Política Externa

O que o Dia Deve à noite* de Yasmina Khadra

por em 16/01/2012
O que o Dia Deve à noite*

Se hoje as populações árabes se revoltam contra herdeiros da luta anticolonialista, corrompidos por décadas de poder, o romance “O que o dia deve à noite” nos lembra as visões preconcebidas que com frequência ainda as separam, apesar da modernidade comum do Facebook e do Twitter, das antigas metrópoles europeias.

O romance é o quarto publicado no Brasil de Yasmina Khadra, pseudônimo do ex-militar argelino radicado em Paris Mohammed Moulessehoul. Como em “O Atentado” (Sá Editora), protagonizado por um médico palestino que descobre os limites do que lhe parecia uma integração plena a Israel, seu narrador vive dividido entre as comunidades nativa e de origem europeia, desta vez na Argélia. Paralisado, ele evita optar por um lado (como tentou em seu tempo o escritor franco-argelino Albert Camus), até ser obrigado a fazê-lo pelas forças pouco complacentes da história.

O narrador é Younes, filho de agricultores falidos que nos anos 1930 abandonam o interior argelino para tentar a vida em um cortiço sórdido na periferia de Orã. Envergonhado pelo fracasso em sustentar a família de modo digno, o pai o entrega ao irmão farmacêutico, morador da “cidade europeia”.

O tio é casado com uma argelina católica de origem francesa, que cria Younes como filho. Ao receber o menino, Germaine o banha, mostra o quarto que será só para ele e o batiza com um nome cristão, Jonas, intencionando protegê-lo.

Jonas cresce quase alheio aos primeiros rasgos do movimento nacionalista que, durante a Segunda Guerra, levam o tio a enfrentar suspeitas dos vizinhos em Orã. A família muda-se então para Río Salado (hoje El Malah), cidade vinícola habitada também por descendentes de colonos espanhóis.

Lá, o menino integra-se a um grupo de adolescentes pied-noir, como os franceses chamavam de modo pejorativo seus concidadãos nascidos na Argélia, e debate-se numa paixão correspondida, mas nunca consumada, com a bela Émilie.

Para a França, a Argélia não era uma colônia qualquer. Invadido em 1830, o território norte-africano foi a única possessão ultramarina declarada parte integral do Estado francês. De início sem direito automático à cidadania plena (tinham que requerê-la e abrir mão de sua religião), os muçulmanos (árabes, cabilas) passaram a ter formalmente direitos iguais em 1947. Na prática, a grande maioria continuou discriminada.

No romance, essa discriminação é personificada por Jelloul, “faz-tudo” do jovem francês André e que depois se tornaria um guerrilheiro implacável da FLN (Frente de Libertação Nacional).

O que o dia deve à noite está longe de ser um primor literário. A escrita de Khadra é muitas vezes melosa demais _ “aquele olhar radiante, que revelava nossos segredos e fraquezas mais profundas”_, mas a narrativa se impõe à medida que a guerra de independência invade a existência de Younes/Jonas.

O protagonista tenta ignorá-la até que um comando insurgente liderado por Jelloul invade a farmácia da família, em busca de remédio e tratamento médico para um comandante.

Iniciada em 1954, a guerra de libertação argelina foi sangrenta e suja. Não há acordo nem sobre o número de mortos, estimado em 400 mil na França e em mais de 1 milhão na Argélia, a grande maioria nativos.

O conflito dividiu os militares e a intelectualidade franceses (esta última divisão retratada no ótimo livro “Uncivil War”, de James Le Sueur). Levou à queda da Quarta República e à volta de Charles de Gaulle ao poder, em 1958.

Com atentados terroristas das duas partes, massacres franceses, tortura, a guerra retratada no filme clássico “A Batalha de Argel” (1966), de Gillo Pontecorvo, foi campo de teste para táticas de contrainsurgência usadas depois no Sudeste Asiático e na América Latina. No livro, um amigo de Jonas adere à Organização do Exército Secreto (OAS, na sigla em francês), grupo paramilitar franco-argelino.

A impossibilidade de qualquer entendimento entre os dois lados e a negação da existência do outro é exemplificada por um diálogo entre Jonas e Jaime Sosa, pai de André e produtor de vinhos. O texto, que pode parecer apelativo, não é tão diferente do que se pode escutar ainda hoje, por exemplo, no conflito entre israelenses e palestinos.

“Quando meu bisavô ocupou essas terras vazias do fim do cu do mundo”, diz Jaime, “estava certo de que ia morrer sem tirar proveito delas. (…) Graças à minha família, graças a seus sacrifícios e sua fé, esse território selvagem se deixou amansar. De geração em geração, ele se transformou em campos e plantações”.

Incorporando Younes, Jonas responde: “O senhor devia dar uma olhada nas aldeias a sua volta. A infelicidade reina ali desde que homens livros foram rebaixados à condição de bestas de carga”.

Em 1962, quando a Argélia se tornou independente, viviam lá perto de 1,4 milhão de pessoas de origem francesa, numa população total de cerca de 10 milhões. Quando De Gaulle enfim entendeu que a independência era inevitável e enfrentou a resistência, inclusiva armada, da extrema direita, cerca de 1 milhão de franceses fugiram.

O romance termina, décadas depois, quando Younes visita a França, já octogenário, para tentar resgatar os amigos roubados pelas identidades coletivas em cada margem do Mediterrâneo.

Esse dualismo se repete na própria trajetória de Moulessehoul/Khadra. Festejado na antiga metrópole quando se pensava que seus romances traduziam a visão de uma mulher árabe, o escritor passou a ser hostilizado ao revelar sua identidade de ex-militar. Como oficial do Exército argelino, ele havia atuado em outra guerra suja, agora contra os fundamentalistas do Grupo Islâmico Armado, braço da Frente Islâmica de Salvação, cuja vitória eleitoral em 1991 foi cassada por um golpe militar.

O conflito, marcado pelas fotografias chocantes de civis degolados, teve um episódio envolvendo monges franceses retratado no filme “Sobre Deuses e Homens”, de Xavier Beauvois, exibido no Brasil no início deste ano. Por ironia, o golpe e a guerra movida contra os islamitas tiveram, desta vez, o apoio de Paris.

*Romance de Yasmina Khadra, editora Argumento, 2011, 392 páginas

Esta matéria faz parte do volume 20 nº3 da revista Política Externa
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