Política Externa
Vol. 19 nº 4 - Mar/Abr/Mai 2011 Vol. 19 nº 4 - Mar/Abr/Mai 2011

Diplomacia, relações internacionais e jornalismo depois do WikiLeaks

Vazamentos, sigilo, diplomacia: a propósito do significado do WikiLeaks. Leia mais

Conteúdo desta edição

  • Editorial
  • Artigos
  • Documentos
  • Entrevista
  • Livros
  • Passagens

Carta dos editores

Alguns acontecimentos são de tal modo inesperados e sensacionais que muitas pessoas
reagem como se, após sua ocorrência, fosse impossível a vida prosseguir, nos aspectos
referentes a eles, como anteriormente.

No nível individual, isso é certamente verdadeiro: por exemplo, a morte repentina e
imprevisível de uma pessoa amada seguramente torna diferente a vida dos que lhe eram
próximos de modo irreversível.

Do ponto de vista da sociedade, no entanto, raramente é assim. Logo após os atentados
terroristas de 11 de setembro de 2001, foram muitíssimos os que acharam que eles
haviam provocado um impacto tamanho que o mundo posterior guardaria muito pouca
semelhança com o de antes.

Em alguns aspectos, isso de fato ocorreu. Quem viaja de avião sabe que os procedimentos
de embarque foram sobrecarregados de aborrecimentos inconcebíveis antes dos
ataques. A relação entre estrangeiros em geral e americanos no cotidiano nos Estados
Unidos também sofreu um agravo irreparável de modo geral. A rotina de quem frequenta
prédios públicos naquele país, idem.

Mas, em geral, dez anos depois, pode-se afirmar com alguma segurança que o impacto
coletivo e mundial do 11 de setembro de 2001 foi menor do que muitos antecipavam
e temiam.

Quando, no segundo semestre de 2010, se noticiou que dezenas de milhares de documentos
do Departamento de Estado dos EUA classificados como secretos haviam sido
obtidos pela organização WikiLeaks e seriam divulgados por meio de veículos de comunicação
em diversos países, integrantes de algumas categorias profissionais – diplomatas,
jornalistas, estudiosos e praticantes de relações internacionais – sentiram como se
suas atividades tivessem passado por algo similar a um 11 de setembro.

Realmente, trata-se de algo tão impressionante que é difícil reagir de maneira contida.
Todas as pessoas que, ao redor do mundo, tiveram nos últimos dez anos contatos frequentes
com membros do corpo diplomático americano devem ter sentido sua intimidade
devassada, já que conversas ocorridas em clima de confiança e sem objetivo de
divulgação se tornaram disponíveis a praticamente qualquer um.

Além disso, os serviços diplomáticos de todos os demais países devem ter percebido
sua própria potencial vulnerabilidade. Assim como corporações empresariais, governos
de um modo geral e até entidades não governamentais e cidadãos comuns.

Para o jornalismo, o episódio do WikiLeaks traz uma série de questões de ordem ética
e profissional só comparáveis às que o caso Watergate, quase quatro décadas atrás, havia
feito emergir.

E a comunidade de interessados em relações internacionais foi forçada a avaliar de
que maneira elas prosseguirão depois de se ter provado que grande parte da metodologia
de trabalho que as sustenta (o diálogo informal e confidencial entre seus praticantes)
havia sido colocada em xeque, talvez mate.

Ainda é provavelmente muito prematuro arriscar um juízo definitivo sobre o que de
fato representa o fenômeno do WikiLeaks. Mas, numa época em que conceitos sobre
fatos são emitidos de maneira contundente mal eles ocorrem, uma publicação dedicada
à reflexão sobre temas de relações externas, como esta, não pode deixar de se dedicar a
ele, especialmente porque alguns o exploram de maneira pouco responsável, como os
que sugeriram que a queda do governo da Tunísia, em janeiro deste ano, foi decorrência
do WikiLeaks.

Por isso, o tema principal desta edição é um esforço para tentar estimar as implicações
deste evento para a diplomacia, o jornalismo e as relações internacionais. Quatro
importantes especialistas nestas áreas se dispuseram a dividir suas impressões iniciais
sobre as consequências do incidente com os leitores de Política Externa.

Celso Lafer, que foi por duas vezes ministro das Relações Exteriores do Brasil e por
quatro anos embaixador do país junto aos organismos da ONU em Genebra (e preside o
Conselho Editorial desta Revista) abre a série de artigos dedicados ao tema com a visão
do diplomata, que é professor de Direito, a respeito.

Matias Spektor, professor da FGV, doutor em Relações Internacionais pela Universidade
de Oxford e, sem dúvida, um dos mais brilhantes estudiosos da área na nova geração
de acadêmicos radicados do Brasil, em seguida oferece sua perspectiva sobre o assunto.

Pedro Luiz Rodrigues, que junta em sua carreira a experiência de diplomata (embaixador
do Brasil em Abuja, entre outros cargos de relevo) e de jornalista (diretor da sucursal
de Brasília do jornal O Estado de S. Paulo, além de outras funções importantes) trata
do WikiLeaks a partir dessa perspectiva valiosamente anfíbia.

William Waack, um dos mais renomados jornalistas brasileiros atuais (dois prêmios
Esso, um em 1991, graças à sua cobertura da Guerra do Golfo, correspondente internacional
por 20 anos) e acadêmico na área das relações internacionais (tem mestrado na
especialidade e é docente no curso de RI da FAAP em São Paulo) nos brinda com sua
visão do fenômeno a partir de sua formação multidisciplinar.

No mar de análises e palpites sobre o WikiLeaks, poucas publicações podem se orgulhar
de oferecer ao público um conjunto de impressões de tal modo sofisticado e diverso
como estes quatro artigos que abrem esta edição.

Entre os pontos da agenda mundial que mais despertam, com justa razão, o interesse
público, o das mudanças climáticas se destaca. Esta Revista tem dado a devida atenção a
ele. Há um ano, as frustrações da conferência de cúpula de Copenhague foram o tema
principal do número 4 do volume 18.

Agora, os notáveis progressos alcançados na COP-16 em Cancún são explorados por
Luiz Alberto Figueiredo Machado, negociador-chefe do país para mudança do clima e
demais temas ambientais.

Faz cinco anos que Fidel Castro, por razões de saúde, se afastou do comando do
governo de Cuba, que detinha desde 1959. Nesta meia década, as expectativas em relação
a mudanças significativas no regime de Havana passaram por diversas marchas e
contramarchas.

A eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos em 2008 fez com
que as esperanças pela reintegração de Cuba à comunidade hemisférica aumentassem de
maneira exponencial. No entanto, os progressos têm sido muito mais modestos do que
as aspirações de muitos previam.

Julia Sweig, uma das principais especialistas em Cuba na academia internacional, e
Michael Bustamante, doutorando em História da América Latina e do Caribe pela Universidade de Yale, escrevem sobre as perspectivas para Cuba neste início da segunda
década do século XXI.

O ponto de vista da administração Obama sobre o futuro de Cuba é um dos assuntos
principais da entrevista exclusiva que o secretário-assistente de Estado dos EUA para o
Hemisfério Ocidental, Arturo Valenzuela, concedeu a esta Revista. Às vésperas da visita
do presidente americano ao Brasil, ele trata também das relações bilaterais e de diversos
outros temas hemisféricos.

Brasil e EUA, sob o enfoque específico de suas relações econômicas, são também o
objeto do artigo de Diego Zancan Bonomo, diretor-executivo da Brazil Industries Coalition,
em Washington.

Interesses nacionais brasileiros no mundo são abordados em diversos outros textos
deste número da Revista.

Virgilio Viana, doutor pela Universidade Harvard, ex-secretário do Meio Ambiente
do Estado do Amazonas e um dos maiores conhecedores no mundo de Amazônia e
manejo florestal, faz análise crítica de antigos paradigmas que ainda influenciam a política
externa do país sobre a floresta tropical.

Dois chanceleres brasileiros têm sua obra e ação estudadas nesta edição. Na seção
Resenhas, Geraldo Holanda Cavalcanti (ex-embaixador na Cidade do México e junto à
Unesco e à União Europeia), faz a análise do depoimento de Azeredo da Silveira, ministro
no governo de Ernesto Geisel, dado ao CPDoc da FGV e recém-publicado em livro.

Na seção Passagens, Ronaldo Sardenberg (ex-embaixador em Moscou, Madri e junto
à ONU), trata de Saraiva Guerreiro, que foi ministro no governo de João Figueiredo.

A Revista não faz apenas um registro, mas presta uma sincera homenagem à memória
do chanceler Saraiva Guerreiro com o texto do embaixador Ronaldo Sardenberg, que
dele foi um próximo colaborador.

O texto faz justiça à acuidade da visão diplomática do chanceler Guerreiro, cabendo
destacar que ele soube promover, na condução do Itamaraty, a convergência entre a política
interna e a externa e, deste modo, contribuir para o processo de redemocratização do
Brasil, que se consolidou no fecho de sua gestão com a eleição de Tancredo Neves.

Nunca é demais lembrar que ele equacionou, com alta competência, o contencioso
com a Argentina das águas de Itaipu e conduziu com maestria a posição brasileira na
época da Guerra das Malvinas.

Deste modo pavimentou o caminho para a parceria com a Argentina, que se tornou
uma das construtivas linhas mestras da política externa brasileira pós-regime militar.

Outro grande formulador de conceitos para a política externa brasileira, Joaquim
Nabuco, teve suas ideias escrutinizadas por Rubens Ricupero, que foi embaixador do
Brasil em Washington, entre outros importantes cargos que exerceu, em conferência realizada
na Academia Brasileira de Letras que é reproduzida na íntegra na seção Documentos.

Na mesma seção, o futuro da política externa do país é abordado no discurso de posse
do embaixador Antonio de Aguiar Patriota como chanceler brasileiro, que a Revista
transcreve integralmente neste número.

A América Latina, sempre uma área prioritária na pauta desta Revista, está presente
nesta edição em várias de suas páginas. Os resultados das muitas eleições realizadas em
2010 no subcontinente e o novo quadro geopolítico por elas gerado são o objeto do artigo
de Daniel Zovatto, diretor regional da IDEA Internacional para a América Latina e o Caribe.

As relações entre o Irã e esta região do mundo, que ganharam destaque nacional
principalmente após a entrada do Brasil na cena com o acordo sobre o programa nuclear
iraniano que o país e a Turquia negociaram em 2010, são analisadas por Elodie Brun,
doutoranda no Instituto de Estudos Políticos de Paris.

Um dos mais influentes líderes regionais latino-americanos dos anos 1970 foi Carlos
Andrés Pérez, presidente da Venezuela por duas vezes, que morreu no final de 2010 e
tem seu legado examinado na seção Passagens por Rafael Duarte Villa, professor do Instituto
de Relações Internacionais da USP.

Luiz Fernando Ayerbe, professor da Unesp e membro do Conselho Editorial desta
Revista, trata do autoritarismo e do estado de direito em três países da América Latina
(Brasil, Argentina e Chile) na resenha que faz de livro sobre o assunto de Anthony W.
Pereira, brasilianista com doutorado pela Universidade Harvard e diretor do Brazil Institute
no King’s College, em Londres.

O papel de China e Índia, dois parceiros do Brasil no BRIC e dois atores essenciais
para o futuro mundial, é o tema do artigo de Roberto Teixeira da Costa, ex-presidente da
CVM e integrante do Conselho Editorial da Revista.

O diplomata Amaury Porto de Oliveira, membro do Grupo de Análise de Conjuntura
Internacional da USP, antecipa em outro artigo a possibilidade de uma solução positiva
para o impasse das relações entre a China e Taiwan, um dos principais problemas diplomáticos
do mundo pós-Segunda Guerra Mundial.

Um dos mais destacados diplomatas americanos da história recente, Richard Holbrooke,
morreu em plena atividade no final do ano passado e tem seu trabalho analisado
por Luiz Felipe Lampreia, que foi ministro das Relações Exteriores do Brasil e com ele
conviveu proximamente.

Holbrooke certamente merecerá ser classificado como um dos arquitetos da política
externa norte-americana na passagem do século XX para o XXI como os que são estudados
no período entre 1898 e 1918 no livro de Reginaldo Mattar Nasser, professor da PUC-SP,
resenhado nesta edição por Maria Helena Tachinardi, editora-adjunta desta Revista.

Questões econômicas e financeiras são sempre essenciais nas relações entre as nações.
Dois textos tratam delas neste número, além do artigo já citado que cuida desses aspectos
no contexto bilateral entre Brasil e Estados Unidos.

O editor da Revista, Carlos Eduardo Lins da Silva, os destaca e os analisa na autobiografia
do ex-ministro da Fazenda Maílson da Nobrega, na seção Resenhas.

Na mesma seção, o direito internacional das instituições financeiras multilaterais é o
tema específico de Georges Landau, professor do curso de Relações Internacionais da
FAAP, ao tratar de livro editado por Daniel D. Bradlow e David B. Hunter.

Finalmente, na seção Documentos, este número transcreve conferência feita por Tullo
Vigevani, professor da Unesp e membro do Gacint/USP, sobre a obra de Gilberto Dupas
na área das relações internacionais.

O texto de Vigevani, que trabalhou intelectualmente por muitos anos com Dupas, é
também uma forma da Revista homenagear a memória de seu editor entre dezembro de
2000 e fevereiro de 2009, por ocasião do segundo aniversário de sua morte.

A falta de Gilberto Dupas na comunidade de estudiosos de relações internacionais no
Brasil e nos países em que ele estudou, trabalhou e ensinou, ainda é sentida intensamente
e tentamos minimamente compensá-la com a publicação deste documento homenageando
a quem tanto contribuiu para a existência e prestígio deste veículo.
Os editores

  • Cuba 2011: Nova Era, Novos Desafios por Infelizmente, os EUA não estão sabendo aproveitar as janelas de oportunidades que se abrem em Cuba com as reformas promovidas pelo governo.
  • WikiLeaks, jornalismo e diplomacia por Representa o WikiLeaks um perigo para a diplomacia ou altera a relação entre jornalistas e diplomatas profissionais? De maneira alguma. A relação entre fonte e profissional de comunicação continua a mesma.
  • Westphalia x Wikileaks, um nó a ser desatado por O artigo trata do debate global sobre os vazamentos pelo WikiLeaks. Nos polos extremos da discussão, os defensores intransigentes da transparência.
  • WikiLeaks nas Relações Internacionais por Para o autor, são fatores contextuais que explicam a relevância do WikiLeaks, entre eles, o fato de que os vazamentos chegaram ao público ao mesmo tempo em que a luta pela memória e legitimidade da intervenção americana no Iraque chegava a seu ponto mais alto.
  • Vazamentos, sigilo, diplomacia: a propósito do significado do WikiLeaks por O fenômeno WikiLeaks é um precedente que, facilitado pela Revolução Digital, propiciou um tipo de risco que precariza a plenitude da atividade de informar, negociar e representar da função diplomática.
  • A Amazônia e o interesse nacional por A Amazônia é um dos principais ativos estratégicos do país no século 21, mas, segundo o autor, “estamos presos a velhos paradigmas do século passado”. Isso tem impedido ao Brasil um posicionamento mais sofisticado e estratégico nos diversos fóruns onde se formatam os instrumentos de regramento internacional.
  • As Relações Econômicas Brasil-EUA por O artigo apresenta argumentos que projetam, para este e o próximo ano, perspectivas mais favoráveis para as relações econômicas Brasil-EUA. Com forte perfil econômico, o “núcleo duro” do novo governo brasileiro poderá demonstrar maior disposição para tanto, como parece ser o caso no que diz respeito à atração de investimentos para as áreas de energia e infraestrutura.
  • O Irã na América Latina por A aproximação do Irã com a América Latina, nos últimos anos, é sem precedentes. As relações atuais dependem de motivos bastante diversos e que variam segundo os casos: políticos contestadores, ambições globais, objetivo de cooperação, interesses econômicos.
  • O novo mapa eleitoral latino-americano em 2010 por O artigo analisa os resultados de 13 eleições realizadas na América Latina em 2010, entre as quais, quatro presidenciais – no Chile, na Costa Rica, na Colômbia e no Brasil.
  • Fim de jogo no Estreito de Taiwan? por A 29 de junho de 2010, delegações da República Popular da China (RPC) e da República da China (nome do regime nacionalista criado no continente no início do século XX) assinaram, na cidade chinesa de Chunquing, um Acordo Quadro de Cooperação Econômica (ECFA, na sigla inglesa), que com algum otimismo pode ser visto como o início da etapa que levará à solução final da Questão de Taiwan.
  • China e Índia: protagonistas de um mundo em transformação por Um artigo na revista “Third World Quarterly”, de Shaw, Cooper e Agata Antkiewicz, despertou-me atenção para as possíveis implicações do desenvolvimento global e regional no começo deste século 21 sobre os países em desenvolvimento, inclusive sobre países africanos.
  • A Conferência de Cancún e a Luta Internacional Contra a Mudança do Clima por Na COP-16 foram alcançados notáveis progressos: definiu-se, pela primeira vez, um objetivo global de manter-se o aumento de temperatura média à superfície da Terra abaixo de 2 graus centígrados.
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