Política Externa

Ocupem Wall Street

por em 15/01/2012

Dois movimentos sociais, o Tea Party, à direita, e Occupy Wall Street, à esquerda, substituíram os partidos Democrata e Republicano e são os principais contendores no debate ideológico americano. Occupy Wall Street é um movimento particularmente interessante, porque até agora tem progredido sem líderes visíveis ou propostas específicas para reformas. Baseado principalmente no extremo desconforto de milhões de pessoas que foram prejudicadas pela crise econômica, Occupy Wall Street atingiu as ruas em centenas de cidades em todo o mundo. Embora seja difícil prever seus efeitos práticos, não há dúvida de que eles podem ser intensos.

Two social movements, the Tea Party on the right and Occupy Wall Street on the left, replaced the Republican and Democrat Parties are the main contender in the American ideological debate. Occupy Wall Street is a particularly interesting movement because so far it has progressed without visible leaders or specific proposals for reform. Based mostly in the extreme discomfort of millions of persons that have been hurt by the economic crisis, Occupy Wall Street has reached the streets in hundreds of cities throughout the world. Although it is difficult to foresee its practical effects, there is no doubt that they may be intense.

Se o Século XIX se estende, talvez, até 1914 quando começa a Grande Guerra (que mais tarde e com as vantagens da visão retrospectiva viria a ser chamada de Primeira Guerra Mundial), a queda do Muro de Berlim, em 1989, fecha de alguma forma o Século XX.

Esse tratamento elástico do tempo tem vantagens e também riscos. Teríamos, assim, um longo século XIX que viria desde a Revolução Francesa até o assassinato do Grão-Duque Ferdinando em Sarajevo e um Século XX encolhido em cerca de 30 anos. Em lugar do rigor dos prazos precisos que a divisão do tempo por séculos oferece, teríamos a definição da história como uma série de ciclos, de duração variável, marcados, cada um deles por uma ampla medida de lógica interior.

Não resta dúvida de que os anos oitenta do século passado assistiram ao fim da Guerra Fria – esta por sua vez e de algum modo uma extensão da II Guerra Mundial-, à falência do socialismo real e à desconstrução do império soviético, processos que deram aos Estados Unidos não só uma grande e virtualmente gratuita vitória como alguns anos de predomínio absoluto sobre a vida internacional por não haver, naqueles anos, nenhuma outra grande potência ou coligação de potências que pudesse ou quisesse enfrentar o poder hegemônico dos Estados Unidos, então talvez em seu apogeu, seja na sua dimensão econômica ou, sobretudo, na sua expressão militar.

Sei que se costuma sugerir o primeiro após guerra em 1918 e o segundo, em 1945, como os momentos mais triunfais da potência dominante de um século que, com razão, foi chamado de “século americano”. Escolho 1989 como outro e talvez ainda mais significativo apogeu porque a vitória foi então a de um ideário político que os Estados Unidos encarnavam e de um modelo econômico que se havia provado um melhor vetor de prosperidade e felicidade do que qualquer outro que se houvesse proposto ou experimentado.

A vitória dos Estados Unidos e do modelo de democracia representativa e da economia de mercado, que deve acompanhar esse tipo de organização política, foi tão decisiva e contundente que se chegou a falar então no próprio fim da história como se, depois de um longo e tumultuado processo evolutivo, a democracia representativa e o sistema capitalista fossem, quase que sem contradição, a melhor escolha e tivessem aposentado, como experiências destinadas ao fracasso, qualquer outro tipo de organização política e econômica.

Naquele momento Wall Street e o poder, o prestigio e as opções que o nome representava faziam da breve rua possivelmente, o mais conhecido endereço do mundo, sede da Bolsa de Valores de Nova York e templo central do capitalismo. Mesmo a ideia de que aquela rua pudesse ser um dia sitiada pareceria então mais que uma improbabilidade quase uma heresia.

A opção pelo unilateralismo como forma de atuação internacional se fez companheira de viagem desse sentimento de esmagadora vitória e, sobretudo, no campo militar e de operações estratégicas os Estados Unidos não só não buscavam, com empenho, alianças e apoios paritários como consideravam que os seus potenciais sócios e aliados poderiam ser um peso morto e talvez mesmo um embaraço antes do que um reforço real de sua capacidade operacional.

Não se sugeria então que a história, com suas múltiplas curvas e incidentes deixaria de continuar a acontecer. Mas – e essa era a postulação central – propunha-se que havíamos chegado, em linhas gerais, à melhor forma possível de organização econômica e social. Os Estados Unidos, mais do que qualquer outro pais eram a expressão mesma do modelo vitorioso.

Vinte e dois anos depois, o âmago da aliança democrático/capitalista está em crise na Europa e na América do Norte (e isso acontece agudamente desde 2008) e os dois pólos do mundo desenvolvido tradicional, para sobrenadar a crise que se prolonga e se aprofunda, teriam de se valer de remédios heróicos fiscais e monetários que hesitam em adotar e talvez, em algum momento, precisem mesmo buscar socorro nas economias dos grandes emergentes, entre os quais estamos nós, e que não estão ainda preparados nem a rigor dispostos – sobretudo sem a contrapartida de maiores fatias de poder nas instituições intergovernamentais e, portanto, na governança global – a assumir as responsabilidades adicionais que os recentes acontecimentos – sobretudo nos últimos três anos – passaram a reclamar.

Desde o atentado contra as torres gêmeas, os Estados Unidos, envolvidos em duas guerras impopulares, caras e inconclusivas – no Iraque e no Afeganistão – assistem à erosão do consenso interno sobre quais devam ser suas posições no mundo, à radicalização do pensamento político da direita doméstica e a um forte impulso fundamentalista religioso. O pensamento da direita americana, impulsionado por uma confiança, que se provou em mais de uma ocasião equivocada, de que os dados demográficos, políticos e econômicos do país prometiam uma maioria virtualmente assegurada para os candidatos que refletissem o pensamento mais conservador no país conspirou para que os Republicanos tentassem retirar sustentabilidade da Presidência Clinton e, agora, de maneira ainda mais intransigente, voltassem a utilizar práticas semelhantes contra um eventual sucesso da administração Obama, presidentes ambos que, com suas eleições, desmentiram a expectativa republicana de poder contar, pelo futuro previsível, com uma presença assegurada para os seus candidatos na Casa Branca.

Um dos principais elementos detonadores dessa difusa, mas persistente insatisfação que levou dois democratas à Casa Branca, é a defeituosa administração econômica e sobretudo o fato da crescente concentração da riqueza dos Estados Unidos nas mãos de segmentos cada vez menos numerosos da população.

Os números – mesmo que utilizados de maneira algo simplista – mostram que o um por cento mais rico da população do país detém hoje cerca de 24 por cento da renda nacional e que isso representa uma elevação de 10 pontos percentuais sobre o quadro que prevalecia vinte anos atrás e que esse extraordinário percentual seria mesmo maior do que o que se observava quando em 1929 começou a Grande Depressão.

Somem-se a isso o custo político e econômico da luta contra as drogas, os problemas com a imigração ilegal, o aumento da população carcerária dos Estados Unidos, a influência crescente dos grupos de origem africana, latina, islâmica e asiática na vida americana e tem-se o quadro que pode e deve servir de pano de fundo para explicar os movimentos de insatisfação popular de que o “Tea Party”, pela direita, e o “Ocupem Wall Street”, pela esquerda, são os exemplos mais eloquentes.

Há importantes diferenças entre os dois movimentos e é util acentuar mais as diferenças entre um e outro do que as suas semelhanças. É verdade que o movimento do “Tea Party” representou e representa, do ponto de vista da direita, uma insurgência contra as correntes mais moderadas e mais pragmáticas do Partido Republicano, mas esse movimento não procurou prioritariamente sua legitimação nas ruas e nas praças e sim quis, sobretudo, influir desde o inicio na seleção dos candidatos, dentro da legenda republicana a cargos eletivos, no Executivo e no Legislativo que, eleitos, passariam a ser os porta-vozes do novo pensamento conservador.

O impulso central do “Tea Party” é fundamentalmente conservador, reducionista e mesmo nostálgico de um Estados Unidos que talvez nunca tenha existido e que se baseia em valores mais bem expressos pelas tradicionais comunidades protestantes das pequenas cidades da América.

Essa é uma primeira grande distinção a fazer entre os que querem ocupar Wall Street – amplamente associados com o ideário do Partido Democrata (sobretudo em sua vertente mais liberal) e os que, por meio da convocação e do ativismo do “Tea Party”, procuram influenciar, o Partido Republicano, que passaria a controlar os rumos do governo dos Estados Unidos.

Não é difícil quantificar a influência do Tea Party, já que ela pode ser medida pelo numero de candidatos eleitos sob sua bandeira, pela mudança de ênfase e de prioridades no discurso republicano, pelo resultado de votos proferidos na Câmara e Deputados e no Senado em Washington bem como pelas decisões contabilizadas em Assembleias estaduais e naqueles encontros tão característicos da América das pequenas cidades: os “town hall meetings”.

Por outro lado, é muito difícil – senão mesmo impossível – definir os limites da influência, até agora pelo menos, da mobilização pela ocupação de Wall Street, já que o movimento continua a se desdobrar em múltiplos cenários urbanos, dentro e fora do país, e a procurar se definir no embate do dia-a-dia e carece ainda de estruturas reconhecidas de liderança e de uma lista organizada de queixas e reinvidicações que possam ser tabuladas e apresentadas, mesmo que de forma ainda provisória, como um programa coerente de ação.

O foco central do movimento e o motor mesmo dos que o impulsionam são a indignação contra a desigualdade e a impunidade, contra a falta de ética e as práticas irresponsáveis do mundo financeiro norte-americano que teriam levado o país à crise recente por uma combinação de avidez pelo lucro e insensibilidade social e moral dessa comunidade que não só escapou virtualmente livre de punições e perdas como conseguiu mesmo, por meio de um escandaloso sistema de bonificações e outros pagamentos compensatórios, lucrar enquanto o resto do país pagava por seus desmandos e muitos perdiam suas poupanças, suas casas e seu emprego.

A indignação moral do movimento é talvez sua grande força motriz. Os métodos dos ativistas não encontram, contudo, respaldo nas práticas habituais da sociedade americana, preocupada com a manutenção da lei e da ordem – em escala municipal, estadual e federal – e que se inquieta ao se dar conta que, depois da várias semanas, o movimento continua a resistir e que, embora não tenha conseguido, até agora, mobilizar grandes números para a ocupação não só de Wall Street, mas também de muitas outras ruas e praças, em várias cidades dos Estados Unidos não dá sinais de esmorecer em seu ativismo e na intensidade de seu discurso.

É da natureza dos movimentos de rua marcados por uma larga medida de imprecisão de sua agenda (ou mesmo no caso pela inexistência de uma agenda) que, dissipado o impacto da novidade e do valor jornalístico das notícias e frente a uma resistência tenaz das autoridades constituídas, o impulso mobilizador se enfraqueça. Outro risco é o de que algum tipo de grave violência – contra pessoas ou bens – por parte dos ativistas (ou mesmo contra eles) inquiete ainda mais os setores conservadores da sociedade e fortaleça o impulso de repressão aos manifestantes e que esse tipo de episódio seja utilizado para procurar deslegitimar um movimento que, desde o inicio, enfrentou o repúdio do poder econômico (definido agora como uma “plutocracia”, palavra que evoca más recordações por sua utilização, sobretudo na década de 1930 e que parece ter voltado ao uso corrente) e de grandes setores da vida política que identificam nos protestos a mais veemente rejeição da idéia de “business as usual” e a mais profunda reação contra as regras do jogo político e financeiro norte-americano ocorrida desde a década de 1930, quando o gênio político de Franklin Roosevelt desfez sem ruptura violenta o sistema que até então prevalecia e realizou, através do New Deal, uma verdadeira reforma das práticas e da distribuição de poder e riqueza na sociedade americana.

Enquanto o “Tea Party” é um fenômeno intensamente americano, o impulso dos que pretendem ocupar Wal Street é muito mais internacional em seus métodos e discurso, mais cosmopolita, e se vê identificado com outros movimentos de mesma sinalização que afloram, nestes últimos tempos, em vários países da Europa no Canadá.

A trajetória da democracia nos Estados Unidos tem sido acompanhada, ao longo do tempo, por um grande número de protestos que, em alguns casos se esvaíram e, em outros, foram o inicio de irresistíveis campanhas por mudanças profundas na maneira pela qual os Estados Unidos se comportam e são governados.

Para que não se imagine que a história começa agora é bom recordar a frase de Harry Truman de que “o que parece novo é a história que a gente não leu” e vale fazer uma viagem por bibliografias e “sites” facilmente encontráveis que enumeram esses movimentos (que foram em seu tempo ruidosos, controvertidos e ocasionalmente violentos) e descrevem os que se consolidaram e os ficaram pela beira do caminho. Em certos casos, uma derrota de um determinado movimento popular não é uma sentença definitiva da história e a mesma causa, com outros atores e outras roupagens, vai reaparecer poucos anos depois de forma irresistível e alcançar a vitória que lhe havia sido negada apenas alguns anos antes.

Em décadas recentes, os movimentos de maior expressão popular nos Estados Unidos foram os que mobilizaram forças e sentimentos em favor da causa do combate à desigualdade racial – impulsionados pela visão de Martin Luther King- os que canalizaram os protestos contra a Guerra do Vietnam, os que buscavam e buscam a alteração das regras do comércio internacional e refletem o temor dos efeitos da globalização sobre a criação de empregos domésticos e a competitividade dos produtos manufaturados nos Estados Unidos e aqueles que queriam que o Presidente Richard Nixon, desacreditado, deixasse o poder.

Mais abrangente foi o grande movimento de repúdio aos valores da sociedade americana que prevaleceram ate o fim da era Eisenhower e que foram desafiados por uma contracultura hippie (para dar o nome impreciso que servia para englobar todos os ativistas dessa quadra) e que, ao fazer erodir valores tradicionais da sociedade americana ajuda a explicar a reação contra a essa visão libertária secular e racionalista da história que é, no fundo, a que se contrapõe à grande onda conservadora que varre a America nos últimos trinta anos.

São numerosos os movimentos de caráter mais local ou regional que, também nos últimos anos, empolgaram setores da sociedade norte-americana e que, tendo podido fazer ouvir seu protesto ou tendo conseguido a correção, mesmo que parcial, dos desacertos contra os quais se insurgiam ou bem consideraram que o trabalho estava feito ou resolveram esperar momento mais propício para levar avante uma nova etapa da causa que os mobilizava. A lista é longa e iria desde as lutas apaixonadas pró e contra o aborto, pró e contra o casamento “gay”, contra os abusos sexuais por parte de setores do clero, contra o fumo e contra, sobretudo as práticas vistas como prejudiciais à qualidade e a preservação da sustentabilidade do meio ambiente.

Não é difícil entender a preocupação norte-americana com a ideia da ocupação de Wall Street vista como um movimento que se espraia e reponta, aqui e acolá, e que expulso de um palco de ação reaparece em vários outros com a autoconfiança de quem acredita ter o respaldo de uma grande parte da opinião pública, americana e internacional, e também ajudada pela retórica que faz com que seus militantes se considerem parte e porta-vozes dos 99% da população espoliados pelo 1% que se apropriou de parcela tão desmesurada da riqueza nacional.

Os americanos sabem como sua história doméstica é pontilhada por uma violência que se encontra logo um pouco abaixo da superfície. Tem a memória histórica de uma Guerra Civil que literalmente e durante vários anos dividiu o país. Quatro de seus presidentes foram assassinados enquanto ocupavam o poder; dez outros foram vitimas de atentados e há a suspeita de que dois outros possam ter sido eliminados de forma violenta.

Os atuais distúrbios têm o perfil que inquieta os que cuidam da ordem pública. Não é fácil rotular os manifestantes de maneira a fazer com que a sociedade veja sua causa com repulsa, muito embora sejam muitos os que condenam seus métodos de ação. Não é fácil aplicar-lhes qualquer rótulo racial, religioso ou ideológico. São um recorte do mosaico que é a sociedade dos Estados Unidos e falam, certamente não em nome de 99% da população mas em nome de grandes segmentos que se sentem prejudicados e ameaçados e que estão dispostos se não a aderir pelo menos a escutar os militantes que agem em seu nome.

Talvez hoje se possa dizer que nos Estados Unidos a definição de maioria seja um somatório de minorias. Seria esta, talvez, a melhor maneira de identificar os militantes ao reconhecê-los como um somatório de minorias.

Órgãos de segurança e de informação e seus agentes, moldados pelos esquemas que prevaleceram durante a Guerra Fria e os anos de enfrentamento ideológico e de poder entre o Leste e o Oeste, são hoje confrontados por um movimento a rigor acéfalo, e cujas táticas se vão forjando ao sabor as circunstâncias e em que a convocação se faz através da imensa agilidade e alcance das redes sociais e onde, mais do que o numero de manifestantes em qualquer episódio, o que de fato importa são os grandes números dos que se comunicam e se coordenam pelo Facebook e pelo Tweeter.

Os Estados Unidos enfrentam, de alguma forma e de forma muito atenuada e modificada, sua ”primavera árabe” interna e encontram as mesmas dificuldades de governos no Oriente Médio que não souberam (e não sabem) responder a um desafio tão ágil e tão disperso e que não pode ser decapitado porque, literalmente, não há cabeças a cortar.

Não vejo sinais, até agora, de que o movimento dos que desejam ocupar Wall Street tenha perdido adeptos ou dê sinais de esgotamento. Há na internet, especialmente no site “We are the 99%”, para citar apenas um, campanhas de grande simplicidade e, acredito, de imenso alcance, em que pessoas de todas as origens, idades e circunstâncias dizem como suas vidas foram afetadas de forma desastrosa pela ganância e pela corrupção de Wall Street.

Mesmo quando, em muitos casos, não se pode estabelecer uma causalidade direta entre as crises individuais que essas pessoas enfrentam e os malfeitores de Wall Street, o efeito cumulativo da campanha me parece que já é (e será ainda mais) extraordinário e que, mais cedo ou mais tarde, todos esses protestos e indignação serão canalizados de alguma forma, para levar o sistema financeiro dos Estados Unidos (e por extensão o mundial) a empreender uma campanha de restauração de valores e de práticas que permitam uma reaproximação com a sociedade e, de alguma forma, estimulem uma redistribuição de riquezas e oportunidades.

Em algum momento – não necessariamente próximo, mas que não pode ser adiado para muito mais tarde – os ativistas do “Occupy Wall Street” deverão se engajar na canseira da ação política como ela deve ocorrer dentro do quadro institucional de uma democracia madura: formular propostas, atrair apoios, lançar candidatos aos postos eletivos sem o que seu ímpeto poderá logo se dissipar.

Seria uma pena se um impulso de solidariedade e protesto, em última análise, vigoroso e com evidente ressonância na sociedade se esgotasse apenas no jogo de manifestações e agitação e que desse impulso não perdurasse uma herança valiosa para a evolução da cultura política dos Estados Unidos.

Os que se propõem a ocupar Wall Street encontraram em casa e no exterior uma ruidosa caixa de ressonância para suas reclamações. Existe um sentimento de que o jogo não poderá continuar a ser jogado como tem sido nos últimos anos e se consolida a descrença de que os mercados –não regulados – possam encontrar por si sós a sabedoria e o comedimento sem os quais nenhum sistema estável pode funcionar. Um ativista diria que não será mais tolerável privatizar lucros e socializar prejuízos.

Imaginar que em uma democracia consolidada e madura como a que existe nos Estados Unidos os protestos bastarão para levar adiante as importantes revisões de atitudes e práticas que a superação da crise atual reclama parece uma expectativa pouco realista. O problema para o movimento de ocupação de Wall Street reside em procurar manter sua informalidade e seu vigor e, ao mesmo tempo, procurar se infiltrar no “mainstream” da política norte-americana.

Não se pode descartar que uma séria e crescente deterioração das expectativas econômicas dos Estados Unidos possa por si só oferecer ao “Occupy Wsall Street” o combustível de que precisa para continuar nas ruas e, ao mesmo tempo, ganhar posições e influência nos recintos fechados onde se formula e se executa a política norte-americana.

É difícil prever como o jogo sucessório nos Estados Unidos já plenamente lançado há de afetar o ânimo dos militantes e as atitudes de opinião pública do país. As próximas eleições presidenciais marcadas para novembro de 2012 deverão ser certamente afetadas pelos dois grandes movimentos de idéias que hoje se enfrentam, o do Tea Party, de um lado, e o dos que querem ocupar Wall Street do outro, e que simbolizam a extrema ruptura atual da política nos Estados Unidos. Esse enfrentamento, expressão mesma do grande impasse político que Washington hoje atravessa, deverá levar a uma das eleições mais polarizadas e mais rancorosas das ultimas décadas.

Impressiona hoje a quem visita Washington – e essa impressão seria a mesma em outras cidades, mesmo que menos politizadas do que a capital do país – o distanciamento de posições entre os membros dos dois grandes partidos políticos, a intransigência das teses defendidas por esses grupos e como em todas as “mídias” não existe mais uma preocupação primária com a objetividade, como padrão de comportamento, mas a aceitação de que cada comentarista é um ator engajado em um dos lados do grande debate nacional.

Talvez fosse preciso recuar até l968, quando um conjunto de protestos se fez ouvir ruidosamente e ao mesmo tempo contra Guerra no Vietnã, contra o uso da força e a repressão nos campi universitários e contra valores e atitudes que eram vigorosamente desafiados pela contracultura. Como em 1968, atualmente a “malaise” e a intranqüilidade transcendem fronteiras e criam, em vários países e culturas, um clima de exaltação e protesto.

Novamente agora os Estados Unidos, divididos e traumatizados, procuram remendar suas cercas políticas, mas parecem estar longe, ainda, de encontrar um novo terreno comum e novos valores que permitam algum tipo de aproximação entre grupos frontalmente enfrentados. Não é fácil a esta altura ler nas entranhas dos acontecimentos em curso o rumo que as coisas vão seguir.

Pode-se, contudo, dizer que os Estados Unidos vivem uma grave ruptura de seu diálogo interno e que todo um ciclo de convivência entre os poderosos, sobretudo os que atuam no mundo financeiro, e a classe média chega ao fim e que a ruptura reclama um importante esforço de superação de divergências e negociação de novas bases para a ação futura. Talvez a forma mais breve de descrever o que agora acontece seria dizer que se trata de mais um episódio do feroz enfrentamento e na longa divisão, na vida americana, entre “Main street” e “Wall Street”.

Os Estados Unidos estão fraturados e incapacitados de agir, no curto prazo, de um modo que reforce convergências. E estão sem saber como criar as bases da superação dos impasses atuais. Os republicanos parecem preferir procurar impedir a qualquer preço um segundo mandato para Obama e agora o tempo se faz escasso para que antes das próximas eleições presidenciais os Estados Unidos possam redefinir prioridades e restabelecer condições mínimas suficientes de diálogo para que a administração pública possa ser conduzida de forma racional e que se criem condições que facilitem uma eficaz governabilidade daquela que é e deverá continuar a ser por muitos anos, a principal economia mundial.

Desde o “crash” de 1929 as grandes turbulências que os Estados Unidos tiveram de enfrentar podiam ser atribuídas a fatores externos que, como ondas de choque, de maior ou menor intensidade, impactaram os Estados Unidos.

A recente crise dos “sub prime” teve a característica de ter sido gerada, de forma quase que exclusiva, por fatores endógenos e não foi possível criar o cenário pelo qual rivais ou inimigos externos pudessem ser responsabilizados primária ou mesmo acessoriamente pelo que ocorreu. Não podendo encontrar o bode expiatório externo voltam-se os Estados Unidos contra si mesmos e aprofundam, até quase o ponto de ruptura, as tensões entre os diferentes setores de sua sociedade.

Por tudo o que se conhece sobre o movimento para ocupar Wall Street, não se observa nele uma visão nostálgica com relação aos valores e à performance das economias centralmente planificadas dos anos de influência do império soviético. Não vejo comentaristas que busquem hoje resgatar aquela experiência e que pretendam que a economia, comandada pelo Estado e engessada pelas burocracias, fosse mais eficiente do que aquela que responde aos impulsos do mercado.

O que parece estar acontecendo – e talvez esta venha a ser a grande herança do movimento que se espalha pelas ruas da América do Norte e as de alguns países europeus – é o reconhecimento de que uma medida de fiscalização e controle mais eficaz sobre os agentes econômicos se impõe: suficiente para regular processos e impedir evidentes desmandos, mas não tão rígida que sufoque a criatividade e a energia dos atores privados.

Identifica-se nos que integram o movimento do “Tea Party” não uma evidente dimensão nostálgica e o impulso da volta a valores e práticas que correspondem, no imaginário de seus adeptos, ao que existia na América dos primeiro anos os que reclamam que se ocupe Wall Street. Eles estão muito mais focados nos problemas atuais e querem regras do jogo não inspiradas no que já existiu, mas ajustadas aos desafios do presente e do futuro previsível.

O movimento do “Tea Party” parece entranhadamente americano em sua origem, discurso e imaginário, enquanto que os que querem a ocupação de Wall Street têm uma visão cosmopolita do mundo e aproximam sua causa do que acontece e pode vir a acontecer em outros países.

Porque não vejo que a atual turbulência internacional possa ser contornada ou superada nos próximos meses, minha convicção é que o movimento pela ocupação de Wall Street ganhará, no futuro imediato, maior ressonância dentro e fora dos Estados Unidos e receberá cada vez mais a influência de outras correntes, desde a dos “indignados” espanhóis até a dos ativistas do Canadá, país onde, a rigor, o movimento se iniciou. Outras correntes de opinião e protesto irão se juntando à medida que a crise econômica mundial, como temo que vá ocorrer, se instale e se aprofunde.

Não é fácil prever como a crise – ou melhor dito, esse conjunto de crises que o mundo hoje atravessa – influenciará as próximas eleições presidenciais americanas para além da constatação, evidente, de que a luta eleitoral será travada, visceralmente, entre os que expressam a ideologia do Tea Party e os que apoiam a da ocupação de Wall Street antes do que entre as correntes historicamente mais tradicionais dos republicanos e dos democratas.

De alguma forma as duas bandeiras de tal maneira conquistaram a imaginação da opinião pública e tão bem representam, uma e outra, o âmago do pensamento de cada partido, que não é fácil ver o jogo eleitoral, nos próximos meses refluindo para o leito mais amplo e mais sereno dos debates tradicionais entre as duas grandes coalizões através das quais costuma se expressar o bipartidarismo americano.

Por outro lado, ambos os movimentos são uma grande simplificação de causas e tendências muito mais complexas e não seria bom que republicanos e democratas, ao se fazerem caudatários de uma ou outra corrente, aceitassem ser apenas as caricaturas de seus ideários como a adesão a qualquer dos dois movimentos sugeriria.

O Brasil vive um momento que aponta em direção contrária ao do que acontece nos Estados Unidos. Há entre nós, de fato, um esforço bem sucedido para uma melhor distribuição da renda e observa-se uma redução das desigualdades sociais e econômicas.

Não haveria, portanto, clima aqui para que um movimento como o de “OWS” prosperasse como também seriam alheios à nossa história e à nossa circunstância os caminhos do “Tea Party”.

O que talvez não possamos evitar é que o agravamento e a difusão da crise mundial nos atinjam e nos obriguem a redimensionar, para baixo, as nossas expectativas de crescimento.

Esta matéria faz parte do volume 20 nº3 da revista Política Externa
Volume 20 nº 3 - Dez/Jan/Fev 2012 A difícil governança do mundo em crise

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