Política Externa

Caminhos profissionais do internacionalista: A experiência dos graduados pela USP

Nota sobre os resultados de levantamento sobre o destino profissional de egressos do curso de graduação em relações internacionais do IRI-USP mostra que pouco mais de um terço deles foi cursar pós-graduação, pouco mais de um quarto foi trabalhar em empresas privadas, pouco menos de um quarto foram para instituições públicas fora da carreira diplomática e cerca de 10% foram para organizações não-governamentais.

Probably because the offering of BA degrees in international relations is a relatively new process in this country, little is known about what has been the professional destination of those who have graduated from these courses. As more and more colleges and universities have been opening courses in this area and the amount of students and graduates increases every year, it is relevant to have an idea of how the job market has been receiving them. This note shows the results of a survey done with students who have obtained their BA in IR at the University of São Paulo. Although it does not authorize broad generalizations, it offers some signals about this relevant issue.

Pouco ainda se sabe sobre destino profissional dos bacharéis em relações internacionais, formados no Brasil. Nesta nota, apresentamos resultados de levantamento realizado com diplomados do curso de relações internacionais, oferecido pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, desde 2002.

Por razões que veremos logo mais, não são resultados generalizáveis para o universo dos que receberam diploma em relações internacionais, nas últimas décadas. Entretanto, constituem informação sobre alguns caminhos atualmente abertos aos internacionalistas, no país.

Essa informação é valiosa, pois um número significativo de estudantes vem procurando os cursos de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais.

O interesse crescente por essa formação seguramente tem relação com mudanças, em vários planos, da relação do Brasil com o Mundo. De um lado, a intensificação dos fluxos de capitais, de bens e serviços, de pessoas, de informação e de ideias, que se convencionou chamar globalização, por si só influi sobre a importância atribuída ao que acontece para além das fronteiras nacionais.

De outra parte, a abertura econômica e a intensificação das correntes de comércio exterior e, especialmente, a ascensão do país ao grupo de atores de mais relevo na política mundial transformaram assuntos internacionais em temas da agenda política doméstica. A nova maneira de o país relacionar-se com o mundo, sem dúvida, fez crescer o interesse dos jovens por questões internacionais.

Expansão acelerada

Nos últimos 15 anos, cresceu exponencialmente o número de cursos de graduação em relações internacionais. O gráfico I, construído por Murilo Ikegami (2011:3) com dados do Ministério de Educação, mostra com clareza essa evolução.

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Antes de 1995, existiam somente dois cursos de graduação em relações internacionais no Brasil – na UnB e na PUC-SP. Em 2010, o MEC registrava 96 cursos em sua maioria em instituições privadas de ensino[1], boa parte dos quais criados nos últimos dez anos (Ikegami, 2011).

Viegas (2008) constatou grande diversidade de currículos nos 75 cursos de graduação em relações internacionais, então em funcionamento. Em muitos deles, disciplinas básicas da formação do internacionalista – tais como teoria das relações internacionais, organizações internacionais, análise de política externa e política externa brasileira, segurança internacional, história contemporânea — não eram oferecidas, deixando dúvida sobre a natureza do treinamento proporcionado em muitos desses cursos.

Talvez pela juventude extrema da área, não parecia possível falar na existência de um núcleo de disciplinas de formação em relações internacionais, comum aos cursos de graduação então existentes[2]. Tudo indica que esta situação ainda perdure[3].

A diversidade curricular dos cursos de graduação e, em conseqüência as competências dos internacionalistas neles formados, requer que se tome com cautela qualquer resultado de pesquisa sobre inserção profissional, baseado apenas em uma instituição.

A formação em relações internacionais na USP

O bacharelado em Relações Internacionais é um curso multidisciplinar que tem por meta formar especialistas de alto nível, capacitados para atuar em diversos segmentos do mercado de trabalho onde conhecimentos sobre fenômenos internacionais sejam relevantes.

Como muitos outros da área de Ciências Sociais e Humanidades, não é um curso profissionalizante, voltado ao ensino de um ofício específico, com mercado de trabalho regulamentado. O IRI-USP procura desenvolver aptidões intelectuais que permitam a seus bacharéis adaptação rápida a diferentes oportunidades do mercado de trabalho e trata de mostrar aos alunos que diversas possibilidades de trajetórias profissionais interessantes, que não diplomacia, são possíveis e gratificantes.

O curso, que tem um compromisso multidisciplinar forte, se assenta em quatro pilares básicos — economia internacional, direito internacional, história moderna e contemporânea e relações internacionais/política internacional[4]– e dois importantes suportes propiciados pela sociologia e pela estatística. Na primeira metade do curso, procura-se dar formação básica nas disciplinas fundamentais, por meio de uma grande curricular fechada. Na segunda metade, os alunos têm um currículo flexível que lhes permite complementar a formação traçando seu próprio caminho, entre as muitas possibilidades oferecidas por diferentes departamentos da universidade[5].

Cerca de 1/4 dos estudantes faz intercâmbio acadêmico em universidades estrangeiras. Uma parcela significativa realiza estágios de trabalho em empresas, organizações não-governamentais, órgãos públicos e em organismos da própria universidade. As duas experiências tem se revelado importantes para os estudantes.

O Bacharelado em Relações Internacionais do IRI-USP recebeu sua primeira turma, composta por 60 alunos, em 2002[6]. Desde sua criação, ele tem se situado entre os cursos de mais elevada nota de corte no vestibular da FUVEST, como se observa na tabela I.

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A grande procura e a dificuldade de ingresso respondem em boa medida pela qualidade dos alunos que ingressam no Bacharelado. Eles possuem, em geral, boa capacidade de expressão, verbal e escrita, e a quase totalidade tem bons conhecimentos de inglês. Não é possível saber qual a importância desse background, comparado ao peso da formação recebida na USP, para inserção profissional dos formados pelo IRI. Mas, ele certamente constitui uma vantagem inicial importante.

Com o objetivo de saber o que acontece com os bacharéis diplomados pelo IRI e como avaliam o curso e a formação recebida, enviamos, no primeiro semestre de 2011, um questionário aos 253 alunos diplomados até o final de 2010. Obtivemos 159 respostas. Consideramos que, provavelmente, responderam aqueles que de alguma forma desenvolvem atividades para as quais a formação recebida foi considerada importante. Os primeiros resultados são apresentados na Tabela 2.

tabela pg 222

O maior contingente de formados pelo IRI (35,8%) cursa ou cursou pós-graduação, mais de um terço destes (35%) no exterior. No estrangeiro, os destinos são variados: University of Chicago (EUA), University of Michigan(EUA), Sciences Po (França), Institut Universitaire d´Études do Development (Suíça), IEHAL-Paris 3 e Paris 7(França), Escola Diplomática de Madrid e Universidad Carlos II de Madrid (Espanha), Witwatersrand University (África do Sul), Universidade Amizade dos Povos de Moscou (Rússia).

O segundo maior grupo encontrou lugar em empresas privadas (27,6%). Os egressos do IRI estão empregados em uma gama variada de empresas. Nem todos desempenham funções relacionadas à formação de internacionalista. Os que responderam que sua atividade requer conhecimentos em relações internacionais estão atualmente empregados nas empresas: Control Risk Group, Procter and Gamble, Confidor Auditoria e Contabilidade (grupo internacional The Leading Edge Alliance), Colégio Pentágono, Carestream do Brasil Comércio de Produtos e Serviços Médicos LTDA, Comexport, Centria Capital Partners, Unilever Americas Supply Chain Company, Aché Laboratórios Farmacêuticos, Futura Networks, Oxiteno, ADM do Brasil, Votorantim Asset Management, Visão Sustentável, Votorantim Metais, IBM.

Seguem os que foram para instituições públicas (24,5%), excluída a carreira diplomática. Dentre eles, os que consideram que sua ocupação requer conhecimentos em relações internacionais, desempenham funções diversas em instituições como: Secretaria de Gestão Pública do Governo do Estado de São Paulo, KOTRA São Paulo – Divisão Comercial do Consulado da Coréia, IPEA, Departamento de Águas e Energia Elétrica do Governo do Estado de SP, Secretaria do Desenvolvimento Metropolitano – Governo do Estado de São Paulo, Consulado Geral da República Argentina em São Paulo, Swiss Business Hub \ Consulado Geral da Suíça, ABC – Agência Brasileira de Cooperação. O serviço diplomático brasileiro absorveu 6,3% dos respondentes[7].

Organizações Não-Governamentais empregaram 8,1% dos diplomados pelo IRI, recrutados pela Fundação Clinton, GRAACC – Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer, Escritório do Fórum Social Mundial, Conectas Direitos Humanos, International Centre for Trade and Sustainable Development – ICTSD, Instituto Observatório Social- CUT, Fundação Prosegur, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), 350.org, Fundação Mario Covas, Fundação Lemann.

Os resultados parecem promissores, especialmente, quando se toma em consideração que os bacharelados em relações internacionais são recentes, como o é recente a demanda por especialistas em relações internacionais por parte de empresas, órgãos públicos e ONGs. Não existem carreiras institucionalizadas — à exceção da diplomacia — nem modelo único de formação que melhore as perspectivas profissionais dos jovens internacionalistas. Quase tudo está por fazer.

Notas

[1] Em 2008, quando o MEC contabilizava 75 cursos de graduação em Relações Internacionais, 70,6% deles eram oferecidos por estabelecimentos privados, 12% por universidades públicas e o restante por universidades comunitárias. Vinte e seis por cento estavam concentrados no estado de São Paulo (Viegas, 2008).

[2] Viegas comparou dados de 2008 com informações semelhantes apresentadas por Almeida (2003), verificando que, apesar de tudo, houvera significativa ampliação do número de disciplinas próprias da formação em Relações Internacionais, entre os dois períodos.

[3] Embora a pós-graduação em Relações Internacionais tenha registrado uma expansão também importante, aproximadamente no mesmo período, os currículos dos diferentes programas se assemelham muito, a indicar a existência de consensos mínimos sobre o que deve ser a formação do internacionalista, em nível pós-graduado.

[4] No Brasil e no exterior, há divergências sobre as relações entre Ciência Política e Relações Internacionais. Há tradições acadêmicas que consideram as Relações Internacionais como subárea da Ciência Política e outras que consideram as Relações Internacionais um campo com identidade disciplinar própria. No IRI-USP, preferimos cultivar o que nos parece ser uma prudente ambiguidade com relação ao tema.

[5] Para mais informações sobre a estrutura curricular do bacharelado, bem como sobre as disciplinas obrigatórias e optativas ver www.iri.usp.br.

[6] Trinta alunos no período vespertino e trinta alunos no período noturno.

[7] Na verdade, 12 ex-alunos do IRI ingressaram na carreira diplomática, até 2010. Mais 3 aparecem classificados na lista provisória de 2011 do Instituto Rio Branco, publicada até a data de conclusão deste texto

Bibliografia

Maria Hermínia Tavares de Almeida. O ensino de Ciência Política nos cursos de graduação no Brasil, relatório de pesquisa, São Paulo: Associação Brasileira de Ciência Política-ABCP, 2003.

Murilo Ikegami. Ensino de economia no bacharelado em Relações Internacionais, trabalho final de iniciação científica, PIBIC-CNPQ, São Paulo: IRI-USP, 2011.

Otavio Viegas. O ensino de graduação em Relações Internacionais no Brasil, trabalho final de iniciação científica, Programa Ensinar com Pesquisa, São Paulo: IRI-USP, 2008.

Esta matéria faz parte do volume 20 nº2 da revista Política Externa
Volume 20 nº 2 - Set/Out/Nov 2011 O papel atual do Brasil na América do Sul

O papel do Brasil na América do Sul: estratégias e percepções mútuas

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