Política Externa

The quest: energy, security, and the remaking of the modern world de Daniel Yergin

por em 16/01/2012
The quest: energy, security, and the remaking of the modern world

Já foi pior: nos anos cinquenta era mais de 90%. Hoje, 80% da oferta mundial de energia vêm de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural). Tão cedo não vai mudar. Ao longo de 36 capítulos e 230 seções, com mapas, tabelas, gráficos e fotos que documentam quase dois séculos, Daniel Yergin (considerado a maior das autoridades em energia e geopolítica) explica como e por que se chegou a isso. E por que vai continuar, devido tanto à oferta quanto à demanda.

Caso você se impressione com os argumentos de Yergin de quanto é difícil reduzir o uso de combustíveis fósseis, e, além disso, de que têm fundamento as advertências sobre emissões de CO2 que os cientistas do IPCC, o Painel Internacional sobre Mudança Climática da ONU, vêm fazendo desde 1990, cautela não será demais. Convém mudar da beira-mar enquanto é tempo (se é que você pode pagar sua mudança) e contratar seguro contra catástrofes naturais.

Mas ainda há esperança. Se algum alento deriva dessas 800 e tantas páginas, é que até agora sempre apareceu alguma tecnologia solucionando impasses graves. E por quê não há de acontecer o mesmo no futuro? Assim, os custos econômicos e políticos de aplicar o princípio precautório às emissões de CO2 podem (talvez) começar a cair com avanços da tecnologia.

Haverá quem extraia do livro conclusões mais otimistas. Parece que há os que acreditam nos cientistas do IPCC, mas acham que as “energias renováveis” vão resolver o problema em seu devido tempo; e há os que acreditam que não há como fugir dos fósseis, mas são céticos quanto ao IPCC. Em todo caso, o livro, mesmo com previsões preocupantes, jamais é maçante; cada seção, além do título que atrai o leitor, é uma história de suspense ou episódio inusitado da vida de personagem do mundo da energia – cientista, empresário ou político.

É a história da humanidade com uso cada vez maior de energia, de como se conseguiu produzir essa energia (em uma seção do livro, lemos que um carro usa energia equivalente à força de 2000 homens; ou que 94% da energia do mundo ainda em meados do século XIX vinham da força de homens e animais), e de como é preciso obter cada vez mais energia e ao mesmo tempo reduzir as correspondentes emissões de gases de efeito estufa.

Surpresa já no início: passados os parágrafos introdutórios, que já comentam Fukushima e a Primavera Árabe, a invasão do Kuwait, e a outra, diferente, do Iraque, o capítulo I começa com Gorbachev anunciando sua renúncia e o fim da União Soviética. Mas, depois de três capítulos detalhados sobre o colapso do comunismo, oligarcas russos e a entrada de companhias petrolíferas ocidentais em regiões produtoras da Sibéria ao Mar Cáspio e seu entorno, entende-se esse início: o mundo do petróleo, integrada essa parte da produção antes isolada, é agora totalmente global.

Começara a ficar global depois dos anos sessenta, quando os Estados Unidos, antes quase autossuficientes em energia, passaram a depender de importações de petróleo, que hoje abastecem mais de metade de suas necessidades, mesmo tendo a produção doméstica quadruplicado entre 1970 e 2010.

Mais global ainda se tornou com a inserção da China, ainda autossuficiente em petróleo antes de 1993, apoiada no seu carvão. Espantoso o gráfico das vendas de autos na China e nos Estados Unidos: ”Em 2000, 17,3 milhões de novos carros foram vendidos nos Estados Unidos, comparados com 1,9 milhões na China. Em 2010, apenas 11,5 milhões foram vendidos nos Estados Unidos, enquanto a China alcançou 17 milhões” com previsão de 30 milhões para 2020 (p. 217). É simbólico de quanto aumentam as necessidades de energia no mundo todo. E também de como a China passou a ser o maior emissor de CO2 do mundo.

Os dois capítulos sobre a ascensão da China são a sua história do aumento na demanda total de energia, que quintuplicou desde 1980. Hoje, a China, assim como Estados Unidos, importa cerca de metade de suas necessidades de petróleo. “No caso da China, essa parcela tende a aumentar.” (p. 223) “Hoje a China é por si só o componente mais dinâmico e de mais rápida mudança no mercado global de petróleo.” (p.223)

Os capítulos 9 e 10 são também a história de como foi obtida essa energia: incluem peripécias para produzir petróleo apesar da Revolução Cultural, a dependência dos russos e os desafios quando estes abandonaram a exploração na China, a expansão mundial de petrolíferas chinesas e sua associação com companhias ocidentais depois das reformas de Deng Xiaoping, as operações no Cazaquistão, no Turcomenistão e, em particular, na África, as tensões relativas ao Irã, além da crescente responsabilidade de segurança internacional e ambiental da China.

Mais adiante, nos capítulos das energias renováveis, aparece de novo a China: duas das cinco maiores companhias de turbinas eólicas são chinesas (não obstante ter sido em Cleveland, EUA, que pela primeira vez se produziu eletricidade com vento, no fim do século XIX). A maior planta solar do mundo se constrói na Mongólia, e “o centro de gravidade da indústria solar global se deslocou para a China” (p.579), onde está hoje mais de metade da produção de módulos solares de silicone cristalino (o tipo mais comum de módulo solar), transformando a China no maior exportador mundial de células fotovoltaicas (p. 544).

Grande parte do livro é um relato de como nunca se concretizaram repetidas previsões de esgotamento das reservas petrolíferas, porque ao longo da história se abriram novas áreas e novas fronteiras tecnológicas. Mas quanto petróleo se pode produzir não é só questão de geólogos e engenheiros, pois, como diz Yergen, há que considerar também os riscos acima do subsolo, inclusive a instabilidade política do que ele denomina um “petroestado” (exemplificado, no capítulo 5, pela Venezuela até Hugo Chavez).

Depois que a explosão da plataforma Deepwater Horizon reduziu a perspectiva de novas explorações em águas profundas no Golfo do México, a nova fronteira agora é o pré-sal e o Brasil, se investir mais de meio trilhão de dólares (e Yergin registra que foi da Petrobrás o primeiro poço do mundo em águas profundas, com a Plataforma do Marlim, em 1992) (p.254). A outra fronteira é a areia betuminosa do Canadá, já sendo exportada para os EUA em grande escala.

As fronteiras anteriores são examinadas todas, desde o primeiro poço no fim do século XIX: como se deu a primeira perfuração em água, quando se passou de águas rasas até o nível em que se perde de vista a costa, como se descobriu a maneira de liquefazer gás natural para transportar em navios-tanque, como estes foram em alguma medida substituídos pelos gasodutos, como vem aumentando a importância do gás no suprimento mundial de energia. Impossível resumir.

Quatro capítulos relatam a ciência e a política internacional da mudança climática. Ainda não há consenso, apesar de a preocupação vir de longe, desde a obsessão com geleiras de John Tyndall que o levou a descobrir como a atmosfera retém calor, no século XIX, passando por avisos variados de cientistas, que políticos têm acolhido ou descartado, conforme o panorama local, até chegar no “monstruoso evento” (p.468) de quase 40 mil pessoas reunidas na “Cimeira da Terra” do Rio em 1992, quando foi aprovada a Convenção sobre o clima.

Ainda não vi melhor relato que os capítulos 21 a 25 para entender o que é a “mudança climática”, porque ela deve importar a cada um de nós embora a opinião pública ainda esteja indiferente, e por que é tão difícil ter acordos multilaterais para limitar a emissão de gases de efeito estufa.

Também é a melhor explicação do que é o comércio das licenças de emissão de poluentes ou o “mercado de direitos de poluição” que funcionou em alguns casos para reduzir poluição de forma eficiente usando o mecanismo de preços (cap. 24). A defesa desse mercado enfrenta a objeção doutrinária de ambientalistas que consideram esse comércio imoral e preferem combater a poluição via “comando e controle” apesar de todas as evidências de corrupção gerada por sistemas que “criam obstáculos e fornecem permissões”.

Economistas apreciarão que Yergin comece essa explicação com as diferenças teóricas entre Ronald Coase e Arthur Pigou a respeito dos chamados “impostos pigouvianos”. E chegue ao contencioso entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e até ao pitoresco do Protocolo de Kyoto, onde a tentativa de ter o mercado como aliado no combate à mudança climática chegou apenas ao “Mecanismo de Desenvolvimento Limpo”, do qual resultaram alguns investimentos em “energia limpa” (cap. 25).

Divertida a história de como Obama em Copenhague, em dezembro de 2009, no fim da caótica COP 15 que pretendia aprovar um acordo para suceder o Protocolo de Kyoto, sai sozinho em busca do representante chinês, Wen Jiabao, consegue passar pela segurança na sala da delegação da China, e lá acha, junto a Wen, o brasileiro Lula, o sul-africano Zuma e o indiano Manmohan Singh que tentavam uma posição comum. Obama passou a redator do grupo e chegaram a um acordo de compromissos paralelos de redução de emissões (sem obrigatoriedade de tratado), para o qual obtiveram o apoio dos europeus. Infelizmente os 113 chefes das “partes contratantes” presentes em meio aos 27.000 participantes acreditados não aprovaram o acordo do “grupo dos maiores emissores de CO2”.[1] É o caso de fazer análise custo-benefício desses megaencontros.

Ambientalistas mais radicais dirão que Yergin não enfatizou o suficiente as ameaças da mudança climática. Mas ele apenas alerta para o cuidado de não exagerar para não perder credibilidade (cuidado que teve o sueco Bert Bolin enquanto presidiu o IPCC, mas que falhou recentemente em declarações alarmistas sobre as geleiras do Himalaia, contestadas pelos indianos). Mais que isso, mostra que a economia importa: o custo da prevenção, mitigação e adaptação é alto, e sequer no cálculo desse custo há unanimidade.

À espera de um consenso internacional sobre como prevenir a mudança climática, Yergen avalia as esperanças relativas às “novas energias”, não só seus aspectos técnicos, mas também os sócio-econômicos e políticos. Já no começo, de novo a sua típica sensatez: “Mesmo em 2010, as energias renováveis eram responsáveis por apenas 8% da oferta de energia dos Estados Unidos – mais ou menos a mesma proporção que em 1980. Excluam-se dois itens – hidroeletricidade (constante por muitos anos) e biomassa (basicamente etanol) – e as renováveis constituíam em 2009 menos de 1,5% da oferta total de energia. Mais ou menos o mesmo é verdade ao redor do mundo.” (p.524)

Em seu conjunto, mostra que as energias “renováveis” nem são tão inesgotáveis ou tão benignas para o meio ambiente quanto se imagina. Em geral são mais caras e há a questão dos sistemas especiais de distribuição para que elas cheguem ao consumidor e das reservas para a intermitência (como baterias). As renováveis examinadas incluem a do vento, a solar direta (fotovoltaica e concentrada), biocombustíveis (etanol e outros), biomassa, geotérmica, hidroeletricidade, a solar passiva (aproveitar a natureza para reduzir o consumo, que se confunde com eficiência energética). A energia nuclear aparece como talvez a mais promissora sem emissões de CO2, mas não há como ignorar o temor e a rejeição política que ela enfrenta em toda parte.

Todas essas outras energias já tiveram seus momentos de impulso, de regressão, e de novo impulso, altamente dependentes dos azares da produção e dos preços do petróleo, dos períodos de boom ou de depressão na economia, das crises financeiras em momentos diversos. Dependentes também das percepções de segurança (caps. 13 a 15)), pois não é apenas por motivos ecológicos que convém ter alternativas a carvão, petróleo e gás.

Novas tecnologias “descarbonizadas” no futuro têm que ser competitivas. Haverá nos orçamentos públicos dinheiro suficiente para subsídios? Não parece opção razoável quando entre os dois maiores emissores de CO2 há um que é também o detentor da maior dívida pública.

Assim, Yergin coloca suas fichas no lado do consumo: eficiência e conservação, em múltiplas variantes. Não só tecnologia que permita usar menos nos edifícios, no transporte, nas máquinas, mas economia no uso individual. Afinal, o país mais industrializado, o Japão, é o que tem menos intensidade de energia, e assim a esperança de Yergin está no conceito de “mottainai”. Ao menos deveríamos eliminar os subsídios aos fósseis implícitos em nossa maneira de viver.

Não faltam relatórios sobre energia. A IEA (a Agência Internacional de Energia na sigla inglesa) acaba de lançar seu World Energy Outlook 2011, com previsões para os próximos 25 anos (740 páginas e 270 gráficos). Nenhum será tão esclarecedor quanto este livro de Daniel Yergin, incluído, logo depois da publicação, entre os cinco finalistas do prêmio do Financial Times and Goldman Sachs Business Book of the Year Award.

Notas

[1] Yergin é bom contador de casos: na primeira das reuniões para buscar um acordo para reduzir emissões de gases de efeito-estufa, em Kyoto, em pleno inverno de 1997, os japoneses, para mostrar que energia não se deve desperdiçar, distribuíram cobertores às delegações. A última sessão, à beira do acordo, foi interrompida quando tradutores da ONU, cumprindo o horário, foram embora, mas aí se descobriu que o francês falava inglês fluente e se conseguiu acordar a redação final do Protocolo. Nada tão inusitado para funcionários da ONU. Yergen anota que Kyoto, em 1997, foi a primeira megaconferência da ONU em que apareceram telefones celulares, “quase do tamanho de sapatos” (p. 483). E conta muito mais casos inesperados, como do herói petroleiro Wan Jinxi ou do fog londrino poluído pelo uso de carvão em 1952 que matou milhares de pessoas.

Esta matéria faz parte do volume 20 nº3 da revista Política Externa
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