Política Externa

Habemus Papam* de Nanni Moretti

por em 24/10/2013
Habemus Papam*

A sagração de um papa é um dos últimos rituais solenes que permanecem no mundo ocidental, após a queda das monarquias. Se os reis eram reis por direito divino, os papas também têm a ver com o mundo da transcendência, pois, presumivelmente, o Espírito Santo guia a escolha do eleito, pelo colégio dos cardeais. Ao realizar seu belo filme “Habemus Papam”, Nanni Moretti parte desse acontecimento, para daí desdobrar uma série de temas.

A questão do poder percorre o filme, como um de seus principais desdobramentos. Em contraste com a constatação, tão verdadeira quanto banal, de que os homens buscam desesperadamente o poder, surge a outra face de uma mesma moeda. A face dos que o recusam, com igual desespero, seja por não se sentirem à altura das responsabilidades, seja por optarem por uma vida em que a exposição pública não é imperiosa.

No processo da escolha, um grande número de cardeais invoca Jesus Cristo e os santos, para não ser o eleito. Por fim, surpreendentemente, após uma disputa renhida, sem solução, entre os favoritos, os cardeais elegem um “tertius”, como aparente saída para o impasse. O eleito é o cardeal Melville, encarnado por Michel Piccoli, do alto de seus 83 anos. O mundo profano indica o inesperado dessa escolha: na bolsa de apostas de Londres, o cardeal azarão paga uma grande pule para os que nele apostaram.

Parece haver algo de maldoso na eleição do cardeal Melville, uma figura doce, tímida, longe das responsabilidades, da pompa e dos rituais, que integram a missão de um ocupante da Cadeira de São Pedro. De sua parte, Melville encurrala seus eminentes eleitores num perigoso beco, ao recusar a investidura. Por que ele age dessa forma? Perplexidade resultante do contraste entre suas características pessoais e a imensa tarefa que lhe é atirada aos ombros? Dúvidas quanto à firmeza de sua fé? Seja como for, um gesto do cardeal é muito expressivo de sua aflição: ao ser vestido com a solene roupagem papal, Melville desabotoa, irritado, o fecho da roupeta que lhe aperta a garganta. Porém, sua crise de pânico vai além dos pequenos gestos, e se expressa em gritos pungentes, entremeados de murmúrios, diante dos cardeais consternados. Reconheçamos que o cardeal Melville teve sorte, por viver nos tempos atuais. Há séculos, uma explosão desse tipo seria tomada por uma terrível ação do demônio, ao assenhorar-se do corpo e da alma de um papa!

Assumindo com relutância a modernidade, os cardeais não procuram um exorcista, ou melhor, procuram um exorcista do nosso tempo. Em cena, Brezzi – o melhor psicanalista de Roma, encarnado pelo próprio Moretti. Ele e o recém-eleito papa sentam-se um diante do outro, numa ampla sala do Vaticano, para iniciar uma primeira entrevista, na presença do colégio de cardeais. Brezzi/Moretti logo se dá conta de que os cardeais, a rigor, temem o “perigoso método”. Antes de iniciar uma primeira sessão, o cardeal Gregori, personagem ortodoxo em matéria de fé e de comportamento, o adverte de que é vedado perscrutar os sonhos do papa, assim como seus desejos reprimidos, aos quais os sonhos poderiam abrir caminho. Um mergulho na infância de Melville é também rejeitado, reduzido a uma “incursão muito superficial”. Tudo isso, regado com a advertência doutrinária de que a alma e o inconsciente são dois conceitos que não podem conviver.

Brezzi se dá conta de que, diante das barreiras impostas a seu trabalho, a terapia não poderia sequer ser iniciada. Sugere então que o Papa seja levado à consulta de uma psicanalista mulher, sua ex- -esposa. Diante do encontro dessa bela e delicada figura feminina, Melville sente-se melhor e como que se transfigura numa criança carente de afetos. Mas seus planos são outros e ele, à saída do consultório, escapa da férrea vigilância imposta pelo factótum civil da Santa Sé, articulador de fórmulas astutas para obter o “sim” do cardeal, todas elas fracassadas.

A partir daí, a ação se situa em dois planos. Prisioneiro do Vaticano até que a situação se deslinde, Brezzi se dedica a cuidar dos cardeais, abandonando o caminho bloqueado da psicanálise. Por sua vez, em roupas civis, Melville se lança às ruas de Roma. Brezzi utiliza seus conhecimentos para orientar os cardeais sobre o uso de psicotrópicos que muitos deles tomam, antes de dormir. Faz também um inútil esforço para compatibilizar a religião com os conceitos psicológicos contemporâneos, ao detectar, numa narrativa bíblica, os traços de uma depressão. Mas seu objetivo mais ambicioso consiste em introduzir algo de lúdico, na vida ritualizada daqueles personagens, em busca de “humanizá-los”. Um deles demonstra estar tão distante do mundo profano, a ponto de sugerir brincar de “queimada”, proposta que Brezzi recusa não sem ironia, explicando que essa brincadeira infantil desaparecera há mais de cinquenta anos.

Ele apela então para os jogos coletivos, o que contrasta com as diversões solitárias dos cardeais. Quando o cardeal Gregori vai de porta em porta, para dar um boa-noite aos outros cardeais, encerrados em sóbrias acomodações, vemos os que jogam “paciência”, os que preferem um quebra-cabeças, ou ainda os que estão pingando minuciosamente num copo as gotas que convidam ao sono.

Brezzi escolhe, para começar, um jogo de cartas – a escopa (vassoura) –, muito popular na Itália. Nesse passo, torna-se claro que o homem de ciência tem suas fraquezas, pois uma obsessiva competitividade percorre suas iniciativas. Ganha na escopa, graças à sua concentração e às boas cartas, derrotando os cardeais à sua volta, mais interessados em conversar do que em ganhar no jogo. O entusiasmo geral cresce, quando Brezzi organiza um campeonato de vôlei, cuja minuciosa tabela, fora preparada ao longo da noite. O “técnico” conduz as partidas, ensina como sacar, como cortar, sob os olhos de uma torcida composta, não por acaso, de animadas freirinhas.

Os jogos são interrompidos bruscamente. Os cardeais abandonam um desolado Brezzi, e acorrem ao cumprimento de sua sagrada missão. O papa, afinal, voltara ao Vaticano, depois de vários episódios por ele vividos em Roma. O mais significativo fora a tentativa de satisfazer um profundo desejo de juventude, ao buscar, num teatro, integrar-se como ator, em um grupo que está ensaiando uma peça de Tchecov. Desejo profundo que ele não conseguira realizar, resultando numa frustração, agravada, pelo fato de que sua irmã tentara a carreira e se tornara uma excelente atriz. Nota melancólica, o cardeal Melville ressalva que a recusa dos homens de teatro em aceitá-lo tinha sido justa, pois ele, afinal de contas, carecia de talento.

Se Melville não consegue que o grupo teatral aceite seu ousado gesto, ao pretender substituir um ator protagonista em crise, ele não deixa de ser bem recebido. Tanto assim, que o vemos sentado em um camarote de teatro, assistindo maravilhado à representação de “A Gaivota” – peça de Tchecov. Mas o sonho logo se desfaz: os cardeais, finalmente, o localizam e invadem o teatro, em meio ao espanto geral. Desse modo, eles resgatam, ou melhor, sequestram Melville, de regresso ao Vaticano.

Alívio geral. Mesmo hesitante, o papa eleito se dispõe a surgir na sacada da Santa Sé para proferir sua fala inaugural. Por entre as esvoaçantes cortinas vermelhas, que se abrem para a sacada, ele surge diante da multidão entusiasmada, lá embaixo, na Praça de São Pedro. Começa sua fala, sob aplausos crescentes dos fiéis, quando sustenta a necessidade de uma ampla reforma da Igreja. Mas essa imperiosa tarefa, diz ele, arrematando, contrasta com suas limitadas forças. Se o caso é de recusa ou de renúncia, pouco importa. O certo é que o cardeal Melville declara solenemente urbi et orbi que não ocupará a cadeira de São Pedro.

Habemus papam deu margem a uma pluralidade de interpretações. Os círculos católicos italianos manifestaram seu repúdio ao filme, enquanto a opinião majoritária da crítica, em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, considerou-o até cristão e benevolente, ao retratar os cardeais e o Vaticano. Neste passo, vale lembrar as intenções de Nanni Moretti, expressas em uma entrevista para The New York Times (18-5- 2011): “O que eu quero dizer quando falo em meu Vaticano é que quis esquecer o Vaticano sempre mostrado na televisão, nos filmes e mesmo nos jornais. E também quis inventar meus próprios cardeais”.

De fato, Moretti recusa o caminho das intrigas, das maledicências, dos supostos crimes praticados no Vaticano. Seu tom é leve e por vezes burlesco. Porém, por essa via, ele acentua o arcaísmo de uma instituição cujos cardeais são figuras rígidas, hieráticas, solitárias, assim retratadas até o momento do filme em que Moretti surge para mostrar-lhes um caminho lúdico: as cartas, o jogo de vôlei. Mas atenção: as brincadeiras são abandonadas ao chamado do dever, quando os cardeais recebem a notícia alvissareira de que, por fim, supostamente, o cardeal Melville aceitara a investidura papal. A “humanização” dos personagens eclesiásticos converte-se, assim, em sonho de uma noite de verão, um sonho que Nanni Moretti inventou.

*Habemus papam, filme franco-italiano dirigido por Nanni Moretti. (2011)

Esta matéria faz parte do volume 21 nº1 da revista Política Externa
Volume 21 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2012 Eleições 2012

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