Política Externa

Sobre Hannah Arendt no filme de Von Trotta de Von Trotta

por em 30/09/2013
Sobre Hannah Arendt no filme de Von Trotta

O filme sobre Hannah Arendt, da conhecida diretora Margarethe von Trotta[1], foi exibido recentemente no circuito cinematográfico de São Paulo. Fui assistir ao filme com a sempre presente dedicação de estudioso da obra da grande pensadora e com a curiosidade de ver, como antigo aluno, como é que Hannah Arendt foi, ao mesmo tempo, representada e apresentada.

A atriz Barbara Sukowa, que adquiriu sua fama inicial nos filmes de Fassbinder e que personificou outras figuras femininas na filmografia de Von Trotta, como Rosa Luxemburgo, faz o papel de Hannah Arendt. Documentou-se, para fazer este papel, como relatou Luiz Carlos Merten em matéria publicada no Caderno 2 de O Estado de S.Paulo de 10/07/2013, e compôs por gestos e posturas a personagem. Registro que é possível para qualquer um ver e ouvir como era efetivamente Hannah Arendt por meio da importante entrevista que concedeu a Günter Gaus em 28 de outubro de 1964, difundida pela televisão alemã, e que hoje é acessível aos estudiosos. Para quem foi aluno de Hannah Arendt e a conheceu em 1965, no semestre em que ela foi professora na Universidade de Cornell, ninguém é capaz de encarná-la na plenitude da sua presença. Feita esta ressalva, na minha avaliação Barbara Sukowa construiu, com bastante propriedade, uma figura verossímil.

O roteiro do filme é da autoria da diretora Margarethe von Trotta e de Pam Katz que se prepararam com cuidado para dar conta da empreitada. A ideia inicial, como explicou Von Trotta em várias entrevistas, era fazer um filme de natureza biográfica, dando conta de todo o percurso da vida de Hannah Arendt. A sua vida (1906-1975), como a de tantos da sua geração nascidos na Europa da primeira metade do século XX, teve que lidar com as vicissitudes existenciais de uma era de extremos e com o desenraizamento desencadeado pela ilimitada prepotência dos regimes totalitários – no seu caso, o do nazismo antissemita que a expeliu de seu mundo de juventude e de formação universitária na Alemanha, onde foi aluna de Heidegger e Jaspers.

Esta experiência instigou Hannah Arendt a elaborar uma densa obra, hoje reconhecida como de inequívoca relevância para o entendimento das múltiplas facetas da modernidade. Esta obra, no conjunto dos seus escritos, desde o livro que pode ser considerado inaugural, de 1951, As origens do totalitarismo, até os livros póstumos, como A vida do espírito (1977-1978), tem a característica de uma obra clássica. Esta, pela qualidade e originalidade da sua reflexão, nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer, para evocar uma das definições de Italo Calvino sobre o que é um clássico.

É justamente a complexidade de condensar num filme uma vida na qual o desenrolar do pensamento tem uma importância constitutiva que levou Von Trotta a mudar o seu plano original. Optou por fazer um recorte e escolheu um período da vida de Hannah Arendt caracterizado pelas confrontações suscitadas pelo seu livro Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal (1ª ed. 1963, 2ª ed. revista – 1965). No entender de Von Trotta a confrontação se prestava para dar um foco ao seu roteiro e permitia traduzir em linguagem cinematográfica quem foi Hannah Arendt.

O polêmico livro de Hannah Arendt data de uma época na qual era uma personalidade conhecida, mas controvertida, com presença na vida universitária e intelectual norte-americana e europeia. Tem a sua origem nos artigos que escreveu para a revista The New Yorker para a qual, por sua iniciativa, cobriu o processo, em Jerusalém, de Adolf Eichmann. A sua motivação foi, por conta do seu passado e das suas análises sobre o totalitarismo, a de ver e avaliar, em carne e osso, um executor do Holocausto, pois não teve, como disse, na ocasião, a oportunidade de assistir aos julgamentos dos nazistas no Tribunal de Nuremberg.

Eichmann foi um dos mais notórios agentes nazistas responsáveis pela gestão da “solução final”, voltada para o extermínio dos judeus. Tinha, depois da Segunda Guerra Mundial clandestinamente se escondido na Argentina, onde foi capturado por agentes israelenses e levado para Israel, para ser julgado pela sua ação na condução do Holocausto. O filme, com muita pertinência, para o entendimento da questão e da análise de Hannah Arendt, insere várias cenas documentais do julgamento.
Na construção do enredo do filme, Von Trotta coloca em cena, entre outros, o marido de Hannah Arendt, Heinrich Blücher; seu amigo, em Israel, o esclarecido sionista Kurt Blumenfeld; e seu colega e amigo dos bancos universitários na Alemanha, o pensador Hans Jonas. Heidegger, em flash backs, aparece apropriadamente em surdina. Todos são verossímeis à luz da correspondência publicada de Hannah Arendt. A escritora Mary McCarthy, fiel e próxima amiga de Hannah Arendt e que ficou pública e destemidamente ao seu lado nos difíceis embates do período, não é, no meu entender, tratada com o peso que merece. Senti falta da presença de Jaspers, o mestre querido de Hannah Arendt, e que foi um dos seus mais importantes interlocutores sobre o caso Eichmann, como mostra a publicada correspondência que trocaram.

O filme tem compreensão e simpatia pelas posições de Hannah Arendt. É o que se verifica pela cena em que explica aos seus estudantes o porquê das razões do seu relato. A fala de Hannah Arendt no filme mostra o domínio que tem Von Trotta do seu pensamento. Mostra, também, como era bom e respeitoso o seu relacionamento com seus alunos, que nada tinha a ver com a arrogância intelectual e a falta de tato de que foi acusada por seus detratores. Da qualidade pessoal deste relacionamento dou meu testemunho, o testemunho de quem teve o privilégio de ouvir de viva voz os seus ensinamentos.

Foi o que relatei em artigo de 2007, publicado em Estudos Avançados, sobre o seu curso de pós-graduação “Experiências políticas do século XX”, no qual se examinou, inter alia, o ineditismo histórico dos campos de concentração e do Holocausto.

São três os temas centrais das polêmicas que o seu livro suscitou e o filme está reavivando: (i) o papel dos conselhos judaicos na Europa dominada pelos nazistas e em que medida alguns facilitaram a “solução final”; (ii) a natureza do mal que levou ao Holocausto e (iii) a discussão sobre a condução do processo, as questões jurídicas que suscitou e os propósitos políticos do julgamento, em Israel, de Eichmann. Sobre estes três temas faço a seguir algumas sucintas considerações.

Alguns conselhos e lideranças da comunidade judaica organizada na Europa, porque tinham nomes e endereços, facilitaram a entrega de judeus a nazistas preservando uns e condenando outros. Gershom Scholem, na sua troca de correspondência com Hannah Arendt sobre o assunto, apontou que, nas poucas páginas que ela dedicou ao assunto o tom de sua crítica foi inadequado. Registrou que muitos conselhos tiveram conduta exemplar e que é muito difícil julgar com objetividade o comportamento das pessoas em situação-limite como a da época da dominação totalitária.

A posição de Hannah Arendt foi a de que a conduta de alguns destes conselhos é uma verdade factual e, como tal, deveria ser enunciada e o que ela mostrou foi que a dinâmica corruptora dos valores ensejada pelo totalitarismo no poder caracterizou os algozes, permeou a sociedade e alcançou até as vítimas. Neste sentido, o mal, no III Reich, converte-se em “legalidade”. Acho pertinente a análise de Hannah Arendt, mas Scholem não deixa de ter razão quando aponta que o tom, dada a sensibilidade do assunto, foi inadequado. Daí as reações que suscitou que, por sua vez, foram despropositadas, no intuito de deslegitimá-la e desqualificá-la.

O problema do mal no século XX, depois de Auschwitz, é um grande tema. Em As origens do totalitarismo Hannah Arendt, inspirada por Kant, cunhou o termo mal radical, como tal entendido o que promoveu com os nazistas por meio do Holocausto, a gratuidade da descartabilidade dos seres humanos. Em seu livro sobre Eichmann, tendo em vista a enormidade do crime e a mediocridade do personagem, reformulou a sua posição, cunhando o termo “a banalidade do mal”. Com isto, o que ela quer dizer que o mal no III Reich não foi um mal diabólico, mas um mal burocrático que levou aos horrores do Holocausto. Este mal não é profundo, mas extremo, como disse a Scholem na correspondência acima citada e pode espraiar-se pelo mundo como um fungo e destruí-lo. Foi a conduta de Eichmann no processo, a sua medíocre “normalidade” de burocrata, a sua incapacidade de parar para pensar a diferença entre o certo e o errado e a enormidade dos horrores perpetrados, que levou Hannah Arendt a cunhar o termo “a banalidade do mal”.

Penso e concordo, neste sentido, com a análise de Richard Bernstein que, ao contrário do que pensava a própria Hannah Arendt, os dois termos não são incompatíveis, mas complementares. O mal é radical na perspectiva das suas vítimas que padeceram no Holocausto a pena sem culpa de sua descartabilidade. O mal é banal na análise da perspectiva dos seus agentes perpetradores que, como é o caso de Eichmann, pela mediocridade da incapacidade de pensar e julgar, levaram adiante, sem maiores dilemas, os atos que tornaram seres humanos supérfluos e descartáveis.

As questões jurídicas do processo Eichmann foram aquelas sobre as quais mais me detive, seja no capítulo VI do meu A reconstrução dos Direitos Humanos – um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt (1988), seja recentemente, em 2011, no texto “Reflexões sobre a atualidade da análise de Hannah Arendt sobre o processo Eichmann”, recém-publicado no livro organizado por Marion Brepohl, Eichmann em Jerusalém – 50 anos depois (2013).

Na análise do processo Hannah Arendt criticou o particularismo da perspectiva do promotor, apontando que ele se voltou para o sofrimento das vítimas, para o que os judeus sofreram ao padecer uma pena sem culpa e não para o alcance do crime perpetrado por Eichmann. Atendeu, assim, o procurador, aos objetivos políticos do governo de Israel que identificou no processo e na sua publicidade um componente de legitimação do sionismo. O genocídio, diz Hannah Arendt, foi perpetrado no corpo do povo judeu e o antissemitismo explica a escolha das vítimas mas não a natureza inédita do crime, que não foi um pogrom em larga escala e, como tal, uma continuação da imemorial perseguição aos judeus no correr da História. Não articulou assim, na ocasião, o promotor, o novo do alcance universal representado pelo inédito da experiência do totalitarismo.

Para Hannah Arendt, o alcance universal do fundamento da razão de punir o crime de genocídio é a de que se trata de um agravado crime contra a humanidade porque é um ataque deliberado à pluralidade e à diversidade constitutivas da condição humana. Por isso deveria ser condenado, como foi, pelo Tribunal de Jerusalém, e enforcado, pois nenhum povo da Terra pode sentir-se razoavelmente seguro de sua existência e, portanto, à vontade e em casa no mundo caso se admita o genocídio como uma probabilidade futura. O Holocausto foi um precedente que deve ser visto como uma advertência de alcance universal. Por isso a exigência da repressão ao genocídio é uma válida norma do jus cogens, essencial para a ordem pública internacional. Dá, assim, Hannah Arendt, no meu entender a cabal fundamentação ontológica da razão de punir o genocídio que foi tipificado, na Convenção Para a Prevenção e Eliminação do Crime de Genocídio em 1948 – que se deve ao empenho do jurista Raphael Lemkin, que cunhou o termo – tipificação que foi reiterada no Estatuto do Tribunal Penal Internacional de 1998.

Notas

[1] Direção de Margarethe Von Trotta, com Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer, Alemanha, Luxemburgo, França (2012).

Esta matéria faz parte do volume 22 nº2 da revista Política Externa
Volume 22 nº 2 - Out/Nov/Dez 2013 Diplomacia e Democratização

Na última década, a política externa brasileira tem sido capaz de se renovar e se antecipar às mudanças que estavam em curso na ordem internacional

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