pobres que o desprezam por ser “de Istambul e da Europa”. O poema que Ka é praticamente forçado a ler em público leva a Gazeta a acusá-lo de traidor da Turquia a soldo da Alemanha.

Na peça antiga que é encenada no mesmo show em que Ka lê seu poema, os estudantes islâmicos no fundo da plateia gritam em protesto contra algumas cenas. A cena final é da atriz já velha – havia encenado a peça supostamente iluminista ainda nos 1970s – jogando seu manto na fogueira com gritos de “viva a República”, enquanto ao seu lado soldados espocam tiros de fuzil. Alguns republicanos rejeitam a cena por dar imagem vulgar à República, pois a atriz quando jovem era famosa por sua dança do ventre.

A maioria na plateia e os que estão vendo o show pela TV pensam que os tiros são de festim, parte da encenação. Só alguns percebem os estudantes do colégio islâmico caídos e ensanguentados nas últimas filas. O ator de fuzil na mão, que se imagina um Atatürk, havia insuflado o subcomandante a dar o golpe aproveitando que a cidade estava isolada de Ancara pela neve. O ator que passa a ditador queria “salvar Kars” (além de garantir a encenação das suas peças).

Assim, o golpe militar começa com o fim do show e traz o terror, prisioneiros são aglomerados no estádio de futebol, e as conspirações se exacerbam, com explosões, homens-bomba e morte de inocentes. Mas em geral o dia a dia não muda, os habitantes não demonstram interesse maior pelo acontecido. Alguns dias depois, de novo no teatro municipal lotado (o ditador manda arrebanhar o público em ônibus), mais uma vez misturando teatro e realidade, termina o minigolpe com o ator-ditador morto no palco. A neve derretendo reabre as estradas, e Ancara retoma controle.

Pamuk pode ter carregado nas tintas, mas os conflitos que ele conta não chegam a ser impossíveis. É claro que neste resumo ficam caricatos. Mas não no relato complexo e cheio de nuances de Pamuk, nem mesmo na paródia da reunião secreta das figuras representativas para assinar um manifesto contra o golpe.

Ka havia prometido, sem convicção, que conseguiria publicar o manifesto na imprensa alemã desde que a assinatura não fosse apenas do líder clandestino. A quem dirigir o manifesto: “à Europa”, “ao Ocidente”, “ao mundo”? Nem quanto a isso houve acordo possível. Mas intelectuais iluministas, em busca apenas da felicidade pessoal, tampouco escapam da ironia de Pamuk.

Quem visitar hoje aquelas paragens não verá essa Kars de 1992, fora as mulheres com a cabeça coberta com mantos, agora mais coloridos. Aparecem nos relatos atuais dos viajantes mais postos e guarnições militares de fronteira.

Pudera! O governo da Turquia, com o rápido crescimento econômico da última década, tem transferido recursos para as regiões mais pobres. E os moderados ganharam cada vez mais espaço e votos, ainda que em Kars continue particularmente forte o partido que hoje legalmente representa os curdos.

Atualmente, talvez, o Ka afundado na Neve de Pamuk tentasse explicar por que preferiu o ônibus, já que há voos diretos da Turkish Airlines que oferecem o trajeto de 2 horas Istambul-Kars por uns 400 euros.

O livro remete também à imigração turca na Alemanha e à questão da aculturação dos turcos na sociedade alemã. Na primeira conversa que tem com Ipek, Ka se orgulha de ter vivido 12 anos na Alemanha sem aprender alemão: “assim pude preservar minha pureza e minha alma”. E isso porque ele nem era clandestino nem muçulmano. Fugiu para Frankfurt logo após o golpe de 1980, quando percebeu que a junta militar estava pondo na cadeia gente que escrevera artigos críticos ainda no fim dos anos 70.[2]

Na Alemanha, trabalhou no começo como porteiro, carregador, pintor de paredes, professor de inglês para turcos, até que conseguiu receber o auxílio oficial de exilado político. Aos poucos, passou a receber convites dos imigrantes turcos para palestras e para ler seus poemas, viajando nos trens alemães que admirava. Ora, isso sugere no mínimo o tamanho dessas comunidades e de quanto se voltam para sua própria cultura.

De fato a Alemanha, é, fora da Turquia, o país onde é mais forte a presença turca: são três milhões os cidadãos turcos e seus descendentes, incluída a parcela de cerca de um milhão que obteve cidadania alemã. Nas áreas de mais alta concentração, como no bairro de Kreuzberg em Berlim, ou em Duisburg, onde se inaugurou em 2008 a maior mesquita da Alemanha, a reprodução de suas instituições é tal que um turco pode viver autossegregado em um estilo de vida tradicional semelhante ao de sua aldeia de origem.[3] Quando se interrompeu, depois de 1973, a imigração em massa dos chamados trabalhadores temporários na Europa, o aumento da população turca na Alemanha deu-se, sobretudo, pelas noivas importadas, em parte em casamentos arranjados, e por refugiados políticos (quase como Ka e Ipek).

Exceto que, neste romance também, grandes amores são os que não se concretizam. A rigor, é impossível relatar que “mundo” Orhan Pamuk revela em Neve. Ele mesmo no final insinua que ninguém toma como real o que está em um romance.

Neve ajuda a entender a Turquia, mas para entender Neve é preciso lembrar a história da Turquia. Ka dormiu bem na noite do golpe, porque a neve abafou o ruído dos tiros. Suas emoções, ambiguidades, ambivalências, devaneios e baixezas estão em toda parte, e cada um terá que interpretá-las por si.

* Editora Schwarcz, São Paulo, 2011, 656 págs. Edição comemorativa dos 25 anos da Companhia das Letras (Original turco: 2002; 1ª edição em português: 2006).

Notas

[1] Ver M.Sükrü Hanioglu, A Brief History of the Late Ottoman Empire, Princeton University Press, Princeton and Oxford, 2008.

[2] Em Neve esta é a referência mais direta ao golpe de 23 de setembro de 1980. A junta militar na Turquia, para combater o terrorismo político, prendeu quase 12.000 pessoas nas primeiras semanas. Depois de um ano, 122.600 pessoas tinham sido presas. O secularismo não ficou popular, mas o terrorismo político e os assaltos comuns diminuíram muito. Só que, junto com terroristas, foram parar na prisão líderes sindicais, políticos que atuavam dentro da legalidade, advogados, professores, jornalistas, qualquer um que tivesse expressado antes críticas ao governo (algumas vezes islâmicas). Os tribunais militares nos dois anos que se seguiram ao golpe pronunciaram 300 sentenças de morte (das quais 20 foram executadas). Ka, estudante levemente de esquerda, tinha toda razão em fugir para a Alemanha, junto com muitos outros que não eram personagens de ficção. Ver Erik J. Zürcher, Turkey: A Modern History, I.B.Tauris & Co. Ltd, Londres, 2004. O filme turco Yol, de Serif Gören e Yilmaz Güney (que foi preso na época), foi rodado em 1982 e é outro retrato dramático dessa repressão. Ganhou a Palma de Ouro de Cannes no mesmo ano.

[3] Ver Christopher Caldwell, Reflections on the Revolution in Europe: Immigration, Islam and the West, Allen Lane, Londres, 2009, para um relato dos fatos e versões da imigração mesmo quando não são “politicamente corretos”.

Esta matéria faz parte do volume 20 nº4 da revista Política Externa
Volume 20 nº 4 - Mar/Abr/Mai 2012 Rio + 20 Ambiente e Ciência

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