Política Externa

Babel* de Alejandro González Iñárritu

por em 01/09/2011
Babel*

Uma das dificuldades básicas para a fluidez das relações internacionais é, obviamente, a diversidade de idiomas falados em todo o mundo. Se, como dizia George Bernard Shaw, Inglaterra e EUA são dois países separados por uma língua comum, o que dizer dos fossos que separam nações com línguas, culturas, histórias, valores, padrões de referência diferentes entre si?

O cineasta mexicano Alejandro Gonzalez Iñárritu explora com frequência em seus filmes os problemas da comunicação humana, os muitos sentidos que pessoas dão à mesma palavra (não raramente antagônicos entre si).

Mas num deles, “Babel”, de 2006, disponível em no Brasil em DVD, esta questão assume contornos particularmente interessantes para quem estuda ou se interessa por temas de política externa.

Três histórias se desenvolvem concomitantemente no enredo em quatro países (Marrocos, EUA, Japão e México) e se entrelaçam de modo inesperado e com forte dramaticidade.

Um empresário japonês participa de um safari no Marrocos e deixa seu rifle como presente para o simpático guia local que o ajudou na excursão. Sem ter uso para a arma, ele decide vendê-la a um amigo criador de ovelhas que poderia precisar dela para se livrar de chacais que ameaçam o rebanho.

Os filhos adolescentes do pastor resolvem testar o rifle e, absolutamente sem nenhuma intenção, acabam ferindo uma turista americana, Susan, que estava num ônibus na estrada que corta as montanhas onde eles vivem.

A mulher vive em San Diego, Califórnia, e havia deixado suas crianças com a Amália, a babá mexicana que praticamente as criara, com o compromisso de que uma cunhada iria ficar com elas no fim de semana em que a babá teria de ir para o México para o casamento de seu próprio filho.

Mas a cunhada tem um imprevisto e não vai. O patrão argumenta com ela para não ir ao casamento ou adiá-lo. Mas, após ter tentado sem êxito encontrar alguma substituta, Amália resolver levar os filhos dos patrões para a festa de casamento no carro de Santiago, um sobrinho que havia se encarregado de transportá-la.

A partir daí, a trama se desenvolve e muitos assuntos comuns na pauta desta Revista são retratados com a profundidade e sutileza com que obras de arte podem abordar temas “intelectuais”.

Por exemplo, a imigração ilegal de mexicanos nos EUA e a política de repressão a ela por parte do governo americano. A arrogância de autoridades policiais do US Immigration Service no posto de fronteira (decorado com os retratos de George W. Bush e Dick Cheney) coloca em risco a vida das crianças americanas quando elas voltam da festa de casamento mexicana com Amália e seu sobrinho alcoolizado.

A insensibilidade burocrática dessas mesmas autoridades destrói a vida da babá, embora ela não tivesse cometido nenhum crime e seus patrões não tenham a acusado de nada após o incidente que quase matou seus filhos.

Como o garoto de cinco anos pergunta à babá, atônito, quando os três se escondem dos policiais no deserto: “por que estamos nos escondendo se não fizemos nada de errado?”. E como lhe responde Amália: “Nós não fizemos nada de errado, mas eu fiz uma coisa estúpida”. Nos EUA, especialmente na era Bush, qualquer equívoco, distração, lapso, é merecedor de punição severa.

A política de prioridade absoluta na luta contra o terrorismo e a pressa em emitir julgamentos unilaterais e definitivos sobre quase tudo, que foram duas características da administração Bush/Cheney, são ilustradas com a rápida decisão de seu embaixador em Rabat de considerar o ferimento da turista como produto de um ato terrorista.

A tensão e desconfiança recíproca que marcaram as relações entre os governos dos EUA e de muitos países árabes e muçulmanos são evidenciadas com o rechaço do governo marroquino à versão de que aquela era um caso de terrorismo e com a recusa do embaixador americano de permitir que a vítima fosse socorrida por uma ambulância de Marrocos, ainda que isso fizesse aumentar o risco de morte da cidadã americana, atendida emergencialmente por um veterinário no vilarejo mais próximo do local do incidente.

É curiosa a maneira como se mostra a confiança próxima da fé com que cidadãos americanos no exterior (em especial em países pobres) depositam nos diplomatas de seu país. O marido da vítima, quando ela é ferida, imediata e histericamente só pensa em falar o mais depressa possível com a embaixada americana, que – acredita ele – resolverá de imediato toda a questão.

Outros filmes anteriores já haviam feito esse tipo de observação (“Desaparecido – Um Grande Mistério”, de 1982, e “O Expresso da Meia-Noite”, de 1978, por exemplo). Em todos esses casos, inclusive em “Babel”, os diplomatas americanos aparecem como ineficientes ou insensíveis ou as duas coisas juntas.

Em “Babel”, o embaixador parece ter interesse muito maior em replicar o estilo Bush (“Vamos achar essas pessoas [os supostos terroristas], não importa quem selas sejam”, diz ele aos repórteres na chegada da vítima ao hospital) do que no bem estar da cidadã americana (exposta ao circo da mídia para o embaixador poder fazer sua performance).

A tensão que existia entre EUA e alguns países da Europa em meados da década passada também aparece no filme, com o embate entre o marido da turista americana e seus colegas de excursão de outras nacionalidades na tomada de decisão sobre se o ônibus em que estavam deveria esperar no vilarejo até que chegasse o socorro à vítima ou se deveria seguir viagem em nome do conforto dos demais.

Richard, o marido, usa os punhos como forma de argumento contra um britânico que deu, em nome dos demais passageiros, um prazo de 30 minutos antes que o ônibus partisse, clara alegoria aos recorrentes discurso do “quem não está conosco está contra nós” e recurso à força bruta que caracterizaram o período de George W. Bush na Casa Branca.

A truculência da polícia em países do Terceiro Mundo é dramaticamente demonstrada na ação para localizar os filhos do pastor. Interrogatórios são feitos com violência física e a abordagem aos suspeitos na base do atirar primeiro para perguntar depois.

Choques culturais, temas que são mais antropológicos do que políticos, aparecem com constância no filme. Como a surpresa total dos garotos americanos quando Santiago, o sobrinho da babá, os leva para participar – como se fosse uma brincadeira (e era uma brincadeira para as crianças mexicanas na festa) – da escolha dos frangos que seriam mortos para o jantar do casamento (que Santiago mata da forma mais tradicional e bruta possível).

Ou a reação do guia da excursão de Richard e sua mulher, que é quem salva efetivamente a vida dela ao recrutar o veterinário que costura o ferimento sem nenhum anestésico e estanca a hemorragia, quando o americano lhe oferece dinheiro como forma de agradecimento (o marroquino o recusa, quase indignado; não foi por isso que ele agiu como agiu).

Quando Richard – pelo telefone – tenta convencer Amália a não ir ao casamento do filho e ficar com seus filhos em San Diego, ele se oferece a pagar por “um casamento maior” mais tarde, novamente com a atitude típica dos que acreditam que tudo se resolve com dinheiro.

Ou ainda o nojo de Susan diante da possibilidade de Richard tomar um refrigerante com gelo num restaurante marroquino e, depois, a maneira natural, ávida e agradecida até, com que depois ela aceita o ópio que sua hospedeira idosa no vilarejo em que é tratada lhe oferece para aliviar a dor da sutura feita “a seco” pelo veterinário.

A ligação entre Marrocos e Japão é feita, além do fato de o empresário japonês ter sido o involuntário motor da tragédia (em vez de dar dinheiro ao seu guia deu a ela um rifle, que o marroquino aceitou mas que não lhe servia para nada), pela insegurança afetiva dos adolescentes da história (os dois filhos do pastor de ovelhas e a filha surda-muda do japonês), que é mais ou menos a mesma em quase todos os continentes e culturas, talvez o único sentimento similar entre as culturas em destaque.

Muitas outras leituras podem ser feitas desse filme, muito bem dirigido e com grandes atuações dos atores principais (Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael García Bernal e Adriana Barraza). Mas para um interessado em relações internacionais, ele é um bom retrato do mundo em meados da primeira década do século XXI.

*Filme de Alejandro Gonzalez Iñárritu, com Brad Pitt e Cate Blanchett, 2006, disponível em DVD

Esta matéria faz parte do volume 20 nº2 da revista Política Externa
Volume 20 nº 2 - Set/Out/Nov 2011 O papel atual do Brasil na América do Sul

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