Política Externa
Vol. 20 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2011 Vol. 20 nº 1 - Jun/Jul/Ago 2011

Repercussões da Primavera Árabe

Tempos de mudança no Mundo Árabe. Leia mais

Conteúdo desta edição

  • Editorial
  • Artigos
  • Documentos
  • Livros
  • O mundo na ficção
  • Passagens

Carta dos editores

A queda e desestabilização de governos em diversos países árabes que eram considerados até o final de 2010 solidamente instalados no poder pegou a maioria absoluta dos analistas políticos internacionais de total surpresa.

A erupção de protestos a partir de dezembro na Tunísia e a derrocada das ditaduras dali e do Egito levaram muitos a, de modo apressado, considerá-las o início de um “arrastão” democrático provocado pela difusão de ideais libertários por intermédio das novas tecnologias de comunicação e das chamadas redes sociais.

Estas têm tido inegavelmente papel importante nos acontecimentos no Mundo Árabe este ano, por ajudarem a disseminar informações entre jovens de classe média e nível superior de educação que, por estarem entre os grupos demográficos mais atingi- dos pelo desemprego, constituem um dos núcleos organizadores dos protestos contra os governantes.

Mas o fenômeno da “Primavera Árabe”, que praticamente ninguém previu e que está ainda em curso com desfechos inescrutáveis à frente, merece muito mais estudo e reflexão, até que se possa concluir com segurança o que o causou e que consequências poderá ter. Esses episódios dramáticos no Mundo Árabe, que traz repercussões a muitos países, inclusive o Brasil, reforçam a importância da manutenção de fóruns especializados para discutir em elevado nível intelectual os grandes temas da conjuntura internacional, como esta Revista tem feito.

Cinco autores tentam destrinchar a “Primavera Árabe” no bloco de artigos que abre este número. O chanceler Antonio de Aguiar Patriota é o primeiro. Ele redigiu seu texto a partir da aula inaugural que proferiu no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo em 22 de março de 2011, e seu foco central são as implicações da conjuntura política no Mundo Árabe para o Brasil.

Andrew Puddephatt, um dos mais renomados estudiosos das novas mídias no mundo, trata em artigo especialmente escrito para esta Revista do papel que as tecnologias digitais tiveram sobre as revoluções árabes de 2011.

O diplomata Affonso Celso de Ouro Preto, integrante do Grupo de Análise de Con- juntura Internacional da USP, que entre 2005 e 2009 foi o embaixador especial do Brasil para assuntos de Oriente Médio, discorre sobre as circunstâncias econômicas e políticas em cada nação convulsionada pela “Primavera Árabe”.

A reitora da Universidade Americana no Cairo, Lisa Anderson, mostra como situações parecidas com as atuais ocorreram em 1919 na Tunísia, no Egito e na Líbia e reflete sobre problemas estruturais desses países que contribuem para a melhor compreensão do que ocorre. Seu artigo foi originalmente editado na revista Foreign Affairs de maio/ junho de 2011. Fecha o conjunto de textos sobre esse assunto o de Paulo Daniel Farah, diretor do Centro de Estudos Árabe da USP, que mostra como os movimentos de contestação em três regiões do Mundo Árabe demonstram a pluralidade de sociedades marcadas pela diversidade cultural e por identidades múltiplas.

Outro assunto que nesta edição é abordado por diversos autores é o Mercosul, que faz 20 anos em 2011. Fernando Collor, atual presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, era o presidente do Brasil quando foi assinado o Tratado de Assunção que criou o Mercosul em 1991. É dele o artigo que abre a discussão do tema.

Félix Peña, da Universidade Três de Febrero da Argentina, um dos mais importantes especialistas em Mercosul, é o autor do segundo texto, que trata principalmente do futuro da organização.

Um dos aspectos mais decisivos para o Mercosul é o da solução de controvérsias e dele cuida o artigo de Alberto do Amaral Júnior, professor da Faculdade de Direito da USP.

A primeira visita do presidente dos EUA, Barack Obama, à América do Sul em março de 2011, também é tema abordado por três autores, de três nacionalidades diferentes, nesta edição. A íntegra dos discursos feitos pelos presidentes Barack Obama e Dilma Rousseff, durante a passagem do americano pelo Brasil constam da seção Documentos.

O empresário brasileiro Josué Christiano Gomes da Silva discorre sobre o Fórum de CEOs Brasil-EUA, de que faz parte, e que se reuniu com Obama em Brasília.

O senador e ex-ministro chileno Sergio Bitar Chacra traz a perspectiva de seu país sobre o futuro das relações entre EUA e América do Sul a partir da visita que Obama fez ao Brasil e ao Chile.

Finalmente, a americana Susan Kaufman Purcell, diretora do Centro para Política Hemisférica da Universidade de Miami, usa a visita como ponto de partida para suas reflexões sobre o futuro da relação Brasil-EUA.

Outros aspectos fundamentais na pauta das relações internacionais contemporâneas estão neste número da Revista em artigos individuais.

A questão da difusão do poder na governança global no século XXI é o objeto do denso estudo preparado para este número por Lourdes Sola, professora da Universidade de São Paulo e ex presidente da Associação Internacional de Ciência Política.

O controverso caso da Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU (de 1967), vital para o processo de negociação de paz no Oriente Médio, é extensivamente debatido pelo diplomata brasileiro Eduardo Uziel.

O papel das empresas diante dos desafios ambientais do mundo é explorado por Horácio Lafer Piva, presidente do Conselho da Bracelpa (Associação Brasileira de Papel e Celulose) e ex-presidente da FIESP.

O futuro da exploração da energia nuclear no mundo após o acidente na usina de Fukushima, no Japão, em março de 2011, é o assunto de José Eli da Veiga, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Os aspectos legais e econômicos do Acordo de Facilitação Comercial da OMC são o tema de Leonardo Correia Lima Macedo, da Organização Mundial de Aduanas, e Paulo Costacurta de Sá Porto, professor da UniSantos.

A diplomacia judicial, cada vez mais importante no mundo globalizado, que requer constante interação recíproca dos sistemas legais nacionais, é a questão do artigo do diplomata João Batista do Nascimento Magalhães.

A seção de artigos se encerra com a republicação na íntegra do texto de Roberto Teixeira da Costa sobre China e Índia, que – por erro do editor desta Revista – saiu em sua versão preliminar no número anterior.

A trajetória de Warren Christopher, que foi secretário de Estado dos EUA no governo de Bill Clinton, é recordada pelo ex-chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampreia, que com ele conviveu e negociou em diversas fases da carreira, na seção Passagens.

Uma das novidades da Revista a partir deste número é uma nova seção, chamada O mundo na ficção, em que serão editadas resenhas de trabalhos de ficção que têm as relações internacionais no fulcro de seu enredo.

A importância da ficção para melhor entender a realidade é realçada pelo menos desde os tempos do teatro grego.

Muitos psicanalistas trabalham os problemas de seus pacientes a partir da interpretação de romances, filmes e telenovelas.

Engels escreveu a Marx que aprendera “mais em Balzac sobre a sociedade francesa da primeira metade do século, inclusive nos seus pormenores econômicos, do que em todos os livros dos historiadores, economistas e estatísticos da época, todos juntos”.

Em Idea y Costumbres I – La Letra y El Cetro (nono volume da edição de sua obra completa feita em 1995), o grande Octavio Paz afirma: “Ninguém deveria atrever-se a escrever sobre temas de filosofia e teoria política sem antes haver lido e meditado os trágicos gregos e Shakespeare, Dante e Cervantes, Balzac e Dostoievsky”.

Especificamente no campo dos estudos de relações internacionais, um de seus mais importantes autores, Joseph S. Nye escreveu em artigo de 2005 publicado por The International Herald Tribune: “como veterano professor de Política Internacional, frequentemente sugeri a meus alunos que complementassem suas leituras acadêmicas com romances e filmes”. Ele mesmo diz ter feito isso para escrever relatórios em seus tempos no Departamento de Estado, onde trabalhou no governo Carter.

“A escrita acadêmica é como a leitura do script de um filme ou peça de teatro. As ideias estão ali, mas é difícil descrever o contexto. Palavras lidas num calmo estudo ganham sentido muito diferente quando um filme as mostra em close-ups, ângulos dramáticos e luz cintilante”, escreveu Nye.

Scott Burchill, da Escola de Estudos Políticos Internacionais da Deakin University, afirma sobre o livro How Hollywood Projects Foreign Policy (de Sally Totman, 2009) que “sem entender o papel da cultura popular na construção do apoio [para as ações externas dos EUA nosso conhecimento do tema [de política externa] fica empobrecido”.

Assim, O mundo na ficção tomará obras de ficção para provocar reflexão crítica sobre pontos de relações internacionais nelas abordados. Nesta edição, o diplomata Marcos Azambuja observa como estava o ambiente na Inglaterra nos anos 1930 em relação à crescente ameaça do nazifascismo no continente europeu a partir do filme O discurso do rei, de Tom Hooper, o grande vencedor do Oscar de 2011.

O editor da revista, Carlos Eduardo Lins da Silva, mostra como a ópera Nixon na China, de John Adams, reencenada em Nova York com transmissão direta para cinemas em dez cidades brasileiras em fevereiro de 2011, retratou a viagem do ex-presidente americano a Pequim que marcou o fim da Guerra Fria entre os dois países.

O romance O punho e a renda, de Edgar Telles Ribeiro, ambientado no Itamaraty do regime militar brasileiro, é resenhado pelo jornalista Carlos Haag.

As resenhas de 11 livros de não ficção sobre relações internacionais integram esta primeira edição do volume 20 da Revista.

O diplomata Victor do Prado, atualmente chefe de gabinete adjunto do diretor-geral da OMC, analisa o livro de artigos coordenado por Roberto Kanitz a respeito do papel desempenhado pelos presidentes dos diversos órgãos da Organização Mundial do Comércio.

O jornalista Alcides Ferreira, que foi correspondente da Folha de S. Paulo em Washington, escreve sobre o livro O Banco Mundial como ator político, intelectual e financeiro – 1944- 2008, de João Márcio Mendes Pereira.

O historiador Boris Fausto trata de O dia em que adiaram o carnaval, em que Luís Cláudio Villafañe G. Santos recorda a grande popularidade do barão do Rio Branco quando era chanceler e reflete sobre a política externa na construção da identidade nacional.

A economista Helga Hoffmann discorre sobre o mais recente trabalho de Barry Eichengreen a respeito da ascensão e queda do dólar e o futuro do sistema monetário internacional.

A jornalista Angela Pimenta, que viveu em Washington, atualmente na revista Exame, resenha Brazil and the United States – Convergence and Divergence, de Joseph Smith.

A também jornalista Flavia Sekles, que foi correspondente de Veja e Jornal do Brasil em Washington, mostra a sua leitura do importante livro The Icarus Syndrome, de Peter Beinart, sobre a política externa americana.

A atual correspondente de O Estado de S. Paulo em Washington, Denise Chrispim Marin, trata de outro importante livro sobre política externa americana, The Violence of Peace, de Stephen L. Carter.

O diplomata Amaury Porto de Oliveira, especialista em Ásia, faz a crítica do livro do também diplomata Oswaldo Biato Júnior a respeito da parceria estratégica sino-brasileira.

O diretor-executivo da CNI, José Augusto Coelho Fernandes, trata do livro coordenado por Mário Marconini com artigos sobre a inserção do Brasil no mundo neste século XXI.

O integrante do Conselho Editorial desta revista Roberto Teixeira da Costa resenha o mais recente trabalho publicado em livro do jornalista Andrés Oppenheimer a respeito da América Latina.

Finalmente, a jornalista Claudia Antunes, da Folha de S. Paulo, escreve sobre um importante livro a respeito de nacionalismo e internacionalismo no mundo pós-Guerra Fria, com textos de diversos autores de vários países.

Em Documentos, além dos já mencionados discursos de Dilma Rousseff e Barack Obama por ocasião da visita do americano ao Brasil, estão outros importantes relatos.

O primeiro é o que o ex-presidente americano Jimmy Carter apresentou aos integrantes do centro que tem seu nome a respeito da viagem que ele fez a Cuba para conhecer de perto as mudanças que ocorrem no regime cubano.

Outro é o discurso do presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Cezar Peluso, na abertura do Segundo Congresso da Conferência Mundial sobre Justiça Constitucional, no Rio, em janeiro de 2011.

Para fechar a seção Documentos, publicamos a íntegra do relatório final do Grupo Assessor Independente sobre Sustentabilidade criado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento para fazer recomendações sobre o futuro do ambiente no hemisfério ocidental.

Os editores

  • O punho e a renda* por “Durante 30 anos sob os Bórgias, a Itália conheceu a guerra e o terror, mas produziu Michelangelo, Da Vinci e a Renascença, ao passo que a Suíça teve 500 anos de paz, amor e democracia, e criou o quê? O relógio-cuco”.
  • Nixon na China por Numa daquelas interessantes coincidências de que a história humana está repleta, neste primeiro quadrimestre deste ano de 2011 vieram a público dois trabalhos importantes sobre a célebre visita do presidente Richard Nixon à China, ocorrida em 1972.
  • O Discurso do Rei* por As artes e as musas têm servido bem ao trono da Inglaterra. Novamente agora com “O Discurso do Rei” essa tradição de fidelidade à Coroa e a quem a leva é reafirmada.
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